httpv://www.youtube.com/watch?v=jPfThpelv48 O Pop Literário de Sexta volta com o curta-metragem inglês The last bookshop (“A última livraria”), de Richard Dadd e Dan Fryer, produção independente recém-saída do forno que imagina um futuro distópico com toques de “Admirável mundo novo” e “1984”. Resta no mundo uma única – e maravilhosa – livraria. Essa notável resistência comercial se deve exclusivamente à teimosia do velho dono, que não vê um cliente cruzar a porta da loja há vinte e cinco anos. Até que um dia aparece por lá um garoto e… Um alerta: com vinte minutos de duração, o filme tem diálogos e não está disponível em versão legendada. Atenção para o nome do Grande Irmão, que é revelado perto do final triste e pessimista (mas não completamente): GamaZone. (Via Paris Review.) Bom fim de semana a todos.
Bichos lambem louças na pia. Num canto da cozinha, a menina. Faz dias. Lave a louça que a mãe já vem! Ela não lavou. Será que foi por isso? O drama desmedido que Sônia Barros fez caber na medida escassa de 139 caracteres é o vencedor do III Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter. Com total controle de seus meios de expressão – um punhado de palavras caseiras e meia dúzia de elipses afiadas – a autora escreveu uma micronarrativa modelar. O registro que Sônia escolheu é arriscado: o de um realismo semijornalístico que, com suas boas intenções de “denúncia das mazelas sociais”, é visto descambando com frequência para a banalidade do mundo-cão. Isso só realça a perícia com que se desincumbiu do desafio. Em segundo lugar ficou Celso Alves com um microconto de ficção científica que é um pequeno achado de humor – a angústia claustrofóbica do circuito narrativo fechado, que lembra um conto como No último minuto, de Sérgio Sant’Anna, é apenas entrevista por trás do sorriso: Jonas apertou o último parafuso e ligou a máquina do tempo. Erro. Jonas apertou o último parafuso e ligou a máquina do tempo. Erro. Jonas… Por fim, representando a corrente metaliterária…
Palavras na escuridão: numa imitação descarada do escritor americano Austin Kleon e seu intrigante projeto Newspaper Blackout, canetei o artigo (sobre os “finais inesquecíveis” da literatura) com que Sérgio Augusto se despediu sutilmente dos leitores do “Sabático” no dia 20 de abril – o último em que o suplemento literário do “Estadão” circulou. Clique na imagem para ter melhor leitura.
A Associação de Editores de Madri acaba de lançar uma campanha publicitária, assinada pela agência espanhola Grey, em que ilustres representantes da cultura literária de todos os tempos são impiedosamente exterminados por representantes da cultura audiovisual contemporânea (via No mundo e nos livros). Dom Quixote enfrenta os Angry Birds e é abatido ao pé de um moinho de vento. A baleia Moby Dick, depois de derrotar a fúria homicida de Ahab, encalha e morre na praia do seriado Lost. O Pequeno Príncipe (vamos conter as comemorações, pessoal) tomba entre as ruínas de um videogame de guerra. A arte é caprichada e o recado, claro: o culpado é você – isso, você mesmo – que devia estar lendo em vez de perder tempo com atividades idiotas como jogar videogame e ver TV. “Quando você passa tantas horas jogando um joguinho no seu celular, nem tudo o que você destrói lhe rende pontos”, diz a legenda da primeira imagem. “Quando você passa tantas horas assistindo à série de TV mais popular da história, não são apenas os personagens que terminam perdidos”, reforça a segunda. “Quando você gasta tanto tempo jogando videogames de guerra, não são só seus inimigos que você liquida”, fulmina…
Após quatro anos à frente da “Granta”, a mais influente revista de literatura do mundo, o escritor e crítico americano John Freeman (foto) está deixando o posto – e a ponte aérea Londres-Nova York – para dar um curso de “escrita criativa” na Universidade Columbia. A saída de Freeman, aparentemente amigável, se dá poucos dias após o lançamento da quarta edição da já lendária seleção de “melhores jovens romancistas britânicos” (em inglês, aqui). A gestão do americano foi marcada pela expansão internacional da marca, lançada nesse período em dez países em modelo de franquia – a brasileira, da editora Alfaguara, já existia quando ele desembarcou na revista. O último fruto da safra será a “Granta” portuguesa, que tem lançamento marcado para 21 de maio e já anunciou a publicação de cinco sonetos inéditos de Fernando Pessoa. (Via Galleycat.) * E a própria bola te há de boicotar, e sobre teu tapete sentirás as dores de parto de inúmeras peladas que negarão a honra do teu nome. Pois serás Maracarena, serás Maraca-Não, serás rebatizado e deserdado em tuas tradições: os gentios rasgarão tua rede véu-de-noiva e vendê-la-ão aos pobres. Recurso antigo que o pós-modernismo revalorizou, a paródia literária costuma ser vítima…
Conforme prometido ano passado aos leitores, declaro aberto neste momento o terceiro – e último! – concurso de micronarrativas em formato Twitter promovido pelo Todoprosa. As inscrições ficam abertas até o último dia deste mês, às 18h. O regulamento é simples: 1. O microconto deve delinear uma narrativa (história) em 140 toques no máximo. 2. Cada leitor pode inscrever até três microcontos, desde que submeta um por vez. 3. Os contos devem ser inscritos diretamente na caixa de comentários abaixo, identificados pelo nome do autor e com email para contato (este não aparecerá para o público). 4. As inscrições se encerram no dia 30 de abril às 18h. 5. Os três melhores microcontos serão publicados neste blog em forma de post e o resultado, divulgado no Twitter e no Facebook. 6. A comissão julgadora é composta de um homem só, eu mesmo, e suas decisões são soberanas. A primeira edição foi realizada em 2010 e a segunda, ano passado – leia aqui e aqui as micronarrativas vencedoras. Cada uma delas teve pouco mais de 600 microcontos inscritos. Esta agora fecha um ciclo e é a última oportunidade para quem ainda não entrou na brincadeira. É razoável supor que, desde aquele…
O cartunista Laerte (blog aqui), nascido em São Paulo em 1951, é para muita gente – para mim inclusive – o maior nome brasileiro de todos os tempos em sua arte. Se Bill Watterson e seu Calvin eram uma lacuna que o Pop Literário de Sexta tratou de preencher na semana passada, agora chegou a vez das tirinhas mais filosóficas e agridoces de que se tem notícia sobre os atos de ler e escrever. Bom fim de semana a todos.
(…) Showalter presta menos atenção ao mérito artístico, ao que separa a boa da má ficção, do que aos seus significados culturais; está menos preocupada com nuances de arte ou estilo do que com as ramificações políticas do livro ou o comportamento intrépido ou aventureiro de suas protagonistas. Como outras acadêmicas feministas de seu time, não está interessada em saber se as escritoras que discute são boas escritoras, ou na questão de como seus melhores trabalhos funcionam, mas apenas se elas exploram temas feministas. Desse modo, acaba cavucando romances e poemas atrás de mensagens e significados que digam respeito à posição das mulheres na sociedade, tramas que critiquem a vida doméstica ou que exponham a estreiteza da vida das mulheres. (Certa vez cunhou o termo “ginocrítico” para críticos libertos do “dos absolutos lineares da história literária masculina”.) Essa exploração de tramas subversivas e heroínas da pá virada pode ser frutífera de um ponto de vista puramente histórico ou político, mas nem sempre parece ser crítica literária de um tipo sofisticado. Faz pensar numa frase de Joan Didion sobre as feministas: “Que a ficção tem certas ambiguidades irredutíveis parece nunca ter ocorrido a essas mulheres, nem deveria mesmo, porque a ficção…
“As Benevolentes”, de Jonathan Littell, vencedor do prêmio Goncourt em 2006, é um dos romances mais originais, fortes e perturbadores jamais escritos sobre a Segunda Guerra Mundial. É também um dos mais notáveis deste século em qualquer gênero (leia aqui a resenha que publiquei na época). Escrito em francês pelo americano Littell (e muito bem traduzido por André Telles para a edição brasileira que a Alfaguara pôs no mercado em 2007), “As Benevolentes” contribui para esta seção com um raríssimo caso de cena marcante que não contém spoiler. Quem ainda não atravessou o tijolo de 912 páginas pode ir até o fim do post sem o risco de encontrar algo que estrague o prazer de ler o livro. Embora seja talvez a de mais alta voltagem dramática, a cena abaixo é apenas uma entre centenas de vinhetas de violência ultrajante que são empilhadas como cadáveres numa vala comum. O efeito final da obra é atingido por acumulação. Desfilam no romance – com uma riqueza desconcertante, cerrada e meio hipnótica de detalhes burocráticos, históricos e geográficos – as memórias de guerra do oficial alemão Maximilen Aue, um Hauptsturmführer (capitão SS) ambíguo, de temperamento artístico mas também capaz de grande crueldade, que…
Pequena maravilha de humor e inteligência, “Calvin e Haroldo” (Calvin and Hobbes no original), a tirinha que o americano Bill Watterson escreveu e desenhou por dez anos, de 1985 a 1995, marcava uma lacuna indesculpável no Pop Literário de Sexta. O buraco é preenchido agora pela conversa do esperto menino de seis anos com seu tigre de pelúcia – que para ele (e só para ele) aparece como um animal falante de raro espírito crítico – sobre o surpreendente aspecto literário da matemática. Apesar (ou por causa?) do sucesso mundial, Watterson tomou a decisão de parar de desenhar a tira depois de passar dez anos resistindo à pressão da indústria dos cartuns para multiplicar o faturamento da dupla com o lançamento de uma série de produtos com a cara dos personagens. Essa tensão entre arte e comércio foi satirizada por ele numa das conversas do inteligentíssimo Calvin com seu tigre: CALVIN: O mais difícil para nós, artistas pós-modernos de vanguarda, é decidir se abraçaremos ou não o comercialismo. Vamos permitir que nossa obra seja promovida e explorada por um mercado que está sempre ávido pela próxima novidade? Vamos fazer parte de um sistema que transforma grande arte em pequena arte…
O artigo parece uma piada a princípio, mas vai bem além disso. “A curiosa incidência de cães no mercado editorial – Se os gatos mandam na internet, por que os cachorros reinam nos livros?” é um pequeno ensaio que combina alguma pesquisa (e até gráficos) com boas sacadas sobre o tema que o título resume bem. Assinado por Daniel Engber e publicado na revista eletrônica Slate, deixa claro que não quer apenas fazer graça quando transforma caninos e felinos em metáforas intrigantes – respectivamente, do escritor à moda antiga e do “produtor de conteúdo” da era digital. O verdadeiro mistério, então, não é como os gatos ganharam precedência online, mas sim como conseguiram destronar o cachorro. Nossos meios de comunicação se dividiram em dois campos opostos, e cada um deles – o velho contra o novo – tem um animal adequado ao seu ethos. Estamos lendo cachorros e clicando gatos. Vale a pena ler o artigo completo, em inglês, aqui. Engber não se satisfaz com o recente sucesso de Marley. Entre os muitos exemplos literários que garimpa para ilustrar a velha paixão de escritores e indústria editorial pelos cães (o fascínio da internet por vídeos fofos de gatos, que confesso…
httpv://www.youtube.com/watch?v=XwoW9hnB4vY O trailer do livro infantil It’s a book (“É um livro”), de Lane Smith, lançado em 2010, vale por si mesmo como um adorável curta de animação. Fazia tempo que o gênero não aparecia aqui no Pop Literário de Sexta. Convém encarar com humor a mensagem subliminar contida na escalação de um evoluído macaco como cultor do livro físico e de um burrinho como viciado no mundo digital. Parece coisa de ludita, mas o elogiado livro de Smith (aqui, em inglês) não tem esse espírito. – Dá para blogar com ele? – Não. É um livro. – Dá para tuitar? – Não. – Ele faz isso? TOINHONHÓIN!!!!! (Para a ata: ontem à noite comprei três livros no Kindle.) Bom fim de semana a todos.
Alguém acreditou em Philip Roth quando (…) ele anunciou que estava se aposentando? De todos os romancistas contemporâneos, é ele quem fez a escrita parecer um ato necessário e contínuo, inseparável das continuidades e batalhas de estar vivo. Para Roth, a narração e a individualidade parecem ter nascido juntas; portanto, precisam morrer juntas também. Mais do que qualquer outro romancista moderno, ele usou a ficção como confissão e deslocamento da confissão: seus rabugentos, reclamões e alter egos, de Portnoy a Zuckerman e Mickey Sabbath, parecem todos rothianos, mesmo quando apenas atuam como substitutos do autor. Ele tornou sua infância em Newark, seus pais amorosos e irritantes, seu judaísmo, sua sexualidade, sua própria vida de escritor familiares e vívidos para milhões de leitores. Parecia precisar da ficção como uma espécie de incansável relatório performativo, e por essa razão, nos últimos anos, grandes romances (‘O teatro de Sabbath’, ‘Pastoral americana’) dividiram espaço com obras muito mais fracas e ele foi tão profícuo – a ficção ao mesmo tempo urgente e um tanto agressiva, tão necessária quanto a arte e tão desesperançada quanto a vida. Admiro Roth (…) por muitas razões. Porque ele não permaneceu igual (sua prosa despojada é hoje muito diferente…
A capa ao lado (“Este é o primeiro livro que eu leio em seis anos”), nome alternativo de “A garota com tatuagem de dragão”, de Stieg Larrson, é a preferida de todos os tempos pelos leitores do blog de humor Better Book Titles, que desde 2010 imagina “títulos melhorados” para livros famosos. O nome que coube à obra do autor sueco, claro, caberia em vários outros sucessos. * E por falar em capa de livro: se esta aí embaixo, à direita – um legítimo produto brasileiro, de uma coleção popular da editora Record nos anos 1980 – não for a pior do mundo em todos os tempos, como a denominou Gabe Habash no blog da Publishers Weekly, será apenas porque as outras da coleção “Best of the best” não ficam atrás. * Michel Laub, oportuno, escreve sobre a forma mais garantida e socialmente aceita de assassinar um escritor: banalizá-lo em pílulas de auto-ajuda nas redes sociais. * A sempre provocante Laura Miller reflete na Salon.com sobre o direito que têm os escritores de ficção de puxar o tapete do leitor – e em que momento esse direito esbarra no direito do leitor de simplesmente abandonar o livro. * Um livro…
A suspeita é antiga, mas uns dois séculos mais nova do que a obra fenomenal do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616): ele não seria o verdadeiro autor de suas peças e poemas, ou pelo menos de grande parte deles. Algumas lacunas historiográficas e sobretudo o fato de que o jovem Will nunca teve acesso a uma educação clássica de primeira linha, então ao alcance apenas da nobreza, são os principais argumentos invocados pelos céticos. Como diz o próprio Stephen Greenblatt na introdução do excelente Will in the world: how Shakespeare became Shakespeare, “(sua) obra é tão assombrosa, tão luminosa, que parece ter vindo de um deus e não de um mortal, muito menos um mortal de origem provinciana e educação modesta”. Convém deixar claro que o autor de “Como Shakespeare se tornou Shakespeare” (lançado aqui pela Companhia das Letras, com título que abre mão do trocadilho intraduzível entre Will e “vontade, determinação”) não duvida que Shakespeare tenha sido escrito por Shakespeare. Apenas se dedica a pesquisar, com uma mistura sedutora de informações históricas e insights, como isso foi possível. Se os céticos nunca foram capazes de provar sua tese, correndo o risco de se aproximar de descabelados teóricos…
O mundo é tão vasto, tão complicado, tão repleto de maravilhas e surpresas que a maioria das pessoas leva alguns anos para começar a perceber que é também irremediavelmente quebrado. A esse período de pesquisa chamamos “infância”. Segue-se um programa de investigação reiterada, quase sempre involuntária, sobre a natureza e os efeitos de mortalidade, entropia, coração partido, violência, fracasso, covardia, hipocrisia, crueldade e sofrimento, cujas histórias e amargas lições o pesquisador aprende de cor. Ao longo do caminho, ele ou ela vai descobrindo que o mundo está quebrado até onde alcança a memória de qualquer um, e luta para conciliar tal fato com a pontada de nostalgia cósmica que, de tempos em tempos, agita-se em seu coração: uma sugestão de glória extinta, de inteireza perdida, uma memória do mundo antes de se quebrar. Ao momento em que essa pontada se manifesta pela primeira vez chamamos “adolescência”. O sentimento assombra as pessoas pelo resto da vida. Todo mundo, cedo ou tarde, é submetido ao aprendizado da quebra. A questão passa a ser então: o que fazer com os pedaços? Há quem se abanque em sua pilha local de escombros e toque a vida assim mesmo, beduínos criando suas cabras à sombra…
Em 1975, ano especialmente feliz para a literatura brasileira, um paulista do interior, descendente de libaneses nascido em Pindorama, lançou seu livro de estreia. O nome do autor, então com 39 anos, era Raduan Nassar. O romance curto e denso com que se apresentava, “Lavoura arcaica”, ganhou reconhecimento da crítica – imediato – e de um público exigente – aos poucos – como um clássico moderno. O que sem dúvida é. Nove anos depois, quando anunciou que estava abandonando a literatura para cuidar de sua fazenda, Raduan tinha publicado só mais uma novelinha, “Um copo de cólera”. Intitulado “Menina a caminho”, o volume também breve que reúne cinco contos, quatro escritos antes de “Lavoura” e apenas um recente, sairia em 1997, pela mesma Companhia das Letras que edita toda a sua obra. Acredito estar dizendo o óbvio ao apontar “Lavoura arcaica”, do qual extraí a cena abaixo, como a obra-prima de Raduan. E também ao alertar quem ainda não conhece o livro (nem viu o filme nele baseado, dirigido por Luiz Fernando Carvalho) para o risco de descobrir nesta seção a revelação de um mistério que preferiria desvendar no tempo certo da leitura. O anseio não é apenas justo, mas…

