Que cena! A xícara de café de ‘Dom Casmurro’

07/05/2012

Machado_de_assisLanço hoje uma nova seção no Todoprosa, chamada “Que cena!”. Durante alguns anos, os “Começos inesquecíveis” – posts em que eu apresentava trechos iniciais marcantes de grandes romances, acompanhados de breves comentários que davam pistas sobre o porquê de sua permanência – foram os mais visitados e linkados do blog.

O sucesso, imagino, teve tanto a ver com a qualidade dos começos em si quanto com a sede de informação de um país que, em grande parte, mal começa a aprender a ler. Os “Começos inesquecíveis” passaram a ser tomados por muita gente como indicadores de leitura, com a vantagem de já virem com amostras do estilo de cada autor.

A seção chegou ao fim naturalmente, de puro cansaço. Seria absurdo sugerir que esgotaram-se os bons começos disponíveis na literatura universal. O que passou perto de se esgotar foi a reserva dos começos que marcaram minha memória de leitor – e a ideia sempre foi partir da experiência pessoal, tentar compartilhar um prazer a quente em vez de ensinar uma matéria a frio.

A seção “Que cena!” se baseia numa ideia semelhante: publicar pequenos trechos especialmente marcantes de grandes livros, agora extraídos de qualquer ponto, começo, meio ou fim. Trata-se daquelas cenas magicamente intensas que se recusam a cair no esquecimento e que, por um momento ou uma eternidade, parecem justificar a existência da própria literatura.

Não imagino cena melhor para abrir a seção do que a composta pelos microcapítulos CXXXVI e CXXXVII (ou seja, 136 e 137) do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, intitulados A xícara de café e Segundo impulso. Poderoso coquetel de melodrama e violência, o trecho começa com o doutor Bento Santiago no auge daquele surto de paranoia e autocomiseração lá dele, recém-convencido de que seu filho, o pequeno Ezequiel, é fruto do caso adúltero de Capitu com seu melhor amigo, Escobar, a essa altura já falecido. Está sofrendo tanto que anuncia a intenção de se matar, o que não lhe atenua o cômico pedantismo classicista que, sob pressão, logo derrete para revelar o sujeito escondido ali embaixo – um covarde abjeto.

O crítico inglês John Gledson, estudioso de Machado, já escreveu longamente e com espanto sobre a incompreensão em que, por décadas a fio, a crítica literária brasileira chafurdou diante de “Dom Casmurro”, simpatizando com Bento Santiago e tomando sua narrativa de marido traído pelo valor de face. Em nenhum momento desse sutil romance, a meu ver, ficam mais escancaradas do que neste trecho a cegueira daqueles críticos e as intenções do escritor por trás do narrador. Se Capitu traiu ou não traiu pode ser mesmo indeterminável, uma ventoinha condenada a girar para sempre no coração do livro. Mas Machado não deixa dúvida de que, se traição houve, o corno a mereceu.

O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lembrou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão. Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco tempo, e, para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé. Nem era só imitá-lo nisso; tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele, assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo, para intrepidamente morrer. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Há muita gente que se mata sem ele, e nobremente expira; mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias, se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Entretanto, querendo fugir a qualquer suspeita de imitação, lembra-me bem que, para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco, nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia, assentei de pô-lo novamente no seu lugar, antes de beber o veneno.

O copeiro trouxe o café. Ergui-me, guardei o livro, e fui para a mesa onde ficara a xícara. Já a casa estava em rumores; era tempo de acabar comigo. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café, os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente; o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando; lá estava ele, com a mão nas costas da cadeira, a olhar ao longe…

“Acabemos com isto”, pensei.

Quando ia a beber, cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa; beberia depois; era melhor. Assim disposto, entrei a passear no gabinete. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor, vi-o entrar e correr a mim bradando:

– Papai! Papai!

Leitor, houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido, mas crê que foi belo e trágico. Efetivamente, a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. Ezequiel abraçou-me os joelhos, esticou-se na ponta dos pés, como querendo subir e dar-me o beijo do costume; e repetia, puxando-me:

– Papai! Papai!

*

Se eu não olhasse para Ezequiel, é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro, porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. Cheguei a pegar na xícara, mas o pequeno beijava-me a mão, como de costume, e a vista dele, como o gesto, deu-me outro impulso que me custa dizer aqui; mas vá lá, diga-se tudo. Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.

– Já, papai; vou à missa com mamãe.

– Toma outra xícara, meia xícara só.

– E papai?

– Eu mando vir mais; anda, bebe!

Ezequiel abriu a boca. Cheguei-lhe a xícara, tão trêmulo que quase a entornei, mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo, caso o sabor lhe repugnasse, ou a temperatura, porque o café estava frio… Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino.

– Papai! Papai! – exclamava Ezequiel.

– Não, não, eu não sou teu pai!

18 Comments

  • Ataliba 07/05/2012 at 17:39

    magistral!excelente idéia Sérgio. e parabens pela escolha inicial…

  • josé marins 07/05/2012 at 18:19

    Nunca me interessei por essa conclusão, para mim desnecessária, se houve ou não traição. Uma coisa eu sei: Machado não nos traiu, seus leitores para sempre, e os que virão além de nosso tempo.

  • Lollo 07/05/2012 at 18:28

    A ideia é certamente boa, mas devo confessar que me preocupo um pouco com os eventuais spoilers de livros ainda não lidos… uma cena marcante tende a ser retirada de uma parte mais importante para o enredo do que os inícios inesquecíveis…
    abraços

  • Victor 07/05/2012 at 23:42

    Para mim, a cena mais inesquecível de tudo o que já li é quando Castro Gomes procura Carlos da Maia, no Ramalhete, para contar que Maria Eduarda não era sua esposa. Nunca mais li uma cena tão impressionante, que misturasse em dose tão perfeita ódio, vingança e sutileza. Eça para mim é o mestre insuperável da língua portuguesa.

  • Lucia 07/05/2012 at 23:44

    Só tenho uma palavra para descrever Machado: Magistral!!!

  • sonia 08/05/2012 at 00:30

    Excelente ideia! Vai render muito! Parabéns também pela cena escolhida, não poderia haver melhor início!

  • E. Bonfante 08/05/2012 at 01:16

    Belissima idéia! Parabéns! A escolha da cena não poderia ter sido melhor. Este foi oprimeiro livro de Machado de assis que li ainda nos meus 13 ou 14 anos. Depois venho relendo-o a cada dez anos mais ou menos e sempre achando que ele o melhor de Machado. Aguardo ansioso suas novas escolhas já que a primeira foi brilhante.

  • Fernando 08/05/2012 at 02:03

    Excelente iniciativa essa “que cena”. Parabéns! Quanto a Bentinho tenho certeza que ele foi traído, sim. Se por Capitolina, não sei, mas por sua tibieza, com certeza. Bentinho não toma uma posição viril diante do mundo (tenta não tomar posição alguma: cogita em se matar e não se mata, em assassinar e não assassina, fica sempre à borda, à morrer de véspera), um covarde. Quer desculpa melhor para um covarde do que uma traição? Que a possibilidade de lançar à carcunda de outrem a culpa de seu fracasso? Para mim, esse sempre foi Bentinho. Quanto à Capitu: eu pegaria.

  • Marcelo ac 08/05/2012 at 08:57

    Sérgio, os contos de Machado selecionados por John Gledson, e publicados pela Companhia, também são primorosos. Vale a pena, se é que você não vai se restringir somente aos romances. De qualquer modo, a idéia é excelente! Parabéns pela niciativa.

  • Leonardo J. A. 08/05/2012 at 14:13

    O texto de Machado é brilhante ao relatar os fatos mais comezinhos; que dizer de uma cena dramática?!
    Mas fiquei com uma cisma: por que ele escreveu “muita mais gente poria” (‘muita’, neste caso, seria pronome, concordando com o substantivo ‘gente’?), em vez de “muito mais gente poria” (‘muito’, aqui, na função de advérbio)?

    • sergiorodrigues 08/05/2012 at 16:57

      Bem observado, Leonardo. Trata-se de uma construção com certo sabor de época, em que “muita” de fato é pronome: Machado acabou de falar em “muita gente” e acrescenta um “muita mais gente”. Soa estranho porque o uso de muito como advérbio em casos desse tipo está consagrado, mas nem tanto se você inverter os termos: “muita gente mais” parece bem aceitável, não?
      Um abraço.

  • Lucia 08/05/2012 at 16:56

    Querido, adorável essa sua ideia! Não me importo se houve ou não traição, mas a narrativa do Dr. Bento Santiago visa a por minhocas na cabeça do leitor. Em breve sai publicado um trabalho da Rachel Jardim e meu, Erratas pensantes, publicado pela UFJF que aborda essas malícias narrativas em Machado e em Proust. E, se quiser um palpite para cenas deliciosamente marcantes, nos Lusíadas, o tropel dos navegantes correndo atrás das ninfas nuas na Ilha dos Amores pode ser uma.

    • sergiorodrigues 08/05/2012 at 17:00

      Querida Lucia, fico feliz que tenha gostado. Ficarei de olho nesse trabalho seu e da Rachel, soa promissor. E muito obrigado pela dica do “tropel dos navegantes correndo atrás das ninfas nuas na Ilha dos Amores”, mas o que eu poderia acrescentar após uma frase-resumo tão perfeita?

  • Anchieta Rocha 16/05/2012 at 12:10

    Anchieta Rocha
    Um pouco atrasado, estou te enviando a cena de Madame Bovary que considero uma das mais perfeitas. É a cena que antecede ao encontro de Ana com o visconde. Eis alguns trechos:
    “Alguns homens (uns quinze), de vinte e cinco a quarenta anos(…)possuíam a tez da riqueza, aquela tez branca realçada pela palidez das porcelanas, pelo reflexo dos cetins,pelo verniz dos belos móveis e cuja saúde é mantida por um regime discreto de alimentos requintados.(…)Os que começaram a envelhecer tinham um ar jovem, enquanto alguma coisa de maduro espalhava-se nos rostos dos jovens.Em seus olhares indiferentes flutuavam a quietude das paixões diariamente saciadas -e, por meio de suas maneiras suaves,despontava aquela brutalida particular que confere o domínio de coisas semifáceis nas quais a força age e a vaidade se diverte – o manejo dos cavalos de raça e a convivência com mulheres perdidas.”

  • Pedro Porto 29/05/2012 at 02:06

    Muito bom relembrar o romance, deu vontade de ler novamente!
    Adorei esta coluna (blog), ficarei de olho.

    • sergiorodrigues 30/05/2012 at 19:06

      Obrigado, Pedro, apareça sempre. Um abraço.

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