Download

23/10/2007

(E já que entramos no assunto…)

Download é uma das palavras mais saidinhas que importamos do inglês nos últimos anos, membro da onipresente família informática. Diferentemente dos verbos “deletar” e “escanear”, porém, tem sido refratária ao aportuguesamento. Daunloude? O Google mostra que há quem force essa barra, mas a solução parece canhestra. Tal rebeldia está longe de ser alarmante. Se a regra é a adaptação, há vocábulos anglófonos que se abancaram confortavelmente em nossa língua sem tocar num fio de cabelo da grafia original: show nunca virou “chou” nem “xou”, apesar das tentativas da Xuxa.

No inglês, download nasceu verbo, mas hoje – o que é comum no idioma de Steve Jobs – faz dupla jornada e atua também como substantivo. Entre nós é sempre substantivo. Para expressar a ação associada a ele, temos a forma “fazer (ou dar) um download”. Em casos mais raros e ousados de hibridismo lingüístico, encontra-se também “downlodear” ou “downlodar”, mas essas soluções parecem se justificar mais pelo desleixo lingüístico – ou por uma intenção brincalhona – do que por uma real necessidade de expressão.

Como verbo, o nativíssimo “baixar” está vencendo a guerra. É uma boa tradução. Download quer dizer “carregar para baixo” ou “baixar a carga”, ou seja, descarregar, copiar um arquivo de uma rede ou servidor para uma estação local. Opõe-se a upload, que designa o movimento inverso e é de uso bem menos freqüente, pouco difundido além do círculo dos programadores, embora nosso jargão informático já registre a ocorrência das curiosas formas “upar” e “upear”.

Tudo isso parece dar razão aos partidários do deputado Aldo Rebelo, autor de um projeto de lei, felizmente congelado, que prevê multa para quem usar palavras estrangeiras. A história, porém, mostra que a xenofobia acaba perdendo. Um intenso tráfego de downloads e uploads (figurados) de palavras sempre fez parte do comércio lingüístico mundial, dando razão à máxima “o que não mata, engorda”. O tempo se encarrega de limar os excessos, e o que sobra vira riqueza.

Texto publicado em minha coluna na “Revista da Semana”.

17 Comments

  • Brancaleone 23/10/2007 at 12:42

    Chamem de guerrilha se quiserem. Evito estrangeirismos descarados e de moda. Mouse prá mim é rato. Não dowlondongo nada. Eu baixo e pronto. Não digo “emeil”e sim correio eletrônico ou CE. não digo “sites” mas página ou sítio.
    Pode ser veiera, conservadorismo, birra ou chatice, mas gosto de agir assim.
    Aqui na empresa sofro que é o cão ( a matriz é no Oregon) mas a Sofia que se vire em traduzir as coisas que o patrão pede e as minhas respostas – que eu encho de gírias só para ela quebrar a cabeça.
    Aqui sou pago para produzir madeira e não para ficar falando inglês.

  • Claudio Soares 23/10/2007 at 12:52

    Talvez vocês achem meio (ou totalmente) absurdo, mas vá lá, tentarei me respaldar em dados históricos (o que pode não significar muito, aceito).

    A popularizaçao dos computadores (estes “eletromésticos”) veio quando a indústria de informática mudou o seu foco – assombrada pela beco aparentemente sem saída da Lei de Moore – do hardware (o corpo) para o software (a mente).

    A indústria de software, concomitantemente, teve seu salto quântico quando o modelo arcaico de desenvolvimento de programas que originava aplicações “monolíticas” começou a ser “contaminado” pelo paradigma da orientação a objetos.

    Aqui começou a era dos aplicativos gráficos. O computador ficou mais fácil de ser usado, convergente, foi embutido em outros “information appliances”, o mundo se tornou uma plataforma TCP/IP. Hoje, o acesso às informações são quase instantâneas.

    O resto do impacto da tecnologia em nossas vidas, bem, este todos nós já sabemos e sobre ele teremos diversas histórias para contar.

    Em relação à indústria fonográfica, assistimos o advento do mp3. Depois apareceram Napsters, Kazaas, etc.

    O conceito de álbum já era obsoleto há muitos anos. Desde sempre desejávamos personalizar o CD, que está com os seus dias contados, pois o futuro aponta que o “computador” é a própria rede, distribuída, a música sai de algum lugar na rede para o mp3 player ou qualquer outro dispositivo.

    Algo semelhante acontecerá com os livros (hardware) e o conteúdo destes livros (software).

    A simples digitalização e comercialização de um conteúdo monolítico (a obra), torna incompleta essa possível “revolução” do mercado editorial.

    A revolução realmente virá quando a criação do conteúdo efetivamente começar a ser influenciada por este paradigma orientado a objetos que (indiretamente pelo uso da internet) também está impregnando outras áreas fora da tecnologia da informação.

    O impacto ideal no modelo de negócios virá com o impacto no modelo de criação ( e nos formatos de distribuição também, claro).

    O conteúdo de um “livro” conceitual conterá diversas camadas (quem “montará” o “livro” será – como sempre o foi – o leitor, o escritor apenas apresentará possibilidades).

    A leitura será uma experiência virtual aumentada. A ficção (ensaio, etc.) será um ambiente de interação sinestésico (como os games que também contam histórias).

    E pasmem: será exatamente como nos modelos de desenvolvimento de software, como quase tudo o que hoje funciona na web (incluisve esse modelo de log, post, comments deste blog, por exemplo) que é uma extensão do modelo “orientado a objetos”: personalizável, componentizável, reutilizável.

    Isso não lhes soa familiar?

  • Bemveja 23/10/2007 at 12:56

    Usa-se baixar e pronto. Pior mesmo é a utilização cada vez mais comum do neologismo “linkar”, mas não sou muito chegado a fascismos linguísticos, um idioma evolui e ninguém pode ser obrigado a usar um determinado vocabulário caso prefira usar termos estrangeiros.

    A base da liberdade de expressão é essa, a liberdade vocabular, e já passou da hora de reagir a certas patrulhas que começaram com certas afetações politicamente corretas (que no Brasil tentou extinguir termos corriqueiros tipo faxineira, cozinheira e empregada) e agora quer controlar a linguagem cotidiana em seus termos mais banais.

  • Lizete 23/10/2007 at 13:56

    Já fui “deletada” daqui uma vez, mas vou arriscar de novo, só para uma perguntinha: e o “daular”? Uso isso há 10 anos…

  • Marcus 23/10/2007 at 18:47

    Eu odeio “upar”. Já vi muita gente usar, e me dá um troço, fico com raiva mesmo. Pra mim é “subir” é pronto.

    Já “linkar” eu gosto e uso com freqüência, porque não tem uma palavra só no português que diga a mesma coisa; mas acho que vai acabar sendo aportuguesado, vai virar “lincar” — assim como “site” vai virar “saite”, segundo o uso já corrente do Millôr.

  • Fabio Negro 23/10/2007 at 21:36

    A propósito, fecharam o OINK paraíso na TErra (virtual).
    Aprendam umas palavras novas.

    http://www.joio.com.br/?q=node/1787

  • Mr. WRITER 24/10/2007 at 01:54

    Tanto o down quanto o up são correntes nas redes de compartilhamento P2P… sem falar nos seeders e peers…
    Particularmente baixo arquivos e envio arquivos nada de “downlodar” (argh) ou “upar” (duplo argh).
    Haja mal gosto até na hora de estragar o idioma alheio… Mas pior do que isso é aquele dialeto asqueroso que os adolescentes usam hoje em dia para se comunicar na internet… é tão nojento que não consigo ler nem duas palavras, se é que aquilo pode ser chamado de palavra…

  • Tibor Moricz 24/10/2007 at 11:34

    HAHAHA!!!
    Existe o internetês e também o Miguchês. Pra quem quer compreender melhor e realizar traduções completas dessa linguagem tão sui generis, visitem esse link: http://aurelio.net/web/miguxeitor.html

  • Murilo Gabrielli 24/10/2007 at 12:43

    Sérgio, cuidado. Continue escervendo posts como este e a Caia vai fazer download de um tacape na sua cachola.

  • Bemveja 24/10/2007 at 13:47

    A propósito, recomendo integralmente a leitura do texto excelente de Jerônimo Teixeira na Veja desta semana que resenha livro da Leyla Perrone-Moysés e fala com precisão sobre a inutilidade de asneiras nacionalistas na literatura.

  • anrafel 24/10/2007 at 15:53

    Não há o que fazer em relação a essa dinâmica, mas algumas coisas felizmente não vingaram, tipo “printar”.

    Seria legal o uso corrente de “sítio”. Recuperaria a função original, de lugar, que perdeu terreno para sinônimo de chácara.

  • Chico 25/10/2007 at 17:02

    Para mim IML não é mais morgue. Nem moça boa é cabrocha. Batman sempre será Batman assim como Superman será sempre o Super homem. Portanto, a esse tipo de patriotada purista do idioma chamo sindrome de policarpo (quaresma). Outro dia tive que traduzir um termo novo – mas nem tão novo assim – de busca, chamado Topic Cloud View. Detalhe: empiricamente nem consigo entender o que eh isso, quanto menos traduzi-lo.

  • stanley 27/10/2007 at 09:48

    A intermitência vai matar esse blog.

  • Magnificat 27/10/2007 at 22:11

    Concordo, Stanley.

  • Tibor Moricz 29/10/2007 at 11:04

    O Sérgio morreu?

  • joao gomes 29/10/2007 at 13:38

    e o processo de Madame Bovary, hem?

  • Terpsichore 03/11/2007 at 22:55

    Uso ”sítio”. Baixar. (Enviar?). Rato. E-mail, já me escapa: a ver se passo ao ”correio electrónico.

    Até mesmo o blog: não é um bloco de notas virtual ou electrónico? Mas para isso não encontrei outra abreviatura melhor que o ”blog”…

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