Da arte de ‘acariciar os detalhes’

03/11/2015

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Então é só isso? Umas poucas palavras bem colocadas e pronto, ali está o leitor na ponta da linha, anzol cravado na bochecha? Sim, mas também pode ser só isso: uma única palavra em falso e o peixe desaparece nas profundezas para nunca mais passar perto do seu bote. O que vai ser?

Em qualquer praia estética, esteja ele muito ou nada interessado em ser acessível a um grande número de leitores, acredito que esta preocupação habite a cabeça de todo escritor digno desse nome, isto é, qualquer um que escreva para ser lido por alguém e não apenas para expressar seu eu profundo: como dar às palavras, uma após a outra, uma certa ressonância de verdade?

Estamos em terreno traiçoeiro. Em primeiro lugar convém deixar claro que a palavra verdade não tem aqui – não ainda – a menor fumaça filosófica, histórica ou mesmo emocional. Importa menos “a verdade” do autor ou da história que ele conta do que “uma certa ressonância de verdade”. Sim, é claro que uma dimensão está ligada à outra em algum nível profundo, mas vamos supor que ainda não mergulhamos o suficiente para chegar lá. Estamos na superfície do texto, mal equilibrados em nosso botezinho. Tateantes, inseguros, estendemos a mão e escolhemos palavras para espetar no anzol. Como saber qual é a palavra certa?

Bom, certeza nunca se tem. Tentativa e erro, escrever e reescrever, serão sempre processos indispensáveis do ofício. Contudo, tanto o escrever quanto o reescrever podem e devem ser guiados por alguns princípios gerais, e entre estes acredito que os mais valiosos, quando se trata de buscar uma certa ressonância de verdade, são aqueles que giram em torno do detalhe eloquente, preciso, revelador.

A ideia já foi expressa de diversas formas por grandes escritores. Vladimir Nabokov recomendou “acariciar os detalhes” – isto é, tratar amorosamente as minúcias, prodigalizar-lhes atenção, gastar tempo com elas. Anton Tchékhov cunhou uma bela máxima: “Não me diga que a lua está brilhando; mostre-me seu reflexo num caco de vidro”. Margaret Atwood discorreu de modo comovente sobre a capacidade que tem a literatura – em contraste com o cinema, por exemplo – de pintar cenários grandiosos com base em quase nada, a chaminha trêmula de um palito de fósforo passando por grande incêndio.

Diferenças sutis à parte, o que se percebe em todos esses casos é a valorização do específico sobre o genérico, da parte sobre o todo, do menos sobre o mais. O reconhecimento de que as palavras são só fagulhas que provocarão uma explosão – não na própria página, mas na cabeça do leitor.

É assim que, em vez de dizer que “o calor era senegalesco”, esse lugar-comum fossilizado, ou mesmo que “o termômetro marcava 42 graus”, quase sempre será mais eficaz em termos literários mencionar um dos efeitos concretos da alta temperatura – só isso. O asfalto amolecido que afunda sob o tênis do protanista. As ondas de vapor distorcendo a paisagem vista da janela. O cara que abre a geladeira de picolé da padaria e enfia a cabeça lá dentro. A louca de meia idade que tira toda a roupa e mergulha no chafariz da praça, sob o olhar complacente do guarda gordo que não se anima a deixar a sombra de sua árvore. A evaporação integral dos oceanos revelando os esqueletos de galeões naufragados sob montanhas de peixes mortos.

Escolhido num cardápio infinito que vai do mais prosaico ao mais fantástico, o tipo de detalhe, de metonímia, de condensação depende das intenções de cada um, claro. Não se trata aqui de ensinar a produzir harmonias e melodias, apenas de afinar o instrumento. O que importa é dar ao leitor a ilusão de que quem escreve habitou realmente aquela cena, motivo pelo qual é capaz de apontar – só isso – seus mínimos efeitos sensoriais, em vez de se limitar a sobrevoá-la e produzir uma platitude totalizante como “fazia um calor infernal”.

As batalhas homéricas não teriam nem metade de sua violência se o texto não nos levasse a ouvir o ruído de ossos e tendões partidos a golpes de espada. Ah, então é só isso? Não, não é só isso. Mas é um bom começo.

2 Comments

  • Paulo 03/11/2015 at 14:16

    Olá, Sérgio. Você disse algo em seu texto que eu sempre penso a respeito da escrita, em especial em relação à tal verossimilhança — por mais fantástica que seja uma trama. Você disse: “O que importa é dar ao leitor a ilusão de que quem escreve habitou realmente aquela cena”. Essa característica talvez seja, dentre as qualidades que fazem parte de um bom escritor (de certo modo também segundo Nabokov, pois acho que ele, em Lições de Literatura Russa, ressaltou principalmente a imaginação e o estilo), a que pode dar ao leitor o suporte para que ele viaje para dentro da história. É, acredito, pela imaginação que o escritor está onde precisa estar para poder nos contar o que ele, segundo suas impressões, importa; ele precisa, antes de tudo, ser uma testemunha ocular (e tátil, olfativa, sensível…) de tudo, senão a obra — então feita a partir meramente de raciocínios e referências literárias — corre grande risco de se tornar artificial. Ou seja, quem vai acreditar de verdade numa história contada por alguém que não esteve onde tudo aconteceu?

  • Glauder Hall 03/11/2015 at 15:31

    Sérgio, como disse a mágica parece ser mesmo a de fazer o leitor captar os efeitos sensoriais da cena. Quem se esquece de ter visto e sentido Florentino Ariza incinerando-se de amor ao ler as cartas de Fermina Daza embaixo das amendoeiras empoeiradas, cena descrita por Garcia Marquez em O amor nos tempo do cólera, só prá ficar num exemplo, não é?

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