Sobre a precisão

06/10/2015
Tom Cruise e Paul Newman no filme “A cor do dinheiro”, de Martin Scorsese

Tom Cruise e Paul Newman no filme “A cor do dinheiro”, de Martin Scorsese

Lendo um texto literário, tento decifrar por que ele me agrada tanto e chego à ideia de precisão vocabular. Será isso? Não, claro que nunca é uma coisa só, mas será isso em primeiro lugar – a precisão na escolha das palavras? O fato de as palavras vestirem as ideias como uma malha justa, roupa de mergulhador, segunda pele através da qual a ideia exibe suas formas com perfeição, quase como se já não fosse a ideia de uma coisa, mas a coisa mesmo?

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Um dos aspectos intrigantes da caça ao vocábulo preciso, aquilo que Gustave Flaubert chamava de le seul mot juste, é o fato de, sendo tão inerente ao bem escrever, ser tão difícil de ensinar. Para começar, não é nada fácil de definir, e a malha ou segunda pele é uma metáfora desesperada que reconhece essa dureza. Identificamos a precisão quando a temos diante do nariz, mas em que ela consiste exatamente?

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Aqui talvez seja necessário afastar a ideia, folclórica mas nunca distante dessa conversa, da “palavra justa” como frescura e álibi para a paralisia do escritor – como parece ter sido muitas vezes para o próprio Flaubert. Se você está escrevendo um conto policial e não consegue se decidir entre “revólver” e “pistola”, jogue uma moeda para o alto e vá em frente, pelo amor de Chandler. A questão da precisão é mais séria e mais sutil do que isso.

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Não é só na literatura: em termos de bom uso da língua em geral, a precisão vocabular conta mais do que a correção gramatical. No entanto, muito se fala de correção e pouquíssimo de precisão. É nesta, na adequação das palavras ao que se diz, que um texto (ou fala) seduz. A correção opera negativamente, evitando que ele seja rejeitado. A precisão é positiva, propositiva. É quando você diz ou não diz a que veio.

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Um cultor da simplicidade hemingwayana ou sabínica vai dizer que é tudo muito simples: chame a casa de casa, o gato de gato. Mas estará sendo simplório, porque o que funciona num texto hemingwayano ou sabínico pode ser um desastre em outros. O preciso aqui é impreciso acolá – a precisão está subordinada à totalidade do efeito pretendido. É quase como Calvinbol: se o narrador alucina, chamar a casa de, sei lá, gaiola, universo ou cubo mágico pode ter uma precisão de bisturi.

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Outro problema da precisão é que muita gente a confunde com preciosismo, com o uso de palavras raras, “difíceis”. Autran Dourado confessou num ensaio ter ficado muito feliz no dia em que descobriu que aquela pedra redonda dos amoladores de faca se chama rebolo. Um leitor certa vez censurou brandamente um conto meu por citar uma máscara carnavalesca veneziana nariguda e não nomeá-la com a palavra justa em italiano: nasone.

Nunca usei a palavra “rebolo”, embora não descarte vir a fazê-lo, e a narradora daquele meu conto, uma senhora idosa e simples, não falaria assim. Aí é que está: ser preciso não é encontrar a palavra justa em abstrato. É encontrar a palavra justa para aquela situação. É possível ser preciso com um vocabulário de 3 mil palavras e impreciso manejando 30 mil.

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Em seu livro “Como funciona a ficção”, o crítico inglês James Wood não fala exatamente de precisão vocabular. No entanto, ao abordar as metáforas, cita uma frase do italiano Cesare Pavese que ilustra bem o que é precisão-no-contexto: o narrador de uma história ambientada numa aldeia atrasada da Itália fala da lua amarela “como polenta”.

Hã? Será que Pavese não tinha algo melhor, mais “literário”, com que comparar a lua? Uma moeda de ouro, por exemplo? Não. Os camponeses de sua história nunca tinham visto uma moeda de ouro, mas comiam polenta todo dia.

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Sabe aquele verso de Aldir Blanc, “Caía a tarde feito um viaduto”? Pois é.

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Se a precisão tem regras movediças regidas pela “totalidade do efeito pretendido”, é sobretudo dela, precisão, que depende tal efeito para deixar a bruma das boas intenções autorais e adentrar esse país cobiçado, mas perigoso, chamado cabeça do leitor, onde palavra vira ideia que vira coisa.

5 Comments

  • Ricardo Meirelles 08/10/2015 at 12:05

    Interessante o post, Sérgio. Há um ponto que me instiga especialmente: a precisão é precisão PARA O AUTOR. Ele não controla (ou controla pouco) o efeito no leitor. É, como você escreveu, um “efeito pretendido”. O coitado do escritor pode levar dias (ou meses, sei lá) lutando contra um parágrafo até encontrar uma solução que lhe pareça boa, e tal solução simplesmente passar batida pelos leitores. Instigante, não? Angustiante?

    • Sérgio Rodrigues 08/10/2015 at 12:11

      Caro Ricardo, claro que não há controle total, mas tampouco estamos falando de um processo ‘qualquer nota’. A dimensão social (compartilhada) da linguagem basta para que o domínio de um autor sobre o efeito de suas palavras possa ser bastante aperfeiçoado. Sem ser infalível, naturalmente, mas acho que podemos dizer que isso é parte da graça, não?

  • Maria do Espírito Santo 08/10/2015 at 12:06

    Navegar é preciso, e um artigo analítico sobre a precisão na narrativa literária já era (é) mais que preciso: era (é) imperativo. As palavras são louras vândalas de pés alados, são mercuriais. Alguns dirão: hiperativas, como os psico-pedagogos de escolas caríssimas de educação infantil nomeiam algumas crianças mal educadas merecedoras de umas boas palmadas. Palmadas? Que absurdo! Educar não é reprimir!
    Pior é que educar é reprimir, sim. E fazer (boa) literatura é cortar, desbastar, lixar, tornear e talvez mais alguns verbos da primeira conjugação. Ou não, se quisermos caetanear o que é de Om mani padme om!
    Parabéns pelo artigo. Gostei de tê-lo lido.

    • Sérgio Rodrigues 08/10/2015 at 16:34

      Obrigado por suas palavras, Maria. Apareça sempre!

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