Contra Kafka

11/10/2014

kafkaUm artigo (em inglês) publicado pouco mais de um ano atrás pelo ensaísta americano Joseph Epstein na revista The Atlantic, lido dia desses com atraso, me fez pensar nas tensas, sutis relações entre crítica literária e literatura – e por extensão entre crítica e qualquer arte que seja seu objeto.

O título é provocante, para não dizer sensacionalista: “Franz Kafka é superestimado?”. Uma pergunta feita para pegar o leitor de surpresa, pois dificilmente lhe terá ocorrido formulá-la mesmo em sonhos. O subtítulo responde depressinha: “Os críticos há muito tempo tendem a vê-lo como um mestre modernista em pé de igualdade com Joyce, Proust e Picasso. Reconsideremos isso”. Ou seja: transformemos Kafka num inseto monstruoso.

Meu primeiro pensamento foi: bem, se vamos reconsiderar a turma dessa lista, Picasso não deveria ser o primeiro da fila? Mas Epstein não está realmente interessado no pintor espanhol, a não ser como símbolo de uma suposta grandeza incontestável, compartilhada por Joyce e Proust, em relação à qual o escritor tcheco deveria se apequenar.

Sim, o truque é batido no jornalismo cultural e tem florescido como nunca em nossos tempos internéticos: pega-se uma unanimidade qualquer, alega-se com maior ou menor poder argumentativo que ela é boba e feia, e pronto – chovem sobre o agressor, autoproclamado corajoso iconoclasta, cliques e chiliques em quantidade suficiente para lhe garantir pelo menos dezesseis minutos de fama.

Ocorre que, subtraído o sensacionalismo, a mesma operação é característica da melhor crítica séria: nenhum artista, por mais vistoso que seu nome apareça nos letreiros, está acima de ter a reputação reavaliada. Épocas mudam, ídolos caem, e é saudável que seja assim. Um certo respeito pelo veterano Epstein, crítico setentão de quem já li textos interessantes, me levou a considerar a possibilidade de que seu ataque a Kafka estivesse nesta categoria.

Não está, mas ainda assim a leitura valeu a pena. Em primeiro lugar porque serviu para que eu reconsiderasse meu respeito por Epstein. A argumentação é pobre, fundada em afirmações tão categóricas quanto duvidosas (“sem a crença em Freud, as histórias de Kafka perdem peso e autoridade”), e atinge um clímax melancólico quando deixa entrever uma lógica próxima da autoajuda, do tipo que cobra da literatura sentimentos edificantes:

No fim das contas, como escreveu Henry James num ensaio sobre Turgueniev, o que desejamos saber sobre um escritor é: “Como ele se sente a respeito da vida?”. Kafka a considerava insuportavelmente complicada, inteiramente deprimente, em sua maior parte desprovida de alegria, e assim a descreveu em sua ficção. Não é esta, convenhamos, a melhor atitude de um grande escritor. Grandes escritores se impressionam com os mistérios da vida; o pobre Franz Kafka foi esmagado por eles.

Ou seja: Kafka seria um escritor menor porque é sombrio demais, pessimista demais, e não deixa entrar em sua ficção um mísero raio de sol para aliviar as angústias do leitor. Chego a imaginar que Epstein consideraria Paulo Coelho superior ao autor de “O processo”. A possibilidade de que ao ser sombrio demais, pessimista demais, Kafka tocasse algumas das cordas mais recônditas da sensibilidade de uma época “esmagada pelos mistérios da vida” não parece ocorrer a Epstein – e no entanto seria um critério de grandeza mais convincente do que a tal capacidade de deslumbramento diante do mundo.

Mas a parte mais elucidativa do artigo é a que insiste na “moratória crítica” que os grandes entusiastas de Kafka – de Walter Benjamin a Louis Begley – teriam proposto, por falharem miseravelmente, na opinião de Epstein, na tarefa de explicar tintim por tintim sua grandeza. “Kafka (…) é dispensado da crítica”, horroriza-se ele, como se denunciasse um privilégio descabido. “O argumento é que ele não pode ser explicado, mas apenas lido, apreciado, relido, até que seu sentido de alguma forma se derrame sobre o leitor.”

É óbvio que também não ocorre a Epstein a possibilidade de que tal resistência à interpretação definitiva seja justamente um sinal de grandeza, e não o contrário. O argumento torto revela a arrogância crítica suprema: a de acreditar que a arte só tem validade depois de ganhar o carimbo dos exegetas. Não diminui a crítica literária em nada reconhecer que a literatura existe sempre antes dela.

Ou seja: se sucessivas gerações de leitores têm Kafka na conta de grande escritor, se sua influência cultural é praticamente imensurável, falar em “moratória crítica” chega a ser cômico. Como nos processos judiciais, o ônus da prova é da acusação. Caso encerrado.

8 Comments

  • Liliane de Paula Martins 12/10/2014 at 20:27

    Acho, também, que o estilo de Kafka é sombria. Mas é um interessante escritor.

  • Carlos Eliseu 13/10/2014 at 06:23

    Meus cumprimentos. Creio que a dúvida de J.Epstein tem razão de ser. Logo que Kafka veio a público a glória foi rápida. Talvez pelo concurso da obra póstuma e a Europa central estar na moda (Freud, Marx…). Kafka é muitíssimo apreciado pelos escritores (e pela crítica). Mas, sim, os temas dele têm cada vez mais atualidade. Por outro lado, sofre as críticas contundentes de um Bashevis Singer.

  • Onofre 13/10/2014 at 14:13

    Kafka é, sim, superestimado. Tudo o que ele escreveu sobre a alienação, a absurda burocracia e até mesmo sobre o medo de viver, já havia sido escrito muitíssimo melhor por Gógol.

  • Pedro 13/10/2014 at 18:40

    De fato, esse foi um exemplo perfeito de crítica medíocre e pretensiosa. A obra de Kafka é de uma importância indiscutível e perene, digam o que disserem críticos como esse Epstein. Kafka teve o mérito, entre outros, de ser um profeta dos totalitarismos que marcaram o séc. XX. Se sua literatura é sombria é porque refletiu de forma muito perfeita o século em que foi produzida.
    A obra de Kafka tem um caráter universal, ao contrário da de Gogol, que foi muito focado no contexto da Rússia czarista e semi-feudal (talvez por isso exista o adjetivo ‘kafkiano’, mas não o ‘gogoliano’). Além do que, na minha opinião, a segunda parte de “Almas Mortas”, ou melhor os trechos que sobreviveram à tentativa do escritor de destruir seus manuscritos, pecou pelo tom moralista (ao contrário do burlesco da primeira parte) e desnecessariamente didático, chegando algumas vezes a explicar o óbvio.

  • Don Gately 14/10/2014 at 22:19

    “There is an infinite amount of hope in the universe … but not for us.”

  • Rafael 16/10/2014 at 13:52

    Muito bom.

  • Iosnir 17/10/2014 at 14:10

    Confesso que tenho muita dificuldade de extrair dos textos de Kafka algum significado. Li “O Processo” e “A Metamorfose”, mas sempre que leio tenho a certeza de que não estou captando o que ele quis de fato dizer. Não enxergo o que está submerso, apenas a superfície. É uma daquelas horas em que seria ótimo ter um oráculo para dar todas as explicações. Mas, se alguém puder contribuir com qualquer dica ou conselho, já ficarei muito grato.

  • Cezar Santos 19/12/2014 at 10:34

    Kafka se situa acima das categorias literárias. E é incrível a comicidade de seus textos, a falta de solenidade de suas tragédias sobre o ser humano. É mestre.

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