Piglia: ‘A crítica literária desapareceu do mapa’

25/04/2011


“A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Desapareceu do mapa. Em seus melhores momentos – com Iuri Tinianov, Franco Fortini ou Edmund Wilson – foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido em uma comunidade. Não resta nada dessa tradição. Os melhores – e mais influentes – leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser assunto do passado ou do estudo do passado.”

Como sempre, as anotações do escritor e crítico argentino Ricardo Piglia em seu “diário” no caderno Babelia do último sábado (em espanhol, acesso gratuito) sugerem mais do que explicitam. A que “situação atual da literatura” ele se refere? (Pode-se apostar que tem algo a ver com sua observação recente, no mesmo espaço, de que “só se torna artístico – e se politiza – o que caduca e está ‘atrasado'”.) Como sempre, também, Piglia dá o que pensar.

Sua cartografia é só uma hipótese, claro, mas iluminaria alguns aspectos do “campo da literatura” – como o pessoal costuma dizer na universidade. Uma vez que ninguém aceita “desaparecer do mapa” de uma hora para outra, pelo menos não sem espernear um bocado, pode estar aí a explicação para atitudes como a melancia no pescoço (a literatura acabou, seus bobos!) e o autismo terminal (a crítica é a nova literatura!) que caracterizam parte da crítica acadêmica atual e que Alcir Pécora sintetizou com louvável economia de meios na última edição do “Prosa & Verso”.

One Comment

  • saraiva 25/04/2011 at 21:22

    Fico cá com meus botões pensando, por outro lado, nos “escritores” que choram permanentemente a ausência da (boa) crítica literária: eles existem sem a crítica? Sim, mas apenas para si mesmos, autistas também.

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