Notícias de uma guerra literária

12/05/2010

Sob o título “Duas elites”, o “Rascunho” traz um bom artigo de Luiz Bras (mais conhecido como Nelson de Oliveira) sobre a guerra entre alta literatura e literatura de gênero. Trata-se – e o autor é o primeiro a admitir isso – de uma caricatura, um quadro em preto e branco que ignora “todas as gradações, todos os matizes”. Isso não diminui o valor do texto. Caricaturas são perfeitas para expor o ridículo de personagens e situações. Como se pode ver pelas listas de “critérios” dos dois lados que Bras expõe:

Critério da elite acadêmica:

1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético.

2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante.

3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo.

4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.

5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de originalidade a rejeição das principais diretrizes do gênero a que a obra pertenceria. O novo romance quer transcender os limites do gênero romance, o novo conto quer transcender os limites do gênero conto, o novo poema quer transcender os limites do gênero poema.

6. Purismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, são violentamente rejeitadas pelo sistema.

Critério da elite da literatura de gênero:

1. Linguagem transparente, denotativa, por vezes complexa, mas ainda assim reconhecível por uma vasta gama de leitores. O autor deve se expressar respeitando a norma culta que orienta o uso do idioma.

2. Realismo. Narrador clássico, organizado e disciplinado, pouco introspectivo, confiável, onisciente.

3. Enredo quente, rico em ação, cheio de peripécias e surpresas, afastado da vida comum. O conteúdo literário é tão importante quanto a forma, ou até mais.

4. O mundo exterior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo interior.

5. Adequação ao gênero e ao subgênero a que pertence. O romance ou o conto policial, de fantasia ou de ficção científica respeitam as balizas que definem o gênero e o subgênero a que pertencem.

6. Ecumenismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, se não são bem aceitas pelo sistema, ao menos não são sumariamente rejeitadas.

Esse retrato simplificado da velha cizânia entre arte erudita e arte popular me parece, mais que divertido, bastante acurado, embora seja duvidoso que a literatura de gênero tenha força suficiente no Brasil para sustentar uma elite propriamente dita.

Mas o quadro é triste também. Para mim, reside justamente no que o artigo suprime – as tais gradações e matizes – a graça da coisa. Se é verdade que a literatura “metida a besta” e a literatura “comercial” pretendem, a esta altura do século 21, permanecer afundadas em suas trincheiras com o dedo no gatilho, quero morrer no fogo cruzado.

É por isso que achei brilhante a idéia de uma antologia de contos policiais chamada “The dark end of the street”, que acaba de sair nos EUA: reunir num mesmo volume autores firmemente plantados no gênero, como Lawrence Block e Val McDermid, e escritores “literários” como Amy Hempel, Francine Prose e Edmund White. Viva os agentes duplos!

31 Comments

  • Samuel 12/05/2010 at 20:11

    E Elmore Leonard, Henning Mankell, James Ellroy, Rex Stout, Umberto Eco… e até bula de remédio.

  • Tibor Moricz 13/05/2010 at 06:39

    A ideia não é que guerreiem, mas que se auxiliem no que tem, ambas, de melhor. Pura ilusão.

  • Ernani Ssó 13/05/2010 at 08:10

    Sérgio, também já levei muita bala nesse fogo cruzado. Pior, sou um agente tríplo – tenho uma porção de livros infantis.

  • Eric 13/05/2010 at 10:46

    “4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.”

    Engraçado que essa é a regra-mãe do noir, que é puro “gênero”. Eu to lascado ali na fronteira. Será que vou ser fuzilado também? Ainda bem que arrumei uma editora que compre minhas maluquices.

    Abss!
    Eric

  • rodrigo sampaio 13/05/2010 at 11:29

    Graham Green, Moliére, Marivaux, McEwan, Conrad, Tolstoi, Stendhal, Mauriac, Austen, Dante… se encontram em qual dos dois critérios? Pound disse certa vez que, em arte, existem os criadores e os mestres. Um cria, outro leva a criação à perfeição, sem fazer propriamente uma revolução formal. Menos no Brasil, onde os criadores são mestres. É, caricatura… Bem notou o Sérgio… Mas caricatura que de fato existe e que mostra certa mentalidade paradigmática na intelligentsia literária, com pendor ao formalismo oco. Em tempo: será que o desejo supremo à originalidade não interrompe o processo evolutivo?

  • Rafael 13/05/2010 at 11:38

    Juro, juro mesmo, que essa discussão me dá tédio…

  • Paula Cajaty 13/05/2010 at 11:53

    Acho que a disputa é de natureza menos intelectual e mais egoística, de reserva de mercado: simplesmente, os literatos não aceitam que jornalistas entrem no páreo da literatura dita ‘culta’. Assim como jornalistas não aceitam que não-jornalistas (elite literária aí incluída) dividam o seu espaço no jornal. Os motivos são vários, mas a razão de fundo é sempre a mesma para a briga: a falta de formação na área específica, hipótese que conduz a uma suposta inabilidade do ‘leigo’… A discussão só terminaria se alguma legislação pusesse fim na contenda – mas isso é impossível, pois que rasgaria a liberdade mais fundamental do indivíduo numa democracia. E assim, os rounds continuam em empate técnico.

  • Chirac 13/05/2010 at 13:54

    Os brasileiros leem mal e não leem os seus autores nacionais. E beneficiando as editoras extra-nacionais ou internacionais, o governo e a rede privada não se interessam pelos autores brasileiros. O país está em penultimo lugar em qualidade e leitores de livros de seu próprio país. Quem consegue subir na vida como escritor no Brasil , fecha as portas para os escritores que precisam de ajuda e as editoras idem. O Brasil eh um país de muito poucos escritores . Quem quizer saber mais que faça a pesquisa .

  • Thiago Maia 13/05/2010 at 14:22

    Alarme: estou a 24 páginas de concluir O eco distante, de Val McDermid, e o achei o péssimo dos péssimos.
    Já li opinião semelhante e que acrescentou ser excelente, portanto ao contrário, Um corpo para o crime, da mesma autora.
    Não sei se me arriscarei, provavelmente sim.

    • Thiago Maia 13/05/2010 at 14:27

      Em tempo: descobri o/ a assassino/ a duzentas páginas atrás, o que jamais me acontecera, nem próximo disso, pois sou super avoado.
      E, NESTE livro, esse é um defeito também fatal.

  • Francisco Fagundes 13/05/2010 at 15:07

    Não existe, em literatura, isso de elite de gênero e elite acadêmica. O que existe é a boa literatura, que passa ao largo das discussões superficiais.
    Definir é limitar, como você bem sabe e demonstra, Sérgio.
    Um abraço.

  • Rosângela 13/05/2010 at 16:40

    Deixa eu falar uma coisa? O que é mais interessante? Darr um título a o livro por ter um real significado, ou escolher um título de livro numa l lista aleatória de sugestões? O que é mais interessante? Pois é… ! Umberto Eco escolheu “O Nome da Rosa” assim… aleatoriamente, numa lista qualquer. E depois um estudante perde nota em literatura porque disse que o Nome da Rosa foi um título por acaso…
    Umberto Eco faz os críticos de bobo … E muitos batem palma. Não bato. Não bato. Pode Ecoar por todos os lados… menos nos meus ouvidos.

  • Rafael 13/05/2010 at 17:21

    Finalmente me ocorreu uma metáfora literária que ilustra bem essa notável peleja!
    A sangrenta e ferroz Guerra em que se batem os partidários da Alta Literatura e os da Literatura de Gênero assemelha-se à não menos notável cisma que divide os habitantes de Lilipute e os de Blefuscu, a qual se originou da interessantíssima controvérsia a respeito do lado correto em que o ovo deve ser quebrado, se pela extremidade mais grossa ou se pela extremidade mais fina!

  • Rosângela 14/05/2010 at 07:26

    Contanto que se quebre o ovo… não importa de que lado. ( desculpa me intrometer em seu assunto, Rafael. È que sou muito intrometida. Quero ver todo mundo comendo fruto de vida e jamais de morte.

  • Rosângela 14/05/2010 at 09:59

    Puxa, Sérgio, agora relendo seu texto é que vi que você, nesta briga quer morrer no “fogo cruzado”. Achei ótima sua idéia. Isso aí… olha… O fogo cruzado está ali na Espada Flamejante, sabia? Não? É sim. Uma espada que não sai dol ugar para cortar ninguém. pelo contrário, ela fica ali e a gente cruza o fogo ali, se quizer.. e … ai! ui! ai! ui! chegamos lá na árvore da vida e tem frutos deliciosos.

    Quer dizer que… que você também está ali? No fogo cruzado da espada flamejante??? Nããão! Não precisa responder… Logo, logo terás argumentos literários para explicar aos críticos brigões e bobos que as matizes cintilam….kkkkkkkk

  • Rosângela 14/05/2010 at 10:02

    E e para sair um pouquinho do jeitão do ANTON TCHECOV, você pode usar um “caco de telha”… Jó usou… e brilhou muito… kkkkkkkkk

  • Ahn? 14/05/2010 at 11:03

    Essa Rosângela existe mesmo ou é invenção de alguém pra sacanear aqueles que frequentam esse blog? Porque se ela for uma brincadeira, até que tem um pouquinho de graça, mas se for real eu nem sei o que dizer.

  • Marcio Gama 14/05/2010 at 12:30

    Mas as editoras por aqui só querem vender “alta literatura” a um público interessado em literatura de gênero.

    Depois reclama da crise, de que brasileiro não lê e tal. Bobagem. O mercado brasileiro não é atendido.

  • Rosângela 14/05/2010 at 13:31

    Pois é, seu “Ahn”, quer dizer que de brincadeira podemos rir. Mas de verdade, não? Quer dizer que circo tudo bem, mas teatro da VIDA, não? Fica tranquilo(a)… sr ou Sra “Ahn”, que os cacos vão brilhar muito independente de que material seja. O problema não são os cacos, o problema é a árvore…

    Ah.. só para deixá-lo ciente: Você, realmente, não tem o que dizer.

    bjo, isca dEle. ( Cê num foi fisgado, não? Que pena..)

  • Rosângela 14/05/2010 at 14:11

    Tô levemente desconfiada de que ( tem preposição? Sei lá…) o autor do blog vai acabar tendo que mudar o título da postagem para: “Guerra de notícias literárias”.

  • Rosângela 15/05/2010 at 07:23

    Com muita coisa para fazer por aqui acabei não lendo no Rascunho! Só agora li e adorei. Concordo com aquilo tudo.

  • Samuel 15/05/2010 at 09:24

    O assunto talvez tenha se esgotado. Mas voltei para ler com mais calma e fui também no artigo de Luiz Brás no “Rascunho”.
    Sempre sou acanhado para comentar seus assuntos, mas saiba que eles muito me interessam. A razão? Gosto de ler.
    O acanhamento é só um complexo de inferioridade que tenho pelo fato de ter estudado pelo madureza e superior noturno. Aliar estudo e trabalho é sempre muito dificil, o desejo de conhecimento muitas vezes cede ao cansaço. Mas tudo bem, não troco minha vida por nenhuma outra.
    Outro dia voce estimulou seus leitores a lembrarem um inicio de livro que cada um gosta mais.
    “Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”
    É como começa “O estrangeiro”, de Albert Camus.
    Não é mesmo interessante?
    Pois veja um outro: “Fui jogado para fora do caminhão de feno por volta do meio-dia. Tinha pulado para dentro na noite anterior, perto da fronteira, e assim que me acomodei debaixo da lona peguei no sono. Precisava mesmo dormir, depois de três semanas em Tia Juana, e ainda recuperava o atraso quando eles pararam no acostamento para que o motor esfriasse. Viram um pé para fora e me puxaram. Até tentei fazer umas gracinhas, mas ninguém ali estava de bom humor. Mesmo assim, me deram um cigarro, e sai caminhando pela estrada, procurando o que comer.”
    É como começa “O destino bate à sua porta”, de James M. Cain, publicado em 1934.
    Certa vez li uma entrevista de Camus em que ele diz que escreveu “O estrangeiro” imediatamente após ter lido “O destino bate à sua porta.” E afirmava que, por esta razão, achava que os dois livros eram iguais.
    Interessante, não?
    Afinal Cain é considerado escritor policial, ao passo que Camus não.
    Quando li a entrevista eu já havia lido os dois livros. A curiosidade levou-me a reler os dois. Concordo com Camus, os dois livros são exatamente iguais, embora narrem histórias completamente diferente.
    Não tenho como voce e a maioria dos teus leitores, o conhecimento da literatura.
    Penso que a leitura é também divertimento. Não gosto de televisão e ler é minha opção.
    Mas quem lê muito sempre fica meio bicho esquisito. A leitura é um ato de isolamento e a exigência social é compartilhar. Nao dá pra compartilhar o isolamento.
    Dai que cito outra literatura:
    “Desde a infancia eu á não era como as demais crianças;
    não via como os outros viam;
    minhas paixões não nasciam da mesma fonte.
    Minhas tristezas não provinham da mesma nascente;
    em meu coração a alegria não vibrava com os mesmos acordes;
    tudo o que eu amava, amava solitário.
    Então – em minha infância, na madrugada de uma vida tempestuosa –
    delineou-se das profundezas do bem e do mal
    o mistério que ainda me acompanha…
    E também a nuvem que tomou a forma de um demônio diante de mim
    quando o resto do céu era azul”. O poema é de Edgar Allan Poe.
    “A demon in my view”, de Ruth Rendell, carrega em todas as linhas do livro, o clima do poema.
    Enfim, era isto que eu tinha a dizer
    Léo Malet, em “É sempre noite”, leva o clima de Marx, Lenin, e outros revolucionários…
    Ler é sempre estimulante.
    Um abraço.

  • Ronnie 15/05/2010 at 09:36

    “Essa Rosângela existe mesmo ou é invenção de alguém pra sacanear aqueles que frequentam esse blog? Porque se ela for uma brincadeira, até que tem um pouquinho de graça, mas se for real eu nem sei o que dizer.” AAAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAA…

  • Rosângela 17/05/2010 at 19:05

    Ronnie, seu “ha ha há” é um riso diante de um circo ou diante de um teatro da vida, hein? kkk

  • Rosângela 17/05/2010 at 19:07

    No circo quem somos nós?No teatro da vida, sei:” somos os protagonistas cheios de graça e verdade”.

  • Rosângela 18/05/2010 at 10:07

    Ah, Ronnie, estaremos na terceira via! Te garanto que não é nem a “metida a besta” e nem a “comercial”. Já digo porquê: A metida a besta tá falida. A comercial não sabe nada do que está realmente acontecendo no mundo. Por tanto… esta terceira via de literatura não só promete como já está cumprindo. Você não está vendo? Ou é melhor fingir que não está vendo? Afinal, é preciso muita “cara de pau” para continuar “se metidando a besta”. É preciso muita “invencionice aleatória paulo coelhana ” para continuar indo pela “comercial” e é preciso muita luz, amor e verdade para acompanhar os novos tempos.
    Agora que está rindo sou eu :
    huahuahauhauahauahuahauaahau

  • Rosângela 18/05/2010 at 10:08

    Ai! “portanto” é junto, hein? PORTANTO, É JUNTO… É JUNTO.KKKKKKKKKKKKK JUNTO NO FOGO CRUZADO.KKKKKKKK

  • Rosângela 18/05/2010 at 10:11

    Jamais abriria mão de “A Palavra é” e d”os começos inesquecíveis… “entre outros por aqui bem “certeiros”, isto é, no alvo.

  • leandrão cardoso 12/06/2010 at 17:54

    acho medonha essa separação entre “literatura de elite”, ou “alta literatura”, e “literatura de gênero”! é como se não houvesse preocupação genérica em livros considerados alta literatura, nem preocupações, digamos, literárias nos livros pautados por exigências genéricas. vocês já pensaram que os clássicos da antiguidade, tais como as comédias latinas, as tragédias de Sêneca, ou a Eneida do Virgílio, foram produzidos dentro de moldes temático-composicionais – portanto dentro de exigências genéricas – fortíssimas?
    e tem outra, autores que simplesmente seguem esses moldes, que não necessariamente os tranguidem, podem sim serem excelentes autores e escreverem obras muito boas.
    enquanto as discussões sobre literatura forem pautadas por picuinhas teóricas extremamente irrelevantes, não se andará para frente nem um passo, por menor que ele seja.
    às vezes penso em fundar um movimento pela volta da crítica literária.
    daquela relevante.

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