Patrícia Melo: crítica brasileira é ‘simplista e pobre’

05/08/2010

A americana Lionel Shriver, autora de “Precisamos falar sobre o Kevin”, e a brasileira Patrícia Melo, autora de “O ladrão de cadáveres”, protagonizaram uma mesa simpática. Chamada “De frente pro crime”, a segunda conferência da quinta-feira foi recheada de declarações de cortesia mútua e surpreendentemente suave, tão focada em temas afeitos a certos clichês de feminilidade, como casamento e maternidade, quanto na crueza da violência que ambas tematizam em suas obras. O que se deve em parte ao cavalherismo explícito da mediação do jornalista e escritor Arnaldo Bloch e, pelo lado da surpresa, não pode ser considerado exatamente um defeito.

No entanto, foi preciso chegar à parte final da mesa, quando a plateia envia suas perguntas, para que se desse o momento mais revelador da conversa. Perguntada sobre a já repisada questão de fazer uma literatura que nunca conseguiu se libertar da influência excessiva de Rubem Fonseca (com o que concordo em grande parte, a ponto de achar que, considerando-se apenas os livros lançados nos últimos dez anos, a decadência do mestre a tornou um Rubem melhor que Rubem), Patrícia Melo fez um pequeno discurso em tom de desabafo:

“Infelizmente, a crítica literária no Brasil ainda é muito simplista, muito pobre, muito pouco técnica”, disse. “Falta até compreensão da vida literária no Brasil. O Rubem foi pai da escola da literatura urbana, que mostra essa mundo caótico e violento, esses personagens perturbados, a vida na grande cidade. Ele fez isso nos anos 60, num momento em que quase toda a nossa literatura era regional. É lógico que nesse sentido o Rubem é uma referência importante, mas… este [“O ladrão de cadáveres”] é meu oitavo livro! Construí meu caminho, minha dicção própria. Como a Lionel. Se a Lionel vivesse no Brasil, ela também seria chamada de discípula de Rubem Fonseca. Se existe alguma afinidade, é temática, não é de estilo, de escola. Acho isso de um reducionismo tremendo e confesso que não me sinto mais atingida por esse tipo de crítica. Pelo contrário: admiro tanto o Rubem que fico feliz com a comparação.” Mas sua expressão não era de felicidade.

Lionel Shriver, sim, parecia muito contente por estar ali e foi responsável por alguns momentos de humor que fizeram a plateia, se não gargalhar, rir mansamente. Como quando explicou como lida com os grandes dilemas da vida, os momentos cruciais de escolha: “Escrevo sobre eles. Ganho dinheiro com isso”. Ou ao dizer que vender os direitos de adaptação de um livro para o cinema (o ótimo “Kevin”, vencedor do prêmio Orange de 2005, chega às telas ano que vem) é como vender a alma: “O projeto não é meu. O lado bom disso é que, se ficar uma porcaria, a culpa não será minha”.

Mas Lionel (nome masculino que ela adotou aos 15 anos em substituição ao de batismo, Margaret Ann, porque, como explicou, era uma menina que gostava de brincar e se comportar como menino) também falou mais longa e seriamente sobre seu livro mais famoso, em que uma mãe pondera sobre as agruras da maternidade quando seu filho comete um daqueles massacres que não são raros em escolas americanas, como o de Columbine. Deixou claro que, se for culpar alguém pelo crime de Kevn, escolhe culpar a cultura americana: “São os meninos mais inteligentes e espertos que entendem logo: se o que eles querem é atenção, então não vão estudar matemática com afinco: vão arrumar uma arma.”

Shriver, que também escreve regularmente na imprensa, elogiou a disciplina que o jornalismo dá ao obrigar o escritor a respeitar prazos e tamanhos fixos de texto. “A maioria dos escritores devia ter essa experiência”, disse. “Um dos problemas dos escritores de ficção é que eles têm tempo demais. O jornalismo me ensina a não ser preciosista. Uma coisa é querer dizer as coisas da melhor maneira possível, mas a verdade é que na maioria das vezes uma escolha funciona tanto quanto a outra. O mais importante é por o trabalho na rua.”

2 Comments

  • Isabel Pinheiro 05/08/2010 at 18:59

    Sérgio, só pra dizer que estou no meio de um fechamento monstro, mas adorando acompanhar a Flip por você. Beijo

  • Marcelo Almeida 25/02/2011 at 00:36

    Existe alguma área do conhecimento humano que nao seja ‘simplista e pobre’ no nosso país?

    Já fomos vanguarda de alguma coisa? Alguma idéia nova relevante já saiu daqui?

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