Notícia da atual literatura brasileira: instinto de internacionalidade

20/08/2010

Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de internacionalidade. A frase que você acaba de ler é uma cópia quase perfeita daquela que abre o mais famoso texto crítico de Machado de Assis, chamado “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, de 1873. A troca da nacionalidade pela internacionalidade não tem uma intenção rasa de paródia: com sorte, será o ponto de partida para uma tentativa de jogar luz sobre as respostas novas que a literatura brasileira do século 21 – sim, esta mesmo, que contava com 4.203 leitores na última pesquisa – possa estar formulando agora para o velho problema de produzir arte relevante num país situado na periferia econômica e cultural do mundo. Há também, reconheço, uma forma menos benevolente de encarar este parágrafo: como nariz-de-cera (que em jargão de jornalista quer dizer prólogo enfadonho) para uma resenha do recém-lançado romance “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (Companhia das Letras), do escritor carioca João Paulo Cuenca. Espero ser capaz de desmentir essa impressão. O livro de Cuenca é mesmo o gancho deste texto – para insistir no jargão jornalístico – e vai ser abordado na hora certa. Antes disso convém sobrevoar rapidamente um século e pouco de história.

Internacionalidade, palavra dicionarizada mas de uso raro, é aqui um sinônimo de cosmopolitismo, e portanto antônimo de provincianismo. Mas também pode ser, dependendo do contexto, equivalente a desenraizamento, anulação de identidade, em oposição a um saudável mergulho em nossas “raízes” culturais. As configurações do par nacional/internacional nunca foram simples para a cultura brasileira (como provavelmente para a de nenhum país nascido do colonialismo europeu): como expressar uma verdade sobre si mesmo usando uma linguagem alheia, como não produzir apenas adaptações caipiras dos modelos enviados pela matriz? Quando escreveu aquele ensaio, Machado dava uma resposta ousada ao nativismo de José de Alencar e Gonçalves Dias, que acreditavam “nacionalizar” as formas importadas do romance e da poesia ao enchê-las de índios. No lugar dessa ênfase na cor local, na “nacionalidade de vocabulário”, Machado postulava um “sentimento íntimo de nacionalidade”. Aos 33 anos e tendo publicado apenas um romance fraquinho, “Ressurreição”, parecia intuir genialmente a verdade contida na profissão de fé enunciada na última Flip pelo crítico literário inglês Terry Eagleton: “O que me interessa na arte como crítico marxista é a forma, muito mais que o conteúdo. A História habita o texto em seus detalhes linguísticos mais delicados e sutis”.

É provável que a percepção dominante no ambiente intelectual de hoje, em nosso mundo interconectado, seja a de que o “sentimento íntimo de nacionalidade” que Machado de Assis buscava – e que acabaria por alcançar – tenha ficado tão preso no tempo das carruagens quanto sua mania de escrever “cousas”. Não acredito nisso. Se é evidente que se tornou mais complexo o “sentimento de nacionalidade” de gerações que cresceram vendo enlatados na TV, ouvindo rock’n’roll e idolatrando Indiana Jones ou Jaspion, influências que necessariamente vão expressar como parte de qualquer possível “verdade interior”, não me parece que isso represente uma mudança estrutural em relação ao cosmopolitismo eurocêntrico que Joaquim Nabuco professava em 1900, no clássico “Minha formação”, ao escrever que era “antes um espectador do meu século do que do meu país; a peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo telégrafo”. Sai o telégrafo, entra a internet, persiste o deslocamento. Assim como persiste um nó: que cambalhota precisa dar um artista para, sendo produto de uma cultura em posição de acachapante déficit comercial com o vasto mundo, devolver a esse mundo uma resposta que não seja apenas o pálido reflexo de um reflexo? Em outras palavras: que contribuição original pode dar o Brasil – no caso que interessa aqui, por meio da literatura – ao famigerado Concerto das Nações?

A pergunta pode parecer um disparate, especialmente num momento em que nossa literatura vem fracassando até na tarefa básica de conquistar o leitor doméstico, mas foi uma inquietação desse tipo que orientou as melhores reflexões críticas do século passado (as deste século ainda não mostraram a cara). Como fazer a arte transcender a dependência? A antropofagia modernista apostou numa carnavalizante – e irônica – deglutição do elemento estrangeiro, uma linha que seria retomada pelo Tropicalismo. O romance de 30 preferiu a abordagem realista das mazelas políticas e sociais geradas por aquela dependência, uma linha que seria retomada sobretudo na poesia e no teatro engajados dos anos 60. Guimarães Rosa encontrou uma vereda original ao levar o experimentalismo formal para passear no sertão. Clarice Lispector, também original, optou por uma apneia suicida em si mesma. O Rubem Fonseca dos anos 60 e 70 inventou uma aguda modernidade urbana – que até hoje projeta uma sombra comprida – com seus marginais impenitentes. Acertos isolados não foram suficientes para demover de seu pessimismo o crítico Antonio Candido: no clássico “Formação da literatura brasileira”, de 1959, ele afirma que, “comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”. Destino terrível, o de ser expresso por “um galho secundário da [literatura] portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”. Deveríamos desistir?

A pergunta é retórica, claro. Não há desistência possível. Se o otimismo é uma característica que, como a ingenuidade, renova-se a cada nascimento, acredito ser um bom sinal a forma desencanada – para não dizer voraz – de dialogar com o mundo inteiro e incorporar elementos da cultura de massa que nos pariu, característica de grande parte da literatura contemporânea escrita em português brasileiro, com todas as adaptações de linguagem que isso implica. Descontados os exageros de pose que podem vir no pacote (“Eu escrevo assim porque leio os jovens escritores da Moldávia, conhece algum?”), parece legítimo supor que as inéditas velocidade e amplitude da circulação de informações em nosso tempo alterem alguma variável da velha equação de dependência cultural, num momento em que a própria ideia de “cultura nacional” é abalada tanto de fora, pelo esburacamento das fronteiras, quanto de dentro, pela pulverização de vozes que nela nunca se sentiram representadas.

E ainda nem falei do livro de Cuenca, pois é. Segunda-feira eu continuo.

23 Comments

  • Vinícius Antunes 20/08/2010 at 16:36

    Sérgio,
    Estou ansioso pela sua leitura do livro do Cuenca, até porque estou querendo ler também. Parabéns pelo seu trabalho, sempre de grande qualidade.
    Abraço

    Vinícius Antunes
    http://cronicasdumasviagens.wordpress.com

  • Marcelo Moutinho 20/08/2010 at 17:14

    E, ainda assim, mesmo com globalização etc etc, a música brasileira continua sendo a mais ouvida por aqui – ao contrário do que acontece em boa parte dos países do planeta. Por que será? O debate é bom. Acho saudável a libertação da premissa de se “ter que fazer” uma literatura “nacional”. Mas há o outro lado da moeda: a fuga radical do que possa ser identificado como brasileiro, como “local”, em nome de uma pretensa conexão com o que é “moderno” (prefiro chamar “muderno”). Não li o livro do Cuenca, este comentário é baseado apenas no seu post, que julgo de um otimismo digno do Cândido, de Voltaire rs. Abraço!

  • sergiorodrigues 20/08/2010 at 17:29

    Otimismo de Cândido, Marcelo? Sério que você viu isso num texto que diz que “a literatura brasileira vem fracassando até na conquista do leitor doméstico”? Só me resta esperar que a segunda parte deixe a ideia mais clara.

    Obrigado, Vinicius. A segunda parte do texto vai tratar do livro do Cuenca, entre outras coisas.

    Abraços.

  • Marcelo Moutinho 20/08/2010 at 17:31

    Refiro-me a essa frase aqui: “parece legítimo supor que as inéditas velocidade e amplitude da circulação de informações em nosso tempo alterem alguma variável da velha equação de dependência cultural”.

  • sergiorodrigues 20/08/2010 at 17:35

    Sim, me parece que este é um dado realmente novo. Mas supor que “alguma variável” pode se alterar (em que direção, não fica claro) não chega a se qualificar como otimismo.

  • Marcelo Moutinho 20/08/2010 at 17:40

    Ah, sim. Se for na direção de mais dependência, de fato não é otimismo.

    • sergiorodrigues 20/08/2010 at 17:50

      Não acho que se trate de mais ou menos dependência, porque esta, como vc sabe, é determinada por forças que estão fora da esfera cultural. Quando suponho que algo possa estar mudando, me refiro ao modo de lidar com essa posição periférica – por isso listei rapidamente as respostas históricas que nossa cultura encontrou para a questão.

  • Marcelo Moutinho 20/08/2010 at 18:03

    Estão fora, é verdade. Me pergunto é por que essas forças não influenciam tanto quando o assunto é a música. Não creio em mudança no modo de lidar com a posição periférica – e por um simples motivo: a mente de quem produz cultura no Brasil, com raras exceções, é muito, muito colonizada. De quem cria e, também, de quem cobre. Isso fica patente, sobretudo, nos eventos literários. Na visão do jornalismo brazuca, um Ferreira Gullar torna-se imediatamente “menor” do que qualquer autor de segundo time, se este for estrangeiro. Lembro do mico histórico pago pela Folha na Flip da qual participou a Adélia Prado (não cobriram a mesa, que acabou sendo destaque naquele ano). Chega a dar vergonha.

  • Saint-Clair Stockler 20/08/2010 at 18:14

    Belíssimo texto, Sérgio. Parabéns!

    “(…) acredito ser um bom sinal a forma desencanada – para não dizer voraz – de dialogar com o mundo inteiro e incorporar elementos da cultura de massa que nos pariu” me lembra o Antropofagismo, num certo sentido. Acho que isso de incorporar (com um viés crítico, que no caso do Antropofagismo foi a ironia mas pode ser algum outro), ou melhor dizendo, deglutir as “influências” de outras culturas e depois produzir algo novo ainda é um caminho muito bom e muito válido para qualquer tipo de arte.

    • sergiorodrigues 20/08/2010 at 18:49

      Obrigado, Saint-Clair.

  • Gustavo Schiavinatto 21/08/2010 at 01:16

    Vejam os livros de história nas escolas, nossa história começa com uma carta de Pero Vaz de Caminha. Somos “historicamente” um galho literário de Portugal, que também é galho da Europa. Aliás, a história de Portugal é contada a partir do primeiro registro do primeiro homem a viver naquelas terras.

    Temos que começar do princípio, não adianta valorizarmos apenas nossa modernidade.

    Literatura genuinamente nacional, infelizmente, só se for em TUPI…

  • João 21/08/2010 at 01:46

    Muito lúcida e contundente sua observação. Sou um entusiasta da busca (chamemos assim, a título de simplificação) pela identidade nacional. A música, como já aqui afirmado, é o aspecto cultural brasileiro que mais soube caminhar pela originalidade, pela inspiração doméstica; a literatura pátria, contudo – apesar de vários incríveis escritores -, não obteve o mesmo êxito, não atingiu a autenticidade almejada. Conseguiremos, acredito. Falar sobre nós mesmos é atividade que, desprovida de influências exteriores quase sempre desnecessárias, em certo momento alcançará a unicidade inerente às coisas boas. Acreditemos, pois.

  • Urubu 21/08/2010 at 02:16

    Formação da literatura brasileira, de 1975? Tem certeza?

    • sergiorodrigues 21/08/2010 at 10:22

      Urubu, é de 1959, claro, valeu a correção. Fui traído pela data da edição da Itatiaia.

      Abraços a todos.

  • Breno Kümmel 21/08/2010 at 10:50

    Excelente texto.

  • Ana Maria Santeiro 21/08/2010 at 11:59

    Será que os escritores quando escrevem seu livros têm presente esta questão? Ou esta pretensão?
    Na infância, os brasileiros lêem massissamente autores brasileiros. Por que estes leitores, quando adultos, preferem a literatura estrangeira? Será que preferem mesmo? Para mim, escrever ficção é a expressão artística mais dificil, lida com uma invenção que nos dá a humanidade, a liguagem, que requer sofisticadas ferramentas -mentais e sociais – de longo curso, para decifrá-la. Talvez, por aqui, falte treino.

  • Elvira Madigan 21/08/2010 at 16:40

    Impressionante como é recorrente essa questão do instinto de internacionalidade da literatura brasileira. Machado em 1873, os modernistas em 1922, a Tropicália e agora…Parece que estou lendo Mário de Andrade em carta a Drummond: “o dia em que nós formos inteiramente brasileiros e só brasileiros a humanidade estará rica de mais uma raça”. E dizia isso em relação à literatura, claro. Queria o mesmo “sentimento íntimo de nacionalidade” de Machado. Temos de admitir – penso eu – que o Bruxo do Cosme Velho estava certíssimo e que se trata de instinto mesmo, não no sentido de impulso interior (fui consultar o Houaiss) mas no de inclinação. Vou esperar o que o Sérgio nos diz do Cuenca, e, enquanto isso, não vejo pessimismo na análise de Antonio Candido, não. Nenhum.

  • sandro so 21/08/2010 at 21:13

    Tenho sempre a impressão, Sérgio, de que o tema da identidade brasileira é coisa de intelectual, que fica de um lado olhando para fora sem ter nascido por lá e de outro olhando para o “povo” cá dentro, sem se sentir parte dele. O problema ocorre quando se leva essa angústia da influência (ok, vá lá…) para a escola e a literatura e ela ganha as ruas, jornais, bares, futebol e afins.

  • Mr. WRITER 22/08/2010 at 15:52

    Muito bom o texto, como sempre. Vai de dica para o pessoal do mestrado. E claro, devidamente retuitado (isso existe?)

  • Gisele Lemper 29/08/2010 at 18:18

    aquele abraço 😉

  • Juarez 29/09/2011 at 14:03

    O Brasil tem excelentes escritores novos, os quais ainda não tiveram a chance de se tornarem conhecidos do grande público. É preciso valorizar os que estão chegando e parar de achar que bons escritores brasileiros são só aqueles do passado.
    http://maispoeta.blogspot.com/

  • Marianne 06/05/2012 at 22:54

    Mais uma vez (após quase 2 anos de publicação), parabéns ao autor do texto que soube traduzir bem a situação na qual se encontra nossa literatura hoje. Num país onde muitas culturas coexistem desde antes de sua oficialização, não é tão justo que se cobre um modelo nacional e unificado de produção artística, mesmo porque até a identidade pessoal “sofre” com essa variedade. Existem dois determinantes de a escrita exprimir pobreza: a facilidade de acesso às produções, nos exigindo muito mais criticidade a que se procure qualidade por trás do exposto e a (ainda, espero) desvalorização da educação.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial