Gore Vidal na igreja vazia

13/11/2006

Nossa adorável, vulgar e humaníssima arte (o romance) está num de seus finais, se não estiver no fim. Mas isso não é motivo para não querer praticá-la, ou mesmo lê-la. De qualquer modo, como sacerdotes que já se esqueceram do sentido das preces que entoam, continuaremos por um bom tempo falando de livros e escrevendo livros, fingindo não notar, enquanto isso, que a igreja está vazia e os paroquianos foram embora para algum lugar a fim de venerar outros deuses, quem sabe em silêncio ou com novas palavras.

A previsão pessimista sobre o futuro do romance é do escritor americano Gore Vidal, 81 anos, que está lançando nos Estados Unidos um novo livro de memórias, Point to point navigation: a memoir. Esse alarmismo soa batido em tempos internéticos, mas ganha frescor quando se sabe que o trecho faz parte de um ensaio, French letters, publicado em 1967. O prognóstico sombrio de Vidal é lembrado pelo resenhista Larry McMurtry em seu longo artigo (acesso livre, em inglês) sobre o novo livro do escritor para a última edição do “New York Review of Books”.

Em 1967 eu tinha cinco anos. Hoje, aos 44, constato que a igreja, sem dúvida esvaziada, ainda tem lá seus gatos pingados pelos cantos.

23 Comments

  • BCK 13/11/2006 at 19:29

    E séculos atrás, na época que saber ler era privilégio para pouquíssimos? A literatura também estava em tempos de crise?

  • lao 13/11/2006 at 21:48

    Se diz isso há tanto tempo..e no entanto, nunca se escreveu tanto, se publicou tanto, se vendeu tanto..
    Qualidade? Humm..quem sou eu para julgar?
    Posso apenas afirmar que sou um fiel devoto..e que Deus tenha piedade de minha alma..
    😛
    abrs,

  • Saint-Clair Stockler 13/11/2006 at 23:01

    A Literatura – ao menos a BOA Literatura – vai se tornar cada vez mais coisa para meia dúzia de connaissants. Uma coisa para elites. E, quer saber? não sei se isto é necessariamente ruim. Boa literatura sempre foi coisa das elites. É uma ilusão achar que o povão (essa entidade difusa) alguma vez no passado leu ou alguma vez no futuro lerá Machado de Assis, Proust & Cia. Por mim, está bom do jeito que está. Quem quiser que leia só Paulo Coelho e Sidney Sheldon – que, aliás, eu também leio. Mas leio também Proust e outras coisinhas um pouco mais sofisticadas. Parafraseando Madade Blavatsky, que o disse em referência às variadíssimas religiões, existem tipos variados de literatura no mundo para atender aos diferentes tipos e níveis de leitores. Que cada um leia o que lhe apetecer ou o que estiver ao seu nível.

  • Hunter 13/11/2006 at 23:36

    o Vidal nessa rame-rame e o Tom Wolfe só ria…

  • Voltairine 14/11/2006 at 00:45

    Desde quando, Saint-Clair Stockler, a BOA Leitura , como voce diz, nao eh coisa de elite , de connaissants?

  • Carmela 14/11/2006 at 12:53

    Acho que a BOA literatura é ler o que se gosta e quando quiser. E para pertencer a esta “elite” basta ser alfabetizado. (O que significa dizer que eu serei amiga de quem lê apenas Paulo & Sidnei.)

  • Pedro 14/11/2006 at 13:06

    Como diria um certo professor que tive, o livro ainda é a maior invenção da humanidade. Não deixo de me maravilhar com Ipode, Internet, computadores e hiperlinks, mas chega sempre uma hora em que minha paciência se esgota, e o que eu quero é virar uma página depois da outra, e ler de cima para baixo. Quer coisa mais genial do que isso? Acho que nem a Apple inventaria uma interface tão inteligente. Com um suporte desses, basta o sujeito escrever direitinho e ter um mínimo de criatividade. O dia em que inventarem coisa melhor, aí esse papo de fim do romance pode ter algum sentido.

  • Jonas 14/11/2006 at 13:13

    Pois é BCK, hoje todo mundo fala na decadência da leitura. Decadência em relação a quê? Quem vê pensa que Dostoiévski ou Proust foram best-sellers em seu tempo. Lia-se muito pouco também naquela época, ora.

    E Saint-Clair, também acho que a literatura é “coisa para meia dúzia de connaissants”, mas acho que o termo “elites” não é o mais correto. Dá uma conotação financeira, e eu não acho que as classes mais altas necessariamente leiam melhor. O que há é uma elite intelectual, de poucos e que não são tão favorecidos assim. Quer dizer, eu, pelo menos, não sou. Não sei de vocês, hehe.

  • Roberto 14/11/2006 at 14:38

    Ok, pessoal, sempre se leu pouco, mas a verdade é que antigamente a leitura tinha muito mais peso na vida cotidiana do que hoje. Não sei se isso é bom ou ruim – sei que é. E de fato, como disse o Bernardo Carvalho, quem gosta de literatura hoje em dia se assemelha a uma aberração.

  • Simone 14/11/2006 at 15:48

    Depois que inventaram a televisão, os burros puderam trocar os folhetins, seu entretenimento corriqueiro anterior, por ela, que dá menos trabalho ainda à mente. E seria muito bom se a partir disso toda a burrice se concentrasse na TV, mas continua havendo “besta”-seller. E programas de TV inteligentes, pasme.

  • Saint-Clair Stockler 14/11/2006 at 17:45

    Voltairine: nunca. É justamente o que falei: SEMPRE foi coisa de elites (veja o que quero dizer com “elites” mais abaixo).

  • Saint-Clair Stockler 14/11/2006 at 17:48

    Carmela, desculpa, mas não acho que “boa literatura” seja “ler o que se gosta e quando quiser”. Isso é ler, só. Ler qualquer coisa (também leio porcarias e não as chamo de “boa literatura”). Eu leio Sidney Sheldon mas sei que não é “boa” literatura, mas naquilo que Sheldon se propõe ele é um mestre, e seus livros então podem ser chamados de excelentes. Mas não são “boa literatura” não…

  • Saint-Clair Stockler 14/11/2006 at 17:55

    Jonas: estou justamente usando o termo “elite” no sentido intelectual, não no financeiro. Os ricos lêem tanto quanto os pobres, ou seja, nada (embora gostem de ler Danusa Leão e Paulo Coelho…
    Enfim…)

    É uma ilusão achar que só porque o cara tem dinheiro e estudou em bons colégios ele é um leitor. Não é. As elites financeiras podem até comprar livros e metê-los na estante, mas não os lêem.

    Não faço parte da elite financeira deste país (estou na outra ponta) mas me considero, sim, fazendo parte da elite intelectual – o que não quer dizer porra nenhuma. Quem tem o Poder, quem manda neste latifúndio, é quem não lê. Mas veja o exemplo do Mario Vargas Llosa: concorreu às eleições presidenciais do Peru e perdeu pro Fujimori (e deu naquilo que deu). Pior fomos nós: tivemos o Sarney e o FHC. Intelectuais, blergh. Quando no P(h)oder, só fazem merda.

  • Carmela 14/11/2006 at 18:08

    Saint Claire, é boa literatura pra quem está lendo! 😛
    Tens razão, me expressei mal, mas o que eu acho que quis dizer é que, não seria melhor ler isto (porcarias) do que nada? Meu professor da Oficina Literária jura que não (inclusive diz que Harry Potter e afins são péssimos para a formação do público infanto-juvenil, que irá gerar leitores de Códigos Da Vincis), mas eu tenho minhas dúvidas. Tanto é eu não concordo com o que foi dito acima e acho que hoje em dia se “lê mais” (o que deve de alguma forma ajudar a “ler melhor”), até por causa da internet – as pessoas meio que se “acostumaram” a ler, se é que se pode usar este termo. Sei lá.

  • Fabio Negro 14/11/2006 at 18:53

    Trabalho para este mês, classe: procurar textos do século XVII que decretam o fim do romance.

    Quem achar 40 textos primeiro ganha o novo videogame da Nintendo.

  • anrafel 14/11/2006 at 19:36

    Isso reporta a outra questão: como despertar ou incentivar o gosto pela leitura nas crianças e adolescentes? Um pouquinho de orientação (escola) e um pouquinho de “o importante é ler” (em casa). Grosso modo, é isso aí.

    Ilustro com uma situação pessoal. Tem uma escritora chamada Meg Cabot, que escreveu meio mundo de livros com o nome princesa, princesa isso, princesa aquilo. Umas 300 páginas cada. Eu fico felicíssimo quando minha filha de 12 anos pega um deles e “mata” em 2 ou 3 sentadas. Pra mim é um bom começo.

  • Saint-Clair Stockler 14/11/2006 at 20:00

    Carmela, também acho que hoje se lê mais. Esse negócio de dizer que Harry Potter atrapalha na formação do leitor é coisa do Harold Bloom, porque segundo ele quem começa lendo Harry Potter NÃO chega a Dostoievski. No máximo, fica ali pelo Dan Brown. Também tenho minhas dúvidas. Até porque Harry Potter não é tão ruim, ao meu ver. E duvido que o Bloom tenha lido a J. K. Rowling pra falar. Acho que é muito tendencioso afirmar que quem começa com literatura ruim vai ficar o resto da vida na literatura ruim, o hábito de leitura é muito mais errático e flutuante do que esses especialistas sugerem. Quem começa lendo mal fatalmente vai topar com algum livro bom em algum momento e a partir daí o que vai acontecer é imprevisível. Ler não é uma equação matemática.

  • Saint-Clair Stockler 14/11/2006 at 20:01

    Anrafel, não deixe que te iludam: ler o Harry Potter também é um bom começo pra sua filha, apesar do que os “doutores” da literatura, que se sentem donos dela, berram aos quatro ventos.

  • Leitora Sensata 15/11/2006 at 13:55

    A arte é elitista em geral, e não tem como ser diferente nem por que ser diferente. Além disso, é uma experiência individual. Então, que cada um leia o que lhe apetecer. Ou, se preferir, nem leia. Campanhas demagógicas jamais conseguirão ampliar o gosto pela literatura. Podem, no máximo, expandir o acesso à leitura. Mas LITERATURA e LEITURA são coisas diferentes.

    Enfim, misturei um monte de assuntos e não estou com paciência de ordenar.

    Adeus.

  • João Paulo 16/11/2006 at 06:51

    Bem, acho viu Stockler, que ser elite intelectual é bem mais possível do que ser elite financeira. Pelo menos fica-se mais no terreno da escolha e da determinação, do que a outra eleite (financeira) que exige trabalho, competência e sorte. Então é possível ser elite intelectual, como opção.
    Concordo que a televisão contribuiu muito para a preguiça de ler e não contribuiu ou pelo menos não substituiu esta falta, com a qualidade que seria de desejar.
    Mas para quem ainda quer fazer parte da elite intelectual e para quem estes livros ainda estão caros, existem bibliotecas que fazem empréstimos e até locadoras onde se lê baratinho. Quando eu era estudante tirei muito livro na biblioteca em São Paulo para ler em casa. E até hoje, aos 37 anos e nem tão necessitado assim, ainda recorro se precisar, à uma biblioteca pública.

    Caramba, acabei de não concordar e nem discordar de você, o que acho que é um feito. rsrs. Abraços Stockler.

  • Jonas 16/11/2006 at 16:13

    “me considero, sim, fazendo parte da elite intelectual – o que não quer dizer porra nenhuma”

    é por aí..

  • vanusa 16/11/2006 at 16:23

    Nao dou crédito pra quem disse que quem lê Harry Porter vai chegar, no máximo, até Daw Brow (que nao tive o desprazer de..). Eu, depois da coleção Vagalume, corria pras bancas pra adquiir minhas Júlia, Sabrinas e Biancas, no comecinho da adolescencia. Aí descobri Sheldon e Hobbins, até ser apresentada a coisa infinitamente melhor. Porque é assim, gosto pela leitura vc adiquire lendo qq coisa, até bula de remédio, pq o hábito faz o monge. Cheguei a Dostoievsk, com escalas em outros gdes autores, assim. Alguns eu descobria por acaso, outros eram indicados e qtos eu não devo desconhecer ainda. Erro é achar que a gente já nasce lendo boa literatura. Vivas as Sabrinas, aqueles livrecos de banca de jornais com historinhas melosas de ” mulherzinhas” , que me fizeram continuar lendo por toda vida

  • Saint-Clair Stockler 16/11/2006 at 19:10

    João Paulo: você disse tudo. Eu acho que só não lê quem não tem o hábito ou não quer. Os livros são realmente caríssimos, mas há alternativas. E as bibliotecas são uma das melhores. Sebos também são.

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