Felisberto Hernández: ‘O cavalo perdido’

15/07/2006

Um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana acaba de ficar menos secreto. Faz sentido que o escritor e pianista uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) tenha sido admirado com ardor por Julio Cortázar e Italo Calvino, dois prosadores finos com quem tem afinidades evidentes. Mesmo o leitor escolado na obra dos autores de “Histórias de cronópios e de famas” e “As cidades invisíveis”, porém, terá motivos de sobra para se surpreender com os contos longos, alguns beirando a extensão de uma novela, reunidos em “O cavalo perdido e outras histórias”, segundo lançamento da coleção Prosa do Observatório (Cosac Naify, seleção, tradução e posfácio de Davi Arrigucci Jr., 232 páginas, R$ 45). Ressalvada a possibilidade de alguma edição nanica que a história não registrou, trata-se do primeiro livro de Felisberto publicado no Brasil.

A notícia merece comemoração porque Felisberto, como disse Calvino, “é um escritor que não se parece com nenhum outro (…), inconfundível ao abrirmos qualquer uma de suas páginas”. No texto que serve de prólogo à edição, Cortázar discorda em parte, descobrindo pontos de contato entre o uruguaio e o cubano José Lezama Lima. Ambos, para ele, “se conectam com as coisas (porque de algum modo tudo é coisa para eles, palavras, ou móveis, ou paixões, ou pensamentos são ao mesmo tempo tangíveis e inefáveis, sonho e vigília) a partir de uma intuição que só pode ser instalada na linguagem por obra da imagem poética (…)”. A observação é iluminadora, mas o argentino deixa claro que as afinidades terminam aí.

O trecho abaixo é tirado do conto-título e resume algumas qualidades de Felisberto, embora caiba a ressalva: não é fácil recortar um pedaço nessa prosa líquida que a formação de pianista do autor sugere chamar de musical. Talvez o adjetivo não seja descabido, mas é na estranheza familiar – ou na familiaridade estranha – das imagens que o narrador cria, mais do que nos ritmos da narrativa, que reside sua força indefinível. Concordo com Cortázar: chamar essa literatura de “fantástica” soa falso. Talvez porque Felisberto tenha a capacidade de fazer com que esquisitices como um lanterninha de teatro que um dia se descobre literalmente iluminado pareçam naturais, como se o mundo fosse assim. O dele é.

Atravessado sobre as teclas, como um trilho sobre dormentes, havia um longo lápis vermelho. Eu não o perdia de vista, pois queria que me comprassem outro igual. Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, com movimentos rápidos, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas de seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.

Celina me fazia pôr as mãos abertas sobre as teclas e com seus dedos levantava os meus, como se ensinasse uma aranha a mover as patas. Ela se entendia com minhas mãos melhor do que eu mesmo. Quando as fazia andar com lentidão de caranguejos entre pedrinhas brancas e pretas, de pronto as mãos encontravam sons que encantavam tudo o que havia ao redor do abajur, e os objetos ficavam cobertos por uma simpatia nova.

*

Uma vez, ela estava me repetindo uma coisa que minha cabeça entendia, mas as mãos não. Chegou um momento em que Celina se zangou, e vi sua raiva aumentar mais rapidamente do que de costume. Apanhou-me tão distraído, como se eu tivesse esquecido alguma coisa no fogo e de repente sentisse que estava derramando. Na pressa ela já havia pegado aquele lápis vermelho tão lindo, e eu sentia a madeira dele soar contra os ossos de meus dedos, sem me dar tempo de saber que ele me batia. Tinha de prestar atenção em muitas coisas que me assaltavam de uma vez; mas havia começado a aumentar uma dor que não tinha outro remédio senão atender em primeiro lugar. Vinha-me subindo uma insuportável vontade de chorar. Agüentava com todas as minhas forças, enquanto ia caindo sobre mim, nos ouvidos, na cara, na cabeça e por todo o corpo, um silêncio de pesadelo. De tudo aquilo que era o piano, o abajur e Celina com o lápis ainda na mão, me chegava um calor estranho. Naquele momento os objetos tinham mais vida que todos nós. Celina e minha avó tinham ficado quietas e cobertas com o silêncio que parecia vir do escuro da sala junto com o olhar dos móveis. No instante da surpresa, produzira-se em mim um vazio que em seguida começou a se encher com muitas angústias. Depois, eu havia feito um grande esforço para sair do vazio e deixar que se enchesse sozinho. Dei como que um salto para trás, retrocedendo no tempo daquele silêncio, e pensei que também elas estariam sendo recheadas com alguma coisa. Pareceu-me sentir que elas haviam olhado uma para a outra e que esses olhares tinham roçado as minhas costas e queriam dizer: “Foi preciso castigá-lo; mas a falta não é grave; além disso, ele está sofrendo muito”. Mas esta infeliz suposição foi o sinal para que alguém rompesse as represas de um rio. Foi então que o vazio se encheu com meu silêncio. Pela corrente do rio tinha visto vir – e não o reconhecera – um pensamento atrasado. Tinha chegado sigilosamente, se colocado perto e depois explodido. Como era que Celina me batia e me dominava, quando eu é que havia feito a secreta promessa de dominá-la? Fazia muito que eu tinha a esperança de que ela se apaixonasse por mim – se é que já não estava. E aquela suposição de um instante atrás – a de que teria dó de mim – foi a que atraiu e apressou este pensamento antagônico: meu propósito íntimo de dominá-la.

Tirei as mãos do teclado e apertei os punhos contra minhas calças. Ela quis, sem dúvida, evitar que eu chorasse – lembro-me muito bem que não o fiz – e me mandou continuar a lição. Fiquei muito tempo sem levantar a cabeça nem as mãos, até que ela tornou a se zangar e disse: “Se não quer continuar a lição, vai embora”. Continuou falando com minha avó e eu me pus de pé. Mal nos detivemos na porta da rua; a despedida foi curta, e minha avó e eu começamos a atravessar a noite. Logo após passarmos sob umas árvores grandes – as magnólias estavam apagadas – minha avó me ameaçou para quando chegássemos em casa: eu dera espaço para que Celina me castigasse e, além disso, não tinha querido continuar a lição. Pouco me importavam as surras que me dessem. Pensava que Celina e eu havíamos terminado. Nossa história tinha sido bem triste. E não somente porque ela fosse mais velha do que eu – teria uns trinta anos mais.

8 Comments

  • Guilherme 15/07/2006 at 03:19

    Será que o Brasil vai finalmente deixar de importar lixo dos EUA e começar a valorizar os bons escritores que temos na América do Sul?

  • Scylla C Fragoso 15/07/2006 at 11:08

    Em primeiro lugar não sei o que é URL. Sou um ignorante… Em segundo quero lembrar um poeta , acho que uruguaio tambem, chamado Amado Nervo. Ha muitos anos ouvi um programa na radio MEC sobre o mesmo e fiquei encantado e até hoje não esqueci uma de suas quadras:
    Antes de conocerla
    No hacia a la vida ninguna pregunta
    Ahora le hago una sola
    Me querrá?

  • Djalma Toledo 15/07/2006 at 16:54

    Melhor é o nosso Augusto dos Anjos :
    ” Enroscouse-lhe aos braços com tal gosto
    Mordeu-lhe a boca e o rosto “

  • Martina 15/07/2006 at 17:57

    Adorei o trecho do Felisberto Hernández, vou providenciar o livro. Obrigada por nos apresentar esse autor!

  • Gisele Lemper 15/07/2006 at 21:06

    OI… Passo para deixar o meu abraço aqui agora no todoprosa. 😉

  • Um uruguayo 15/07/2006 at 22:07

    O segredo sobre a existencia de Felisberto era tanto que nem no Uruguay ele é conhecido. Gostei muito

  • Raquel 16/07/2006 at 09:53

    Scylla C Fragoso
    muito linda a quadra (é assim que se diz?) de Amado Nervo, que eu não conheço.

  • cristiano mota 05/12/2007 at 12:45

    Li o Cavalo Perdido. De fato, é quase uma novela e aparentada da prosa poética de Lezama Lima, especialmente nos exercícios de “Fugados” e “Auto-retrato poético”, em bela tradução de Josely Vianna Baptista.
    Leiam Hernández, leiam Lezama que a alma aumenta (como diria Guimarães Rosa).

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