Eagleton espanca Coetzee e Auster: só falta o Bono Vox

03/06/2013


É uma ilusão romântica supor que escritores devem ter algo interessante a dizer sobre relações raciais, armas nucleares ou crises econômicas pelo simples fato de serem escritores. Não há nenhuma razão para presumir que romancistas ilustres como Paul Auster e J.M. Coetzee tenham uma visão mais sábia da conjuntura mundial do que um físico ou um neurocirurgião, algo que essa correspondência entre eles confirma de modo deprimente. Na verdade, não há razão alguma para que autores tenham algo especialmente marcante a dizer sobre o ato de escrever, muito menos sobre a Caxemira ou o IRA. Seus comentários sobre a própria obra que produziram podem ser ainda mais obtusos que o dos críticos. Se T.S. Eliot acreditava mesmo que “A terra devastada” era apenas um amontoado de resmungos rítmicos, como disse certa vez, nunca deveriam tê-lo condecorado com a Ordem do Mérito.

Os comentários de Coetzee sobre a atual crise econômica não são apenas equivocados, mas levianos. Nada de fato aconteceu com a economia mundial, ele escreve presunçosamente a Auster, a não ser uma reacomodação estatística. É improvável que o Banco da Inglaterra, para não falar das pessoas que viram suas casas e seus sustentos lhe serem roubados por gângsteres financeiros, fiquem extraordinariamente impressionados com seu argumento. A julgar por sua resposta circunspecta, nem Paul Auster ficou, embora respeite demais o colega renomado para dizer isso de forma direta. (…) A verdade é que nenhum dos dois sabe nada de economia, e não existe razão para supor que uma habilidade com as metáforas confira a uma pessoa esse tipo de compreensão. Só quem herdou a crença no artista como sábio, profeta ou visionário achará desconcertante descobrir que nenhum desses liberais ‘bien-pensant’ tem algo de profundo ou original a dizer sobre política.

O crítico inglês Terry Eagleton capricha no veneno em sua resenha (em inglês, acesso gratuito) de Here and now, edição da correspondência que o sul-africano J.M. Coetzee e o americano Paul Auster trocaram entre 2008 e 2011. Publicada pelo Times Literary Supplement, a bordoada vem ancorada em argumentos. O que incomoda Eagleton é o fato de as cartas trocadas pelos colegas ficcionistas passarem longe de se caracterizar como um diálogo realmente artístico – além de terem pouco em comum no campo literário, os dois, sobretudo Auster, estariam cheios de dedos demais para arriscar incursões nesse terreno – ficando no campo da troca de gentilezas e observações genéricas, algo que tem lógica exclusivamente privada. A questão é: direito deles, mas para que publicar essas coisas? O crítico faz duas ressalvas, ambas creditadas ao nobelizado da dupla:

O livro tem apenas dois trechos de interesse literário. Um deles é uma reflexão idiossincrática e levemente gozadora de Coetzee sobre o papel do telefone celular na literatura. Uma vez que a trama tradicional tende a depender tanto da distância quanto da proximidade entre os personagens, como isso foi alterado por um mundo em que todos estão imediatamente acessíveis o tempo inteiro? Como, por exemplo, foi afetado o romance de adultério, uma prática que, na vida real, teve que se adaptar às novas formas de comunicação? Há ainda uma ou duas cartas envolventes de Coetzee, pequenas joias que prometem enlevar os críticos pós-coloniais, sobre sua relação complexa, como africâner, com o inglês como “língua-mãe”. Muitos escritores e intelectuais contemporâneos, assinala, “têm uma relação distante ou interrogativa com o idioma que falam e escrevem”. Quando estava crescendo, observa, sempre achou que o inglês era uma propriedade dos ingleses, não sua. “Os ingleses inventavam as regras do inglês da forma mais caprichosa que quisessem… (enquanto) pessoas como eu seguiam à distância e faziam o que eles mandavam”. Aos vinte e um anos, vivendo na Inglaterra, tinha certeza de falar e escrever melhor do que a maioria dos nativos, mas via-se identificado como estrangeiro no instante mesmo em que abria a boca. Auster entra na conversa com algumas observações bem menos sutis sobre seus avós imigrantes judeus e sua mulher norueguesa.

Eagleton, um dos grandes críticos literários da atualidade, é um pensador marxista fino, avesso a raciocínios mecanicistas, mas derrapa aqui e ali. Como quando critica os missivistas por falarem muito sobre esporte – um dos traços mais interessantes do livro, a meu ver – e, mesmo assim, deixarem de “reconhecer que o esporte, nos dias de hoje, é o ópio do povo”. É como se evitar o velho e desgastado clichê fosse um defeito e não uma qualidade que Coetzee e Auster compartilham em sua tentativa de compreender a profunda ressonância cultural que fundamenta a indústria globalizada em que o esporte se transformou. (Leia aqui, em português, trecho de uma carta “esportiva” de Coetzee, adiantada pelo Todoprosa em março.)

Quando alfineta os autores por seu desprezo aos críticos, Eagleton, sem deixar de ter razão, também dá a impressão de que contrapõe um corporativismo ao outro – o que deixa fora da brincadeira o leitor que não é nem crítico nem escritor. No entanto, a resenha exibe os méritos habituais do autor, raros tanto entre críticos quanto, reconheça-se, entre escritores: a clareza do pensamento, do estilo e do humor. Terminamos com a impressão – no meu caso, surpreendente – de que uma edição da correspondência entre dois ficcionistas respeitáveis pode ser mais um sintoma, ainda que discreto, da mesma patologia cultural que produziu a febre dos reality shows e as colunas online que acompanham minuto a minuto a vida das celebridades.

“Esse livro preenche uma lacuna muito necessária”, dizem que começava assim uma resenha lendária, talvez apócrifa. O mesmo, infelizmente, pode ser dito deste aqui. Fãs de beisebol deverão achá-lo mais satisfatório do que cultores de ficção. Ele nos ameaça com um gênero inteiramente novo em que os leitores se deliciarão com os pensamentos de Martin Amis sobre contabilidade apenas porque foram pensados por Martin Amis, ou farão fila para ouvir Bono discorrer sobre doenças tropicais simplesmente porque ele fez todos aqueles shows. É um alívio, contudo, descobrir que tanto Auster quanto Coetzee acreditam que a resposta adequada a uma crítica negativa é conservar um silêncio orgulhoso, e não enfiar um murro no estômago do crítico. Para este resenhista, trata-se de um dos aspectos mais gratificantes de todo o projeto.

3 Comments

  • Claudio Faria 04/06/2013 at 09:53

    Excelente tudo. Excelente o comentário de Eagleton sobre o fascínio ingênuo por qualquer coisa que venha de alguém de renome, em especial escritores, artistas e afins. Excelente sua crítica, Sérgio, à pueridade maniqueísta de Eagleton quando faz comentários contaminados pelo marxismo. Excelente ainda, a meu ver, o último trecho no qual Martin Amis e Bono Vox são citados. Até porque ultimamente não consigo disassociar o Bono excelente músico do ignorante e ingênuo incensador do Lula.

  • Ernani Ssó 06/06/2013 at 10:20

    Tsk, tsk, tks. Um texto impagável como esse e só um comentário. Nossa seita, Sérgio, tem muito menos fiéis do que a gente pensa.

    • sergiorodrigues 06/06/2013 at 11:58

      E muitos fiéis são infiéis, hehe. Mas para cima com a viga! Abraços.

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