Inesquecíveis, mas esquecidos: a revolta dos sem-teto

16/02/2011

Nesses quase cinco anos de Todoprosa, desde sua estreia na extinta revista eletrônica NoMínimo, a hoje adormecida seção “Começos Inesquecíveis” foi sem dúvida a mais marcante, a que seduziu mais leitores e se multiplicou em mais links pela blogosfera. Deve haver razões profundas para que as aberturas lapidares de livros – e, em uns poucos casos, de contos – tenham tanto apelo. Para o aspirante a escritor, acredito que isso se relacione com o mito de que basta um bom primeiro passo para que todas as outras palavras se encaixem no lugar certo e o livro saia sem esforço, o que é obviamente um delírio. Mas deixemos a metafísica dos inícios para outra ocasião.

Hoje é dia de acertar contas com alguns começos inesquecíveis que nunca apareceram nos “Começos Inesquecíveis”. Não vou pedir desculpas por isso: num universo que tende ao infinito, a ideia sempre foi fazer recortes assumidamente pessoais – uma seleção dos mais inesquecíveis entre eles pode ser conferida aqui, aqui e aqui. Para tanto, descartei as buscas no Google e fiquei apenas com minha experiência de leitor e, principalmente, como forma de reavivar memórias, com minhas estantes. Experiência e estantes que, mesmo não sendo exatamente pequenas, têm dimensões liliputianas diante do vasto mundo. Mas era essa a graça do negócio.

Mesmo assim, ao receber por email do amigo Humberto Werneck, escritor e jornalista, a seleção (também pessoal) abaixo, me dei conta de que o recesso da seção será mais pacífico se dermos acolhida a alguns espécimes que, tendo ficado sem-teto nos últimos cinco anos, têm o direito de se sentir injustiçados. Todos aparecem no blog pela primeira vez – alguns por não fazerem parte da minha experiência de leitor, da minha biblioteca ou de ambas, mas boa parte por puro esquecimento mesmo.

Não foi Aldir Blanc quem disse que às vezes, que coisa incrível, esquecemos o começo inesquecível?

Começou assim. (Louis-Ferdinand Céline, “Viagem ao fundo da noite”)

Todos vocês conhecem essa intratável melancolia que se apossa de nós ao recordarmos os tempos felizes. (Ernst Jünger, “Sobre as falésias de mármore”)

Eu tinha vinte anos. E não me venham dizer que essa é a mais bela idade da vida. (Paul Nizan, “Aden, Arábia”)

Na primeira vez que viu Berenice, Aurélien achou-a francamente feia. (Louis Aragon, “Aurélien”)

Barcelona é uma cidade de 600.200 almas, e tem apenas um mictório. (Henry de Montherlant, “La petite infante de Castille”)

Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência que, no primeiro ano na escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada. (Philip Roth, “Complexo de Portnoy”)

Era um homem que comia dedos de senhoras; não de senhoritas. (Carlos Drummond de Andrade, “O gerente”)

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. (Clarice Lispector, “A maçã no escuro”)

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. (Cyro dos Anjos, “O amanuense Belmiro”)

Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso de nossos costumes. (Murilo Rubião, “Os dragões”)

3 Comments

  • Carlos 16/02/2011 at 13:22

    Olá Sérgio, muito legal compartilhar os seus começos, ó, abaixo seguem os meus começos prediletos:”Dondekevemtantofedô, Gabriel se perguntou, irritado.” (Zazie no metrô, Raymond Queneau).
    “- Então, senhor Klauser, Mami Jane tem de morrer?”. (City, Alessandro Baricco)
    “Dá uma história? Se dá, começa há três anos.” (Respiração artificial, Ricardo Piglia).
    “No dia que Inni Wintrop atentou contra a própria vida, uma ação da Philips valia 149,60.” (Rituais, Cees Nooteboom).
    “Onde agora? Quando agora? Quem agora? (O inominável, Samuel Beckett).
    “Muitas vezes na vida já fui chamado de traidor.” (Pantera no porão, Amós Oz).
    “Lá, em dezembro, ao contrário, a noite chega depressa”. (A pesquisa, Juan José Saer).

    Abraço, @xroeder .
    http://www.carloshenriqueschroeder.com.br

    • sergiorodrigues 17/02/2011 at 22:22

      Valeu pelos começos, Carlos. Legal te ver por aqui.

      Curiango, sumidíssimo, apareça mais.

      Abraços.

  • pedro curiango 16/02/2011 at 14:28

    Em 1967 foi criada, no mundo anglo-saxônico, uma revista chamada “NOVEL – A Forum on Fiction.” Entre seus responsáveis estavam Wayne Booth, Paul De Man, Peter Demetz, Henri Peyre, Ian Watt. Entre seus colaboradores: Jonathan Culler, Leslie Fiedler, Gerard Genette, Wolfgang Iser, Fredric Jameson, Frank Kermode, Joyce Carol Oates, Edward Said, Tzvetan Todorov, Ian Watt, Raymond Williams, Peter Brooks, Malcolm Bradbury, Leslie Fiedler, Samuel Hynes, Bruce Morrissette. Num dos seus primeiros números foi publicado um longo e excelente artigo sobre a primeira frase empregada em romances, considerando-a como resumo de tudo que o autor iria desenvolver. Não me lembro de mais detalhes, mas a idéia parece interessante. E serve como uma luva para entender, por exemplo, a frase inicial de “”Ana Karênina.” [A primeira frase da “A Busca,” de Maria Julieta Drummond de Andrade, por seu reflexo no que diz Otávio Melo Alvarenga várias décadas no futuro, é extremamente curiosa.]

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