Por que o futebol é pouco presente na literatura brasileira?

17/05/2014

"Carlos Alberto", de Rubens Gerchman

“Carlos Alberto”, de Rubens Gerchman

A proximidade da Copa do Mundo e o fato de que publiquei um romance chamado “O drible” conspiram para tornar a pergunta acima a que mais ouço há meses. Tenho dado respostas múltiplas, como acredito ser uma exigência da questão, que não é simples. Este texto é uma tentativa – provavelmente condenada ao fracasso, mas fracassos também podem ser interessantes – de chegar a uma síntese que o bate-pronto das entrevistas não favorece.

Em primeiro lugar é preciso descartar uma tese que encontra razoável apoio e que já vi formulada pelo antropólogo Roberto DaMatta: nossos escritores são elitistas e não admitem se rebaixar a tratar de um tema tão identificado com o povo. O raciocínio me parece furado. Há décadas convivo com um monte de escritores e jornalistas apaixonados por futebol, loucos pelo tema, e se essa fixação não se converteu em um punhado de obras memoráveis acho mais lúcido procurar a razão no oposto do esnobismo – um certo sentimento de intimidação, talvez, diante da gigantesca dimensão popular daquilo que velhos narradores de rádio chamavam de “violento esporte bretão”.

Restam outras explicações. Acredito que uma das mais consistentes seja o fato de que o futebol e qualquer outro esporte – mas no Brasil essas palavras se aproximam de ser sinônimas – são narrativas fechadas, acabadas, que já contêm todos os elementos do drama, da tragédia e da comédia. É fácil entender como essa autossuficiência pode ser desestimulante para o ficcionista. Costumo dizer (impossível não repetir certas tiradas, lamento) que isso explicaria não só a relativa ausência do futebol na literatura brasileira, mas também a da Fórmula-1 na ficção italiana e a do sumô nas letras japonesas.

A autossuficiência narrativa se manifesta entre nós de diversas formas. A mais evidente é a exuberante mistura de história e mitologia que cerca o futebol, cevada por cronistas esportivos e por torcedores com a vocação enciclopédica de um Diderot – e estes, ninguém deve duvidar, são milhões. É difícil encontrar brechas nesse mundo por onde infiltrar as mentiras da ficção: invente, por exemplo, um craque chamado Pitomba, que brilhou no Flamengo de Zico e Adílio, e prepare-se para cair no ridículo.

Para complicar um pouco mais a vida do romancista, a crônica de futebol, que teve seu auge entre os anos 1950 e 70, soube injetar nesse universo doses cavalares de boa literatura. Aproveitando-se de que a melhor crônica brasileira já nasceu equilibrada entre a arte e o jornalismo, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e outros extraíram dos fatos – e das meias verdades – produzidos pelo dia a dia do esporte efeitos dramáticos, cômicos, épicos e líricos que tornavam obsoleta a literatura imaginativa.

Como competir com a história de Heleno de Freitas, o astro bonitão que morreu feio e louco? Quem acreditaria num cracaço aleijado como Garrincha se ele fosse fictício? Quem perdoaria o escritor que bolasse um enredo piegas como o do menino negro e pobre do interior de São Paulo – digamos que ele se chamasse Pelé – que promete ganhar a Copa do Mundo ao ver o pai chorando com a derrota de 1950 e oito anos depois, rapazote ainda, ganha mesmo?

A tudo isso, costumo acrescentar uma ponderação que busca pôr em perspectiva a suposta dívida da literatura brasileira com o futebol: é mecanicista imaginar que todos os temas culturalmente relevantes de uma sociedade devam se traduzir de forma automática em sua ficção, e que, se não o fazem, os ficcionistas são os culpados. O carnaval, tão importante quanto o futebol para a compreensão do Brasil, também não tem presença brilhante em nossos romances.

Pode-se argumentar que o parágrafo anterior beira o sofisma, que apenas reformula a pergunta inicial e a devolve intacta ao autor. Acho que não é o caso. Reconhecer a complexidade das relações entre realidade e ficção leva a questão a transcender os limites da literatura e invadir um campo mais vasto e nebuloso: o dos processos de autoconhecimento que uma nação ainda jovem precisa de tempo para amadurecer. O Brasil é uma obra em progresso – embora às vezes, é verdade, pareça uma obra em permanente atraso.

No caso da literatura, é importante levar em conta que esse trabalho se alimenta tanto da realidade quanto da própria literatura. Livros, muita gente já disse, conversam com outros livros. “O drible” não existiria se o cenário que a pergunta-título deste artigo pinta como pouco mais que um deserto não fosse povoado de textos. Alguns deles são de não-ficção, como o monumental “O negro no futebol brasileiro”, de Mario Filho. Outros são puros exercícios de imaginação, como o notável conto No último minuto, de Sérgio Sant’Anna – do livro “Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer)”, de 1973 –, que quando li pela primeira vez, aos vinte anos, me deixou com uma vontade danada de um dia escrever sobre futebol.

Não duvido que, em pouco tempo, a pergunta ali de cima tenha virado peça de museu.

21 Comments

  • maria teresa cunha 17/05/2014 at 11:09

    Sérgio, gostei muito de teu texto. Alguns anos atrás, iniciei a escrever um conto sobre futebol, mas como sou jornalista e cronista, perdi o fôlego. Mas o tema me empolga, e acho que existe muita coisa boa para virar tema de um romance. Como sugestão, se é que ainda não leste, vai atrás do conto “Meia encarnada dura de sangue”, do escritor Lourenço Cazarré. É magnífico. Tão bom, que Jorge Furtado e Guel Arraes filmaram para Globo. E tem também Aldyr Garcia Schlee,criador da primeira e imortal camiseta canarinho, com “Contos de Futebol”. Ambos gaúchos, ambos apaixonados pelo futebol.

  • Marcello D'Angelo 17/05/2014 at 11:10

    Amém Sérgio Rodrigues. Torço para que sua previsão se concretize. Meu descobriu essa frase de Albert Camus que carrego na alma: “Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.” Bola pra frente. Parabéns pelo texto.

  • perola celeste 17/05/2014 at 11:42

    Porque o ser humano “leitor e não leitor” está cada vez mais vivendo o seu presente urgente em busca de respostas para o seu futuro.
    As narrativas fechadas e acabadas que contem todos os elementos do drama, tragédia e comédia, já estão o tempo todo invadindo a todos em todo o meio de comunicação e não acrescentaria nada estar na literatura do esporte. História + mitologia sem o “revelado” da verdade profunda que “encasqueta o quengo” dos “desbibliados”, os levam ao cinema para ver um “Noé caótico” num contexto “inverdadeiro” rsrs abusando do irreal…

    Os textos piegas são imperdoáveis “texto arroz com feijão” já nos faz antever as “batatas fritas e os bifes”. Mas se os ( arroz com feijão) não forem driblados e forem verdade na casa de todos, vai trazer algo de gostoso, lá no fundo da alma.

    É muito complexa sim as relações entre realidade e ficção em pleno 2014 onde o espiritual do humano é descartado a perder de vista.

    O ser humano apesar de amar ficções, lá no fundo quer saber cada vez mais de toda a verdade que cerca cada um deles… Coisa louca este ser humano que se embrenha por literatura da vida…e por leituras que encantam e fazem pensar!

    Eu estava lendo a Carta de Paulo aos Efésios. Que coisa linda! Profunda para todo o ser humano que quer saber o seu futuro e de toda a humanidade. Igreja corpo de Cristo, JESUS CABEÇA… enviando a quem se sabe corpo… para dar todos os dribles no mundo caótico e seguir em paz uns com os outros.

    E aí, me lembrei de vir ao TODO PROSA. Caraca! Olha o texto que encontro???

    O mundo, na verdade, joga “todas” sem técnica, de qualquer maneira. O Centro de tudo é Israel que está com a bola…- queiramos entender isso ou não.

    Muçulmano se faz de desentendido batendo de frente com quem se sabe “protegido”, apesar de cadico de nada.

    Cristãos agregados nesta história se espalha pelo campo todo jogando como pode para fazer um gol pelo menos e mostrar ao mundo o segredo da vitória, através do livro chamado “bíblia”, o livro que conversa com todos os outros livros! Todos, todos, e ganha na “parada” da lógica bonita e mansa… querendo apenas mostrar a todos, que O CABEÇA sendo tudo em todos, nos dá uma vontade danada de correr este campo… onde o futuro nos aguarda para darmos as mãos e gritarmos a Vitória de um drible bonito…

    Ahhh… não é só o futebol que é pouco presente na Literatura brasileira… e vamos driblar…

  • Ewerton Martins 17/05/2014 at 11:51

    “Por que o futebol é pouco presente na literatura brasileira?”. Estive em São Paulo nesta semana para o Simpósio Internacional sobre Futebol da USP (seu O Drible esteve lá) e a pergunta apareceu e reapareceu, naturalmente. Variações dela. Fiquei pensando nisso. A sensação que tenho é que ela já se transformou naqueles jargões que as pessoas repetem como se citassem uma senha secreta que demonstra conhecimento de causa. Como se fosse o cartão de apresentação do iniciado. Do tipo: eu levando a mão e pergunto “Mas, em sua opinião, por que o futebol é tão pouco presente na literatura brasileira?”, ou alguma variação mais elaborada e hermética dessa mesma questão, inclusive fazendo citações e comparações, e pronto: logo tenho a sensação “hum… agora todos sabem que não estou aqui a passeio”. Bem, estou sendo muito crítico. Mas o pensamento me tomou nestes dias (ainda que não tenha ficado até o final do simpósio por atabalhoamentos profissionais).

    Em tempo: ainda que já conhecesse alguns, surpreendi-me com a quantidade de livros de não ficção sobre o tema (uma banca reuniu-os no Museu Mário de Andrade, quando de um “coquetel de livros”). E lá foi lançado um Pequeno Dicionário do Futebol Alemão e Brasileiro. Curioso. Um abraço,

  • perola celeste 17/05/2014 at 12:19

    Interessante Marcello, você carregar na alma tudo o que você sabe sobre moral e obrigações dos homens devendo ao futebol…E se você diz que traz na alma é porque ali está arraigado…rsrs. Vamos brincar um pouquinho, ou melhor, jogar!

    Mas na hora que te dão um “carrinho”… se não for um “acidente de trabalho”… como você reage?
    Na hora que te colocam como reserva o que você sente? Dá uma de “aranha”? Ou vai dizer que a culpa é do “banho maria”?
    E se o seu colega,nos jogos da vida, Ganha todas, você vai dizer que foi canja, ou que cada enxada é uma minhoca?
    Eu não quero catimbar aqui não e por isso vou logo no assunto:

    Busque na Literatura o que você jamais encontrará no esporte. Tudo bem que vc seguiu a sugestão de um escritor. Mas o Camus pode estar te dando um barbantinho, apesar de dar uma que parece bater um bolão.
    Entra nessa não, fica de Arquibaldo nesse lance, afinal, é melhor se bagaceiro que para amanhã ser um bailarino vencendo a VIDA…e não um bamba.

  • Carlos Alfredo 17/05/2014 at 12:20

    Prezado Sérgio,
    Você poderia nos informar onde/como é possível adquirir uma cópia do conto ‘No último minuto’?.
    Obrigado
    O “Manfredo Rangel” deve estar em sebos. Em edição corrente, você encontra no tijolo “Contos e novelas reunidos” do SS, pela Companhia das Letras.

  • Carlos Alfredo 17/05/2014 at 12:25

    Fica também a dica do livro de ficção ‘O Último Minuto’ de Marcelo Backes.

    Crítica de Luiz Zanin em http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/o-ultimo-minuto/
    “Não são muitos os escritores que se arriscam a eleger o futebol como fonte de ficção. Entre as exceções contemporâneas, o grande Sérgio Sant’Anna e também agora Marcelo Backes. Tradutor de Kafka e Broch, o gaúcho Backe cria, em O Último Minuto, um personagem que filtra a sua experiência vital pela ótica do esporte mais popular do mundo.”
    Li e gosto do livro do Backes, Carlos Alfredo. É possível citar outros romances contemporâneos que dialogam com esse universo, como “O segundo tempo” do Michel Laub e “O paraíso é bem bacana” do André Sant’Anna. A pergunta do título tem um pouco de exagero.

  • perola celeste 17/05/2014 at 14:01

    Em tempo:

    “E melhor ser um “bagaceiro” para amanhã ser um “bailarino” vencendo a vida… E não um “bamba”.

  • Ataliba 17/05/2014 at 14:40

    texto muito bom, apesar de pequeno, não é preguiçoso e não apela para chavões, no mínimo simplórios, como Roberto Damata.

  • perola celeste 17/05/2014 at 15:17

    Eu não vejo exagero na pergunta do título…Muito pertinente.
    Fiquei pasma quando vi que o Sérgio escreveria sobre “futebol… Como é isto? Futebol e literatura combinam?

    E não é que combina…

  • Shridhar 17/05/2014 at 15:35

    Acho que você descreveu corretamente o fenômeno sem botar o dedo diretamente na resposta. Narrativas sobre esporte são histórias que tem um enredo geralmente simples. Ou você conta a trajetória de um atleta/clube com auto-superação ou você conta a história de um torcedor e usa o fanatismo dele como um componente.

    A parte cativante dessas obras é o aspecto de superação, sacrifício pessoal… esse tipo de história raramente permite comentário social do tipo que os autores brasileiros gostam de fazer. Eu acho sim que o escritor brasileiro torce o nariz pra narrativas sobre futebol e carnaval e outros coisas banais, mas não é por elitismo não. Acho que é mais o desejo a priori de fazer uma obra com relevância social que impede autores de escolherem temas “banais”.

  • sidinei zancanaro 17/05/2014 at 15:58

    porque , futebol e simples , esse negocio ai de literatura , nao e popular , nao e que ,o povo e analfabeto , o povo gosta de coisa simples , arrz feijao , essa palavra literatura , o povo num ta nem ai pra isso……………….

  • Carlos Cezar 17/05/2014 at 16:14

    Ótima coluna, caro Sérgio. Quero recordar também, se me permite, o extraordinário conto Vadico, de Edilberto Coutinho, publicado entre “Os cem melhores contos brasileiros do século”, da Objetiva, seleção de Italo Moriconi. Esta pequena obra-prima fala sobre a semelhança das tragédias que acontecem tanto no “campo” futebolístico como na vida real. Profundamente chocante.

  • Carlos Cezar 17/05/2014 at 19:01

    Concordo em parte com Shridhar, embora tenha sido esclarecido desde Flaubert (Cartas exemplares), até Vargas Llosa(Cartas a um jovem escritor), passando por Susan Sontag e Zadie Smith (não romantize sua “vocação”, ou você consegue escrever boas frases ou não consegue): a história não importa; a maneira como você conta a história é que prevalece. Ou seja, as palavras, as frases, os diálogos, a persuasão dos sentimentos, a penetração analítica, a análise psicológica, a escolha e a invenção das imagens, a disposição das palavras (Antonio Candido). Desde que você consiga fazer com que o leitor elimine qualquer restrição conceitual sobre o que está sendo contado, ou mostrado, como querem alguns, a história pouco importa. Desde quando um homem pode se transformar em barata? Desde Kafka, porque ele soube convencer o leitor de que alguém pode se transformar numa barata.

  • Carlos Cezar 17/05/2014 at 19:07

    sidinei, “esse negócio de literatura” pode ser popular, sim, desde que devidamente “mostrado e contado” aos alunos do ensino fundamental e às nossas crianças de um modo geral. Podemos lutar por isso procurando melhorar o sistema de ensino (que está uma droga) e envolvendo um calor maior nas relações familiares, com pais contando histórias para seus filhos em vez de torturá-los ou ignorá-los de um ou outro modo.

  • Carlos Cezar 17/05/2014 at 19:23

    perola celeste, o que significa isto? “O Centro de tudo é Israel que está com a bola…- queiramos entender isso ou não.”
    Um pouco confuso. É possível explicar?

  • Alex R.F. 18/05/2014 at 11:47

    Interessante. Gastei boa parte dos últimos três anos escrevendo uma história que tem a ver com futebol.

  • Onofre 19/05/2014 at 14:48

    Pelé é do interior de Minas Gerais.
    Sim, nasceu em Três Corações, de onde saiu bem pequeno. Vivia em Bauru quando fez a promessa a seu Dondinho.

  • Paulo 20/05/2014 at 10:38

    Páginas Sem Glória, também de SS, é uma obra-prima.

    Conheço um cara que escreveu um romance espetacular sobre um pereba da bola que por acaso começa a jogar no Bahia. O romance é hilário. Nunca o publicaram por causa dos palavrões extremamente ofensivos que os jogadores trocam durante as partidas.

  • Pedro 30/05/2014 at 13:03

    Ao que me parece, o futebol também não é muito presente na literatura de outros países. Afora “O Medo do goleiro diante do pênalti” de Peter handke, e “A Sorte Joga a Favor”, do alemão autor de best-sellers xaroposos, o Heinz Konsalik, não sei de outros títulos que abordem o tema.

  • Pedro 30/05/2014 at 13:39

    Uma correção: o título do livro do Konsalik é “A Sorte Sopra a Favor”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial