O PM e o revisor

13/03/2013

Ia entrar na garagem de seu edifício quando um PM fortão de cabeça raspada fez sinal para que encostasse o carro. Obedeceu, claro. Baixou o vidro da janela.

– Boa noite, cidadão. Seu farol está queimado.

– É mesmo? – ele fingiu que não sabia, lendo a identificação do homem no bolso do uniforme: sargento Hudson. – Prometo consertar amanhã cedo, sargento.

– Mas isso é uma infração, cidadão. Como é que fica?

Claro, que coisa mais previsível: o cara queria levar uma grana. Mas não ia levar. Ele não compactuava com corrupção.

– Bom, se tiver que me multar…

– O que é isso, cidadão, não tem escopo nem determinismo. O senhor é revisor, positivo?

O primeiro efeito daquelas palavras foi deixá-lo confuso, depois com medo. Como o sargento Hudson sabia que ele era revisor? Será que os medíocres livros de auto-ajuda e elevação espiritual que garantiam seu sustento, e com os quais se relacionava com envergonhada discrição, tinham deixado alguma marca traiçoeira em sua testa? Confirmou:

– Como sabe disso, sargento?

O homem riu.

– Não precisa se assustar, cidadão. Não vamos causar malefício a si. Provemos a segurança aqui da área, conhecemos todo mundo. Gostaríamos de fazer um inquérito de tópico privativo: então dá para dizer ao pé da letra que os escritores escrevem errado?

– Bom – ele hesitou – claro. Todo mundo erra às vezes.

Hudson abriu um sorriso satisfeito. Suas manoplas deram tapinhas nas coxas, fazendo balançar o trabuco negro aprisionado no coldre de couro lustroso.

– Eu sabia, eu sabia. Nós também erramos, cidadão. Erramos bastante, não obstante a gente se dedicar diuturnamente a errar menos.

– Não sei se estou entendendo.

– Agora perplexamos o senhor, positivo?

– Como?

– Ficou pasmático? Cultura geral, conhecimento, valorizamos muito tudo isso. Estamos cometendo a suprema ganância de escrever um livro, cidadão, e vamos ficar desveladamente honrados se um revisor tão prolixo consertar os erros inopinosos de gramática e prosódia que contaminam nossa prosopopeia. Tão honrados que vamos até esquecer a multa, positivo?

Não esperou a resposta: já estava passando um gordo envelope pardo pela janela.

– Hã, tudo bem, sargento – ele gaguejou, lamentando não compactuar com corrupção. Ou será que aquilo também era corrupção? – Posso ir agora?

– Positivo, cidadão revisor. Daqui a uma semana retornamos a procurar o senhor. Sabemos onde o senhor reside – disse Hudson com um sorriso que, mesmo aberto e franco, não conseguiu impedir suas palavras de soarem como uma ameaça.

8 Comments

  • Athayde 14/03/2013 at 16:15

    Sérgio, conheci uma pessoa que falava como esse PM e tinha, também, as mesmas aspirações literárias. Trabalhávamos no mesmo jornal – ele era o revisor. Lendo o seu sobrescrito senti uma imensa saudade daquele amigo – sua inocência e entusiasmo davam mais beleza à vida.

  • rosangela 14/03/2013 at 23:00

    Fiquei pasmática com as manoplas e os inopinosos.

  • Roberto 15/03/2013 at 10:51

    Bom dia, sou policial, da região Nordeste, e este tipo de texto me deixa chateado, pois já sofremos uma carga de cobrança imensa no que diz respeito a nossa profissão na luta diária, mas aí alguns jornalistas no qual vc se inclui, usam de uma falta de criatividade, que ao começar a estória já sabemos onde vai terminar; o policial repressor com o jornalista educado e prestativo… existem policiais corruptos, sem educação? sim , e tem bastante; e jornalistas educados como muito se procura mostrar? aí já não são tantos, pois neles, parece haver um alto grau de superioridade, que só nos policiais mas estúpidos é que se vê coisa parecida, mas não vou fazer como vc e G E N E R A L I Z A R, há os jornalistas que admiro, Reinaldo Azevedo é um exemplo; apesar de ser policial e nordestino , o que ao seu ver já é uma carga ultrapassadíssima, não me sinto inferior em momento algun, apenas magoado como a forma como somos retratados, trabalho honestamente, tenho meu curso superior de ciencias da computação e agora ingressei no de curso de Letras ( 3° semestre )fiz o primeiro por profissão ( também trabalho na área ) faço o segundo por amor, gosto muito de ler, e estou adorando conhecer este novo mundo. Não tenho intuito, com este texto, de fazê-lo mudar de ideia , sei que algumas pessoas tem dificuldades para evoluir e que se satisfazem com uma história pronta, infelizmente hoje foi a primeira vez que ví sua coluna, mas fico feliz por imaginar que não perdir nada ao não ter encontrado antes.

    Abraço forte!

    Roberto Felix

    Roberto, não há no meu texto nenhuma generalização, nenhum preconceito e nenhum jornalista. É uma pena que o ressentimento o tenha levado a ver todos esses fantasmas. Um abraço.

  • Claudia Christina 15/03/2013 at 14:34

    Adorei o texto, bem divertido e principalmente, muito atual. Parabéns!!

  • rosângela 17/03/2013 at 19:06

    Roberto, você levou tão a sério o texto literário que me impressionou sua crítica. Não vemos aqui nenhuma preocupaçáo do autor em generalizar nada. No inicio pensei até que você estava “brincando”, mas depois me vi diante de um estudante de letras ainda cheio das agruras de um policial, que, talvez, por sofrer as tais cargas, não soube tirar lições de uma realidade que, se não está em seu contexto, está no do texto. Só isso. Um abraço, rosangela

  • Pedro Gomes 19/03/2013 at 10:54

    Hã, Roberto? Você está falando sério, cabra? Já ouviu falar em “pegar o espírito da coisa”? Fiquei perplexo com a sua mensagem, para não dizer boquiaberto.

  • jze 19/03/2013 at 11:47

    Eu hein? É a primeira vez que eu ouço sobre uma forma tão incomum de corrupção policial…

  • sergio 06/04/2013 at 13:21

    realmente não entendoa relação que o roberto abaixo criou entre o texto e o fato de ele ser nordestino e policial li mais de três vezes e não encontrei referencia sobre ser “nordestino” se não percebi alquem aponte isso no texto
    abbs

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