Homenagem a Autran Dourado, ainda que tardia

08/10/2012

Autran em foto de Ana Carolina Fernandes/Folhapress

Prêmios domésticos anunciados, Feira de Frankfurt à beira de começar, Nobel de literatura marcado para esta quinta, para mim não houve notícia literária mais importante enquanto eu estava de férias do que a morte, dia 30 de setembro, aos 86 anos, do escritor mineiro Autran Dourado. O autor de livros como “A barca dos homens”, “Ópera dos mortos” e “O risco do bordado” andava meio esquecido faz tempo. Como disse em um afetuoso artigo no último Sabático o crítico Silviano Santiago, que há alguns anos acompanhou o vencedor do Prêmio Camões de 2000 numa viagem a Sintra: “Pouco reconhecido no Brasil, Autran era recebido em Portugal com as honras merecidas”.

O merecimento não se discute: trata-se (verbo no presente, pois certas coisas não morrem tão facilmente) de um romancista de peso, como não há de sobra na literatura brasileira. Sob a temática mineira interiorana que hoje corre o risco de parecer antiquada aos olhos de um país maciçamente urbano, havia um leitor crítico de clássicos e modernos e um ficcionista que refletia com lucidez sobre o seu ofício. Por isso, o livro que escolho para destacar aqui como homenagem póstuma não é um de seus romances, que li décadas atrás, mas o “ensaio-fantasia” (palavras suas) em que ele discorre com generosidade sobre seu processo de criação, chamado “Uma poética de romance”, de 1976 (relançado pela Rocco em 2000), que de vez em quando revisito. Alguns trechos em forma de adeus:

Os nossos romancistas aceitaram passivamente a tese que lhes foi imposta, de que deviam ficar quietinhos, sempre calados, teorizar nunca, discutir jamais o seu fazer literário (…). Tal função analítica e propedêutica devia ficar a cargo dos críticos e professores, estilistas e estruturalistas, semantistas e filólogos, teóricos e cientistas, laboratoristas, toda essa fauna preciosa e necessária. Diante de tal tutela castradora (dadá-pra-ganhar-vintém), os nossos romancistas ficam parecendo aqueles meninos de antigamente vestidos à marinheira, as pernas cabeludas de fora, na mão direita o balão de gás colorido, na esquerda a mão protetora do preceptor.

É preciso ter grande modéstia e humildade, a humildade dos criadores, para reconhecer a excelência das coisas, a importância mesmo das banalidades, porque o substantivo é banal, ao contrário do adjetivo. A palavra pode ser rara, mas a coisa que ela designa é sempre banal – coisa. (…) O golpe que Valéry pretendeu dar no romance quando afirmou que seria incapaz de escrever “a marquesa saiu às cinco horas” não me causa nenhuma mossa, pelo contrário. Acho a frase de uma precisão, de uma essencialidade, e portanto beleza, raramente alcançadas: nada lhe falta, nada lhe sobra, é uma frase só movimento. Assim gostaria de começar um romance.

Se alguém lhe diz ou lhe aponta um defeito qualquer, a repetição, por exemplo, você tem duas coisas a fazer: 1º) obedecer ao crítico e não repetir; 2º) repetir de maneira tão radical que o que podia ser um defeito possa vir a tornar-se uma virtude.

Quem lida, como eu (…), com técnicas transbordantes, como é o caso do ‘stream-of-consciousness’, tem que adotar um modelo, um desenho nítido, a fim de não cair no arbitrário, no absurdo mesmo da técnica associativa, na escrita automática, no exercício surrealista, na facilidade. E é neste sentido que a técnica da associação de ideias usada pelos romancistas é diferente da técnica da associação de ideias usada pelos psicólogos.

Aprendi, por exemplo, que escrever bem nada tinha a ver com escrever romance. Faça uma bela prosa, uma parte de mim dizia. Não, seja apenas um romancista, um outro eu gritava dentro de mim. Não, eu não poderia me permitir escrever bem, compor uma prosa enxuta, de bom gosto e sóbria, equilibrada, tentação de todo escritor mineiro. Se quisesse realizar o meu projeto de escritor, teria de buscar a minha linguagem de romancista (…). Eu tinha de correr mesmo o risco do lugar-comum, do aparente mau gosto e do desequilíbrio, a fim de conseguir uma linguagem mais compromissada com a narrativa do que com a boa prosa, coisa já tradicional na língua de Portugal e do Brasil.

Se os filósofos nos seus melhores momentos são criadores e poetas, o inverso não podemos dizer de poetas e criadores: os seus piores momentos são aqueles em que tentam ser filósofos (…). Se o romancista emprega as técnicas das ciências na feitura dos seus personagens e do livro, ele o faz preocupado com a arquitetura, com a estrutura e a mecânica do romance. O romancista precisa muito pouco dessas ciências, com um tiquinho de pólvora faz uma girândola, com um gritinho apronta um escarcéu.

6 Comments

  • Rosängela Maria 08/10/2012 at 19:52

    Olha so que final delicioso…
    “O romancista precisa muito pouco dessas ciências, com um tiquinho de pólvora faz uma girândola, com um gritinho apronta um escarcéu.”

    Da ate vontade de ler o texto todo outra vez ( o que nao seria nenhum sacrificio… afinal o que tem de resquicios de polvora ali…

  • Rosängela Maria 08/10/2012 at 19:55

    Verdade. Somos mais o país das Iracemas. Tenho dito.

  • mdv 08/10/2012 at 21:11

    E se não só tentar, mas conseguir ser filósofo? Isso, sim, seria o inverso. Tolstoi?

  • Ivan Aragão 16/10/2012 at 10:46

    Parabéns pela lembrança e homenagem. Adoro todo trabalho de Autran que ao meu ver teve pouca visibilidade comparada com sua genialidade!

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