O avô do e-book morou no Brasil

16/04/2010

O “avô dos e-books” (o honroso título lhe foi dado pelo “New York Times” neste artigo) chamava-se Bob Brown e viveu entre os anos 1930 e 1940 no Rio de Janeiro, onde fundou uma revista de negócios chamada “Brazilian American”. Seu nome completo era Robert Carlton Brown, nascido em Chicago em 1886.

Trata-se de uma figuraça: autor de literatura popular, poeta, roteirista de cinema, jornalista, editor e artista de vanguarda com um círculo de amizades que incluía Marcel Duchamp e Gertrude Stein, Brown publicou em 1930 um manifesto chamado “The Readies”, em que declarava guerra ao livro de papel:

A palavra escrita não acompanhou o tempo. (…) Para continuar lendo na velocidade dos dias de hoje, eu preciso de uma máquina. Uma máquina simples de leitura que eu possa carregar comigo, ligar em qualquer tomada velha e ler romances de centenas de milhares de palavras em dez minutos se eu quiser, e eu quero.

A tal máquina, que chegou a ter um protótipo construído por um amigo, tinha uma fita de texto correndo por trás de uma lente de aumento a uma velocidade controlada pelo leitor. Está mais para um microfilme, mas Brown não queria parar por aí. Antevia o dia em que as palavras seriam “gravadas diretamente no éter palpitante”. Como já se disse, era um poeta.

O projeto dos Readies incluía a criação de uma nova linguagem, mais telegráfica, e a idéia chegou a contar com colaborações ilustres de Gertrude Stein e Ezra Pound – uma simulação online da geringonça, com os textos autênticos produzidos para ela, pode ser conferida aqui.

Sobre a passagem de Brown pelo Brasil, pouco se sabe. Eis um bom trabalho à espera de um pesquisador curioso.

Atribuir a figuras históricas esse tipo de antecipação visionária de tecnologias do presente é algo que costuma ter valor apenas lúdico. Brown previu o e-book como Julio Verne previu o projeto Apollo. Mas que tem muita graça conhecer seus Readies, tem.

17 Comments

  • Samuel 16/04/2010 at 12:21

    E-book é bom, mas cansativo de ler. Ler na tela cansa a visão. Tá mais pra superhomem do que pra humanos que tem dor na vista e que não tem o raciocinio que a tecnologia exige. Ainda gosto das bibliotecas, silenciosas, do papel, de preferência amarelado pelo tempo, do isolamento que faz viajar.Abraços

    • Sérgio Rodrigues 16/04/2010 at 12:25

      Samuel, talvez você devesse experimentar o Kindle e sua tela fosca. Cansa tanto a visão quanto ler no papel. Um abraço.

  • Samuel 16/04/2010 at 12:28

    A proposito no Brasil falta pesquisa histórica. Quase nada sabemos de figuras importantes (não é suficiente dizer ilustres) que viveram em nossas terras. Robert Brown por certo nao viveu aqui sem razão. Alguma teve e deixou rastro do seu percurso.
    Só pra exemplificar, Richard Burton, (o escritor e não o ator), viveu em Santos durante alguns anos. Viajante, diplomata, escritor, foi considerado o homem mais expressivo e importante do seculo 19. Traduziu para o portugues os Lusiadas, Kama Sutra

    • Anselmo 16/04/2010 at 13:06

      Ouvi alguns dizendo que viram Elvis Presley por aqui.

    • Anselmo 16/04/2010 at 13:07

      Kama sutra não precisava de tradução, né?

    • Elton 16/04/2010 at 13:35

      Há muitos historiadores fazendo pesquisa no Brasil. Estudar passagens anônimas de estrangeiros célebres é que não está em primeiro lugar nos interesses historiográficos.

    • Cristiano 16/04/2010 at 13:45

      “Os Lusíadas” nasceu português. Traduzí-lo para o mesmo idioma, seria, no mínimo, uma recriação, tal como o personagem de Borges, que queria reescrever o Guijote, igualzinho como fora feito, mas sem lê-lo. Tarefa estranha, porém árdua.

    • Rafael 16/04/2010 at 13:57

      Richard Burton traduziu Os Lusíadas para o inglês. Foi uma figura fascinante, um aventureiro, liguista, explorador, membro do serviço secreto inglês e o primeiro ocidental que, disfarçado de Mulçumano, fez a peregrinação a Meca.
      Para os incultos metidos a engraçadinhos, esclareço que o Kama Sutra, na sua versão original, não tinha gravuras e muito menos fotografias, mas apenas texto.

  • Samuel 16/04/2010 at 12:34

    (continuando) As mil e Uma noites; escreveu no Brasil o livro “Explorações de um Ingles ao Brasil”, (acho), onde registra passagens por Minas, Rio Sao Francisco, e observações sobre escravidão e costumes tropicais. Erudito, antropolo, naturalista, tem muita importancia o que deixou registrado.
    Erudito que deixou muitos estudos e documentos escritos, por infelicidade teve no final da vida uma tragédia pessoal, nos quais se perderam muitos dos seus escritos. Sua mulher, convertida ao catolicismo, rebelou-se contra o seus pensamentos e quando ele faleceu ela queimou todos os documentos, livros e anotações que ele guardava em casa. Para salva a sua alma, segundo ela. Outro abraço…

  • Samuel 16/04/2010 at 12:35

    é pode ser… preciso modernizar

  • Marcia Aparecida Andrade 16/04/2010 at 12:39

    Muita gente interessante ja morou no Brasil. E muitas outras ja sairam do Brasil. E muitas outras mais ja morreram no Brasil. E sem merecer uma cronica interessante como esta. Mas enquanto eles aqui desenvolviam suas experiências geniais, os brasileiros ficavam aplaudindo e chamando de gênio qualquer um que fizesse “embaixadinhas” aquela ridicula brincadeira com bola de futebol que acabou virando passatempo de mulheres de… jogadores de futebol. Como na letra da musica de Tede Silva, “…os idiotas dominaram com esperteza, Nelson Rodrigues ja previa, uma terra impermeavel à grandeza, como Paulo Francis deduzia”…
    Sorte nossa que ainda tem uma coluna como esta em meio à tantas besteiras na internet que, ai sim, seria capaz de horrorizar o autor da citaçao inicial e comprovar que vivemos uma nova idade media.

  • Anselmo 16/04/2010 at 13:05

    O onde mora o avo do FaceBook?

  • João B. L. Ghizoni 16/04/2010 at 14:26

    Onde ele mora? Ele nasceu em 1886. Um dos comentários inclui informações sobre a morte dele…

  • Samuel 16/04/2010 at 18:54

    Ô Cristiano, obrigado pela correção, seria absurdo traduzir Os Luziadas para o português… Apenas lembrei do Burton quando li sobre Robert Brown. Sempre gostei de ler sobre Burton que hoje é esquecido, dai uma prosa puxou a outra.
    Ficou interessante o papo.

  • Teotonio Simões 16/04/2010 at 19:06

    É, as coisas daqui precisam antes passar por lá… e voltar:)
    Antes do Kindle: por exemplo o Cybook [ http://www.bookeen.com ] com tela de e-ink, na França, de um pessoal que em 1999 já fazia e-readers.
    Ainda na França, a mobipocket [ http://www.mobipocket.com ] com livros até para celulares e que podem ser lidos no Kindle (não estranhem, Mobipocket, hoje, é uma empresa da Amazon).
    E, por aqui, o eBooksBrasil [ http://www.ebooksbrasil.org ] tem, desde o século passado, livros que podem ser lidos *hoje* no Kindle.
    Confiram: http://www.youtube.com/watch?v=yNDPQ9rHF8c&feature=player_embedded

  • Rosângela 16/04/2010 at 19:24

    Gostei de ler isso tudo aqui.
    Hoje só tô leiturista…

  • Fabio Taccari 27/04/2010 at 09:44

    O ano será 2050.
    ?Alguns, ou melhor, dizendo, muitos de nós ainda estarão por aí e por aqui.? As praias estarão lotadas de corpos bronzeados com protetores fator 300. ? Neste domingo as pessoas estarão segurando no ar e lendo, as imagens dos jornais sendo projetados no espaço por um pequeno raio lazer holográfico disparado pela objetiva do IPad versão 44.
    A consistência e textura das folhas de papel serão iguais ao do material usado nos idos de 2010. Alguns já terão a novíssima versão 45 e que incorpora a função True Wind, com a qual a leve brisa marinha balança levemente as folhas do jornal com seu som farfalhante. De repente, “sol e chuva, casamento de viúva” as gotas grossas da chuva passageira, irão separar o joio do trigo.? A maioria se refrescando agora com a garoa carinhosa continuará a ler sem problema, pois a versão 46 que incorpora a função True Rain esta prometida pelo centenário Steve Jobs, apenas para o próximo verão.? Alguns poucos metidos e exibicionistas, logicamente milionários para poder arcar com o custo da assinatura, começarão a sentir o raríssimo e delicioso cheiro do papel jornal molhado em suas mãos.? Um prazer para poucos, naquele dia, mas logicamente para todos, na futura versão iPad 47.

    Ano de 2051.

    ?iPad 48.? Finalmente atingimos a perfeição.

    Obs: Favor jogar na lata de lixo: ?PAPEL PARA RECICLAR, após sua leitura

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