Euclides, o campeão da falta de humor

29/09/2010

Hora de dar o resultado do pequeno concurso que lancei aqui na semana passada, valendo um exemplar de “Sobrescritos” para o primeiro leitor que citasse um grande escritor “inteiramente tapado para a graça, uma porta em termos de senso de humor”. A ideia era submeter ao teste da interatividade internética uma conclusão provisória com a qual eu andava brincando: a de que só escritores medíocres podem ser inteiramente desprovidos de humor.

A participação dos leitores foi brilhante e, no meu entendimento, provou acima de qualquer dúvida que eu estava errado. Sim, é possível fazer grande literatura e ao mesmo tempo ser a menos espirituosa das criaturas. Raro, sem dúvida, mas possível. Uma das provas disso é Euclides da Cunha, nome com o qual Luis Nascimento, o primeiro a sugeri-lo, assegurou o prêmio. Não vou dizer que reli “Os sertões” de ponta a ponta para chegar a tal conclusão, mas acredito ter folheado páginas suficientes para confirmar o que a memória já sugeria: não existe a mais pálida sombra de sorriso ali. (O curioso exercício de desclassificação do autor ensaiado por Rafael Souza, substituindo a figura de Antônio Conselheiro pela de Lula, tem sua graça, mas ela provém de Rafael e não de Euclides.)

Como as regras previam a premiação apenas do primeiro que citasse um grande escritor desprovido de humor, fui poupado da tarefa de procurar traços residuais de espírito cômico em autores como os seguintes, que acredito serem candidatos suficientemente fortes para valer menções honrosas aos leitores que os sugeriram, nomeados entre parênteses: Autran Dourado (Vinicius Antunes e Olavo Jr.), Raduan Nassar (Rodrigo Lattuada), Juan Rulfo (João de Paula) e Isaac Babel (Fernando R.).

Talvez Alexandre Herculano (sugestão de Bastardo Inglório) devesse entrar nessa lista, mas minha ignorância não permite bater o martelo – o que não influencia o resultado, como expliquei acima. Outros nomes foram desclassificados por motivos variados, Cornélio Pena (candidato de Afonso) por não ser grande, James Joyce (Olavo Jr.) por ser um humorista feroz.

Casos mais difíceis são os de Juan Carlos Onetti (Hefestus) e Lobo Antunes (Clélio T. Jr.), que certamente não podem ser considerados engraçados, mas que, a meu ver, cultivam no fundo do quintal uma ironia fina e melancólica que os torna inelegíveis. Aqui cabe refletir um pouco mais profundamente sobre o humor, que muita gente tende a equiparar erradamente à pilhéria, excluindo formas mais sutis e mais sombrias de espirituosidade.

Mark Twain, um humorista de primeira, não estava brincando quando disse que “a fonte secreta do humor não é a alegria, mas a tristeza. Não há humor nenhum no paraíso”. Quem estiver em dúvida deve ler a linha final do conto “Uma galinha”, de Clarice Lispector (nome sugerido por Drex Alvarez): “Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”. É ou não é de chorar de rir?

15 Comments

  • Bastardo Inglório 29/09/2010 at 12:36

    Beleza. Só que não consigo deixar de sorrir ao lembrar dos “mulatos neurastênicos do litoral” de Euclides.

  • luis nascimento 29/09/2010 at 12:46

    E a festa não tem hora pra acabar por aqui, Sérgio. Minha primeira vitória em concursos ou sorteios de qualquer espécie, da frase que valeria aquela excursão a Paquetá com Daniel Azulay à megasena acumulada, passando por rifas das mais mequetrefes. Como faço para pegar meu prêmio?
    Abs

    • sergiorodrigues 29/09/2010 at 14:20

      Bastardo: compreendo, mas humor involuntário não vale. Se valesse, Euclides seria hilariante com aquelas coisas de pseudociência em que acreditava.

      Luis, encaminhei um email com as “instruções”. Um abraço e parabéns.

  • João 29/09/2010 at 14:23

    É, Euclides era imbatível. Contudo, decepcionei-me com a ausência de qualquer consideração em relação à minha citação, que foi Lygia. Outro dado que causou estranheza: Autran Dourado entre possíveis candidatos a escritores sem humor (!)? Quem tenha saboreado O Risco do Bordado há de concordar que é uma suposição um tanto quanto deslocada.

    • sergiorodrigues 29/09/2010 at 15:32

      Desculpe o lapso da Lygia, João. Esqueci de incluir no texto, mas cheguei a reler coisas tentando confirmar uma impressão que eu tinha: a de que às vezes ela se aproxima bastante do humor no torneio da frase, numa certa agudeza cruel de estilo, mesmo passando longe dele na essência. Dois contos tristíssimos de “Antes do baile verde”, Apenas um saxofone e Helga, são bons exemplos disso. “Ela era uma só. Não havia outra e se quisesse compará-la com alguma coisa, seria com os tenros cogumelos dos bosques (…) Era uma, una, única, apesar de ter uma só perna, aliás bela como ela toda”. Um abraço.

  • Rosângela Maria Pessanha de Souza 29/09/2010 at 14:52

    Se a fonte secreta do humor é a tristeza e não a alegria, eu dou um pontinho lanterninha para meu Veríssimo. Mas achei o palavriado do Sérgio neste campeonato, para lá de erudito, fino. E até me senti por estar aqui neste meiinho intelectual afetivo ( Não aguentava mais levar “trabuco” por ser uma jumenta no meio literário.). Ah… olhemos mais para os lirios dos campos…
    Ah, Parabéns, Luis Nascimento! És luz! És Nascimento! E isso é muito bom! E, olha, Sérgio Rodrigues falou, tá falado. Literatura é com ele mesmo. Parabéns! ( ah… aceita um lirio… Toma… Não há de quê agradecer… Você merece.bjo. jumentinha…

  • Afonso 29/09/2010 at 15:40

    Sérgio, talvez você já tenha deixado o mote para um próximo concurso, senão para uma boa discussão neste espaço, ao afirmar sobre a desclassificação de Cornélio Pena, por não ser grande (grande, em itálico) – o que é ser (realmente) grande em literatura? Fica a sugestão. Abraços

  • Rafael 29/09/2010 at 15:56

    Sérgio,
    Num delicioso prefácio a uma antologia de contos humorísticos, Monteiro Lobato (sempre ele) lança-se na arriscada aventura de definir o humor. Eis o primeiro parágrafo:
    “Existe toda uma biblioteca sobre o humor, onde cem autores tentam defini-lo, como há também inúmeras definições de arte e mil remédios para a tosse. Essa abundância é comprometedora. Prova que o humor e arte são indefiníveis e a tosse incurável. Mas como é vagamente curável a causa presuntiva das tosses, também podemos vagamente definir as causas ou circunstâncias produtoras do humor e da arte.”
    O texto, como de resto tudo que esse sobranceiro autor escreveu, é imperdível. Diz ele que lhe foram “necessários 40 minutos de pensamento peripatético, desde o jardim da Aclimação, onde há um asno que zurra, até o começo da rua da Glória — 6261 passos, ou 2087 por adjetivo” para alcançar a seguinte definição:
    “Humor é a maneira imprevisível, certa e filosófica de ver as coisas.”
    Não vou ficar aqui resumindo o prefácio, cuja leitura recomendo fortemente.
    Acrescento que ele foi publicado nas Obras Completas de Monteiro Lobato, Volume 13, intitulado “Prefácios e Entrevistas” (editadas pela Editora Brasiliense, 1948)
    Quanto ao Euclides, continuo ainda convicto de que o rapaz tem verve.
    Vale

    • sergiorodrigues 29/09/2010 at 16:44

      Muito boa a contribuição, Rafael. Monteiro Lobato sabe tudo de humor.

  • Pedro David 29/09/2010 at 21:21

    Acho que o Lobo e o Raduan têm bastante humor. Dói, mas é humor…
    Já o Rulfo, realmente, consegue espalhar tanta sombra, que a gente não consegue achar mais graça em nada no texto, se houver.
    Aliás, essas brincadeiras sobra literatura são, pra mim, a forma melhor de lidar com ela. Com meus amigos, a gente costuma definir os livros em “Que provocam febre”, “Suados”, “Que arranham”, “Desesperados”…Acho melhor do que algumas definições acadêmicas, rs.

    No mais, já viu que tem no Facebook uma brincadeira em que as pessoas escolhem quinze filmes ou quinze discos que marcaram suas vidas ? Como o troço funciona em rede, é divertido não só confeccionar a própria lista, como ficar lendo a dos outros. Será que funcionaria aqui ? É o tipo de coisa que não serve pra nada, mas diverte… Fica a sugestão…
    POde ser os quinze livros, ou ainda as quinze melhores frases, o que é o um exercício legal, que eu sempre faço pra deixar a memória em dia!
    Fica a sugestão!
    Abraço

  • Edson Marques 30/09/2010 at 09:28

    Sérgio,

    Sou autor do poema Mude, falsamente atribuído, em alguns sites, a Clarice Lispector, e com grande veiculação na internet.

    Tal poema já foi editado em livro pela Pandabooks, em livro cujo prefácio é de Antonio Abujamra, a quem já dei entrevista no Programa Provocações, da TV Cultura, em 2006.
    Livro MUDE – publicado pela Pandabooks em 2007. À venda na Siciliano, FNac, Cultura, Saraiva, Submarino, Americanas, etc.
    Mediante contrato assinado por mim, Pedro Bial gravou tal poema na faixa 4 do CD Filtro Solar, lançado em fins de 2003.
    Detalhes a respeito podem ser vistos no blog http://www.Mude.blogspot.com – editado por mim desde 2001.

    Em 2003, registrei tal poema na Fundação Biblioteca Nacional do Ministério da Cultura – Poema MUDE – Registro: 294.507 – Livro: 534 – Folha: 167

    Acontece que os herdeiros de Clarice Lispector assinaram, ilicitamente e vergonhosamente, um Contrato de Licenciamento do meu poema, “cedendo os direitos” (sic) à Fiat, para que a Leo Burnett fizesse, com ele, um Comercial para a Fiat ( http://www.youtube.com/watch?v=NTZ7AGvT44Y ). O criativo da agência, em monumental mentira, disse ter “mergulhado na obra de Clarice” (sic) para encontrar “o texto perfeito para o comercial” (sic).

    Com base nesse falso contrato, ingressei com Ação Judicial contra a Leo Burnett e a Fiat. Ganhei em primeira instância: sentença pode ser lida em http://www.Liberdade.blogspot.com
    Como recurso, as empresas alegaram “prescrição” (sic) do meu direito de reclamar. Mas é um recurso inócuo, posto que já ganhei Ação Cautelar anterior, em 2005, o que interrompe o prazo prescricional. Detalhes disso tudo podem ser lidos em http://www.Desafiat.blogspot.com

    É um escândalo!

    Claro que Clarice não tem culpa. Seus herdeiros é que se recusam a devolver o dinheiro (US$ 40.000). Heródoto Barbeiro (entre outros muitos jornalistas) tentou ajudar-me: solicitou entrevista ao filho de Clarice, sr. Paulo Gurgel Valente, telefone 21-3204-1717. Mas esse sr. se recusa a tocar no assunto publicamente. Ao contrário, baseado em blogs, mas sem provas literárias autênticas, recusa-se, peremptoriamente, a reconhecer o ilícito. Vou agora acioná-lo diretamente.

    Eis parte do poema:

    Mude,
    mas comece devagar,
    porque a direção é mais importante que a velocidade.
    Não faça do hábito um estilo de vida.
    Tente o novo todo dia.
    O novo lado, o novo sabor,
    o novo prazer, o novo amor.
    (…)
    Tente.
    Ame muito,
    cada vez mais,
    de modos diferentes.
    Lembre-se de que a Vida é uma só.
    Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
    Seja criativo.
    (…)
    Só o que está morto não muda !

    Em face da gravidade do assunto, teria a Veja (ou o teu blog) interesse em publicar matéria a respeito, além da possibilidade de publicação na Seção Leitores?

    Abraços,

    Edson Marques

  • Vinícius Antunes 04/10/2010 at 11:40

    Parabéns ao Luis Nascimento.
    Belo concurso. Aguardo o próximo.
    Assim pensamos um pouco de literatura em meio ao trabalho. E rimos, e choramos.

  • Aline 18/10/2010 at 17:45

    Você viu o artigo do Telegraph “Howard Jacobson triumphs–A funny Booker Prize winner at last”? O artigo diz: “The many registers of the English language – irony, sarcasm, understatement, overstatement – combined with the sheer size of the lexicon, mean there are greater opportunities for humour than in any other language. Será mesmo?…Na categoria sarcasmo eles certamente ganham, já na categoria humor, eu não sei, não. Ou talvez eu não esteja lendo os escritores certos.

    Sei que a idéia deste concurso (que já acabou) era falar de literatura brasileira, mas achei que o comentário, apesar de atrasado, cabia aqui…

    • sergiorodrigues 20/10/2010 at 09:35

      Isso é arrogância imperialista, só. Está certo que o inglês tem uma boa tradição de humor, mas quem mediu – e seria mesmo bem difícil medir – essas “maiores oportunidades”? Será que o cara ignora o imenso potencial humorístico do javanês?

  • greenlama 27/10/2010 at 08:54

    Quem tem a pachorra de dizer que Euclides não possuía humor é porque ou leu mal ‘Os Sertões’ ou definitivamente não o leu. Euclides recorre à ironia em diversas ocasiões (eu poderia dizer que o livro é uma grande peça de ironia e melancolia). Veja, por exemplo, o último capítulo do livro, de uma ironia maciça; ou quando ele descreve as absurdas estratégias militares; sem falar na célebre passagem em que ele compara a rua do Ouvidor com um ‘desvão das caatingas’. Além do mais há vários artigos e crônicas de Euclides que se valem dos mesmos recursos (me lembro agora de ‘O Marechal de Ferro’ e ‘A Esfinge’. Pelamordedeus, vão reler o Euclides antes de falar tanta bobagem.

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