Os começos inesquecíveis de Amós Oz

13/06/2007

Onde é que uma história começa, propriamente? Qualquer começo de história é sempre um tipo de contrato entre o escritor e o leitor. Há, é claro, todo tipo de contrato, incluindo aqueles que são insinceros. (…)

Há começos que funcionam mais como um papel pega-mosca: primeiro você é seduzido por uma fofoca maliciosa, ou por uma confissão reveladora, ou por uma aventura de gelar o sangue, mas finalmente descobre que não fisgou um peixe, mas sim um peixe empalhado. Em Moby Dick, por exemplo, há muitas aventuras, mas também muitos artigos de delicatéssen não mencionados no menu, nem mesmo insinuados no contrato inicial (“Pode me chamar de Ishmael”), mas conferidos a você como um bônus especial – como se comprasse um sorvete e ganhasse uma passagem para viajar pelo mundo.

Há contratos filosóficos, como o famoso trecho inicial de Anna Karenina, de Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem umas às outras; cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira.” Na verdade, o próprio Tolstói, em Anna Karenina e em outras obras, contradiz essa dicotomia.

Às vezes somos confrontados com um contrato inicial ríspido, quase intimidante, que alerta o leitor logo de início: as passagens são bem caras aqui. Se você acha que não pode pagar um considerável valor adiantado, é melhor nem tentar embarcar. Não espere concessões ou descontos. Assim, por exemplo, é o início de O som e a fúria, de Faulkner.

Mas o que é, em última análise, um começo? É possível que exista, em teoria, um começo conveniente a qualquer história que seja? Não existe sempre, sem exceção, um “começo antes do começo” latente? Algo anterior à introdução e ao prólogo?

Em “E a história começa – Dez brilhantes inícios de clássicos da literatura universal” (Ediouro, tradução de Adriana Lisboa, 136 páginas, R$ 29,90), o escritor israelense Amós Oz – que mês que vem estará em Parati – trata com erudição e engenho de um tema caro a este blog: as estratégias de sedução empregadas pelos escritores para impedir que o leitor, bicho cada vez mais arisco, vá embora logo nas primeiras linhas para nunca mais voltar.

58 Comments

  • Bernardo Brayner 13/06/2007 at 18:33

    Ótima idéia para um livro. Quero ler.

  • Djabal 13/06/2007 at 19:06

    Assim que abri o livro, lembrei-me do seu gostoso hábito de colocar os melhores inícios dos livros e o adquiri imediatamente, para fazer comparações e aprender um pouco mais. Parabéns pelo hábito.

  • Daniel Brazil 13/06/2007 at 20:52

    Será que Amós Oz se inspirou no Calvino de “Se Um Viajante Numa Noite de Inverno”? De qualquer forma, ambos são brilhantes nas suas especulações metalinguísticas.

  • Jonas 13/06/2007 at 21:13

    Oz é, para mim, o maior autor vivo.

  • Benjamim Negro 14/06/2007 at 01:07

    Deixaram-nos o aviso impresso às centenas de milhares, e era tão pequena a nossa cidade que ainda hoje as famílias mais antigas guardam versões de variados tamanhos afixadas em álbuns, junto às fotografias dos homens primogênitos.

    Não pus aspas porque este é o início do meu romance Lembrança de estranhos (http://noltrabqu.livejournal.com), divulgado aqui há dois meses e cujo capítulo 3 será publicado nessa segunda próxima, 18/06.
    Obrigado pela oportunidade e um abração.

  • Paulo 14/06/2007 at 07:02

    Ótima indicação. Eu, da minha modesta trincheira de escriba, sempre passo os olhos em inícios de textos alheios, quando, ao escrever alguma coisa, o fôlego me falta. Abraço.

  • Paulo 14/06/2007 at 07:06

    Ah, sem querer invadir a seara de Sérgio, deixo uma dica para todos. O livro “A verdade das mentiras” (Editora Arx), de Mario Vargas Llosa. Nele são analisados alguns dos grandes romances contemporânes, com a costumeira elegância e erudição de Vargas Llosa. Abraço.

  • Bemveja 14/06/2007 at 10:14

    Meio middlebrow a idéia. Quantas vezes ainda será preciso alguém escrever sobre o começo do Anna Karenina?
    Além disso, o trecho citado é muito mal-escrito; essa história de “oh, o que é um começo?” soa a filosofia barata de estudante universitário. Está na hora, nem que seja para variar, de se escrever algo sobre os melhores finais (“…snow falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living and the dead.”).

  • Claudio Soares 14/06/2007 at 10:37

    Taí Sérgio, uma ótima idéia de interatividade. Alguns comentaristas daqui são escritores (ou pretendentes a escritores). Que tal abrir um post para que eles coloquem o começo da história de seus livros? Vale o registro histórico…

  • Sérgio Rodrigues 14/06/2007 at 11:09

    Bom, quem quiser enviar seus começos, como sugere o Cláudio, deve ficar à vontade. Pode acrescentar um link no caso de o texto estar online. A propósito, achei instigante esse início, Benjamin Negro. Apesar de ser meio alérgico a ênclises, tive vontade de continuar lendo.

  • Ai, ai, ai, ai 14/06/2007 at 11:12

    Bemveja, Bemveja…
    que tal em francês, em russo, em mandarim, em javanês, em…

    Quanta erudição, quanto descortínio, quanta cultura, quanto…, quanta…, quanto…, quanta….

  • O Reacionário 14/06/2007 at 12:12

    Reforçando o comentário de Ai, ai, ai, ai: Hmpf, é só mais um desses que infestam as caixas de comentários pela blogosfera. Deixe-o(a) mostrar ao mundo que aprendeu a lição de casa direitinho. No mais, é só ignorar (por exemplo, deixando-o(a) em solene monólogo nas prováveis réplicas a esses últimos comentários). Mas, quanto ao que é relevante: muito bom escritor, com certeza, o Amós Oz.

  • Claudio Soares 14/06/2007 at 12:36

    Obrigado Sérgio pela oportunidade.

    O meu Santos-Dumont Número 8 pode ser lido de 2 formas (sequencial ou hipertextual) logo possui 2 inícios. Coloco aqui a primeira opção.

    Lemniscata. Uma lemniscata de si mesma, assim é a História. Tão curvilínea e distorcida quanto aquela de Jakob Bernoulli. Tão sinuosa, sibilante e sensual quanto o símbolo infinito de John Wallis. Um número 8 deitado. Uma tira de Möbius esquisita e conveniente em sua constante transformação em si mesma.

    Então, se é assim, que assim mesmo o seja, a História, essa lemniscata de todos nós. Esse insistente “navegar-se”, permanente e necessário, esse eterno recomeço, progressão e regressão ininterruptas, contínuo e inevitável retorno das su-pers-ti-ções?

    Sabe por quê? Muito simples. Porque assim é a História e é para isso que ela serve? ou pelo menos quase?

    Biblioteca Nacional.
    Sala Celso Cunha. Divisão de Manuscritos.
    Segunda-feira, 29 de setembro de 2008.

    — Por que você resolveu abrir este livro? O que te deu na cabeça, hein?! Você não sabe que isso pode te fazer muito mal à saúde? Carolina Veríssimo não podia deixar de expressar um misto de angústia e preocupada reprovação com aquele verdadeiro bombardeio de perguntas.

    — Mas, meu Deus, é apenas um livro. O que isso pode ter de mais? Justificativas, Francisco Abayomi as buscava no mais óbvio, porém, nem tanto?

    — O que isso pode ter de mais?! Muita coisa, caramba! Ah, Abayomi, certas vezes, você me parece tão sem noção?

    É possível, provável e justo que Carolina estivesse certa e que as coisas não fossem assim tão simples, como parecia querer fazer crer Francisco Abayomi. Afinal de contas, existiam as experiências e também os frutos, ainda mais estranhos, delas. O problema não estaria nos acontecimentos em si, mas no que poderia advir de tais acontecimentos, já que dentro da cabeça de Abayomi os tempos se encontravam e, juntos, eram capazes de promover rememorações do passado e, por mais incrível que parecesse, do presente e até do futuro. O que se originava no futuro atravessava inapelavelmente o presente, mergulhava inexoravelmente no passado e dele retornava, imprevisível como as pessoas, imprevisível como certos dias, aqueles que pareciam não querer terminar nunca mais? como uma lemniscata?

    Santos-Dumont Número 8 (Universo dos Livros, 2006). Primeiros capítulos em http://www.universodoslivros.com.br/dumont.php

  • Bemveja 14/06/2007 at 13:28

    Ai Ai Ai, Triste momento esse do Brasil em que o inglês e francês, idiomas banalizados e facilmente aprendidos por qualquer um com um Q.I. acima de 50, sejam tidos por uma forma de alta erudição. Quem não conhece inglês nem reconhece a citação que me desculpe, mas está no limite do analfabetismo literário. É até irônico, porque confirma minha tese de que vários desses pseudoautores e comentaristas que repetem as mesmas banalidades sobre o início dos mesmos livros não se deram ao trabalho de ler as ditas obras até o fim (detalhe: não foi nem sequer um romance que citei). É o velho jeitinho preguiçoso do brasileiro: ao invés da coisa em si, as pessoas se contentam com fiapos selecionados para lhes dar uma sensação, obviamente errônea, de maturidade intelectual.

  • Paulo (outro Paulo) 14/06/2007 at 13:47

    Sergio Rodrigues, sei muito bem que você conhece a gramática: a ênclise no início do texto de Benjamin Negro é obrigatória (a não ser que você queira imprimir oralidade à narrativa). Mas o que me espanta é ouvi-lo dizer que tem “alergia” a ênclises. Denota um preconceito gratuito contra uma figura necessária da língua portuguesa (colocação pronominal). Pra você ver como é difícil agradar em literatura: você tem alergia a ênclises, eu já topei com centenas de pessoas que “odeiam” mesóclises. É difícil, é difícil…

  • Tibor Moricz 14/06/2007 at 13:53

    Vamos deixar as ênclises aos lisboetas. A “alergia” sem dúvida se refere ao seu uso indiscriminado. Au revoir, proclíticos brasileiros.

  • Benjamim Negro 14/06/2007 at 15:19

    Agradeço pelo elogio, SR. Torço para que você e outros que tenham gostado leiam no site até o segundo capítulo, e dêem seqüência na leitura com o terceiro que, repito, postarei lá, na próxima segunda. Também repito (disse há dois meses) que o plano é publicar um capítulo novo a cada duas semanas, sempre às segundas-feiras.
    Despeço-me.
    : )))

  • Claudio Soares 14/06/2007 at 15:25

    No post anteior, se falou sobre a “doação ao acaso” de livros. Ainda no tema: foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), recentemente, projeto que inclui a dedução de doações de livros a bibliotecas públicas no cálculo do imposto de renda devido por pessoas físicas. Mais em http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=72510

  • fredson 14/06/2007 at 15:44

    Boa idéia a do Claudio Soares. Agora, os começos têm que ser colocados na página principal, senão não tem graça.

  • Sérgio Rodrigues 14/06/2007 at 16:15

    Paulo (outro Paulo): não tenho “preconceito” contra a ênclise, menos ainda “gratuito”. Me parece apenas evidente, basta apurar os ouvidos, que o português brasileiro a rejeita na maioria dos casos – não em todos, por isso me declarei só “meio alérgico” – em que o português de Portugal a entende como obrigatória. Acho que a descriminalização da próclise, inclusive em abertura de frase, é uma das medidas de nossa auto-afirmação cultural. O papel dos escritores nesse ponto é fundamental, os gramáticos devem se limitar a seguir atrás. Os modernistas brasileiros fizeram muito por isso, antes que qualquer um de nós tivesse nascido. Houve retrocessos desde então também. A luta continua. No mais, é claro que nenhum recurso da língua deve ser descartado de antemão: tudo depende do tom, da intenção, do contexto. Até a mesóclise tem o seu lugar – em textos “de época” ou escancaradamente pedantes, por exemplo.
    Um abraço.

  • Lorena Suppa 14/06/2007 at 16:57

    No caso do Benjamim acho que a ênclise foi bem-vinda, devido ao estilo da escrita. Mas concordo com você Sérgio: a próclise é tão brasileira quanto arroz-feijão e deveria haver um “libera geral”…Já mesóclise…há quem use ainda? Para mim ainda é sinônimo de rebusque…

  • Saint-Clair Stockler 14/06/2007 at 17:17

    Claudio, era só pra botar o comecinho, você botou praticamente o livro todo! Hahahaha. Era só a cabecinha, filho…

  • Claudio Soares 14/06/2007 at 17:23

    rsrsrsrs… Esse SCS é um perigo :-) O pior amigo é que é o só a “cabecinha” mesmo. O livro tem 464 páginas. Abs.

  • Saint-Clair Stockler 14/06/2007 at 17:34

    Algumas observações pro Benzinho:

    Sr. Bemveja, veja bem: gostaria de saber que romance você escreveu, se é que escreveu algum. Porque chamar de “mal-escrito” um trecho de Tolstoi só é permitido se o opinador for um (bom, no mínimo) escritor. Aliás, sou da opinião que críticos deveriam praticar a mesma arte que criticam, ou seja: um crítico de pintura deveria ser pintor; um crítico de literatura, escritor; um crítico de música, músico… e por aí vai. É muito fácil falar, fazer é que é foda. Consigo comprar um livro seu no Submarino? Estou ardendo em curiosidade sobre sua prosa. Até agora, pelo que anda perpetrando aqui no TodoProsa, acho que você ainda está nos devendo talento ao alcance das suas pretensões & arrogâncias.

    Dizer que alguém que consegue falar ou, ao menos, ler em francês está no limite do analfabetismo literário é outra de suas declarações bombásticas, mas que não se sustentam. Lindas como bolhas de sabão e igualmente efêmeras. A gente tenta meter (ooops) o dedo e ela faz puf! Em sua – para mim, creia, valiosíssima – opinião, que língua deveríamos falar para deixarmos de ser pessoas nas bordas do analfabetismo? Russo? Chinês? Grego jônico? Latim? Ou, enfim, o inglês de Shakespeare? De fato, necessitar-se-ia (sorry, Sérgio, não resisti devido à seriedade do tema) conhecer um idioma estrangeiro para que um eventual (cada vez mais eventual) leitor possa usufruir ple-na-men-te das profundidades da literatura? Gostaria de ser esclarecido, em minha profundíssima ignorância, pela sua contundente explicação, que iluminará certamente o meu final de semana.

  • Tibor Moricz 14/06/2007 at 17:40

    idiomas banalizados e facilmente aprendidos por qualquer um com um Q.I. acima de 50….

    Agora entendo como o Bemveja (produto de limpeza?) conseguiu aprender…

  • Claudio Soares 14/06/2007 at 18:10

    Como Mr. King, I have a dream…

    “Pergunte não o que a literatura do seu país pode fazer por vc – pergunte o que vc pode fazer pela literatura de seu país.”

    Tudo bem, não foi exatamente isso que o Kennedy disse, mas bem que poderiamos aplicar o mesmo princípio à nossa relação (de brasileiros que somos) com a nossa Literatura Brasileira.

    Princípio que se aplicaria a todos: leitores, escritores, editores, críticos, livreiros, etc…

  • shirlei horta 14/06/2007 at 18:55

    Já pensou não ter mais este espaço chiquééérrimo do Sérgio pra gente? Nem me fale! Eu me mataria enfiando goela abaixo as 464 páginas do livro do Cláudio!

    E a quem reclamar, ao bispo? Nãããão. Ao novo ombudsman do IG, Mario Vitor Santos, http://ombudsman.blig.ig.com.br.

    Obviamente eu já reclamei. Estou esperando a companhia de vocês. Todos.

  • Paulo (outro Paulo) 14/06/2007 at 19:28

    Sergio, a imagem que você usou (ter “alergia” a determinada regra da gramática) denota claramente um preconceito. Alergia é aquela reação negativa que nos afeta sem que saibamos a causa (várias alergias têm causa indeterminável). E o preconceito é exatamente aquela idéia que afetamos de algo ou alguém sem que lhe determinemos o motivo. Mas agora você aponta especificamente o motivo da sua aversão, de cunho nacionalista. Não é preconceito porque tem um motivo bem determinado. Está explicada portanto a sua aversão. Mas permita-me observar duas coisas: a) “apurando bem os ouvidos”, eu percebi que o português brasileiro rejeitou não apenas as ênclises, como também as mesóclises, o pretérito mais-que-perfeito, as contrações de pronomes átonos e oblíquos, os pronomes dativos, a segunda pessoa do plural inteira, a segunda do singular já muito combalida, o modo subjuntivo querendo tirar umas férias, entre outros capítulos da verdadeira tragédia que recaiu sobre a língua; b) a pretexto de imprimir “brasilidade” ao português, você não só reconhece o abismo profundo que se abriu nos últimos 60 anos entre a língua escrita e a falada, como parece preconizar a institucionalização da última, em detrimento da primeira, como se isto fosse conquista da Nação brasileira, e não a derrocada final do seu Espírito.

  • Paulo (outro Paulo) 14/06/2007 at 19:36

    Sergio, não veja zoilismo nas minhas palavras, critico-lhe o ponto de vista com intenção “construtiva”. Fico realmente surpreso de vê-lo dizer que a mesóclise soa pedante. A sua concepção da língua parece que foi moldada pela oralidade pura, pelo que diz o homem médio.

  • Silvio... Silva 14/06/2007 at 19:38

    Desculpem desviar a discussão mas: Andei afastado algum tempo e ouvi esses rumores sobre o fim do nominimo. É p/ valer isso? Alguém (se possível o próprio Sérgio) poderia comentar sobre? Grato.

  • Sérgio Rodrigues 14/06/2007 at 20:24

    Paulo, a minha concepção de língua escrita é aplicada diariamente no meu trabalho há muitos e muitos anos. Não me parece que seja um registro puramente “oral” ou “médio”. No entanto, mesmo rejeitando veementemente as conotações baratas da palavra “nacionalismo”, eu vejo, sim, um tremendo sintoma de atraso cultural no apego cego à “riqueza lingüística lusitana”. Traduzir na escrita o ritmo, a música, a cor da língua que um povo fala e escreve – fala e escreve de fato – não é um processo simples ou automático. A meu ver, longe de refletir empobrecimento, como você diz, é um excelente indicador do grau de sofisticação e autonomia de uma cultura. O que Hammett e Hemingway fizeram pelo inglês americano, por exemplo, encontra paralelo no que fizeram pelo português brasileiro Graciliano e, mais tarde, Sabino. Isso é empobrecimento? Não creio. Agora, se você considera mesmo a mesóclise um recurso bacana, e não está apenas se deixando levar pelo calor do debate, talvez nos falte um mínimo de base comum sobre a qual erguer essa discussão. E obrigado por me explicar o significado da palavra “alergia”.

  • Sérgio Rodrigues 14/06/2007 at 20:31

    Outra coisa, Paulo: não se abriu abismo nenhum entre a língua escrita e a falada “nos últimos 60 anos”. O abismo sempre existiu, é da natureza das línguas – a que se fala é uma, a que se escreve é outra. Criar pontes entre esses dois mundos me parece ser uma das mais interessantes tarefas dos escritores.

  • Paulo (outro Paulo) 14/06/2007 at 21:00

    Sergio, por esta breve troca de mensagens percebo que temos concepções profundamente distintas e talvez antagônicas da língua e do seu valor, cujo esclarecimento exigiria mais do que este espaço comporta. Deixe-me apenas dizer que jamais entro aqui pelo “calor do debate”, a minha postura é séria e quero mesmo saber o que você pensa, sendo escritor e blogueiro dos mais recomendáveis. De resto, fico muito feliz que você valoriza um certo nacionalismo cultural, e me junto entusiasticamente a você nessa empreitada, posto que tenhamos idéias profundamente diferentes de como realizá-lo.

  • Breno Kümmel 14/06/2007 at 21:20

    “como se isto fosse conquista da Nação brasileira, e não a derrocada final do seu Espírito.”

    Nossa, que drama. Como que uma ênclise carrega consigo o espírito (ops, quis dizer Espírito) de uma nação?

    Só falta dizer que “você” realmente pertence à terceira pessoa…

  • Sérgio Rodrigues 15/06/2007 at 00:17

    Quanto ao provável fim do site, Silvio, me desculpe se já estou cansado do assunto, mas é verdade. Dê uma olhada no editorial “Quem liga para isto?”, ainda com chamada na home. Um abraço.

  • Bemveja 15/06/2007 at 07:32

    Saint-Clair, em primeiro lugar, lembre-se da lição do Jacob Burckhardt: é preciso saber ler! Quando vc, apressadamente, disse que eu falei mal de Tolstoi, é porque não leu direito; eu me referia ao Oz e suas divagações baratas sobre “o que é um começo”. O início do Anna Karenina, aliás, é interessante, mas tb não tem nada de mais. Se “todas as famílias felizes blablablá” fosse o começo do “Éramos Seis”, eu não me surpreenderia.
    Eu acho que escrever ficcão deve ser uma atitude calculada. Você não consegue comprar um livro meu no Submarino porque eu tenho uma noção de humildade quanto à grandeza da literatura: criar, em si, não é um ato de coragem; coragem é ter auto-crítica. Escrever, repito, é antes de tudo um ofício, não é um exercício confessional de liberação psicoterapêutica– ou melhor,nesses tempos de internet, blogs etc até é, mas a grande literatura não se presta a improvisos nem diletantismos.
    Eu sei que você e outros aqui escrevem, e demonstram certa hipersensibilidade com relação a pessoas que não vivem para elogiar; sinto muito, a vida é assim. Falar é fácil porque essa é a natureza da obra, você pode não ser arquiteto mas pode, em cinco segundos, ter uma opinião sobre a beleza de um edifício.
    Sobre a necessidade de se ler e falar vários idiomas, sinceramente p/ mim é auto-explicativa, ainda mais num blog sobre literatura. Dominar o inglês, francês e uma terceira língua de sua predileção, além do português, deve ser pré-condição a quaisquer ambições literárias.
    Mudando de assunto, amanhã espero que todos achem um momento para celebrar a história do homem prepara um rim de carneiro frito de manhã e sai pelas ruas de Dublin.

  • Tamara Sender 15/06/2007 at 10:12

    Sérgio, meus parabéns pela visão sensata a respeito da língua portuguesa. Concordo totalmente com o que você escreveu. Abraços, Tamara

  • Saint-Clair Stockler 15/06/2007 at 12:15

    Benzinho:

    “Eu sei que você e outros aqui escrevem, e demonstram certa hipersensibilidade com relação a pessoas que não vivem para elogiar; sinto muito, a vida é assim.”

    Hihihi, ficou confuso de novo (tenho lá culpa se você não é claro em parte das coisas que escreve?): você quis dizer “com relação a pessoas que não vivem para elogiá-los”? Se foi, estou aqui morrendo de rir. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAH.

  • Bemveja 15/06/2007 at 12:53

    Não, eu quis dizer isso mesmo; existem pessoas que vivem para elogiar servilmente os outros e que , ao mesmo tempo, não conseguem achar nada ruim por medo de descontentar os demais. Porque as suscetibilidades não atingem somente nossas criações, mas também o nosso gosto pessoal. Se eu falo mal do soneto que uma pessoa escreveu, p.ex., a pessoa se ofende, mas se eu falo mal de um autor de quem a pessoa gosta, às vezes ela toma isso de forma pessoal também. Esse é o cenário da pobre arena cultural brasileira.

  • Daniel Brazil 15/06/2007 at 13:32

    Bemveja, tuas observações sobre os “brasileiros” são válidas para o ambiente cultural de todo o planeta. O escritor (ou artista) brasileiro não é diferente do russo, do espanhol ou do australiano, na postura em relação aos colegas. Podemos encontrar diferenças no conjunto das obras, claro, mas o espírito humano não está (ainda) geograficamente condicionado.
    Reavalie teu pedantismo, meu caro. Você citou Joyce. Sabe quantas línguas ele falava?
    E Shakespeare? Alguns dos maiores escritores de todas as épocas só dominavam a língua natal. Pra que distorcer este fato?
    Aliás, middlebrow é citar o final de um conto que já virou até filme de Hollywood, não acha? Que tal buscar um final de romance autêntico, pra dar suporte ao teu argumento?

  • Bemveja 15/06/2007 at 14:28

    Joyce entendia/falava umas doze línguas. Adolescente, escreveu para o Ibsen em dano-norueguês. Shakespeare eu não sei, mas Shakespeare, assim como Dante, Rabelais e Cervantes, reinventou o próprio idioma, foi responsável pela introdução de literalmente centenas de palavras e expressões no inglês, ou seja, estava lastreado numa circunstância idiomática muito rica, mesmo que só falasse inglês (mas desconfio que entendesse latim, claro, e francês tb, seria o caso de verificar). Não conheço nenhum grande escritor ocidental monoglota.
    Sobre o The Dead, não não acho que seja middlebrow citar o conto porque virou filme; por esse critério, não se poderiam citar A Bíblia, Ulysses, A La Recherche e por aí vai…
    Daniel, você tem certa razão sobre o fato de que escritores são corporativistas no mundo todo, é verdade, desenvolvem amizades, escrevem “blurbs” uns para os outros e esquecem de ler criticamente a ficção que lhes é contemporânea. Daí a necessidade do crítico… Mas esse corporativismo não é uma regra inquebrantável, é um ditame do mercado e das panelinhas que se formam. No Brasil isso é bem pior porque a subsistência do escritor depende, muitas vezes, de bicos em jornais, Departamentos de Letras etc etc, então há menos polêmicas, menos diferenças e, por extensão, menos qualidade. O autor brasileiro envelhece precocemente, aos 20 anos o sujeito já virou um velhinho da Academia Brasileira de Letras derramando e recebendo elogios desmesurados dos demais autores.

  • Claudio Soares 15/06/2007 at 15:32

    creio que seja necessária uma atualização geral em relação ao que anda acontecendo lá pelos lados da ABL. Acessem o site.

  • Bemveja 15/06/2007 at 16:01

    Alguns premiados ABL 2007:
    -Adélia Prado
    -Francisco Weffort
    e, last but not least
    -Rubem Fonseca…

    “O estatuto da Academia Brasileira de Letras estabelece que para alguém candidatar- se é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário.”
    Alguns acadêmicos atuais: Ivo Pitanguy, Paulo Coelho, Arnaldo Niskier e José Mindlim (autor de dois livros de não-ficção).
    ABL: 110 anos de inutilidade, compadrio e agitação senil.

  • Tibor Moricz 15/06/2007 at 16:06

    Bem, nalguma coisa eu tenho que concordar com o Bemveja…

  • Saint-Clair Stockler 15/06/2007 at 16:50

    E eu também, Tibor. Vê se pode! (Agora, vou ficar o final de semana inteiro deprimido… Hahahaha)

    O Machado deve estar se revirando no túmulo. Ainda mais quando se sabe que um dos Presidentes da Academia, com centenas de livros publicados, NUNCA ESCREVEU UMA LINHA SEQUER!

  • ai, ai, ai... 15/06/2007 at 16:58

    Bemveja, veja bem…
    Cara, com tanta sapiência, erudição, conhecimento, a última palavra e conceito sobre tudo e sobre todos,
    Me diz aí um livro que tu escreveste…
    estou doido, cara, doido pra ler esse portento… pode ser um em português mesmo, tá?
    Me diga que vou à livraria neste sábado pra comprá-lo, ok?

  • Bemveja 15/06/2007 at 17:21

    Já falei antes, não escrevo, já não bastam meus comentários aqui? Sou da escola socrática.
    Para quem quiser refletir sobre formas de se tornar um escritor melhor, recomendo a leitura atenta do Mimesis, do Erich Auerbach (estilística), Cathedral, do Raymond Carver (contos) e Mao II, do Don DeLillo (romance breve). Esses três livros oferecem, respectivamente, lições diretas ou indiretas sobre:
    -os modos de representação da realidade;
    -a parsimônia na descrição de sentimentos; e
    -a parsimônia na descrição de eventos coletivos (tais como casamentos em massa e a transmissão pela TV dos funerais do Aiatolá Komeini) e de funções sociais (no caso, a função do próprio autor de ficção).
    Recomendo evitar,a todo custo, Cartas a um Jovem Poeta, bobagem sentimentalóide que já comprometeu muitas ambições literárias promissoras. Pronto, pode desligar a internet e boa leitura.

  • Saint-Clair Stockler 15/06/2007 at 17:25

    Parsimônia se escreve com “c”: parcimônia.

  • Saint-Clair Stockler 15/06/2007 at 17:27

    Complementando a lista do Bemveja, eis as minhas sugestões para jovens autores sérios:

    A arte da ficção – John Gardner
    A arte de escrever – Schopenhauer
    A aventura de escrever – Suzanne Lipsett
    A voz do escritor – A. Alvarez
    ABC da literatura – Ezra Pound
    A sedução da palavra – Affonso Romano de Sant’Anna
    Aspectos do romance – E. M. Forster
    Breve manual de estilo e romance – Autran Dourado
    Cartas a um jovem escritor – Mario Vargas Llosa
    Como analisar narrativas – Cândida Vilares Gancho
    Comunicação em prosa moderna – Othon Moacir Garcia
    Decálogo do perfeito contista – Horacio Quiroga
    Formas breves – Ricardo Piglia
    Guia prático de análise literária – Massaud Moisés
    Lector in fabula – Umberto Eco
    Mente selvagem – como se tornar um escritor – Natalie Goldberg
    Não perca a prosa – Antonio Fernando Borges
    Negociando com os mortos – Margaret Atwood
    O escritor de fim de semana – Robert J. Ray
    O laboratório do escritor – Ricardo Piglia
    Os segredos da ficção – Raimundo Carrero
    O tempo na narrativa – Benedito Nunes
    Pós-escrito a O nome da rosa – Umberto Eco
    Seis passeios pelos bosques da ficção – Umberto Eco
    Uma poética de romance – Matéria de carpintaria – Autran Dourado
    Um artista aprendiz – Autran Dourado

  • Bemveja 15/06/2007 at 17:31

    Obrigado Saint-Clair, estou na base do “parsimony”, Deus me livre esquecer o idioma pátrio. O livro do Ezra Paound é niservível a não ser pela história da melopéia/logopéia etc, de resto um conceito muito genérico, e o “Pós-Escrito ao Nome da Rosa” é muito bom, sobretudo por derrubar o mito da literatura enquanto inspiração.

  • Bemveja 15/06/2007 at 17:32

    inservível…

  • Bemveja 15/06/2007 at 17:33

    Pound…

  • Daniel Brazil 15/06/2007 at 19:23

    Bemveja:
    Se citar filme de Hollywood (Os Vivos e os Mortos, último filme dirigido por John Houston, baseado em conto dos Dublinenses, de Joyce) é admissível numa discussão sobre literatura, não vejo porque citar o início de Anna Karenina seja censurável. Por que já foi citado antes? Bobagem. É como falar sobre Picasso e não citar as Demoiselles d’Avignon.

    E tuas suposições sobre Shakespeare podem não passar de suposições. Reafirmo: Grandes obras-primas foram escritas por autores fluentes apenas na língua materna. E muitas bobagens são ditas e escritas por poliglotas.
    Basta notar como há muitos tradutores que nunca escreveram um romance, e muitos romancistas que nunca traduziram.
    Concordo que isso não deve ser desculpa para a preguiça: Saber mais é sempre positivo, e isso vale para tradutores e escritores, claro.
    Não creio que Amós Oz escreva pensando em leitores eruditos. Seu alvo é maior. Passa de forma generosa uma informação que nem todos conhecem, sem parecer pedante. Eis um de seus evidentes méritos.

  • Cezar Santos 15/06/2007 at 22:31

    Brazil, só pode citar o que o vejabem autoriza citar… tu tá incorrendo em grave falta, rapá…

  • Bemveja 18/06/2007 at 06:30

    “Se citar filme de Hollywood (Os Vivos e os Mortos, último filme dirigido por John Houston, baseado em conto dos Dublinenses, de Joyce) é admissível numa discussão sobre literatura, não vejo porque citar o início de Anna Karenina seja censurável.”
    Caro Daniel, essa é uma das falácias mais surreais que li nos últimos tempos, basicamente por três motivos:
    -AK também virou filme, e mais comercial até, ou seja, nesse sentido se anulam;
    -o que eu critiquei em AK foi justamente o que eu elogio no The Dead: a perfeição e a singularidade do estilo do final do conto, comparado ao estilo prosaico do início do romance; e
    -o que critiquei na escolha do Oz desse trecho do livro foi a vulgaridade da citação e a pobreza da análise; tudo bem, quem quiser pode escrever um novo livro sobre, digamos, Hamlet, mas seria melhor ter algo novo a dizer e não repetir os velhos chavões de professor aposentado.
    Quanto ao Shakespeare, sua esperança de que ele tenah sido uma “flor do mato”” intelectual é infundada; ele foi mesmo educado em Latim, portanto sua premissa é falsa. Aguardo exemplos sobre grandes obras escritos por monoglotas no Ocidente.

  • ai, ai, ai... 18/06/2007 at 18:40

    Bemveja, vai ser pernóstico assim lá na conchinchina, cara… Tu joga um monte de argumentos que são defensáveis por quem queira defendê-los, mas não são verdades absolutas.
    Com essa pose de “professor de Deus”, bicho, tu tá beirando o ridículo…

    A própóstico, continuo esperando o nome de um livro teu… de ficção ou mesmo de teoria literária…pode ser em português mesmo, nem precisa ser de um dos outros 114 idiomas que tu domina, ok?
    Mande o nome pra que eu possa comprá-lo e lê-lo, ok?
    Sei que com tal conhecimento e descortínuo é uma obra lapidar…

  • Bemveja 19/06/2007 at 09:02

    Estou escrevendo um roman à clef sobre uma pessoa que gosta de literatura mas é ingênua, acha que se pode falar de livros e cultura sem qualquer senso crítico e com a benevolência de velhinhas no parque jogando milho aos pombos . O título será “Ei ei ei”ou “Oi oi oi”, ainda estou decidindo.

  • ai, ai, ai... 19/06/2007 at 09:50

    Vejabem….
    Puxa…não vejo a hora de ler esse livro…cara, como tudo que vem de vc, será nada menos que genial, né?
    Um roman à clef?…puxa, puxa, puxa!!!!!
    Será em que idioma? Sânscrito? sim, porque um gênio como tu não escreveria em português, né mesmo?
    Prometo contratar um tradutor, mas vou ler essa obra-prima…

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