O pau de Updike em Houellebecq

15/05/2006

Enquanto os fãs brasileiros do escritor francês Michel Houellebecq aguardam o lançamento por aqui de seu quarto romance, “A possibilidade de uma ilha” – ficção científica sobre uma religião que vende vida literalmente eterna, fazendo cópias clonadas em série de seus fiéis –, talvez ajude a matar o tempo ler o que escreve sobre a edição americana do livro o escritor John Updike. A crítica (acesso livre, em inglês) está na última edição da revista “The New Yorker”. Preparem-se que lá vem paulada – assim caminha a literatura em países pouco inclinados ao morno compadrio em que nos espojamos:

Para descrédito de Houellebecq, ou pelo menos em prejuízo de seu romance, todo o seu meticuloso ódio a – e estridente impaciência com – a humanidade em seus tradicionais sentimentos e ocupações o impede de criar personagens dotados de conflitos e aspirações com os quais o leitor se importe. O herói habitual de Houellebecq, cujo monopólio de auto-expressão suga a maior parte do oxigênio da narrativa, se apresenta sob uma de duas formas: um eremita consumido por tédio e apatia ou um inflamado astro pornô. Em nenhum dos dois papéis ele solicita – ou recebe – muita simpatia.

Quem quiser ver na crítica de Updike uma prova do rancor do americano pelo sucesso do colega francês, pode – quem irá impedir? Mas estará passando um atestado de infantilidade intelectual. O interessante aqui é que a cacetada é basicamente técnica. Sim, a literatura é, no fim das contas, uma técnica – uma que Updike domina melhor do que Houellebecq, que ainda está aprendendo o ofício. Pode-se discordar do americano, naturalmente, mas descartar seus argumentos sem examiná-los seria tolice.

Embora, pelo visto, simpatizando um pouquinho mais com a cruzada literária de Michel Houellebecq, concordo em linhas gerais com John Updike. Só conheço “A possibilidade de uma ilha” por resenhas, mas li os três romances anteriores do francês esquisitão, todos lançados no Brasil: “Extensão do domínio da luta” e “Partículas elementares” (Sulina) e “Plataforma” (Record). Houellebecq é corajoso, fiel aos próprios fantasmas direitistas e, em seus melhores momentos, muito divertido em suas diatribes grosseiras contra todos os pilares da modernidade ocidental: liberação sexual, consumismo, culto do indivíduo, publicidade, marketing, psicanálise. Só por isso já valeria a pena lê-lo.

O problema começa quando se acredita que essa coleção de posições conservadoras basta para criar um “romance de idéias”. Não basta. As idéias de Houellebecq são um negativo dos clichês da esquerda, portanto ainda clichês, e o romance ele ainda está aprendendo a escrever. Se lhe derem tempo – e se a histeria comercial em torno de seu nome não inviabilizá-lo – é possível que um dia venha a ser o grande escritor que seus fãs dizem que é.

4 Comments

  • Paulo 15/05/2006 at 11:30

    Li A Possibilidade de uma Ilha. Começa bem. Mas depois cai muito. É um livro raso, com personagens muito fracos.

  • Edilson Pantoja 15/05/2006 at 17:55

    Esse é o problema: refiro-me
    ao que chamaste de “histeria comercial” e a conseqënte “comunidade” de leitores por ela induzidos e imdiatamente tornados fãs de escritores assim. Assunto espinhoso, sei. Mas, o que realmente caracteriza um “grande escritor”, ou um “escritor de verdade”? A pergunta parece simplista, mas requer reflexão. Sabe-se que um escritor só se constitui enquanto tal a partir da resposta do público. Bom, sabemos que hoje uma das formas (a única?) do público conhecer um escritor é através da exposição na mídia, fonte da “histeria comercial”. Abraços de Belém! foi um prazer encontrar seu espaço.

  • Shirlei Horta 15/05/2006 at 21:12

    Não conheço Houellebecq, mas a situação é ótima. Traduz o que escrevi outro dia, mas não consegui comunicar, e se complementa com o que Quintana (perfeito, maravilhoso) diz acima. Três ou quatro best sellers brasileiros não deveriam nem ser considerados escritores. São, no entanto, vendidos como tal e o público acrítico ama. E a crítica se cala ou reverencia a opção popular.

  • Pedro Ivo 19/05/2006 at 09:53

    Eu acho as diatribes do Houellebecq muito divertidas. E Updike é chato.
    Então tenho de ficar com o primeiro, embora não tenha lido o livro. Há previsão de lançamento no Brasil?

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