‘Literatura é o contrário de informação’

31/10/2012

Nos estudos literários, e não só neles, as “humanidades digitais” têm sido um dos campos mais cheios de energia inovadora dos últimos anos. No instigante “A literatura vista de longe”, lançado no Brasil pela Arquipélago Editorial em 2008, o crítico italiano Franco Moretti, um dos pioneiros da área, aplica à história da literatura técnicas de análise quantitativa que até então sentiam-se mais confortáveis nas ciências exatas. Em vez do close reading, da leitura atenta, por que não compreender o fenômeno das letras por meio de uma leitura feita deliberadamente por alto, à distância, em busca de padrões? Hoje a ocorrência de uma palavra ou conceito pode ser mensurada em segundos dentro da obra de um ou vários autores, de um ou mais países, de uma época, ao longo da história. Estamos falando, claro, de mais um subproduto cultural da revolução digital, promovida no caso pelo tsunami de digitalização e indexação de livros iniciado por um pequeno tremor de terra ocorrido nos laboratórios do Google em 2002. Em um ensaio publicado no “Los Angeles Review of Books”, o escritor e crítico canadense Stephen Marche conta essa história e, sem apelar para o saudosismo, especula sobre os limites de seu alcance. Traduzo alguns trechos abaixo:

A “leitura à distância” – expressão que Franco Moretti cunhou há mais de uma década – é o caminho mais promissor [das humanidades digitais], pelo menos na superfície. O processamento de dados tem potencial transformador, mais pela mudança de atitude que envolve do que por qualquer iluminação real que tenha gerado. Algumas de suas generalizações lexicográficas têm sido notavelmente astutas como filologia, criando n-gramas escaláveis de sequências de palavras ao longo do tempo. O problema começa quando essas generalizações são aplicadas a questões propriamente literárias. Um estudo recente da Academia Nacional de Ciência, “Padrões quantitativos de influência estilística na evolução da literatura”, argumentava que os escritores contemporâneos têm menos familiaridade com os clássicos que os de épocas passadas. Foi imediatamente ridicularizado por outros acadêmicos e pela imprensa.

É fácil ver por quê. Mesmo um exame relativamente sumário das premissas fundamentais do argumento revelam o caráter cediço das palavras que sustentam as equações. O que é “clássico”? O que é “influência”? Semelhanças de linguagem são a melhor forma de estabelecer semelhanças entre escritores? O problema com a “leitura à distância” é, naturalmente, a distância envolvida.

Mas há um problema mais profundo com as humanidades digitais em geral, uma premissa fundamental que perpassa todos os aspectos de sua metodologia e que não foi considerada de modo adequado em sua nascente teoria. A literatura não pode ser tratada expressivamente como informação. O problema é essencial, não superficial: literatura não é informação. Literatura é o contrário de informação.

A informação precede a literatura escrita. Os primeiros exemplos sumérios de escrita são inventários comerciais de cerveja e cevada. Mas “O épico de Gilgamesh”, a primeira narrativa, é a história do “homem que exergava as profundezas”, um herói em contato com o inefável. A primeira obra literária a ter sobrevivido tem como tema o que não pode ser processado como informação, aquilo que transcende os dados.

(…)

O sentido é cediço. O sentido cai aos pedaços. O sentido é frequentemente feio, cozido com os ingredientes da fraqueza e do fracasso. É tão humano quanto o corpo, cheio de reentrâncias e sujeito a doenças. Viver com ele requer coragem e uma certa medida de conforto em meio à sujeira. Fugir da limpeza da tecnologia, ainda que fosse desejável, não é uma alternativa que esteja à nossa disposição. O desmantelamento dos volumes impressos já se deu, os textos de todo o mundo são páginas lançadas espetacularmente ao vento. Teremos que juntá-los todos de novo, de alguma forma. Mas a possibilidade de uma biblioteca global gratuita, instantaneamente acessível, profissionalmente verificada e explicada, é mais do que apenas um sonho. Por meio da perfeição de nossas máquinas limpas, logo seremos capazes de ler qualquer coisa, em qualquer lugar, a qualquer hora.

A compreensão continua sendo um produto artesanal.

4 Comments

  • Saraiva 01/11/2012 at 10:48

    Pois é. Literatura nunca foi meramente informação e comunicação. O problema foi colocá-la no currículo escolar, pois a escola e o que ali se ensina a cada dia que passa se transforma em mero conteúdo e informação.

  • Léo Mittaraquis 03/11/2014 at 10:46

    Antes de tudo, meus sinceros cumprimentos, Sérgio Rodrigues. Tenho acompanhado seu blog (ou sua coluna), atividade altamente compensadora (no sentido técnico, funcional) e prazerosa (pela pura fruição). Como sou um daqueles chatos de galocha, me atrevo a comentar sobre o texto dos mais interessantes, este de Stephen Marche. Bastaram “alguns textos abaixo” para, mais uma vez, o fio de Ariadne se fazer longo e forte o bastante para me guiar pelos intermináveis labirintos configurados pela constante angústia (sem frescuras)que, em silêncio, sinto assolar minha alma ao longo da senda a que se propõe seguir um pretenso candidato a escritor como eu. Ótimo texto (trechos) mesmo. Mas, algo me chamou a atenção: “A informação precede a literatura escrita” (suponho fiel tradução do original). Perdoe-me a ignorância, mas, o que seria a literatura não escrita? Muito obrigado.
    Relatos transmitidos oralmente, Léo. Obrigado pela leitura, apareça sempre.

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