Rimbaud e a maldição de ser ‘maldito’

05/05/2010

Acontece no roteiro das leituras como em qualquer tipo de roteiro, sentimental, profissional ou turístico: de repente o inesperado faz uma surpresa, como diria Johnny Alf. Foi assim, fisgado por uma espiada despretensiosa na primeira página, que suspendi a conversa com livros mais urgentes para dar cabo em dois dias do excelente “Rimbaud – A vida dupla de um rebelde” (Companhia das Letras, tradução de Marcos Bagno, 192 páginas, R$ 35,00).

Meu interesse por informações biográficas de artistas costuma ser escasso. Nada no mundo me faria percorrer, por exemplo, as quase 800 páginas do prestigiado “Genet: uma biografia” (Record, tradução de Alves Callado, R$ 92,90), do mesmo Edmund White, lançado aqui em 2003. Mas Rimbaud não é Genet – por mais que os dois possam ter em comum, além da nacionalidade francesa, a aura de malditos e a homossexualidade – e o livrinho sobre o pioneiro da poesia moderna não é bem uma biografia. “Rimbaud” é um perfil leve e livre, entre o jornalismo e o ensaio, conduzido pela inteligência e pela sensibilidade de White. Eu o li como um romance.

Como quase todo mundo que se pretendia escritor, pelo menos na minha geração, devorei Rimbaud aos vinte anos e fingi entender e gostar daquilo mais do que de fato entendi e gostei. Não importava: o cara era um gênio, tinha produzido toda a sua obra na adolescência, num caso impressionante de geração espontânea, antes de trocar a literatura por uma vida de aventuras. Além do mais, tratava-se de um espírito livre, o príncipe dos marginais, tão maluco que, imagine, chegou a traficar escravos!

Esse mito fulgurante, inspirador de gerações de escritores inclinados ao desregramento boêmio e à preguiça de sentar numa cadeira para, argh!, aprender a escrever, é contrariado por White apenas em certos detalhes, mas são detalhes fundamentais. Gênio o cara era, sem dúvida. O que não o impediu de precocemente ralar, estudando com afinco poetas clássicos, românticos e parnasianos antes de forjar um estilo radicalmente pessoal. Espírito livre? Hmm. O apego de Rimbaud à família interiorana, à qual sempre voltava entre uma e outra escapada, rabo entre as pernas, foi uma novidade chocante para mim.

O grau de doença de sua relação escandalosa com o poeta Paul Verlaine não chegou a ser uma revelação, embora as minúcias impressionem, mas achei preciosa a informação de que foi o quase-mendigo Rimbaud, e não o burguês Verlaine, quem mais se preocupou em “manter as aparências” quando já era tarde demais e os dois formavam o casal mais mal falado de Paris.

O Rimbaud que, antes dos vinte anos, abandonou para sempre a literatura e foi tentar fazer fortuna no Norte da África também difere daquele que a lenda nos legou. Menos de aventura do que de trabalho duro em empresas comerciais, seus últimos anos de vida (morreu aos 37, de câncer) incluíram tráfico de armas, mas não de escravos. Isso, informa White, foi uma mentira espalhada com grande sucesso pela primeira biógrafa de Rimbaud em língua inglesa, Enid Starkie.

No fim das contas, o que fica da história de Arthur Rimbaud contada por White é uma tristeza abissal. Ao torná-lo mais humano – e menos parecido com aquele poeta “quase sobre-humano” de que falou Proust – o livro não diminui em nada seu talento monstruoso, mas expõe flashes de uma vida de quase inconcebível infelicidade. Leitura especialmente recomendada a quem, como eu fazia aos vinte anos, costuma gastar por aí de forma leviana a palavra “maldito”.

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