‘O senhor do lado esquerdo’: por uma mitologia carioca

22/08/2011

O típico romance brasileiro contemporâneo não quer saber do passado, seja em forma de história ou de mito. Para ele o passado perdeu substância e virou uma obsolescência de mau gosto, museu da irrepresentabilidade da experiência humana. À parte uma óbvia diversidade – apregoada em excesso, a meu ver – qual é o narrador típico da ficção brasileira dos últimos vinte anos? Eu diria que é o sujeito solitário e cético que se vê lançado num mundo de referências – morais, sexuais, políticas, religiosas, familiares, profissionais – que considera fajutas, esvaziadas, fantasmagóricas, quando não violentas e absurdas. Menos agente da realidade do que seu paciente crítico, bartlebyano, esse narrador às vezes é abúlico, às vezes agitado, mas sempre tão atordoado quanto o leitor. Habita uma espécie dolorida de presente: aquele em que a quebra das molduras fornecidas pelo passado e a inação que isso induz tornam o futuro aleatório, portanto imprevisível, mas de toda forma gratuito e vão.

Esse “narrador típico” – uma abstração generalista, claro – é descendente direto de Albert Camus e Samuel Beckett, via Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Foi antecipado por Cyro dos Anjos, mas não sabe disso. Também tem suas dívidas com o noir, os beats, o rock e, por vias meio tortas, com Clarice Lispector. Ora, uma literatura assim se quer desmistificadora, jamais criadora de mito (e assim acaba por cair nos braços de outro mito, mas isso fica para outra hora). É em tal quadro que o romance “O senhor do lado esquerdo”, de Alberto Mussa (Record), se torna um evento literário marcante. Ao abraçar de forma gulosa e programática a dimensão histórico-mítica da narrativa, Mussa se firma como o antípoda por excelência do nosso escritor típico.

Em entrevistas como esta, o experiente escritor carioca de 50 anos disse que quis fazer de “O senhor do lado esquerdo” seu livro mais acessível. Conseguiu. Narrativa ágil deflagrada pela premissa ficcional do assassinato, em 1913, de um importante assessor da presidência da República no prostíbulo conhecido como Casa das Trocas, o romance é um híbrido de policial e crônica criminalística carioca, com pesquisa e invenção embaralhadas. Estrutura de noveleta policial à parte, sempre foi essa a praia de Mussa, autor de “O enigma de Qaf” e “O movimento pendular”, romances em que o tom de cronista-ensaísta-pesquisador filtra – e às vezes abafa um pouco – uma rica dimensão ficcional.

Em “O senhor do lado esquerdo” não há abafamento algum. Se alguns dos “crimes antecedentes” que o narrador intercala na intriga principal deixam um travo de non sequitur que beira a ostentação erudita, o estrangulamento ocorrido no casarão onde tinha morado a marquesa de Santos, no bairro de São Cristóvão, com sua passagem secreta para a conveniência adúltera de D. Pedro I, mantém o leitor vivamente interessado numa trama folhetinesca enquanto no pano de fundo, com inteligência, Mussa borda uma reflexão sobre o desejo sexual e seus mecanismos de controle na história do Rio de Janeiro, de índios a escravos, de europeus malucos a mamelucos. O comando vocabular que o autor exibe sobre palavras indígenas e afro-brasileiras só é comparável à sua disposição de pô-las em circulação, algo que, fora do nicho dos estudos acadêmicos, ninguém está fazendo.

Resgatar palavras do dicionário e anedotas históricas dos arquivos, em prosa clara e boa, seria um feito digno para qualquer livro, mas a ambição de “O senhor do lado esquerdo” é maior. Mussa quer dar forma a uma mitologia inteira para o Rio de Janeiro, declarando já no preâmbulo que o crime da Casa das Trocas é “mito de fundação, embora fora da cronologia” de uma das cidades mais famosas do planeta, nossa trágica capital decaída. O Rio de Janeiro do livro começa antes da chegada dos portugueses e é um mundo perigoso e excitante de nações em guerra, capoeiras em duelo, feiticeiros, ciganos e piratas, vítimas e perpetradores de uma fabulosa história de crimes. A volúpia narrativa com que Mussa pinta esse mural chama a atenção pelo contraste com o tom contrafeito do “narrador típico” mencionado acima, sempre mais inclinado a lutar contra a linguagem do que a se deixar levar por sua corrente.

Ironicamente consciente do lastro que é obrigado a lançar fora para ganhar velocidade, o narrador de “O senhor…” diz a certa altura: “Se este fosse um romance psicológico – ou desses em que a história se passa no íntimo dos personagens, dando ênfase à subjetividade em detrimento da ação e da concretude dos fatos – faríamos demoradas considerações sobre” blablablá. Logo conclui: “Mas seria perda de tempo”. Sem tempo a perder, pois precisa cobrir séculos, o livro se expõe à acusação de trocar personagens tridimensionais por tipos, profundidade por abrangência. Acusação que eu acho tola, por equivaler a cobrar de um peixe disposição para a caminhada.

Esse gosto pela fabulação, ao lado do colorido das referências culturais, explica a boa carreira internacional de Mussa, que tem livros traduzidos em dez países. Explica também a posição gauche e conspícua que ele ocupa no cenário doméstico: a de continuador de uma tradição de narradores voluptuosos, ávidos tanto de história quanto de mito – ambos matéria das histórias, certo? – que alguns chamam de populista e que, até outro dia, parecia ter em João Ubaldo Ribeiro seu último representante. Que outros discutam se essa postura é conservadora ou progressista, retrógrada ou libertadora, como se tais coisas fossem incompatíveis. É a postura responsável pelo sucesso artístico de um dos bons livros do ano, surgido numa conjuntura de reerguimento anímico do Rio de Janeiro, para o qual deseja contribuir de modo ostensivo e, nos melhores momentos, comovente.

5 Comments

  • Humberto 23/08/2011 at 12:54

    A resenha me fez lembrar de Márcio de Souza e seu “Galvez, Imperador do Acre”. Alguma relação?

  • sergiorodrigues 23/08/2011 at 15:32

    Sim, Humberto, há pontos de contato, mas diferenças também. A principal delas é que Márcio Souza trabalha sobre a forma do romance picaresco e Mussa, sobre a do romance policial.

  • João 10/06/2014 at 19:08

    Sérgio, você sabe de mais autores nessa vibe: ” Nelson Rodrigues escreve como se estivesse narrando em voz alta, num estilo de frases lapidares, de espantosa oralidade.”?

    Falo (vibe) de ‘espantosa oralidade’, em que tenta imprimir a oralidade na escrita.

    Mia Couto seria um, não? Sabe de mais (em língua portuguesa)?

    (Esse trecho é de Mussa, mas não consegui achar seu contato pra lhe perguntar sobre, e talvez você saiba.)

    Muito obrigado.

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