Entre Narciso e o suicídio, a literatura balança

29/09/2015
O Narciso de Caravaggio (1598-1599)

O Narciso de Caravaggio (1598-1599)

A literatura é hoje um campo que se questiona de modo histérico, com resultados entre o suicida e o narcísico.

O discurso literário parece sentir que perdeu o direito à existência. O que quer que o justificasse perante si mesmo não o justifica mais.

Entre as atitudes que o discurso literário toma diante disso, destaco duas que me parecem especialmente significativas: deitar no caixão e declarar-se morto, como um personagem de Nelson Rodrigues, procedendo então à auto-autópsia; ou, feito uma drag queen de quermesse, se montar inteiro com maquiagem, bijuterias, próteses, piscando muito para o espelho e dizendo: “Eu existo, ói eu ali”.

(Seria interessante – mas foge aos propósitos deste artigo, para não falar da minha competência – investigar o que haverá de analogia estrutural e especularidade simbólica entre duas crises culturais contemporâneas, a “do macho” e a da literatura de ficção.)

A verdade é que, além daqueles que a fazem e da pequena seita que a consome sistematicamente, ninguém no mundo está prestando lá uma terrível atenção à ficcão literária, como diriam em inglês – literatura artisticamente ambiciosa, digo eu. A ficção comercial vai bem, mas o público da ficção dita séria míngua ao mesmo tempo que se concentra na metade feminina da população.

Quando morrer a geração de Coetzee, McEwan, Marías, e considerando-se que Bolaño e Wallace apressaram essa parte do processo, é evidente que outros nomes ocuparão seus lugares, mas tudo indica que o campo terá encolhido mais um pouco.

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A teoria literária que cresceu e envelheceu com o século 20 desempenhou em sua juventude o papel cultural de aliada dessa literatura – uma aliada implicante e reticente, mas ainda não abertamente hostil. A mesma teoria literária chegou ao terceiro milênio convencida do fim da ex-amiga. O fim se daria, ou já teria se dado, pelo esgotamento de seu ciclo histórico. Simples assim.

Tal diagnóstico costuma vir amparado em raciocínios de diversos teores, da filosofia da linguagem (preferência dos mais propriamente teóricos) à sociologia e à política (área do pessoal ligado em estudos culturais), mas tem sempre no subsolo uma espécie de pré-ideia, uma sensação visceral e pouco trabalhada: a de que o presente simplesmente já não cabe nesse discurso. Passou. A pós-modernidade eletrônica planetária está forjando novos vocabulários, novas gramáticas, novas dinâmicas em que a imaginação dos seres humanos futuros vai se espalhar com mais conforto do que na extensão cinza de um Saara de palavras chamado livro.

Quando se quer dar um lustro filosófico um pouco maior a esse instinto apocalíptico, afirma-se que a coisa é bem pior até, pois a própria ideia de representação está sendo minada, o que em última análise põe em xeque a linguagem em si. De uma forma ou de outra, o fundamental é concordar que a literatura já não serve para nada.

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Paulinho da Viola canta: tá legal, e tal, mas faça como o velho marinheiro. Aceito o conselho e fico pensando: para que servia mesmo a literatura, antes dessa crise? Não foi a crise desde sempre seu habitat? E não seria a inutilidade fundamental – ou antes a inutilidade de tentar fazer suas utilidades serem utilizadas de modo realmente útil, isto é, a sublime gratuidade do gesto estético – uma de suas características principais, talvez a mais profunda delas?

Porque se a inutilidade for um traço fundamental da melhor literatura, resulta daí que é uma crença ingênua na linearidade da história supor que a obsolescência e o descompasso radical com o espírito do tempo marcarão seu fim – e não um período de excelência e maturidade, cheio de riquezas inéditas.

2 Comments

  • sergio marcone 24/10/2015 at 17:13

    Putzgrilla!!! Conversei sobre isso com vários amigos do ramo das letras e me chamaram de louco, riram de mim. Meu Deus, xará, sabe aquela sensação de ler aquilo que você pensa?? O lugar de importância dessa literatura está sendo tomado pela ciência, a meu ver. Seus avanços e suas eternas buscas para trazer o eldorado da vida longeva (já a querem eterna. Vide os investimentos de milhares de dólares nesse sentido pelos empresários do Vale do Silício), substituem de longe a importância da outrora “engajada” socialmente literatura. Ainda tô besta com nosso transmimento de pensação. Sou seu fã, bicho.

  • ramon moreira 02/02/2016 at 17:20

    Deitar no caixão e declarar-se morto, parece que esse personagem de Nelson Rodrigues já existia um pouquinho antes, em Shakespeare, Cleópatra fez isso em Antônio e Cleópatra, lembra-se?

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