Escrever e coçar é só começar?

25/01/2014

Tolstoi, o preferido dos leitores deste blog

Tolstoi, o preferido dos leitores

Durante muito tempo, mantive neste blog uma seção chamada Começos Inesquecíveis, dedicada a aberturas especialmente brilhantes – sobretudo de romances, embora um ou outro conto tenha comparecido também. (Um desses começos, aliás, faz coro com as palavras iniciais deste post: “Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo”, escreveu Marcel Proust na primeira linha de “No caminho de Swann”.)

A seção não tinha dia fixo, mas era atualizada com grande frequência por exigência dos próprios leitores, que a transformaram na mais visitada do Todoprosa. Nunca parei para contar, mas imagino que no fim das contas o número de começos contemplados se aproximasse da casa dos três dígitos.

A popularidade dos grandes começos da literatura é um tema curioso. Parece existir em nós, leitores, e principalmente nos leitores que também escrevem ou gostariam de escrever, uma crença irracional no poder mágico das palavras de abertura de um livro. Como se elas já contivessem em miniatura tudo o que importa saber, um certo espírito geral da obra. Como se, acertando no começo, o resto viesse naturalmente ao autor.

A realidade é mais complicada do que isso. Um bom início tem a responsabilidade de introduzir um certo tom, uma certa voz, e o desafio nada banal de fazer o leitor seguir em frente. Com perdão da obviedade, porém, vale lembrar que, se uma narrativa deve começar bem, não é menos importante que continue bem e termine bem. Continuar, sobretudo, é um verbo que geralmente parece não ter fim quando se escreve um romance – e às vezes não tem mesmo. O que talvez seja outra razão para o sucesso de público dos começos: escrever uma boa abertura parece estar ao alcance de todos, mesmo quando ela não conduz a lugar algum. (Com esta ideia, a de uma sucessão de começos, Italo Calvino escreveu o fabuloso “Se um viajante numa noite de inverno”.)

A intensa participação dos leitores me levou a instituir, em agosto e setembro de 2009, um concurso para escolher pelo voto direto o melhor entre todos os Começos Inesquecíveis que tinham aparecido no blog até então. A pré-seleção foi minha: montei três grupos de oito, e os dois mais votados de cada um foram para a final. (Os vinte e quatro concorrentes podem ser lidos aqui, aqui e aqui.) Centenas de votos depois, a lista dos finalistas – que não incluía alguns dos meus favoritos, paciência – era a seguinte:

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. (Vladimir Nabokov, “Lolita”.)

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. (Albert Camus, “O estrangeiro”.)

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira. (Leon Tolstoi, “Ana Karenina”.)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”.)

Chamem-me Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. (Herman Melville, “Moby Dick”.)

Sou um homem doente… Sou mau. Nada tenho de simpático. Julgo estar doente do fígado, embora não o perceba nem saiba ao certo onde reside meu mal. (Fiodor Dostoievski, “Memórias do subterrâneo”.)

O campeão foi Tolstoi, seguido por Nabokov e Camus.

9 Comments

  • Carlos Cezar 25/01/2014 at 11:03

    Esse negócio do “começo” é interessante, mas… a maioria pode escrever uma boa frase. Já um bom livro não é para qualquer um.

  • Carlos Cezar 25/01/2014 at 11:06

    Não pela genialidade da frase, mas por ter sido a mais citada nestes últimos cem anos (não de solidão, mas de muita literatura), meu voto é para Tolstoi.

  • Carlos Cezar 25/01/2014 at 11:11

    O segundo lugar para Melville (talvez porque raros livros me tenham proporcionado emoções tão fortes quanto este, com suas viagens e lutas extraordinárias através de oceanos e mares, entre seres humanos, natureza e animais).

  • Silvio 25/01/2014 at 11:28

    Sérgio, sei é um chavão dizer que é impossível atender (e agradar) a todos. Foi por isso que pensei em alguns começos de que gosto muito e que não apareceram no concurso:

    “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa.” (Jane Austen, ‘Orgulho e Preconceito’)

    “No dia 25 de março passado, Petersburgo foi palco de uma aventura das mais estranhas.” (Nikolai Gogol, ‘O Nariz’)

    “O inverno do nosso descontentamento foi convertido agora em glorioso verão…” (William Shakespeare, ‘Ricardo III’)

    “Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci.” (F. Scott Fitzgerald, ‘O Grande Gatsby’)

    “‘Oh, encantada. Adoraria.’
    Não quero dançar com ele.” (Dorothy Parker, ‘A Valsa’)

    “A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor.” (Stendhal, ‘A Cartuxa de Parma’)

    “O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar.” (William Gibson, ‘Neuromancer’)

    “Durante o fim de semana os urubus enfiaram-se pelas varandas da casa presidencial.” (Gabriel García Márquez, ‘O Outono do Patriarca’)

  • Carlos Cezar 25/01/2014 at 14:44

    Uma opinião, caro Sérgio. Você mostrou os melhores começos, mas quais seriam as melhores cenas? Algumas sugestões —–
    O esguicho de Moby Dick como um longo fio de prata sob o luar/O solitário passeio de Leopold Bloom ao anoitecer, numa praia (quase) deserta/O episódio de O Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamázov.

  • Athayde 25/01/2014 at 19:09

    Um começo que achei o máximo: “A 124 era rancorosa. Cheia de maldade de um bebê. As mulheres sabiam disso, e as crianças também.” AMADA, Toni Morrison.

  • Thiago Maia 28/01/2014 at 17:24

    Semana passada reli o seguinte começo, que da primeira vez não me impressionou tanto quanto agora. Não li a continuação dele ainda.
    Um abraço a todos.

    “Sala branca (1)

    É um aposento que um autor pouco inspirado poderia evocar enquanto fixa a página em branco: Paredes brancas. Teto branco. Chão branco. Não desprovido de traços distintivos, mas perto disso o bastante para levantar a suspeita de que seu parco conteúdo é crucial para o drama iminente.”

    Matt Ruff, Macacos malvados, Companhia das Letras, 2008

  • Rômulo Alcoforado 28/01/2014 at 21:50

    E o seu começo preferido, Sérgio, qual é?

    • sergiorodrigues 29/01/2014 at 12:26

      Depende do dia, Rômulo. Gosto de todos os que selecionei, claro. Se tivesse que votar hoje em um, seria no Estrangeiro.

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