Qual é o negócio da literatura?

22/03/2013


A história do livro como tecnologia – o livro como uma tecnologia revolucionária, de ruptura – precisa ser contada honestamente, sem triunfalismo nem derrotismo, sem esperança nem desespero, como Isak Dinesen nos recomendava escrever. Um grande obstáculo à produção de um relato desse tipo, contudo, é a “heurística da disponibilidade”. Trata-se de um modelo de psicologia cognitiva proposto pela primeira vez em 1973 por Daniel Kahneman, ganhador do Nobel, e seu colega Amos Tversky, que descreve como os seres humanos tomam decisões baseadas em informações relativamente fáceis de lembrar. Como as coisas de que nos lembramos com facilidade são aquelas que ocorrem com frequência, tomar decisões baseadas em amostras que temos à mão parece fazer sentido. O sol nasce todo dia; inferimos daí que o sol nasce todo dia. Um peru é alimentado todo dia; inferimos daí que será alimentado todo dia – até que, de repente, não é. A heurística é ótima até deixar de ser. Lemos um grande número de notícias sobre gatos que pulam de árvores altas e sobrevivem, e desse modo acreditamos que os gatos devem ser resistentes a longas quedas. Notícias desse tipo predominam amplamente sobre aquelas em que um gato cai e morre, como ocorre com mais frequência. No entanto, como mais raramente vira notícia, esse fato não está disponível para nós quando formamos nosso juízo.

A atividade editorial é tremendamente suscetível à heurística da disponibilidade por duas razões importantes. Em primeiro lugar, antes das mais recentes inovações, manuscritos não publicados não estavam disponíveis para análise. Desse modo, o universo de conhecimento que temos sobre livros, literatura e atividade editorial exclui aquele mundo de livros que nunca foram publicados. Exclui também os livros que foram fracassos de público e de crítica. Ninguém vê livros que não vendem nas livrarias ou na casa dos amigos, nas listas de mais vendidos ou no Twitter ou no “Times” (de Londres, de Nova York, da Irlanda) e assim por diante.

Há livros prontamente disponíveis hoje como informação, tais como “Leaves of grass”, que foram autopublicados, e outros, como “Moby Dick”, que foram ignorados em sua época e tiveram a sorte de ressurgir mais tarde. A romancista Paula Fox publicou, desapareceu, publicou de novo. Seu reaparecimento é um triunfo editorial. Mas o que dizer de todas as Paulas Foxes que não foram redescobertas? (…) Será que isso demonstra a eficiência do atual sistema de produção e difusão de literatura? É bastante claro que, por mais que façamos nosso melhor, nossa produção é tanto prova da ruidade do sistema quanto de seus méritos. (…)

Quando se fala sobre “o sistema” em relação ao negócio da literatura, isso tem sido, tradicionalmente, um código para capitalismo. Críticas mais recentes ao sistema têm se concentrado na série de fusões empresariais que começaram nos anos 1960 e engendraram, nos trinta anos seguintes, a configuração do mercado editorial que tem vigorado nas últimas duas décadas: as Seis Grandes. As mudanças de propriedade foram movidas a princípio pela economia de escala e em seguida pela febre da sinergia. (No fim das contas, tudo isso era na maior parte das vezes um eufemismo para a construção de impérios, tipicamente às custas dos acionistas, fenômeno que tem mais a ver com a natureza humana do que com o capitalismo.) (…) Na verdade, há escassas evidências de que qualquer um desses processos tenha tornado mais ou menos provável a publicação de livros de “qualidade”. O que é publicado é publicado, e desse universo nós escolhemos celebrar o que celebramos, e dizemos que o sistema produziu essas obras celebradas porque, bem, elas estão disponíveis.

O que você leu aí em cima em tradução caseira é um naco ínfimo, ainda que substancial, do longo ensaio (em inglês) do editor independente e palestrante americano Richard Nash (foto), que acaba de ser publicado na internet por The Virginia Quarterly Review sob o mesmo título deste post. Nash é um dos nomes mais quentes dos debates atuais sobre o “futuro do livro”, propagador da ideia de “Atividade editorial 3.0”. Não é preciso concordar com tudo o que ele diz para reconhecer sua argumentação como a melhor e mais instigante resposta aos numerosos, severos e apocalípticos críticos da indústria editorial contemporânea que têm um de seus gurus no editor André Schiffrin (leia mais aqui, na nota de rodapé do post).

4 Comments

  • Thiago Maia 23/03/2013 at 19:03

    SR, você tem colhido, às vezes traduzido, e postado textos do mais alto valor para quem gosta de literatura e do entorno do tema, na minha opinião. Este principalmente, junto àquele trecho de David Gelernter são um par ímpar, por exemplo ; )
    Mudando de assunto, e se achar cabível, no chute ; ), quantas páginas tem o seu novo romance aproximadamente? Pergunto por que isso me é caro devido ao tema do mesmo (eu não conseguirei explicar essa última frase brevemente, e então deixo assim mesmo, com todo o respeito).
    Obrigado e um abraço a todos.

    • sergiorodrigues 25/03/2013 at 10:07

      Caro Thiago, obrigado. Sobre o meu novo romance, ainda que não entenda a relevância do tamanho no caso (se quiser explicar, fique à vontade), tem em torno de 250 páginas. Um abraço.

  • Thiago Maia 24/03/2013 at 16:10

    Perdão: “porque”, claro.

  • Thiago Maia 25/03/2013 at 17:47

    Sinceramente, SR, é no mínimo frescura e no máximo toc ou burrice minha mesmo.
    Obrigado de novo e um abração.

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