O samba do bibliotecário doido

02/09/2009

O que os livros “A condição humana”, de André Malraux, “Killer in the rain”, de Raymond Chandler, “Christine”, de Stephen King, e “The complete shorter fiction”, de Virginia Woolf, têm em comum? Foram todos lançados no ano de 1899, segundo o Google Book Search. Onze anos depois de “A fogueira das vaidades”, de Tom Wolfe.

E o pior é que esse tipo de disparate está muito longe de ser raro na Biblioteca Universal do Google, que chega a extremos bibliográficos hilariantes como o de classificar uma edição de “Moby Dick” na rubrica Computação – informa Geoffrey Nunberg em artigo (em inglês) publicado pelo “Chronicle of Higher Education”.

Sim, em breve todo o conhecimento produzido pela humanidade estará online. Resta saber a que preço.

(Via Arts & Letters Daily.)

28 Comments

  • Beto Almeida 02/09/2009 at 20:23

    O horror. O horror.

  • Marcos 02/09/2009 at 20:35

    Fiquei estupefato, Sérgio. Quantos erros bestiais neste Google Book Search! A Fogueira das Vaidades em 1899??? É de lascar!, como se diz aqui no Nordeste.

  • Tibor Moricz 02/09/2009 at 20:43

    Isso, pessoal, é ficção científica. Estamos diante de uma realidade alternativa.

  • C. S. Soares 02/09/2009 at 21:19

    Sergio, alguns erros (não todos) vem dos índices das bibliotecas de onde os livros foram digitalizados. Outra parte é do próprio Google, mas nada há de desesperador. On-line ou off-line, quem indexa são os bibliotecários. Deixemos logo de lado a dicotomia mundo real e virtual. O Google Books é excelente auxílio a todos.

    Por fim, como autor, fico até comovido em saber que meu “Santos Dumont Número 8”, segundo o Google Books, teria sido lançado no mesmo ano “mirabilis” que “Dom Casmurro” ( http://ow.ly/nPrc ).

    Cheguei mesmo a me imaginar esbarrando com o mestre, ali pela Travessa do Ouvidor, nas proximidades da antiga sede Revista Brasileira, onde foi fundada sua Academia.

    Eu até o convidei para um chá na Colombo. Entreguei-lhe, mui sensibilizado, mãos trêmulas e meio atabalhoado pela emoção, um exemplar do “premonitório” SD8, um livro que em tais circustâncias só poderia ter sido escrito sob instruções do além…

  • Rafael 02/09/2009 at 21:22

    Que sejam, pois, brutalmente chicoteados eles, os biblotecários.

  • C. S. Soares 02/09/2009 at 21:46

    Rafael, não foi com essa intenção que citei os queridos bibliotecários. Mas entendo que a catalogação de livros em papel ou em bits seguirá os mesmos conceitos. Eu até entendo o que aconteceu aí nesse caso do Google.

  • C. S. Soares 02/09/2009 at 21:48

    Inclusive, Sergio, para seu conhecimento, Elza, a garota, segundo o GB, também foi lançado em 1899.

  • Tibor Moricz 02/09/2009 at 22:30

    Síndrome e Fome também foram publicados em 1899. Tempo demais para me processarem por plágio!

  • Saint-Clair Stockler 02/09/2009 at 23:46

    O Google é que tá certo: vocês são todos uns VELHOS!

    Vou pegar a Bruna Surfistinha pra ler, ou o gostoso do Santiago Nazarian… 😉

    rsrsrsrsrsrs

  • Daniel 03/09/2009 at 09:59

    Um dúvida!
    Se eu lançar meu livro hoje e eles colocarem com a data de 1899, posso receber os direitos autorais acumulados e corrigidos ou por ter ultrapassado os 50 anos cairei no domínio público?
    Melhor não arriscar.

  • Te 03/09/2009 at 10:33

    Alto lá, culpar os bibliotecários não! Como sabem se a culpa é deles?

  • Rafael 03/09/2009 at 11:54

    Acho tão divertido os spammers de Blog. Vou aderir:

    […] Increase your p*e*n*i*s. Women do like it bigger. DISCLAIMER: we shall not be held liable for any damage caused by the excess of our pills, specially for any death or personal injury you may suffer if you unadvisedly trip on your improved sex machine gun.[…]

    Desculpem-me os monoglotas. Mas isso não teria graça em português.

  • Amis 03/09/2009 at 12:18

    Pois é, Rafael. Caí na besteira de ler o texto no site dessa guilda de bibliotecários. E sugiro um subtítulo para esse post aqui do blog: “Do problema de ser sarcástico”. Achei parecido com spams de coleguinhas graduandos de Pedagogia com título “ABSURDO!!! LEIAM!!! REPASSEM!!! NOVELA DA GLOBO DETURPA CONCEITOS DE PIAGET!!!”, ou se for de Letras: “RACISMO EM MARK TWAIN!!!”. Parodiando um certo dramaturgo brasileiro, são os fetichistas da objetividade.

  • José Vargens 03/09/2009 at 12:21

    Daniel, interessante o alerta sobre direito autoral.

    Se disponibilizam o acesso ao livro certamente o sistema deles não contabiliza direito autoral para 1899. Estão economizando uma grana!

  • Sérgio Rodrigues 03/09/2009 at 13:00

    Pois é, Amis. Também fui ler e até deixei um comentário lá. O que achei curioso: aparentemente, ninguém se deu ao trabalho de ler o artigo do Chronicle, talvez por estar em inglês; e se a indexação é um detalhe tão irrelevante como eles dizem, em estranha defensiva, dá vontade de citar Shakespeare: “Oh, what the f*** do we need librarians for?”

  • Rafael 03/09/2009 at 13:40

    A comparação é batida, mas vá lá: a internet está se tornando algo similar à monstruosa Biblioteca de Babel descrita por Borges: todos os livros escritos e por escrever estão lá, mas sua utilidade é nenhuma, dada a inexistência de um catálogo seguro que guie o desventurado leitor entre suas inextrincáveis e intrincadas galerias.

  • C. S. Soares 03/09/2009 at 20:08

    Aqui cabe uma reflexão: acreditamos em catálogos? Ou ainda, como devemos efetuamos buscas? Por catálogos (por exemplo, hierarquicamente como o antigo Yahoo) ou por palavras chaves (como o Google) ou ainda por critérios semânticos? (promessa da Web 3.0). Não me preocupo com esse “pequenos” erros do Google, porque em breve todos os dados on-line estarão conectados e, certamente, pelo ISBN (ou outro código) de um livro saberemos (quer dizer, o mecanismo de busca saberá e nos contará) qual o seu ano de publicação.

    Essa questão levantada pelo Sérgio é ótima, pois ajuda a mostra prenúncios de como escreveremos e leremos em futuro próximo. Aconselho aos interessados a se cadastrarem na lista do W3C sobre Semantic Web (Tim Bernes Lee está lá). Assim, poderemos ter uma ideia de como ainda estamos por avançar em termos de mecanismos de buscas, mesmo se acharmos o Google bem útil nos dias de hoje.

    E lendo on-line, todas as nossas ações, mesmo não conscientes, mostrarão que tipo de leitor somos, e assim, o software se adaptará a nós e nos antecipará as próximas leituras. etc.

    Outra coisa (Hefestus me chamará novamente de deslumbrado digital) a história, a trama, a narrativa será desconstruída e é assim que desejaremos interagir com ela.

    Imaginem uma interface em que se quisermos separar apenas os personagens e analisar suas características assim o faremos. Se quisermos criar cenários e possibilidades tb o poderemos fazer.

    É mais ou menos isso que será uma narrativa construída sobre as redes sociais. E mais, ela estará na nossa casa (no nosso mobile) mas também dentro das empresas, aliás pouco saberemos onde começa um e termina outro.

    Machado de Assis (que anteviu a internet em 1858) e Nabokov (cujo novo romance, The original of Laura, Brian Boyd chamou de Do-it-yourself-novel) fariam a festa.

  • Rafael 03/09/2009 at 23:39

    Machado de Assis é o Nostradamus brasileiro!

    Soares,

    Acho enternecedor esse seu entusiasmo pelo brave new world que as redes sociais prometem à monótona Humanidade. Chegaremos, enfim, à utopia do tédio e da repetição. Apesar da altisonante promessa de variedade, de multiculturalismo et cetera, o mundo digital tem contribuído sobretudo com a banalização das idéias, dos sentimentos e da imaginação. Pior ainda: a estupidez, a ignorância e a preguiça mental encontraram o terreno fértil de onde arrancam os nutrientes que alimentam seu desmedido crescimento.

    O Belo, o Bom e a Verdade se curvam ao império do senso comum dos garotos e garotas falastrões ensebados do visgo da cultura da celebridade.

    Oh, Deus! Eu adoro a Internet, este mirante da tolice humana.

  • Mr. WRITER 04/09/2009 at 01:03

    E o que eu mais gosto, Rafael, na rede sociais e afins, são as fotos de jovens se auto-fotografndo diante do espelho segurando a máquina em uma mão e a outra fazendo um lindo e magnífico “V” com a outra…

    Acho isso de uma criatividade que rivaliza com a de grandes gênios como Paulo Coelho…

  • Mr. WRITER 04/09/2009 at 01:04

    O sono me consome e eu consumi o idioma português ¬¬

  • Te 04/09/2009 at 01:21

    Fui fazer o dever de casa :-). Erros do Google Books, segundo o artigo:
    – O Google desenvolveu o sistema sem dar atenção à necessidade de metadados confiáveis. Metadados extraídos mecanicamente não são suficientes para fins acadêmicos.
    – Busca ligar os resultados das buscas a anúncios (associar Leaves of grass de Walt Whitman à venda de plantas e grama)
    – Pressa em ficar à frente da concorrência (todo mundo sabe no que dá a pressa)
    Finalizando: gerenciar uma grande biblioteca digital (que se propõe a ser universal) requer habilidades diferentes das que fizeram o Google dominar a internet. Já devem estar matutando como fazer isso.

    O professor Murilo Cunha apontou no seu artigo objeções ao Google Books, segundo David Bearman. Dentre essas objeções:
    “- A apresentação dos textos baseadas em palavras descontextualiza causando prejuízos culturais, e o interesse primário dela [Google Books] é a colheita de palavras para lincar anúncios;
    – O mecanismo de busca do Google Books (e o seu plano de negócios) promove resultados que não são consistentes com as classificações que os eruditos ligados às culturas nas quais os textos foram escritos iriam aprovar;”

    Artigo completo disponível em
    http://www.eci.ufmg.br/pcionline/index.php/pci/article/viewFile/221/388

    Frase colhida do artigo: Sem uma biblioteca real, a digital não será mais que um punhado de bits.

  • Rafael 04/09/2009 at 09:12

    Daqui a pouco, alguém, por inspiração divina, escreverá a narrativa da criação do mundo, o novo gênesis, que assim se iniciará:

    No começo era o Nada, e o espírito do software pairava sobre as águas; um dia, disse o software: faça-se a luz; e a luz se fez. O software separou a luz das trevas; àquela chamou dia, a estas noite. O software viu que a luz era boa. Assim foi no primeiro dia.

  • Eric Novello 04/09/2009 at 11:10

    Esses avanços tecnológicos, ai ai.
    Saudade das cavernas jurássicas, onde os que falavam mal da Internet não tinham Internet para falar mal dela. Será que ainda tem alguém que é contra a mecanização da lavoura? Que seja a arcaica só pra não sair do tema. Abss!

  • Hefestus 04/09/2009 at 12:07

    “Outra coisa (Hefestus me chamará novamente de deslumbrado digital)”

    È preciso que eu ainda chame?

    Imaginem uma interface em que se quisermos separar apenas os personagens e analisar suas características assim o faremos. Se quisermos criar cenários e possibilidades tb o poderemos fazer”

    Que coisa, achei que essa interface já existia há milênios e se chamava “cérebro”.

  • C. S. Soares 04/09/2009 at 20:49

    Rafael e Hefestus, falemos de história.

    Lembro-me de uma época em que o computador não era popular e apenas profissionais o usavam. Antes da capa da Veja de 1995, o computador nos lares brasileiros era “eletrodoméstico” raro. Antes, em 1953, o computador fora capa da Times (coadjuvado por T. Watson Jr, da IBM), sendo chamado de “cérebro eletrônico”.

    David Berlinski em seu ótimo “The advent of algorithm” comenta charge da The New Yorker em que um computador indagado sobre a existência de Deus respondia: “agora existe um”.

    Você pode notar que mesmo os computadores, hoje banalizados, mereceriam mais respeito. Certamente, já viveram dias mais célebres.

    A “estupidez, a ignorância e a preguiça mental” não está no computador, nem no software. Atribuídas a instrumentos, teríamos então que atribui-las antes aos livros, ferramentas que chegaram antes, ao ainda antes, à palavra escrita (scipta manent, verba volant).

    Se por um lado Rafael você atribui aos computadores e softwares algo pernicioso, por outro lado, Platão também viu mal na palavra escrita. Quem está certo ou errado?

    É bastante irônico que a quantidade em detrimento da qualidade foi exatamente o que impulsionou a revolução da impressão em seus primórdios. Algo que hoje muitos criticam quando se contrapôe a cultura da internet ao modelo antigo. Inclusive, escuto certas coisas sobre o Twitter de quem provavelmente desconhece que as primeiras prensas produziam basicamente textos curtos, efemérides (as cartas de indulgência), calendários etc.

    Aí, séculos depois, nos aparece a internet, produto humano, ferramenta, tanto quanto o livro.

    No início, lia-se o que a igreja deixava, depois o que os editores deixavam, hoje, finalmente, lemos o que queremos. Isso é ruim? Acho que não. Curiosidade sempre foi atributo de poucos.

  • João Sebastião Bastos 05/09/2009 at 12:06

    O problema está no ritmo atabalhoado em que vivemos, que gera uma tecnologia com seus operadores imediatistas , numa sensação de eterno agora .Checar uma informação é algo im pensável, para estas pessoas. E se é uma informação errada,com baixa possibilidade de alguém exigir uma retificação, então sai de baixo !

  • Pasma 10/09/2009 at 19:55

    Fico pasma com a facilidade com que algumas pessoas dizem besteira e a facilidade com que outras acreditam. Desde quando bibliotecários indexam a “biblioteca” do Google? Erros de catalogação acontecem, mas aposto que boa parte do problema se dá na hora de importar os dados. Ou os livros são colocados no Google por gente desqualificada, que nunca estudou Biblioteconomia (é mais barato). Ou o problema é outro, que não foi abordado na “reportagem” (???) — malhar sem saber o que houve é tão fácil! Sr. Sérgio Rodrigues, faça o dever de casa, investigue e nos conte o motivo dos erros. Rafael, se vc quer chicotear alguém sem pensar duas vezes, vá brigar com os donos do Google (que não é uma biblioteca). Ou vá estudar Bibliotecomomia e depois ensine os padres a rezar missa…

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