Como o português pode salvar sua vida

06/07/2013

A reedição de “Como aprendi o português e outras aventuras” (Casa da Palavra e Fundação Biblioteca Nacional, 264 páginas, R$ 34,00), coletânea de artigos, crônicas e breves ensaios escritos nos anos 1940-50 por Paulo Rónai (1907-1992), é uma excelente notícia. A edição em formato de bolso traz de volta à circulação um livro tão espirituoso quanto comovente.

Vamos direto ao ponto: a paixão pelo português salvou a vida de Rónai. Literalmente. Judeu húngaro, o erudito naturalizou-se brasileiro em 1945 e, em décadas de atividade incessante como professor de línguas, tradutor e crítico literário, retribuiu o favor tornando nosso país mais inteligente e sintonizado com a melhor tradição humanista europeia que ele representava tão bem.

Dito assim, o resumo da ópera pode sugerir um livro de tom épico, mas parte de sua graça é ser o oposto disso – bem-humorado, despretensioso e autoirônico como o próprio autor. Grandiloquente é apenas o pano de fundo histórico em que se deu a aventura linguística que mudou a vida de Rónai: quando, aos 32 anos, já poliglota, ele começou a estudar português em Budapeste como um dos desdobramentos naturais de seu interesse por latim, corria o ano de 1939 e a Segunda Guerra Mundial estava a poucos meses de distância.

Como todos os encontros felizes, aquele foi desinteressado a princípio. O jovem professor parecia ter pouco a ganhar com o português, inclusive na moeda fraca do prestígio com seus amigos eruditos. “Naquela época eu ensinava latim e italiano num ginásio de Budapeste”, escreve. “Uma vez por semana frequentava um café onde se reuniam meus amigos linguistas. Um deles estudava o sogdiano, outro preparava um ensaio sobre os pronomes voguis, um terceiro acabara de publicar dois grossos volumes de contos tcheremissos. Só interessados em idiomas exóticos, tinham verdadeira paixão pelas línguas difíceis e desprezavam minhas modestas excursões no domínio neolatino.”

Havia uma única exceção entre seus conhecidos. “De todos os escritores húngaros que eu conhecia, Desidério Kosztolányi era o único que se aventurara a abordar o estudo do português”, lembra. “Certa vez falou-me nesta língua, que lhe parecia alegre e doce como um idioma de passarinhos. A mim, sob seu aspecto escrito, dava-me antes a impressão de um latim falado por gente que não tivesse dentes. Se os tivesse, como haveria perdido tantas consoantes? E olhava espantado para palavras como lua, dor, pessoa, veia, procurando apanhar o que nelas restava de palavras latinas, cheias e sonoras.”

Se passarinhos e pessoas desdentadas têm em comum a incapacidade de mastigar todas as consoantes que abundam no húngaro, Rónai resolveu se lançar sozinho à tarefa de construir uma ponte entre os dois lados daquele abismo. Mal começou a estudar português e, com mais topete do que conhecimento de causa, já estava traduzindo poesia brasileira para sua língua natal. Mais um pouco e se correspondia com jornalistas, poetas, diplomatas. Um interesse daquele tamanho não tinha como passar despercebido, mesmo à distância, a um país tão carente de atenção internacional como o nosso. Quando publicou uma coletânea de poesia brasileira moderna traduzida por ele mesmo, Rónai recebeu uma carta de agradecimento assinada por ninguém menos que o presidente Getúlio Vargas.

Foi assim que no início de 1941, depois de passar seis meses num campo de trabalhos forçados e de posse de um cobiçadíssimo convite do ministério das Relações Exteriores do Brasil, ele pôde pegar um navio para o Rio e escapar do holocausto. Com a questão migratória submetida desde 1938 ao ministério da Justiça do fascista Francisco Campos, o Brasil era, em sua acolhida aos refugiados do nazismo, um país relutante que no balanço final conseguiria a proeza negativa de receber menos imigrantes judeus do que o pequenino Uruguai. As chances de Rónai seriam diminutas se ele já não tivesse construído então uma reputação de paladino da cultura brasileira.

Como indica o título, cabem outras aventuras no pequeno volume, todas vividas em torno do conhecimento, da conversa civilizada entre culturas e idiomas. A verve de Paulo Rónai e sua contagiante paixão pela linguagem me levaram a adotar esse livro de 1956 como um dos meus títulos de cabeceira assim que o li pela primeira vez, numa edição de 1992 da editora Globo. Perdi a conta do número de vezes que o citei em meus textos sobre língua e linguagem (que aqui em Veja.com publico na coluna Sobre Palavras).

A edição atual leva sobre aquela uma grande vantagem: a de trazer o ensaio “Paulo Rónai ou a costura do mundo”, da editora Ana Cecilia Impellizieri Martins, que com precisos insights e pinceladas biográficas ajuda a dar a devida ressonância histórica ao que o autor, elegante e discreto, conta sempre em tom menor.

11 Comments

  • Afonso 10/07/2013 at 14:49

    Nem me lembro quando li “Como aprendi o português…” (mas nunca o esqueci) – na verdade era bem jovem e talvez não estivesse (naquela época) tanto interessado em questões linguísticas, mas o livro me ‘fisgou’, aliás, um motivo a mais para relê-lo, embora tenha recorrido a ele (ao livro)algumas vezes… Ótima notícia a reedição.

  • santanowiski - SP 11/07/2013 at 18:29

    Três comentários sobre essa bela resenha (esse já é um!).
    O segundo: Mathews Shirt conta que perdeu o interesse na leitura de “Budapeste”, de Chico Buarque, depois de perceber que o sambista ‘se inspirou’, digamos, demasiadamente nesse livro de Paulo Rónai.
    O terceiro: nada contra anglicismos e outros empréstimos de outras fontes. Mas em vez de insight, não fica mais bonito e preciso usar “vislumbre” ou simplesmente “intuição”?

    • sergiorodrigues 11/07/2013 at 19:07

      Santanowiski: 1. Obrigado. 2. Cheguei à mesma conclusão que ele e escrevi um artigo sobre os paralelos entre os dois livros (com algumas semanas de antecedência, aliás), mas no meu caso isso só enriqueceu a leitura do ótimo ‘Budapeste’; 3. Não acho que vislumbre e intuição deem conta do recado nesse caso. Um abraço.

  • Alaer Garcia 12/07/2013 at 11:30

    Obrigado Sergio ,por essa dica. Como nasci em 42, fui mais influenciado por M.Lobato.E cai ,nos ensaios.Pena que o Itamaraty na época era meio fascista, perdeu varias inteligencias que foram pArgentina e California.Hoje 95% da populaçao ou mais nao sabem fazer a difereça entre ficçao e real!! abs

  • Ataliba 12/07/2013 at 12:08

    Oi Sérgio, sou eu novamente, acredito que na frase abaixo do título do blog está errado o termo error, não seria erro? um abraço!

    • sergiorodrigues 12/07/2013 at 12:56

      Claro, Ataliba. Obrigado por alertar. Abs

  • clara lopez 12/07/2013 at 16:41

    Não ia, mas sua resenha tornou imperativo ler o lvro, além de que já está mais que na hora de ler o grande mestre, a quem sempre admirei “de ouvido e de relance” ::)) Já comprei. Grande abraço, clara

    • sergiorodrigues 12/07/2013 at 19:04

      Que bom, Clara. Fico feliz de ganhar uma leitora para um livro que merece tanto. Espero que goste! Um abraço.

  • santanowiski - SP 29/07/2013 at 22:41

    Sérgio, realmente vislumbre e intuição, naquela passagem de seu texto, não dão conta do recado, a não ser por aproximação. Mas estão em plena conformidade, por exemplo, com a tradução ao português oferecida pelo dicionário Longman Pearson: Insight, substantivo: 1. percepção, perspicácia; 2. ideia, visão. Acompanha a seguinte frase exemplificativa do emprego desse termo em inglês: “It gives you an insight into their way of life.” No sentido que você buscou, acredito que “lampejo”, mesmo que figurado, acerta em cheio, além de produzir ressonância bela e aconchegante.

    • sergiorodrigues 12/08/2013 at 19:03

      Interessante a sua solução, Santanowiski. Um abraço.

  • Alexandro de Camargo 18/08/2013 at 12:18

    Comprei também. Ótima recomendação! Livro digno de devo[r/t]ação.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial