Sociologia é na loja ao lado: a ‘literatura feminina’ e os anões albinos

18/07/2015

monolito 2Será verdade que só o relato de um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX tem valor como reflexão sobre a forma única e intransferível pela qual os anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca no último quarto do século XX vivenciam sua condição humana?

E se a história envolver um anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX – e gay? Ou, reparando bem, anã? Devemos criar sempre novos nichos autorais – reservados a anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca no último quarto do século XX gays, mulheres etc. – ou será aceitável que um anão albino estrábico do sexo masculino e heterossexual nascido em Arapiraca no último quarto do século XX exercite sua imaginação para conceber personagens gays ou mulheres que compartilhem sua condição de anão albino estrábico nascido em Arapiraca no último quarto do século XX?

Não é de hoje que me assalta a certeza de que certos desdobramentos rasos mas influentes dos estudos culturais, com sua supervalorização do “lugar de fala” como critério de avaliação literária, conduzem reto para o abismo da negação da literatura. Como se isso fosse pouco, terminam por boicotar o que tal perspectiva tem de positivo em termos políticos e sociológicos. Ampliar o acesso à produção literária – e a todos os bens simbólicos ou reais – dos setores da sociedade que são sub-representados em tais esferas é um imperativo da agenda civilizatória no mundo inteiro e sobretudo no Brasil, país que, em grande parte, ainda tolera e até aplaude o machismo, o racismo, a homofobia e a intolerância em geral.

O problema começa quando se tenta submeter a própria literatura a uma lógica tacanha de reserva de mercado. Sim, alguns leitores já terão adivinhado que este artigo é mais um dos que foram motivados (este aqui, longo, de Ronaldo Bressane, é o melhor deles) pela recente gritaria nas redes sociais contra uma frase proferida pelo escritor Daniel Galera na Flip: “A ideia de literatura feminina ainda é muito forte e essa ideia sempre foi errada”.

É claro que Galera está certo. Quem diz que só mulheres podem escrever sobre (e como) mulheres diz também que mulheres só podem escrever sobre (e como) mulheres. Ou seja, menospreza as mulheres, rebaixa a literatura e se torna um adversário do pior tipo: aquele que poderia ter sido aliado se parasse um minuto para refletir sobre o poder destrutivo de sua indignação desfocada.

Quando falo em rebaixamento da literatura, refiro-me à negação do voo imaginativo, da empatia, da fabulação como representação crítica do mundo – e não determinada de forma mecanicista pelas circunstâncias do autor. A negação, em suma, da possibilidade de que um misto de inteligência, sensibilidade e honestidade possa conduzir o texto para longe do quadradinho em que o escritor calhou de nascer. Sem tal perspectiva de fuga – que naturalmente pode ser bem ou mal realizada – a literatura de ficção é nada. Fiquemos com autobiografias, posts revoltados e perfis de Facebook.

Está bem, é verdade que certo discurso bocó de universalidade literária – como o discurso da democracia racial, do qual ele é parente – pode e deve ser denunciado como mascarador de conflitos, reprodutor de privilégios, estamos juntos até aí. Ocorre que reduzir de antemão o texto literário a mero sintoma psicossocial, discurso formatado pelo código genético ou pelas circunstâncias biográficas do autor, é de uma alarmante falta de generosidade e inteligência.

Falta generosidade quando se considera razoável e até progressista cassar liminarmente a legitimidade da voz de quem, rotulado de “privilegiado”, deveria no mínimo ter o direito de ser julgado não pela biografia, mas pelo conjunto de valores simbólicos que consegue mobilizar em seu trabalho. E isso nem é o pior.

O pior é que falta inteligência quando, num clássico tiro pela culatra, esse papo esvazia de relevância artística o que é escrito pelos próprios “desfavorecidos” que busca promover. Isso ocorre inevitavelmente quando se reduz o literário ao testemunhal e se despreza a mediação complexa que sempre existirá entre experiência e escrita. Quando, em resumo, todo mundo se vê enfiado nos escaninhos etiquetados de nossa carrancuda, crispada, paranoica balcanização cultural.

Encarar assim a literatura é jogar fora, junto com a água suja do banho, o bebê sem o qual será melhor esquecer que existe ficção, esquecer que existe poesia, incendiar bibliotecas alegremente. O bebê que se ameaça atirar pela janela é nada menos que a possibilidade que a literatura nos oferece de conceber o outro. De encenar conflitos para mapear soluções. De representar a própria precariedade da representação, chegando quem sabe, ao fim de idas e vindas por estradas entrecruzadas de ironia, intuição, acaso e desespero, ao coração escuro da linguagem. Ou fracassando, o que é mais provável. Mas tentando.

Tudo isso soa romântico? Juro que é o contrário: puro realismo cético. Tem por base algo singelo que, terminada a desconstrução daquela universalidade fajuta mencionada acima, permanece ali, imenso e impassível no centro da planície como o monolito de 2001: o fato de que todos os autores e leitores do mundo compartilhamos a dor infinita da mortalidade pensante. No fundo, somos todos anões albinos estrábicos nascidos em Arapiraca. Se nem assim pudermos conversar de humanos para humanos, melhor deixar pra lá.

12 Comments

  • Ewerton Martins Ribeiro 18/07/2015 at 10:38

    Que belo artigo. Concordo plenamente, Sérgio. Testemunho é uma coisa, literatura é outra – ainda que caiba, de alguma forma, ora pensar o primeiro como parte da segunda.

    Há mesmo muito normativismo e cerceamento em certas posturas que se dizem progressistas. Isso me incomoda. Abraço, Sérgio,

  • Alex Mandarino 18/07/2015 at 15:01

    Sérgio, eu concordaria com você (como tende a acontecer quando leio seus textos) se praticamente todos os convidados da Flip (onde Galera proferiu a frase) não fossem homens brancos heteros quarentões de classe média, que é o mesmo perfil das compilações da Granta, dos beneficiados por editais do governo, dos contemplados pelos lançamentos das grandes editoras. Existe um perfil tão homogêneo que quem está dentro dele sequer percebe que ele existe. Mas existe: a literatura brasileira mainstream é de homens brancos quarentões de classe média que escrevem sobre homens brancos quearentões com problemas de ereção, psicológicos, etc. É um realismo que dá voltas e come a própria cauda, em um ourobouros eterno. Anões estrábicos de Arapiraca não são tão comuns quanto o número enorme de mulheres, negros e homens gays que escrevem e são esnobados. E Galera poderia ter escrito u/ma narradora feminina, claro, nunca foi essa a questão. A questão é que ele escreveu muito mal, criando um personagem clichê, mulherzinha, que fala mais das necessidades terapêutiocas de Galera do que do mundo ficcional que propõe criar. Sinto muito, mas Galera, Bressane et al estão agindo como Idelbers nessa história. E como meninos que não aceitam que ninguém ponha o dedo na cara deles.
    Discordamos muito, Alex. E a parte sobre a qual não discordamos (a representação subdimensionada de não homens não brancos etc. no cenário) é matéria de sociologia e política e educação, não de crítica literária – eis em resumo o meu ponto. Quanto à narradora do Cordilheira, não acho a moça tão ruim, mas e se fosse? Nunca foi essa a questão. O Galera foi criticado por ter dito o que para mim é uma verdade gritante e libertadora: não existe esse negócio de literatura feminina, isso é condescendência e tiro no pé. Quanto à comparação com o tal professor, não entendi. Um abraço.

  • Silvio 19/07/2015 at 08:59

    Sérgio, nos dois primeiros parágrafos achei que o texto seria uma reação ao recente e vergonhoso caso do quadro de Monet e os kimonos (http://www.latimes.com/entertainment/arts/culture/la-et-cm-mfa-boston-kimono-20150708-story.html). Mas não errei totalmente. Essa onda artificial de “indignações” tem nome e endereço: politicamente correto. O politicamente correto é uma grave doença do intelecto e para mim uma coisa é certa: a longo prazo ele não tem futuro. Será desacreditado e destruído por seus próprios excessos. Esta sátira ficou perfeita: http://s28.postimg.org/rvhjtos19/SJW.jpg

  • Rafael 20/07/2015 at 10:32

    Sérgio,
    Sinceramente, acho esse debate irrelevante: a grita de meia dúzia de intelectulóides não alterará este singelo fato: a narrativa protagonizada por um aristocrata rico e bem sucedido é infinitamente mais interessante que os queixumes daquele(a) que, escorado(a) na bengala de vítima(o) social, testa nossa paciência e torra nosso saco com uma historieta que não passa de forma degenerada do gênero romance de tese com o qual é se tenta demonstrar que, ao fim e ao cabo, tudo é culpa do outro.
    Convenhamos: o Sr. Gray, em vez de rico, bonitão e sexualmente perturbado, fosse um anão albino estrábico nascido em Arapiraca, nenhuma madame carente ficaria suspirando por ele.
    Os estudos culturais devem ser estudados por uma única razão: para aprender que tipo de literatura (e arte em geral) está fadado a ser um grande fracasso.
    Vale

  • Alex R.F. 20/07/2015 at 18:41

    A turminha do facebook não é mole, hein.
    Tô fora.
    Mas concordo com meu xará em um único aspecto: Galera, como escritor, não é assim grande coisa. Como diz papai, meia-boca.

  • Alex R.F. 21/07/2015 at 16:25

    Tem uma questão que se esbarra de longe nessa história pela qual tenho mais interesse. É quando um belo filme/livro/peça/música/quadro, que diabo for, faz escolhas morais questionáveis, ou uma militância a meu ver descabida e, ainda assim, consegue me agradar, seja pela opção estética ou narrativa, pelo senso de humor, enfim. Assim, temos um dilema que me instiga: e aí?
    Evidente que o militante desenhado pelo Sérgio no texto acima é incapaz de gostar do que fuja minimamente do papel que esse sujeito impõe à arte (IMPOSIÇÃO é uma palavra que combina com essa maneira de se enxergar).
    Aos demais, e aí? E quando a arte é voluntariamente engajada, fica menor, fica maior? Quem está no campo oposto, pode/deve apreciar? Desde que as ideias sejam arejadas, respeitáveis ou em qualquer caso?
    E quando o autor, tal qual Graciliano, não se deixava levar pela própria militância? Mera opção narrativa ou uma forma de se ver a arte como um todo?
    É possível trilhar o caminho oposto, o da arte militante, fazendo boa literatura?
    Fugi ao tema, reconheço.

  • microempresário 22/07/2015 at 10:42

    Fico com a impressão que se meus autores (ou músicos, ou pintores, ou atores) preferidos forem homens heterossexuais brancos, eu sou um perigoso reacionário não-inclusivo. Minha lista de preferências deve obrigatoriamente ter uma mulher, um gay, um afro-descendente, um pobre e um anão albino estrábico. Deve incluir todas as formas de diversidade, menos, claro, homens heterossexuais brancos, porque esses não merecem ser incluídos.
    Será que há alguma chance de podermos gostar de Machado de Assis, Daniel Galera, Mozart, Ivete Sangalo, Rembrandt, Romero Brito, etc., pelo que a sua obra nos diz, e não pelo gueto sociologico em que cada um se encaixaria?

  • Afonso 23/07/2015 at 20:55

    Chego, talvez, um pouco tarde nesse post (fazia algum tempo que não ‘passava’ pelo blog), mas vou dar meu ‘pitaco’ (despretensioso, ressalvo) – ainda hoje li no Suplemento Pernambuco o ‘ensaio’ de Regina Dalcastagnè (também citada no post de Ronaldo Bressane), intitulado Para além da “perspectiva do alpendre” (bastante sugestivo, não?), e penso que também pode ser muito esclarecedor. Talvez se pudesse falar no “lugar da escrita” (independentemente de sexo, raça etc). De qualquer modo, você já foi bastante certeiro no parágrafo “O pior é que falta inteligência quando, num clássico tiro pela culatra, esse papo esvazia de relevância artística o que é escrito pelos próprios “desfavorecidos” que busca promover. Isso ocorre inevitavelmente quando se reduz o literário ao testemunhal e se despreza a mediação complexa que sempre existirá entre experiência e escrita. Quando, em resumo, todo mundo se vê enfiado nos escaninhos etiquetados de nossa carrancuda, crispada, paranoica balcanização cultural.”
    Falemos, pois, de literatura.

  • Bruno Assunção 27/07/2015 at 02:36

    A cotização da criação literária é a negação da criatividade, razão e intuição humanas.

  • Renato Souza 13/08/2015 at 08:58

    Sergio Rodrigues

    Por favor, explique-me a agenda civilizatória.
    O século XX foi, de longe, o mais violento da história da humanidade, e a imensa maioria dessa violência foi promovida por pessoas que se consideravam a vanguarda da razão, da civilização, do bem, contra a irracionalidade, a barbárie e o mal.

    Isso diz muito sobre os pensamentos “civilizatórios” que os intelectuais tem gerado. Tenho um medo danando de alguém querer me “civilizar” e eu acabar trancado numa masmorra ou enterrado numa vala rasa, e tremo de medo do que os civilizadores podem fazer com minha mulher e meu filho.

    Deus me livre de civilizadores…
    Seu medo parece bastante deslocado aqui, Renato. O que você parece temer quando menciona as matanças do século XX é o autoritarismo, gerado ou não pela razão, certo? Bem, o que chamei de civilizatório é o oposto disso. Pense no sufrágio universal, nos diversos movimentos de independência e por direitos civis igualitários que também sacudiram “o mais violento dos séculos”. Todos estavam na contramão da opressão, do racismo e da barbárie, como acredito que você também se veja.

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