Jabuti, o que será de ti?

19/10/2012

Desta vez o prêmio Jabuti exagerou: a zebra que representou a vitória do estreante Oscar Nakasato na categoria romance, com “Nihonjin” (Benvirá), nem chegou a se impor como o que poderia ser – uma aposta corajosa e estimulante num autor novo, não apenas distante da glória oficial, mas praticamente desconhecido.

Essa leitura otimista do resultado anunciado ontem em São Paulo foi imediatamente comprometida pelo fato de que Nakasato venceu graças à traquinagem de um único jurado – identificado por enquanto como “jurado C” – que o cumulou de notas 10 ao mesmo tempo que dedicava aos demais concorrentes uma chuva de notas entre zero (!) e 1,5. Algo semelhante ao que fez nos anos 1980 uma jurada do desfile das escolas de samba do Rio, decretando a vitória da Mocidade Independente.

O nome disso é manipulação de resultado. A má fé explícita do “jurado C” – cuja identidade, de acordo com o regulamento, só pode ser revelada após a entrega das estatuetas, dia 28 de novembro – avacalha de vez um prêmio que vem se avacalhando nos últimos anos, emaranhado em escolhas discutíveis, regulamento trapalhão e uma incontrolável metástase de categorias (hoje são 29, com três prêmios para cada uma) em que só faltam os galardões de melhor cafezinho de editora nas modalidades coado e expresso, com e sem açúcar, preto e pingado.

“Não me senti confortável em questionar o voto do jurado C após a apuração”, declarou José Luiz Goldfarb, curador do prêmio. “Se crio uma regra e dou a ele as cédulas para votar, não posso questionar a soberania de um voto feito dentro do regulamento. (…) Não considero o jurado C adequado ao prêmio, ele usou uma falha minha e abusou do poder que tinha. Vou reavaliar sua participação. Mas não posso mudar o resultado. Ele é inquestionável e não pode ser anulado.”

É uma pena. O resultado não poder ser anulado tem como principal decorrência o risco de anulação do próprio Jabuti, uma grife tradicional do mercado editorial brasileiro cuja agonia tem sido penosa de acompanhar.

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httpv://www.youtube.com/watch?v=oNUd_9yT8Uk

Comédia por comédia, melhor ficar com esta: o inesquecível Melvin interpretado por Jack Nicholson em As good as it gets (“Melhor é impossível”), que para quem não se lembra é escritor, aparece no Pop Literário de Sexta numa colagem de cenas em que age como o cretino que é. Esse é um dos onze filmes que o Huffington Post selecionou (aqui, em inglês) para provar que os escritores, pelo menos quando vistos na tela grande, são criaturas no mínimo perturbadas, quando não abjetas ou perigosas.

“Romancistas e poetas”, conclui o site, “são sempre retratados como esnobes, malucos, patéticos ou indignos de confiança. Mentem, choram, contam vantagens e roubam para chegar à fama.” Bom, não é verdade que seja sempre assim, mas tudo bem. Tudo isso é preparação para uma boa pergunta: “Será que se trata de uma alfinetada cinematográfica no mundo da palavra escrita ou os escritores são mesmo tão ridículos quanto aparecem na tela?”

Acho que sei a resposta. Acreditar que os escritores dos filmes são um retrato realista da categoria seria tão ingênuo quanto supor que Jane Austen fosse tão bonita quanto Anne Hathaway, que a interpretou em Becoming Jane (“Amor e inocência”). Por outro lado, apresentar literatos sob uma luz satírica não é exclusividade do cinema. O romancista espanhol Garay Fontina, grotescamente deformado pela vaidade e pela presunção, personagem do recém-lançado “Os enamoramentos” (Companhia das Letras), de Javier Marías, é mais risível do que qualquer um da galeria acima. Aqui no blog, a seção Sobrescritos tem se valido desse expediente há anos.

Quer dizer que existe um fundo de verdade nisso tudo? Como se viu mais uma vez ali no alto, é claro que existe. E bota fundo nisso.

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