Wood e Tezza: enquanto o pulso pulsar

03/04/2013

Alguém acreditou em Philip Roth quando (…) ele anunciou que estava se aposentando? De todos os romancistas contemporâneos, é ele quem fez a escrita parecer um ato necessário e contínuo, inseparável das continuidades e batalhas de estar vivo. Para Roth, a narração e a individualidade parecem ter nascido juntas; portanto, precisam morrer juntas também. Mais do que qualquer outro romancista moderno, ele usou a ficção como confissão e deslocamento da confissão: seus rabugentos, reclamões e alter egos, de Portnoy a Zuckerman e Mickey Sabbath, parecem todos rothianos, mesmo quando apenas atuam como substitutos do autor. Ele tornou sua infância em Newark, seus pais amorosos e irritantes, seu judaísmo, sua sexualidade, sua própria vida de escritor familiares e vívidos para milhões de leitores. Parecia precisar da ficção como uma espécie de incansável relatório performativo, e por essa razão, nos últimos anos, grandes romances (‘O teatro de Sabbath’, ‘Pastoral americana’) dividiram espaço com obras muito mais fracas e ele foi tão profícuo – a ficção ao mesmo tempo urgente e um tanto agressiva, tão necessária quanto a arte e tão desesperançada quanto a vida.

Admiro Roth (…) por muitas razões. Porque ele não permaneceu igual (sua prosa despojada é hoje muito diferente das cadências esmeradas de seu trabalho da juventude). Porque essa prosa é um instrumento maravilhoso, capaz de surpresas líricas e da simplicidade mais crua, ao mesmo tempo altamente elaborada e derramadamente oral. Porque ele é muito engraçado (pense naquele momento de ‘O escritor fantasma’ em que Nathan Zuckerman se imagina contando aos pais que fez a coisa certa, como um bom rapaz judeu, ao se casar com Anne Frank, que sobreviveu magicamente ao Holocausto). E porque ele demonstrou que o artificialismo pós-moderno e o realismo americano, em vez de serem incompatíveis, na verdade alimentam-se um ao outro – aquele que é talvez seu maior romance, ‘O avesso da vida’, toma emprestado o que julga necessário da autoconsciência pós-moderna e seus jogos ficcionais para armar uma investigação sobre o que significa ter uma vida. Que possa nossa perpétua máquina de escrever continuar perfurando o poço da página até que, como ocorreu com Henry James, tenham que lhe arrancar a caneta da mão moribunda.

A derramada declaração de amor acima (em inglês aqui), do crítico inglês James Wood ao escritor americano Philip Roth, faz parte de um ensaio que integra o novo livro do primeiro, o recém-lançado The fun stuff and other essays. Será que Roth cumprirá a promessa de nunca mais escrever? Wood está na fase da negação.

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A crítica parece lamentar a perda de alguma aura nobre [da literatura] na turbulência destes tempos. No fundo, trata-se de uma crítica mais de natureza moral que literária, um desconforto com a rápida mudança do mundo, e muito especificamente do Brasil, nas últimas décadas. E às vezes até se entrevê uma certa fantasia de que, em alguma era no passado, teria existido uma ‘idade de ouro’ da prática literária. O que é francamente ridículo, mas pode fazer sentido à primeira vista. Vejamos alguns sintomas. Conferindo ao acaso listas de best-sellers (minha fonte é o arquivo digital da revista ‘Veja’), encontrei dez títulos brasileiros em 1974, de Erico Verissimo a José Mauro de Vasconcellos. Em 1984, o número de nativos caiu para três: Rubem Fonseca, Fernando Sabino e L.F. Verissimo. Em 1993, Paulo Coelho – e só ele – dominava a lista, com nada menos que quatro títulos simultaneamente. Em 2003, encontro Paulo Coelho, Verissimo e Lya Luft. E em 2013 não há mais brasileiros – com a maravilhosa e surpreendente exceção, já há duas semanas, de ‘Toda poesia’, de Paulo Leminski.

Conclusão ligeira: o Brasil piorou nestes 40 anos? Obviamente, não. Saímos de uma ditadura militar para uma democracia, de uma economia fechada para uma economia relativamente aberta, de uma cultura ainda rural para uma violenta cultura de concentração urbana, de um alto índice de analfabetos para uma faixa bem maior de leitores, de uma estagnada classe média para uma emergência de milhões de novos consumidores (inclusive de livros, mas novos leitores sem tradição letrada) – enfim, do artesanato de um mundo analógico para a explosão digital. Em todas as áreas passamos do bucólico conforto do quintal a um perigoso e desconhecido novo mundo. Estamos vivendo exatamente esta mudança. Quem quer que pretenda pensar o que está acontecendo com a literatura brasileira tem de considerar esse conjunto.

Em sua coluna no jornal curitibano “Gazeta do Povo”, o escritor catarino-paranaense Cristovão Tezza chama de volta à realidade os coveiros da literatura – brasileira, mas não só – que andam cavando como nunca.

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