O inseto de Kafka era barata ou besouro?

14/12/2013

metamorfose de crumbA única resposta consistente para a dúvida enunciada no título acima, uma das mais resistentes de toda a literatura do século XX (e atualizada de forma fortuita por um imenso blatídeo que apareceu há pouco no banheiro), é que não sabemos. O texto de “A metamorfose”, de Franz Kafka, simplesmente não nos fornece elementos suficientes para dizer. Foi mesmo uma barata, no entanto, o bicho que pousou no imaginário da maior parte dos leitores da novela que começa com o pobre Gregor Samsa acordando em sua cama transformado num inseto. Por quê?

Provavelmente porque o destino de Samsa é asqueroso demais e não há nada, em todo o reino animal, que supere a barata na escala da asquerosidade. Elementar, meu caro Watson, poderia acrescentar neste ponto um amante do lugar-comum – uma frase que o detetive inglês Sherlock Holmes nunca pronunciou em nenhuma das histórias escritas por Arthur Conan Doyle, o que, juntamente com a “barata de Kafka”, prova que nem sempre o texto é soberano. Na esteira do êxito popular de um livro costuma vir uma certa aura, uma sobra de sentido contra a qual é difícil lutar.

No caso de Holmes, a frase que não existe textualmente nos livros foi propagada em adaptações cinematográficas. No caso de Samsa, a motivação para o sucesso da barata parece ter raízes mais profundas na imaginação dos leitores, prescindindo de auxílio externo.

Nem a representação (ilustração acima) de Robert Crumb para o bicho no livro “Kafka de Crumb” (lançado no Brasil pela Desiderata), em que se vê claramente um besourão, conseguiu afugentar a barata da imaginação coletiva. Além do mais, tudo indica que também é incorreto supor que Samsa se transformou num besouro grande, num escaravelho.

Se você é um desenhista encarregado de ilustrar a história, não tem muito como evitar certa precisão. No entanto, a nebulosidade estava certamente nas intenções de Kafka: assim como em nenhum momento a narrativa tenta explicar como a metamorfose se deu, as palavras que descrevem o animal são vagas.

Já no primeiro parágrafo, o original alemão fala em ungeheueren Ungeziefer, “monstruoso bicho repulsivo”. Ungeziefer não é um termo técnico, mas um nome genérico bastante amplo para bicho nojento. O português não tem um bom equivalente para isso – em certa acepção, “praga” poderia dar conta do recado. A palavra alemã costuma ser traduzida para o inglês como vermin ou bug.

Que se trata mesmo de um inseto – provavelmente da família dos coleópteros, que inclui besouros, joaninhas e vagalumes, mas não baratas – fica sugerido por escassas pistas descritivas espalhadas pela história. Há uma única ocasião em que o monstro em que Samsa se transformou é chamado de Mistkäfer, “escaravelho, rola-bosta”, mas quem diz isso não é o narrador e sim a empregada da família, que, como observou Vladimir Nabokov ao examinar o caso, estava provavelmente tentando ser “simpática” ao patrão.

Em seu ensaio-conferência sobre “A metamorfose”, o autor de “Lolita” – talvez a pessoa mais indicada para tratar do tema, por reunir as credenciais de escritor e de entomologista – afirma não ter dúvida de que o monstro “não é tecnicamente um escaravelho. É apenas um beetle (besouro) grande. Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka enxergavam o bicho muito claramente”.

Pouco importa: a barata sobreviveu a Kafka e a Nabokov. É provável que sobreviva a todos nós, como dizem ser o destino de sua espécie.

16 Comments

  • Marco Mesquita 14/12/2013 at 12:14

    Ninguém me tira da cabeça que não era uma barata, hrghhh

  • estela 14/12/2013 at 14:10

    Era o PT.

  • Carlos Cezar 14/12/2013 at 14:58

    Dilema difícil eheheh. Mas, como diz o Sérgio, a barata, e o(s) livro(s) do Kafka, irá (irão) sobreviver a todos nós.

  • Tatiana 14/12/2013 at 15:26

    Olá,

    eu sou leitora dos seus blogs há uns dois anos e nunca me atrevi a fazer um comentário. Estou escrevendo este para lhe explicar porque vou deixar de lê-los. O jeito que você escreve me agradou num primeiro momento. Mas há algum tempo eles não despertam em mim o que despertavam antes. Passei muito tempo refletindo sobre o quê poderia ter causado isso. e acho que descobri. Você escreve com muita perfeição, sem erros, com muita técnica, sem sujeira alguma. Isso deveria ser bom? Para mim, creio que não. Sua escrita limpa não é para mim. Prefiro o caos e uma escrita mais “despreocupada”. Ela agrada num primeiro contato, mas depois de certa frequência e intimidade se descobre que ela não tem brilho. Escrita ouro de tolo.
    Oi Tatiana. Obrigado pela leitura nesses anos. O mundo da literatura tem muitos caminhos, espero que você seja feliz nos que escolher. Um abraço.

  • Renata 14/12/2013 at 16:04

    Outra pergunta da literatura que não quer calar, e provavelmente nunca será respondida também: Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

  • Expedito 14/12/2013 at 16:51

    Ler o ensaio “Freud e além” (em “Abaixo as verdades sagradas”),de Haroldo Bloom. O ensaísta americano afirma que “Kafka recusou umas ilustração para A Metamorfose que retrataria Gregor Samsa literalamente como um besouro ou um percevejo: ‘O inseto em em si não pode ser desenhado. Ele não pode ser desenhado, mesmo se aparecesse à distância’. Isso não significa que Samsa sofre uma alucinação; apenas nos lembra que uma negação não pode ser visualmente representada, o que, por sua vez, nos recorda as nostalgias kafkianas do segundo mandamento”.

    Att,
    Expedito

  • FabioS 14/12/2013 at 22:59

    Eu sempre achei que o cara acordou barata. Como não li o livro mas passei pelos anos 80 eu soube do causo via os Inimigos do rei. Alias, foi nesta época que eu conheci o Nelson Rodrigues. Eu fui nadador do Fluminense desde de peguenino e durante um personagem enigmatico me perseguia era um alto, barbudo de cabelo comprido. Confesso que eu tinha um certo medo da figura. Aí, eu cresci e descobri via Jornal dos Esportes que auqele cara era o Nelson Rodrigues, soube pq o JE trazia retrato desenhado do colunista. Na adolescencia eu até troquei umas palavras com ele. Já, na faculdade quando começaram a falar sobre o tal Nelson Rodrigues eu fala com orgulho que o conheci no Fluminense e que não tinha idéia da sua importancia hejehehe.
    Pela descrição, Fabio, você conheceu Nelson Rodrigues Filho. O dramaturgo e cronista, pai dele, morreu em 1980.

  • Marcos Alexandre 15/12/2013 at 13:18

    Assisti a sua entrevista no Globo News Literatura sobre O Drilbe. A despeito da qualidade da obra,
    que aqui endosso, pude observar certa prepotência de sua parte, ao considerar que o livro era
    uma tentativa de romper com o preconceito: “no Brasil, livros sobre futebol não estão à altura dessa paixão nacional”.

    Li seu livro e por mais de uma fez. Embora tenha gostado muito, confesso que ele está muito longe de superar
    superar esse desafio, essa barreira que separa o futebol brasileiro e a arte da escrita.

    • sergiorodrigues 15/12/2013 at 18:48

      Tendo a concordar com você, Marcos: a distância entre o futebol e a literatura ainda é grande, embora esteja diminuindo graças ao trabalho de muitos escritores. Mas é curioso você enxergar “prepotência” numa simples “tentativa de romper com o preconceito”.

  • Carlos Cezar 16/12/2013 at 07:47

    Ao contrário do Marcos, não vi nenhuma prepotência do Sérgio na entrevista. Estou curioso. Vou comprar o livro assim que for possível.

  • FabioS 17/12/2013 at 06:01

    “hehehehe” eu quis dizer que além de não saber da polemica eu tinha a minha opinião é fruto de um trocadilho. O Barba entrou no papo para reforçar a ideia de como as nossas experiencias, conhecimento e imaginação afetam o nosso julgamento. A ideia original era fazer uma ponte para o seu outro post pois curiosamente os dois posts me remetem ao Ginzburg, por motivos distintos. Neste post eu me lembrei do Menocchio e no outro pq o método do Mario filho se assemelha com o da micro historia e as criticas também são muito parecidas. Deois eu queria aproveitar e apontar uma contradição que te passou despercebida. Ironicamente, o cuidado na pesquisa e o seu respeito aos fatos não merecem crédito e a sua obra é classificada como um romance. No caso do Nelson Rodrigues que mesmo no papel de repórter abusava da imaginação mesmo quando fazia o papel de repórter e não tinha o menor compromisso com os fatos é festejado como a pessoa que melhor descreveu a sociedade brasileira. um…bateu preguiça novamente abs

  • Pedro 19/12/2013 at 15:38

    No livro, há uma passagem em que o inseto é descrito como uma grande mancha marrom. E o inseto marrom mais conhecido da maioria das pessoas é a barata.

  • Afonso 22/12/2013 at 13:04

    Talvez esse seja o “jogo” mesmo… a indefinição – engraçado que, vamos dizer, se alguém tivesse de escolher um animal (ou um inseto que fosse)em que se transformar, provavelmente não seria uma barata. Mas transformar-se (à revelia ou aos olhos dos outros) num inseto asqueroso é bem simbólico – e a psicologia que tente uma explicação, porque a literatura não está aí para isso… abraços.

  • Santanowiski (SP) 03/01/2014 at 05:36

    Se não for uma barata, nem que hipoteticamente, o conto de Kafka perde intensidade emocional. Vira uma bola ou um pneu semivazios. Besouros são geralmente aceitos em nossa proximidade, real ou imaginariamente; parecem até laboriosos, como abelhas e formigas. Se se tratasse de um aracnídeo, o conto tenderia a desencadear sensação de terror, mais para efeito Edgard Allan Poe. Com barata a coisa é especialmente diferente: envolve repulsa atávica, aversão incontrolável, nojo ancestral. E é isso o que a leitura de Kafka promove de chocante nesse caso: a doçura de Samsa, apesar de sua abjeta condição; a atitude amorosa de sua mãe, irmã e criada, malgrado sua repugnante figura; o inconformismo transcendental do rigoroso pai, que crava uma maçã nas costas do desafortunado filho, que, por razões injustificáveis ou insuficientes, haveria de faltar ao trabalho naquela infausta manhã.

  • Flavico 09/01/2014 at 17:51

    Na excepcional produção recentemente exibida pela BBC One, onde o famoso detetive Sherlock Holmes e seu ajudante John Watson resolvem casos complexos na Londres atual, o personagem principal jamais diz “elementary, my dear Watson”. O máximo que peguei foi um “obviously, Watson”. Os roteiristas e produtores modernos não caem mais nessa besteira.

    Teria o nome Samsa, da doce e bela donzela do clã dos Starks, de Game of Thrones, sido inspirado no Samsa de Kafka?

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