‘Era uma noite escura e tempestuosa’: sobre o clichê

15/02/2013

Snoopy, Bulwer-Lytton e a capa do livro de Loureiro: santíssima trindade do chavão

Conversando outro dia com uma amiga, romancista talentosa que tem ministrado oficinas literárias, ela dizia que uma de suas maiores dificuldades é explicar aos alunos o que vem a ser um clichê. Fazer o orgulhoso autor de uma frase como “as ondas lambiam voluptuosamente a areia”, que tanto o agrada por sua carga poética, compreender que ela é inaceitável. Não apenas ruim mas desclassificante, algo que um leitor mais exigente tenderá a interpretar como deixa para desistir do livro.

Nessa hora, talvez seja didático mencionar o exemplo de Snoopy. E de Bulwer-Lytton. E de Urbano Loureiro. E de tantos outros que começaram ou se sentiram tentados a começar uma história com aquela frase imortal, emblema supremo do clichê literário em todos os tempos:

“Era uma noite escura e tempestuosa.”

Romancista, poeta, dramaturgo, político e barão, Edward Bulwer-Lytton (1803-1873) passou à história com a glória irônica de ter sido seu criador. Se alguém já tinha usado uma fórmula parecida, o que não acho improvável, a imensa popularidade da obra do nobre inglês em sua época – proporcional ao desprezo que lhe devotariam as gerações futuras – garantiu à frase de abertura de seu romance Paul Clifford o privilégio de fixar a construção exata, a forma irretocável do clichê:

“It was a dark and stormy night.”

Snoopy, o beagle de Charlie Brown, foi seu maior divulgador durante décadas. Batucando numa máquina de escrever acomodada no telhado de sua casinha, o cachorro com veleidades literárias criado pelo cartunista Charles M. Schulz era dado a começar assim os livros que nunca terminava. A tira abaixo é só um exemplo.

Desde 1982, um concurso literário galhofeiro organizado pelo departamento de letras da Universidade de San Jose, na Califórnia, escolhe todo ano as frases de abertura mais clichezentas que lhe são submetidas – não é preciso escrever o livro inteiro, basta começar muito mal, como Snoopy. O concurso merece a atenção deste blog desde 2006 e se chama Bulwer-Lytton Fiction Contest, o que é justo.

No entanto, se alguém se animar a organizar uma brincadeira semelhante em português, fica a sugestão: que tal deixar a memória do escritor vitoriano em paz e privilegiar um sucedâneo lusófono? Existe um romance português lançado em 1878 que começa assim:

“Era por 1880, uma noite carrancuda e tenebrosa…”.

O livro é “Infâmia de frei Quintino – romance d’uma família”, de Urbano Loureiro. Achei a dica numa postagem de 2009 no site português Sorumbático e desde então o sol tem me sorrido com nova e insuspeitada radiância no azul-anil de um céu de brigadeiro, entre outros clichês alegrinhos. Bulwer-Lytton que me perdoe, mas Urbano Loureiro é o cara!

11 Comments

  • José da Silva 15/02/2013 at 14:03

    O meu nome é um clichê. O que faz alguem que se depara comigo?
    Acho que essas informações são interessantes e ao mesmo tempo irrelevantes para o escritor e para o leitor. Um bom escritor, por exemplo, deve abandona-las para escrever algo com verdade emotiva e criativa, seja lá o que isso quer dizer. Não confio no julgamento de um leitor que abandona o livro por uma frase também, o comparo a quem compra pela capa. Respirar é um clichê.

  • Rafael 15/02/2013 at 14:04

    O melhor argumento conta o clichê, eu o li numa coletânea do filósofo americano Alfred North Whitehead, antigo reitor de Harvard e co-autor do monumental Principia Mathematica, obra escrita juntamente com Bertrand Russel.
    O livro chamava The Aims of Education and Other Essays. Num dos capítulos, o autor alertava para a força imobilizante das idéias mortas. O commonplace, advertia o autor, tornava o pensamento estéril e improdutivo; ir contra ele era necessário a fim de frutificar a criatividade.
    O cliché é isto: uma idéia morta.
    Aliás, que gozo estético um livro pode proporcionar se suas frases são banais, previsíveis e, por conseguinte, vazias de sentido?
    Agora, Sérgio, que maldade! Pois não é que vejo, em destaque à direita, a foto do Paulo Coelho, bem ao lado do seu texto sobre o clichê?
    Vale

  • Tibor Moricz 15/02/2013 at 14:19

    Todos falam mal dos clichês, mas quem escapa deles, integralmente?

  • Claudio Faria 15/02/2013 at 15:31

    Sérgio, saiu uma reportagem na TRIP há 3 anos a respeito da edição 2011 do Bulwer-Lytton. Gostei tanto que tenho o link até hoje nos meus “Favoritos”:

    http://revistatrip.uol.com.br/so-no-site/notas/era-uma-noite-escura-e-tempestuosa.html

  • Rosângela Maria 16/02/2013 at 00:29

    “sol tem me sorrido com nova e insuspeitada radiância no azul-anil de um céu de brigadeiro”. Tive duvidas se é seu o do Urbano. Seja de quem for: Eita clichezinho gostosinho, esse!

  • Ernani Ssó 16/02/2013 at 09:01

    Sérgio, prefiro “Era uma noite soturna e tempestuosa”.

  • Saint-Clair Stockler 17/02/2013 at 13:23

    OK, mas vamos tentar apagar uma má impressão: o Bulwer-Lytton não era um escritor assim tão ruim, como faz pensar sua frase mais famosa. Basta pensarmos, por exemplo, em seu romance ‘Zanoni’, que é uma delícia de se ler.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Zanoni

  • Pedro 19/02/2013 at 14:29

    Bulwer-Lytton também é famoso pelos romances “Os últimos dias de Pompéia”, do qual muitos devem ter ouvido falar ao menos em razão de sua adaptação como minissérie de TV, e A Raça Futura (the coming race), que dizem alguns influenciado nas idéias nazistas.

  • J.Paulo 22/02/2013 at 22:56

    Caramba, chorei de rir com a tirinha do Snoopy batendo na máquina: “It was a dark and stormy night.”

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