Ludlum, a literatura como crime

22/05/2006

A maior desonestidade literária do nosso tempo não é o plágio, essa velha praga que pode estar ganhando fôlego renovado na era digital e que a jovem copiadora de Harvard trouxe recentemente para o centro das conversas (veja nota abaixo). Pior do que isso, a meu ver, é o escritor-franquia, o escritor-marca, que nos últimos anos já não escreve sequer uma linha de seus livros. Como, entre outros, o best seller Robert Ludlum.

Pelo menos em tese (pois há indícios de que alguns já não fazem nem isso), o escritor que não escreve se limita a conceber suas obras. Imagina um personagem como – digamos, num rasgo de imaginação – um agente da CIA. Em seguida, se sobrar tempo, talvez bole um fiapo de enredo de três linhas. O resto, ou seja, a tarefa lenta e penosa de escrever o livro, é trabalho para a “equipe” da dita celebridade.

Esse sistema de franquia já operou pelo menos um prodígio quase sobrenatural. Ludlum morreu em 2001 e continua despejando nas prateleiras mais títulos do que a maioria dos escritores no auge da saúde. Edições póstumas? Não. Os livros são inteiramente póstumos, foram escritos depois que seu “autor” morreu.

O último deles, The Ambler warning, saiu nos EUA no segundo semestre do ano passado e traz na capa, além do título, apenas o nome de Ludlum. (Em outros livros, andou aparecendo um “co-autor”, mas descobriu-se que isso prejudicava os negócios. Assim, fica só o defunto mesmo e tudo bem.) A Amazon informa, singelamente, que o livro é obra de um escritor sem nome – como as pessoas que a polícia de São Paulo matou.

Gayle Linds, uma das operárias da palavra do escritório de Ludlum, declarou certa vez, aparentemente sem ironia, que seu trabalho é “preencher as lacunas” depois que “Bob pensou num personagem fascinante”. Pois é: titã da literatura, Bob só precisava pensar em “personagens fascinantes”, motivo suficiente para que seu nome aparecesse e continue aparecendo em letras garrafais na capa de livros que ele não poderia ter escrito porque estava, bem, morto demais na ocasião. Quantos “personagens fascinantes” Bob terá concebido antes de morrer? Ainda abastecerá o mundo de títulos inéditos no século XXII?

Eu sei que os consumidores de Ludlum e congêneres devem estar se lixando para as implicações éticas dessa história, para a rasteira que ela aplica nas idéias de autoria e honestidade intelectual. Talvez, para esse leitor, a essência da literatura esteja mesmo num “personagem fascinante” e não escondida em algum lugar inacessível na mata fechada do texto. Isso não diminui minha sensação de ser testemunha de um estelionato tolerado e até aplaudido, um crime que compensa como poucos.

19 Comments

  • André Pessoa 22/05/2006 at 11:38

    Pôxa, um dos melhores livros de espionagem que eu li na vida era do Robert Ludlum. Fiquei abalado agora… :(

  • Sérgio Rodrigues 22/05/2006 at 11:47

    Qual era o livro, André? Talvez ele ainda escrevesse na época.

  • P. Osrevni 22/05/2006 at 12:51

    Caraca, que história!!! Cada coisa bizarra que acontece nesse mundo!!!
    Vou passar a semana inteira pensando nisso. Com esse domínio absoluto do marketing e do ultracapitalismo, a arte está sufocada e precisa encontrar meios de escape. Quais?!

  • Juca Azevedo 22/05/2006 at 13:09

    O Tom Clancy também faz isso. Não sei se os livros do Jack Ryan são escritos assim, mas os da série OpCenter são escritos com um co-autor que faz tudo sozinho, e o Tom Clancy bota o nome dele junto pra turbinar as vendas.

  • Nouswe Icihere 22/05/2006 at 15:20

    Reza a lenda que o grande Alexandre Dumas (pai) também chefiava uma “redação” que escrevia por ele. Lementável. Mas pelo menos Dumas deixou obras que perduram. Já dos Ludlums da vida não sei se se pode dizer que vá ocorrer o mesmo. Só nossos descendentes saberão…

  • Shirlei Horta 22/05/2006 at 15:35

    No Brasil isso já existiu. Não sei se ainda existe. É óbvio que eu repudio esse tipo de coisa, mas a “equipe” vive disso.

  • Sérgio Rodrigues 22/05/2006 at 15:54

    Shirlei, no Brasil? Com ficção? Isso é sensacional, mulher. Dê os nomes, por favor.

  • Edson Joanni 22/05/2006 at 15:55

    E Michelangelo já fazia isso na pintura, ora pois!

  • Leticia Braun 22/05/2006 at 18:23

    É Shirley, acho que ainda existe, e fazem um suceeeeeeso!!!! Mas, concordo com você, tem de pensar na equipe. E isso, acho, não desmerece ninguém, já que esses sucessos de que falei não escondem o método de trabalho.

  • Joao Gomes 22/05/2006 at 18:25

    Pois é… o seculo XXI , no cinema segue com uma série de “variacoes” e a literatura deste seculo continua nas repeticoes com “quipes de redacao”. Escritor virou entao uma grife? Uma commodity?
    Ainda bem que existe os Escritores que so contam mesmo com seus neuronios, vida e imaginacao. Ainda existe vida inteligente na terra. NoMinimo é um exemplo Maximo!

  • Peter Blake 22/05/2006 at 19:31

    Pera lá, pera lá. Esses caras escrevem sempre o mesmo livro. O tal “personagem fascinante” é sempre o mesmo. Ele só era “fascinante” no primeiro livro da franquia. Depois é só repetição.

    O mesmo acontece com esses autores de best sellers de paperback, como o Clancy, Grisham, etc. Nem é nada novo. Me lembro do inesquecível Louis Lamour (quem?), que deve ter escrito (ou sua equipe) uns 500 livros de western. E da inefável Barbara Cartland, com seus 600 romances sacarínecos.

    E pra falar a verdade, não faz nenhuma diferença. Ler um livro do Clancy é ler sempre o mesmo livro (personagem, estrutura, situações, etc), mas a diversão é garantida. Tem seu valor, dependendo da situação. Perdido em um aeroporto no meio dos EUA, por exemplo.

  • marco 22/05/2006 at 22:24

    Caro Sérgio,

    Ao que parece Robert Lundlun é mais uma dessas pessoas a quem não se permite morrer, ir para o reino dos céus, queimar no inferno, entediar-se no limbo, atravessar o rio de carona no barquinho de Caronte, arriscando-se quem sabe a levar umas duplas mordidas de Kerberus, até conseguir finalmente beber água do Lete e se deixar docemente esquecer que um dia foi humano e viveu em um vale de lágrimas.

    Tampouco é permitido a pessoas como Lundlun ir para os felizes campos de caça aonde os bisões são fartos e lentos, chegar ao reino de Odin aonde a guerra nunca tem fim e ser recebido pela Walquiria mais bela com um beijo na boca, penetrando assim num Walhala tão quente e molhado que nem Wagner ousou imaginar, provar todas – eu disse todas – as virgens de Alá, ou alcançar a terra prometida aonde corre o leite e o mel e o cordeiro bebe ao lado do leão, na maior.

    A Jim Morison pelo menos se permite que, deitado em seu leito derradeiro, produza pálidos e contemplativos euros d’ além – ao preço um ticket de excursão em cemitério parisiense – mas aos outros nem tanto.

    Assim é que Lundlun pertence a raça dos zumbis produtivos em tudo e por tudo igual aos Elvis Love Me Tender, Cazuzas Exagerados, Airtons Sennas do Brasiiil, e o Incrível Consultório do Dr Fritz, furiosamente repsicografado pelas Lusty Ladies do best seller esotéricamente sem alma ou caráter.

    Nessa linha, pelo andar do cortejo, não duvido nada que Tom, Vinícius, Mané Garrincha, Cássia Eller e Glauber Rocha, sejam arrancados de seus túmulos e colocados para trabalhar duro novamente, pois que em nossos tempos espantosos morte is Money. Periga mesmo que Dana de Teffé, ainda que em ossada, se converta em coisa viva e lucrativa, de preferência em Código, em uma livraria perto de você, caro leitor.

    Kerberus, os rabos entre as pernas, a cada dia mais humilhado e atropelado pela multidão de mortos voltando em massa para o mercado idem, vai acabar cobrando 10 % de comissão dos lucros para fechar de vez seus olhos horrorosos.

    Coisa mais triste, Sérgio.

    abs,
    ma

  • Sérgio Rodrigues 22/05/2006 at 22:43

    Bravo, Marco. Coisa triste, concordo. Agora, trazendo a conversa das mitologias estrangeiras aqui pro nosso canto, seu texto me lembrou o ‘Incidente em Antares’ do Erico, com aquele cortejo de mortos insepultos. E essa lembrança não tem nada de triste. Forte abraço.

  • André Pessoa 23/05/2006 at 14:25

    Sérgio, o livro era “O Mosaico Parsifal”. Muito bom. Mas mesmo sendo da “fase viva” dele, esse tipo de coisa aí deixa a dúvida na cabeça do leitor.

  • Shirlei Horta 23/05/2006 at 23:24

    No Brasil, com certeza, pelo menos um. A equipe fazia pesquisa histórica, em vários aspectos, e somava o texto. O autor fez a “edição” final. Quando Chico Buarque lançou Budapeste algumas pessoas se sentiram retratadas.

  • Peter Blake 24/05/2006 at 20:42

    O quê? O Chico? Isso é sacanagem sua com o Tutti, Shirley.

  • Shirlei Horta 24/05/2006 at 21:57

    Não entendi, Peter Blake. O livro do Chico é sobre alguém que escreve por encomenda. Minha sacanagem com o Tutty é outra.

  • Delsio 25/05/2006 at 00:39

    Saindo dos “fantasmas” que produzem, principalmente, best-$ellers e indo em direção aos fantamas propriamente ditos tem um romance inacabado de Charles Dickens que um broncão(diz a lenda) estodunidense terminou com louvor a segunda parte que é ” O Mistério de Edwin Drood” que foi psicografado. O livro saiu no Brasil com a tradução do Hermínio Correa de Miranda aí do Rio de Janeiro.

    Abs.

  • Jõao José 22/03/2008 at 14:05

    Bons comentários, gostei.

  • Leandro 26/11/2008 at 16:27

    Aproveitando sérgio, gostaria de tirar uma dúvida. Li seu texto e emergiu algo. Sou autor de livro técnico na área de Educação Física e creio que será publicado já em janeiro/2009. Um dos revisores (parte técnica, não ortográfica) que mais contribuiu e é co-autor de um capítulo (no total são nove) exigiu que o nome dele saísse na capa abaixo do meu em destaque, com os seguintes dizeres: “Colaboração de Fulano da Silva” em letras menores, miúdas. Baseado nisso, um amigo que é co-autor de um livro técnico (área jurídica) me alertou que ele não será co-autor de capítulo e sim um dos autores da obra. Concorda com isso? Isso de fato, esta ou é correto? Aguardo resposta.
    abs
    Léo

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