Continho antigo

10/12/2008

O vetusto e alquebrado escritor permanecia inédito, desprezado por casas editoriais grandes e pequenas, não obstante os tenazes esforços do espírito que lhe haviam consumido a saúde na lida com as exigências da criação, as quais, sendo artista consciente e de talento raro, equacionara de modo tão sutil e original que terminou por se distanciar irremediavelmente de seus contemporâneos. Na hipótese mais benevolente, seria compreendido pela geração de seus bisnetos. Bisnetos que, bem entendido, tinham na frase papel meramente retórico, pois entre os departamentos da vida que o artista mantivera lacrados para se entregar por inteiro à literatura, essa górgona voraz, avultava a paternidade.

Tinha um sobrinho; isso tinha. Rapazola tresloucado, boêmio, compunha a figura de um perfeito doidivanas, mas um doidivanas de boa aparência e traquejo social incomum. Sapato bicolor e mecha rebelde desabada sobre os olhos, surgiu-lhe esse sobrinho certa noite, em sonhos, como peça-chave de um plano insensato. O escritor tentou escorraçar a extravagante idéia, decerto germinada no lado negro de sua alma ferida, mas o sonho se repetiu. Noite após noite o sonho se repetiu, até que o juízo combalido do homem lhe desse passagem e ele adentrasse, aos pinotes, a terra da vigília.

Não devemos julgar o artista com demasiada severidade. O sobrinho aceitou o trato, lançou-se o livro pela editora mais prestigiosa, as gazetas se encantaram com autor tão jovial, tão peralta, cabeleira revolta e vida amorosa à beira da indecência. Em menos de um mês o triunfo era esmagador. Gênio, entoava a cidade, num uníssono de ensurdecer. Nada menos que isto: gênio. Mas será mesmo? Gênio, claro; e estávamos conversados.

Mal teve tempo o escritor de saborear o agridoce, porque vicário, reconhecimento à sua arte maior. Logo o sobrinho lhe exigia novos originais, e bons, e depressa: os editores lhe mordiam os calcanhares, era preciso aproveitar o momento, carpe diem, fortunas vertiginosas estavam em jogo. Perplexo, o escritor viu a nota autoritária no discurso do janota ir de mal perceptível a escandalosa antes que tivesse tempo de articular “enxergue-se”. O manuscrito que passou às mãos do jovem foi descartado com escárnio:

– Tenho uma reputação, tio. Espera realmente que eu ponha meu nome nisto?

Naquela noite, o grande artista lançou o livro rejeitado e as pilhas de escritos de toda uma carreira ao fogo que, alastrando-se pelo ambiente encharcado de óleo de lamparina, em poucos instantes lhe consumia os móveis, as estantes, a casa e a vida. Tristíssimo fim, não se discute. A morte tremenda lhe poupou, porém, o dissabor de ver o sobrinho faceiro multiplicar fama e prestígio com sua segunda obra, esta rabiscada, que remédio, por ele mesmo ao longo de três noites insones e cinco garrafas de absinto. Colcha de retalhos feita de tartamudeios e outras algaravias de semi-analfabeto, o livro foi declarado pelo maior crítico da cidade “superior ao primeiro em todos os aspectos”.

Ao fundo, atrás de um biombo, a górgona tinha uma síncope de tanto rir.

Publicado em 13/12/2006. Republicado a pedidos.

15 Comments

  • Daniel Brazil 10/12/2008 at 16:15

    Finíssimo humor!

  • Saint-Clair Stockler 10/12/2008 at 20:55

    Quem ainda usa lamparinas hoje em dia?

    (foi o único detalhe, por metafórico que seja, que não gostei)

  • Sérgio Rodrigues 10/12/2008 at 21:01

    Saint-Clair, o conto, como diz o título, é antigo. Tem sapato bicolor, sobrinho doidivanas, gazetas, absinto. Não tem nada de hoje em dia.

  • Tibor Moricz 10/12/2008 at 23:14

    Saint, o Sérgio tá certo. Vai dormir, ném, vai…

  • Alexandre 11/12/2008 at 02:07

    Ou seja, é bebendo que se alinha a prosa.

    E agora essa Capitu Global, hem?
    Escrevi algo sobre.
    Paz e pé Adiante

  • Eric Novello 11/12/2008 at 09:03

    Fiquei imaginando como seria uma versão atual: e então ele apertou delete e toda a casa desapareceu… rs.
    Gostei bastante, Sérgio. Parabéns!

  • josé rubens 11/12/2008 at 09:19

    Prezado Sérgio,

    Este conto é uma obra-prima, pefeito, maravilhoso! Em poucas palavras voce soube condensar toda uma trágica existência, tendo ao fundo uma fina e sutilíssima ironia. Parabéns!!!

  • Saint-Clair Stockler 11/12/2008 at 18:38

    Sérgio,

    Verdade: peço mil desculpas. No contexto, até que as lamparinas não ficaram deslocadas. Peço mil escusas: estou com problemas de coluna que alteram o meu (mau) humor.

    **************************************************************

    Sobre a Capitu da Vênus Oxigenada: gostei e não gostei. De fato, detestei (acho que o tipo de dramaturgia ali aplicada, expressionista, era melhor indicada para o Brás Cubas). Mas tem coisas interessantes: a atriz que faz a Prima Justina, por exemplo: magnífica! Mas não gostei de um ator tão jovem (embora com evidentes talentos artísticos) pra fazer o Dom Casmurro. Dom Casmurro é véeeio, véeeio e solitário, não um gajo na casa dos trinta-e-poucos com cara de Visconde de Sabugosa e com sotaque carioca.

    Vou piratear o DVD, quando sair, é claro.

  • Sérgio Rodrigues 12/12/2008 at 10:42

    Valeu, Saint-Clair. E melhoras para a sua coluna.

    Obrigado ao José Rubens, ao Eric e a todos os que comentaram aqui.

    A Capitu do Luiz Fernando Carvalho, Alexandre? Ia escrever sobre ela, mas desisti porque não teria muito a dizer além do que é óbvio. Me impressiona que uma adaptação tão fiel à letra do texto possa ser ao mesmo tempo tão anti-machadiana. O estilo teatral-barroco-narcísico do diretor combina bem mais com Raduan Nassar, sem a menor dúvida. Uma boa chance desperdiçada.

    Abraços.

  • Noga Lubicz Sklar 12/12/2008 at 17:13

    Estimado Sérgio,
    Sem querer limitar-me ao tema vetusto e assaz aborrecido de minha provecta idade que, ainda que peque pela mão no manejo adestrado do lápis, nem tanto regride ao remoto reduto das polainas — perdão: lamparinas —, seu conto agradou-me sobremaneira ainda de primeira, sim, calou-me tão fundo n’alma que dele recordo cada ilustre palavra, mas ops, peraí: aranzel? Taí: essa me pegou ao pé do dicionário.
    Abraço! Noga

  • Thiago Maia 12/12/2008 at 18:11

    SR, estou gostando muito da mini-série inclusive porque o diretor chutou o pau da barraca (de maneira estudada e precisa, não tenho dúvida).

  • Sérgio Rodrigues 12/12/2008 at 18:49

    Ilustríssima Noga, debalde procurei no conto em tela o substantivo aranzel. Seria ele pertinente a outra nota?

    Thiago, não nego o estudo, mas a precisão… Desculpe a casmurrice, mas aquilo me parece só um exercício maneirista, semelhante demais aos que o mesmo diretor fez em outras minisséries, de outros autores, e portanto sem vínculo algum com o tema. Mas não me sinto autorizado a ir além desse pitaco. Vi só o primeiro capítulo, confesso que não tive paciência para mais.

    Abraços.

  • Thiago Maia 13/12/2008 at 02:37

    SR, já eu confesso que do Luiz Fernando Carvalho, antes, só assistira ao Lavoura arcaica (do qual não gostei, veja você…). Também reconheço que jamais assisti a outra adaptação de Dom casmurro, e talvez isso, o prazer de reconhecer e antecipar tamanho texto, esteja contribuindo para que eu goste tanto dessa. E você nunca foi casmurro (não me lembro de tê-lo lido sendo e, em homenagem a João Ubaldo, garanto que tenho uma memória – quase – invencível). Nem quando escreveu ‘minisséries’ : ) Um abração a todos.

  • MIRIAM COUTINHO 11/10/2009 at 00:01

    A VERDADE QUE MEDUSA OU GORGONA ERA MUITO LINDA E ERA EU UMA CRIANÇA MUITO BELA E MINHA AVÓ DISSE A BELA FICA FEIA E A FEIA FICA BONITA E COMEÇARAM A FAZER FEITIÇO PARA MIM NA VERDADE EXISTE LOIRO FEITIÇEIRO NEGRO E NEGRO A VERDADE QUE CENTAURO SAGITÁRIO É MINHA IRMÃ E MEU CUNHADO E MINHA IRMÃ SEMPRE ME PERSEGUIU QUERENDO SER A MAIS BELA MINHA BELEZA FOI DESTRUIDA NA ESCOLA INFANTIL QUANDO A DIRETORA DISSE QUE IA ME DEIXAR FEIA E MINHA AVÔ TAMBÉM FEZ ESTA MALDADE E MINHA FAMÍLIA TAMBÉM E ESTRANHOS EM UMA TERRA DO CRUZEIRO DO SUL A ESTRELA DE CENTAURO DE OLHUDOS QUE DIZEM QUE OS DEUSES TEEM OLHO E OLHO É FEITIÇARIA A BARRUGA NA PERNA NOS HOUVIDOS EM EM TODO O LUGAR É UM ELO COM A LUA A VERDADE QUE ELES USAM TAMBÉM USARAM A MEDICIANA PARA ME DESTRUIR
    A VERDADE QUE MEUS DENTES QUE EU LEMBRE SEMPRE FORAM PONTEAGUDOS E NÃO SEI SE É PORQUE O MORCEGO ME MORDEU NA NUCA OU SE ERAM ASSIM NO ENTANTO SEI QUE VAMPIRO É QUEBRANTADO QUEM SOFRE DE QUEBRANTO MAU OLHADO ÓDIO MORTAL DAS ESTRELAS DO CINEMA TV QUE ME PERSEGUIRAM E ME DESFIGURARAM COMO FAMÍILIA E EM TODO LUGAR QUE VOU PORQUE FRANCES MINHA ORIGEM PÓLIPO O MAR O CORAL NUNCA FOI FEIO ESTA ESCRITO NO DICIONÁRIO QUE FRANCES SOFRIA O INVEJA É VERDADE EM TODO O LUGAR QUE VOU SOFRO O MAU OLHADO NÃO TENHO PAZ NA VERDADE LEMBRO APENAS DE MINHA BELEZA QUANDO PEQUENA QUANDO DEUS DIZIA EU SER A CRIANÇA MAIS BELA,GÓRGONA O CORAL O QUE DÁ O CLIMA DO MUNDO A MENTIRA DA MITOLOGIA É DIZER QUE É CENTAURO É O CLIMA É O CORAL QUE ABSORVE O CALOR DAS ÁGUAS E FORMAM AS CHUVAS E QUEM MATA O CORAL SÃO AS ESTRELAS DIZEM ELES QUE ELAS TEEM LUZ PRÓPRIA E ELAS ESTÃO PETRIFICANDO PELO OLHO OS CORAIS PORQUE MEU MÉDICO PROTEGUE A ESTRELA DO RIO GRANDE DO SUL XUXA
    E ELE DIZ QUE NÃO PODE EXISTIR MULHER MAIS BELA DO QUE ELA DE UM BELEZA FALSA E ELE ME DEU REMÉDIO PARA SECAR MINHA PELE E OS CORAIS ESTÃO MORRENDO E PETRIFICNADO PORQUE ELES ESTÃO SECANDO PORQUE EU ESTOU SECANDO E MEXERAM TAMBÉM NA MINHA VIRILIDADE O SINO MEU MÉDICO TAMBÉM É DE SAGITÁRIO É MAIS UM ASSASSINO QUE
    QUE DEUS UM DIA O CASTIGARÁ NÃO HAVERÁ MAIS NUVEM E VOCÊS MORERÃO QUEIMADOS PORQUE O CORAL MEDUSA NUNCA OFENDEU NINGUÉM APENAS O OLHO É INVEJA E INVEJA NÃO TEEM CURA,MEDUSA É UMA BORBOLETA É UMA DEUSA ELA SIM QUE É DEUSA ELA SIM QUE É BELA E AS ESTRELAS É QUE POSSUEM OLHO ELAS QUE SÃO BRUXAS PORQUE ANDAM COM A LUA ESTÁ ESCRITO NA BIBLIA QUE ESTA LUZ NÃO PRESTA QUE DEUS VAI FAZER CAIR AS ESTRELAS E VAI FAZER O SOL QUEIMAR ATÉ ELE SE APAGAR PORQUE ELE NÃO PERDOA E ACHAM O FOGO MELHOR QUE AS ÁGUAS QUE SÃO DE DEUS E MEDUSA É DE DEUS E SOFRE DE ABALO MORAL E FÍSICO E A TERRA TAMBÉM PODE PARTIR QUEM SABE O DESTINO É DEUS E EUS SEI QUE AS ÁGUAS NÃO VÃO DURAR MUITO TEMPO O QUE DEVERIAM DURAR MAS EU SUPLICO A DEUS QUE EU NÃO VOLTE MAIS PORQUE QUANDO DEUS DISSE QUE A HISTÓRIA NÃO IA SE REPETIR CRIO NISTO PORQUE ULISSE MORREU NO MAR, ESTA LUZ NÃO PRESTA PORQUE QUANDO DEUS FEZ O MUNDO ELE FEZ PARA VER O QUE HAVIA NAS TREVAS PORQUE HOUVIA GRITOS E QUANDO DEUS FEZ O SOL VIU QUE PERSEGUIAM AS DIVINDADES QUE REPRESENTAVAM ÁGUA TERRA FOGO E AR,MEDUSA É AGUA O CLIMA AS NUVENS É A DIVINADADE ÁGUA DIZEM ELA SER UM DEMÔNIO DIZEM ELA SER FEIA MAS TUDO É MENTIRA ELA É DÓCIL É AS UVAS PRETAS BENIGNA PORQUE PERDOA MAS FIZERAM DE TUDO A CHAMAR DE MÁ E DE FEIA PELO OLHO E POR INVEJA DE SUA BELEZA DESTRUIDA NA INFÂNCIA ,GANÃNCIA DE SUAS OBRAS E CRUELDADE ABALO MORAL E FÍSICO EO MAR ESTÁ COM CICATRIZES O MAREMOTO.E QUANDO FOI TORTURADA NA ESCOLA DE
    INFÂNCIA VI MINHA AURÉOLA AZUL AS ÁGUAS O VAPOR.

  • MIRIAM COUTINHO 11/10/2009 at 00:12

    MEDUSA NÃO É MÁ NEM FEIA ESTRAGARAM MINHA BELEZA NA INFÂNCIA PELO OLHO DAS ESTRELAS PORQUE MEDUSA É UMA BORBOLETA DEUSA DE DEUS AS ÁGUAS E AS ESTRELAS E LUA FIZERAM FEITIÇO PARA ELA E ESTRALA E LUA QUE SÃO FEITIÇEIRAS O QUEBRANTO DE MEDUSA É CAUSADO PELAS ESTRELAS DO MAR E ESTRELAS DE CINEMA CENTAURO O CRUZEIRO DO SUL,FIZERAM DE TUDO PARA PROVAR QUE MEDUSA É FEIA E MÁ COM FEITIÇO CIRURGIA E OLHO E A CHAMAM DE MÁ PORQUE CAUSARAM ENLEVO NELA ,MEDUSA É O CORAL É LINDO E ESTRAGARA MEIO SINO MECHERAM NAS MINHA VIRILIDADE E ELAS SÃO REPONSÁVEIS PELO CLIMA E NÃO SAGITÁRIO A MENTIRA DA MITOLOGIA CENTAURO QUER SER O QUE NÃO É E MINHA IRMÃ E MEU CUNHADO SÃO DE SAGITÁRIO UMA ESTRELA DE INVEJA CRUELDADE E GANÂNCIA E MEU MÉDICO MAS ELES VÃO MORRER NO FOGO DO INFERNO PORQUE MEDUSA É O MAR O CLIMA E QUANDO DEUS FEZ O SOL QUERIA SABER OS GRITOS QUE ESCUTAVA NAS TREVAS E QUANDO FEZ A LUZ SE ARREPENDEU PORQUE FOI NA LUZ QUE COMEÇOU A PERSEGUISSÃO É ESTA LUZ QUE PERSEGUE ESTA LUZ NÃO PRESTA E O MAR É DE DEUS ESTÁ ESCRITO NA BÍBLIA E ACHAM QUE O SOL É MELHOR QUE A ÁGUA QUE É DE DEUS.

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