Delete

02/12/2008

Ele hesita, dedos de velho datilógrafo repousando sobre o asdfg e o çlkjh, polegares suspensos.

Ele se vê hesitando, dedos de velho datilógrafo, emblema de sua idade, repousando com suavidade de pluma sobre o asdfg e o çlkjh do teclado negro, polegares suspensos a milímetros da barra de espaço.

Ele decide escrever sobre se ver hesitando escrever, e então os dedos datilógrafos ganham uma súbita descarga elétrica e se põem a cutucar ritmicamente o teclado negro, polegares batendo surdão a intervalos impenetráveis.

Ele sabe que os intervalos impenetráveis podem ser condizentes com algum padrão oculto, mas sabe também que, mesmo arbitrariamente, apontar esse padrão só será possível mais tarde – tarde demais? – em retrospecto, sendo por ora mais sábio se embalar na impenetrabilidade do sussurro produzido pelos pequenos tambores de plástico.

Em sincronia com os comandos que os emblemas de sua idade percutem no teclado negro coberto de símbolos brancos, símbolos negros surgem na tela branca.

Ele pára e lê os seis parágrafos que escreveu, incluindo este. Hesita mais uma vez. Torce os músculos faciais de tal modo que fica parecendo um nó de madeira, uma orelha, à luz hepática da tela onde a metáfora do nó precede sua materialização na cara dele.

Metalinguagem. Bah.

Pega o mouse, define os sete parágrafos anteriores, e com um floreio do mesmo movimento atinge com o certeiro indicador direito – e força espantosamente maior que a empregada até aqui – o pequeno tambor onde está escrito Delete. Os sete parágrafos se tornam seus próprios negativos, letras brancas sobre fundo negro, exatamente como no teclado, antes de responder à dedada nas costelas e desaparecer. Os sete parágrafos desaparecem, o oitavo não. Este, que de forma curiosa mas talvez necessária os inclui, fica porque já não é escrito por ele, nem em seu nascimento houve hesitação, mas abandono e depois cálculo, embora a fidelidade aos fatos nos obrigue a confessar que nossos dedos também repousaram sobre o asdfg e o çlkjh a intervalos impenetráveis.

11 Comments

  • Klaus 03/12/2008 at 12:49

    É, Sergio, esse eu não posso deixar de comentar. Maravilha. Uma boa metalinguagem é coisa que me atinge, talvez seja meu ponto fraco como leitor; adoro. Metalinguagem autofágica então… Coisa fina! Um grande abraço.

  • Sérgio Rodrigues 03/12/2008 at 16:26

    Valeu, Klaus. Também tenho o meu fraco pela metalinguagem. Pelo silêncio aqui, eu diria que pertencemos a uma minoria esmagadora, rsrs. Um abraço.

  • Benjamin Cole 03/12/2008 at 16:27

    Sergio, dos Sobrescritos recentes este aqui eh de longe o meu favorito. Deu ate vontade de traduzi-lo pro ingles!

    O ultimo paragrafo eh magnifico, biscoito fino.
    Parabens e obrigado!

  • Sérgio Rodrigues 03/12/2008 at 18:13

    Obrigado a você, Benjamin. Se chegar mesmo a traduzir, não esqueça de me mandar.

  • Rafael 03/12/2008 at 21:32

    Oi Sérgio,

    pode ser que o “silêncio aqui” seja causado pela lenta digestão do texto. É o meu caso: ainda estou às voltas com o úlimo parágrafo e também ficaria em silêncio se não visse sua resposta ao Klaus.

    É claro que não estou tentando, em nome dos demais leitores, justificar o magro número de comentários. Alguém que recebe elogios do Millôr (e mais de uma vez), afinal, não precisa de consolos. De qualquer forma, fica o registro da minha opinião.

    Parabéns e abraços

  • Daniel Brazil 03/12/2008 at 23:18

    Luz hepática?!? Meus dedos curtos vacilam sobre o zxcvb e o ;.,mn, atordoados.

  • Rafael 03/12/2008 at 23:27

    Sérgio, só um detalhe: se você estiver com os dedos “repousando sobre o asdfg e o çlkjh”, não sobrarão polegares para estarem “suspensos a milímetros da barra de espaço”. Faça o teste.

    A não ser, claro, que o velho datilógrafo tenha alguma vantagem anatômica sobre os demais escritores.

  • Sérgio Rodrigues 04/12/2008 at 00:57

    Rafael, o asdfg e o çlkjh são só as seqüências, os pilares da condenada arte da datilografia, e a linha de teclas que eles formam uma espécie de ponto morto onde os dedos aguardam o início da ação. Naturalmente, são dez letras para oito dedos – cabe aos indicadores fazer jornada dupla. Os desajeitados polegares seriam os menos indicados para ajudar, de qualquer maneira: melhor deixá-los tocando surdão.

  • Carlos Marques 04/12/2008 at 14:29

    Deixe de modéstia, Sérgio. Não há como não se admirar com esse Sobrescrito. Estou com o Rafael; precisamos de um tempo para digerir, só isso. Depois, dá-lhe assombro!

  • Benjamin Cole 04/12/2008 at 15:53

    Pode deixar, Sergio, que se houver traducao voce sera o primeiro a recebe-la. Nao sou tradutor, entretanto, e so de pensar no estrago que poderia causar a esse magnifico Sobrescrito eu ja garanto o meu fracasso.

    Estou passando por aqui para dizer que eu gosto tanto desse Sobrescrito que tive que le-lo novamente hoje de manha. E nao eh que ele melhorou em relacao a ontem?

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