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Bret Easton Ellis x David Foster Wallace e outros links
Pelo mundo , Vida literária / 17/09/2012

É muito esclarecedor este artigo (em inglês) publicado na “Salon.com” por Gerald Howard, sob o título “Eu sei por que Bret Easton Ellis odeia David Foster Wallace”. Howard editou os dois autores americanos quando jovens, admira ambos e acredita que eles sejam os mais brilhantes representantes de dois lados antitéticos da mesma geração – com DFW na extremidade que acabaria por se provar culturalmente vitoriosa. Mesmo assim, reconhece que os tweets cheios de fel que o autor de “Psicopata americano” disparou em sequência, a propósito da biografia de DFW recém-lançada por D.T. Max, deixam-no na posição indigna de chamar um morto para sair no braço. Dois exemplos: A fajuta “sinceridade” do Meio-Oeste de David Foster Wallace, em que uma geração de bebês se reconhece, é a coisa que eu mais odeio como escritor. Tudo bem que David Foster Wallace seja mais esperto do que eu e um escritor melhor, mas ele era tão mais frio do que eu jamais fui. Ele era uma farsa. Quase. * Por falar em David Foster Wallace, cuja morte acaba de completar quatro anos: sai no mês que vem, pela Companhia das Letras, “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”,…

‘A metamorfose’ em dois tempos, cem anos depois
Pop de sexta / 14/09/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=wOrhpRtEXH8&feature=related O Pop Literário de Sexta traz dois vídeos ligados à novela “A metamorfose”, obra-prima de Franz Kafka que, escrita em 1912 (e publicada três anos depois), está completando cem anos sem dar o menor sinal de que um dia se verá transformada numa espécie monstruosa e embolorada de literatura de época. Acima, a íntegra do bom média-metragem livremente inspirado no livro que o cineasta independente espanhol Carlos Atanes lançou em 1993. Abaixo, numa preciosa dica tuíterística do escritor e “curador de links” Carlos Henrique Schroeder, um vídeo em que o professor Ritchie Robertson, eminente kafkólogo de Oxford, apresenta e comenta o manuscrito original do livro. Destaque para a caligrafia demasiado humana de Kafka (não mais torta do que a minha, devo confessar) e para o escasso número de rasuras. Bom fim de semana a todos. httpv://youtu.be/IOoQcPy23w4

Mamilogate, o momento mais ridículo do Facebook
Pelo mundo / 12/09/2012

Se existe um lado bom no neopuritanismo do Facebook, ele acaba de ser encontrado. O tom de falsa seriedade com que o editor de cartuns da revista “New Yorker”, Robert Mankoff, expôs no site da revista o ridículo de quem se escandaliza com mamilos de nanquim numa representação cartunesca de Adão e Eva produziu uma pequena obra-prima do humor. Muito melhor, aliás, do que o cartum da discórdia, que não é ruim. O post se chama Nipplegate (Mamilogate) e pode ser lido inteiro, em inglês, aqui. Traduzi o trecho inicial: A “New Yorker” tem uma página no Facebook para nossos cartuns, que muitos de vocês curtem, ou talvez seja só uma pessoa com tempo livre à beça que curte a página, depois curte de novo e de novo. Em todo caso, é um número grande de curtidas. Nós curtimos isso. O que nós não curtimos foi a suspensão temporária que levamos do Facebook por violar suas normas comunitárias de “Nudez e sexo” ao publicar este cartum de Mick Stevens. Com a esperança de voltar às boas graças do Facebook, Mick redesenhou o cartum para a gente, mas a adição de roupas provocou uma severa subtração no humor. Uma breve investigação…

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (II)
Sobrescritos / 10/09/2012

Esta é a segunda e última parte da entrevista que fiz com o ex-escritor Silvério Sombra, que há sete anos abandonou as lides literárias para criar galinhas num pequeno sítio chamado Itaguaí. A primeira parte pode ser lida aqui. A mulher feia que a juventude embeleza é uma metáfora da sua própria obra? Ou da literatura em geral? – (risos) É a metáfora de uma metáfora. Uma metáfora para acabar com todas as metáforas. Tudo é metáfora nesse negócio, vê só que porcaria. Demorei a entender o que estava errado. Que tinha alguma coisa errada, tinha. Aquela não era a minha turma. Entrei nesse negócio perseguindo uma miragem, como imagino que todo mundo entre. Um dia lá, perdido na infância, um Robinson Crusoé qualquer, uma Emília, um Zezé do Pé de Laranja Lima puxa um neurônio pra cá, outro pra lá, uma sinapse nova faz zapapof e aí já viu, está feito o estrago. O coitado vai passar o resto dos seus dias perseguindo uma coisa que não sabe direito o que é, querendo fazer parte daquilo. Nesse caminho ele muda de gosto, renega o passado, refina, escolhe a dedo uma meia dúzia de desafetos, quase sempre fica bastante besta,…

Retratos, biquínis e outros links nem sempre literários
Pelo mundo , Pop de sexta / 07/09/2012

A inspiração do artista e poeta austríaco Anatol Knotek, que pinta retratos – como o de Herman Hesse, à esquerda – com palavras manuscritas em vez de traços disputou uma vaga no Pop de Sexta com a suprema gratuidade de uma coleção online de biquínis que se parecem com capas de livros – como o da direita. Deu empate. * Embora pop à beça e bom mesmo seja este mapa da Via Láctea com design inspirado no do metrô londrino. Pena que não se qualifique como propriamente literário. * O escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder fez para o site do Instituto Moreira Salles um apanhado de vídeos interessantes disponíveis na web literária. Já havia feito o mesmo com textos. * Este artigo (em inglês) de Barton Swain para o Weekly Standard, a propósito de um livro que busca ensinar regras de estilo para acadêmicos, tem o grande mérito de mostrar – consolo duvidoso – que o problema não é só nosso: “Os acadêmicos modernos não são celebrados pela clareza e pela felicidade de seu texto”, escreve ele. “Uma das lições mais importantes que um estudante de pós-graduação pode aprender – e se não aprender logo, estará condenado – é que…

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (I)
Sobrescritos / 05/09/2012

Encontrei o ex-escritor Silvério Sombra em seu sítio, que ele batizou de Itaguaí por motivos que veremos adiante, embora não se situe na cidade fluminense. O sigilo sobre a localização da pequena propriedade rural de Sombra é apenas uma das cláusulas restritivas que ele impôs como condição para conceder sua primeira entrevista desde que, há sete anos, abandonou tanto os círculos literários em que tinha atuação frenética quanto a própria literatura, recusando-se a acrescentar – conforme suas últimas palavras públicas – “uma linha que seja a uma obra que espero ver esquecida para sempre”. A obra de Sombra, composta de dois romances e dois livros de contos, foi esquecida sem demora, como ele desejava. Seu nome, porém, tem teimado em pairar como um fantasma sobre as conversas literárias nacionais, sobretudo depois que alguém cunhou para ele o epíteto maldoso de “Raduan sem Lavoura”, que pegou. O nervosismo com o imperativo jornalístico de lhe perguntar em algum momento da entrevista o que achava desse apelido me atazanou a viagem até o sítio. Contudo, assim que saltei do jipe um homem de meia-idade descalço e maltrapilho, saco de milho na mão, cercado de galinhas, acabou com o problema. “Aqui não tem lavoura…

Entrevistas do ‘Rascunho’: o que é bom merece bis

RASCUNHO: Como você avalia a entrada do Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras? CARLOS HEITOR CONY: Tendo uma vaga, qualquer um pode entrar. O Paulo Coelho namorava a Academia havia bastante tempo. É uma figura polêmica, sua literatura é muito questionada. Mas há uma coisa que não se pode negar: ele é um homem de letras. Ele escreve letras. Escreveu letras para o Raul Seixas. Nunca li nada dele, realmente. Mas ele tem um sucesso comercial muito grande. Está entrando na Rússia. Já vendeu dois milhões de livros no Japão. É impressionante isso. Shakespeare não vendeu, até hoje, dois milhões de exemplares no Japão. Há outra coisa: o Paulo Coelho é uma pessoa muito fina, muito educada. Não responde ninguém, não agride ninguém. Não se vangloria por vender tanto. É muito cavalheiro. Agora, há as evidências. No Salão do Livro em Paris, em março de 1998, a homenagem foi ao Brasil. Havia lá uma réplica do 14-bis, um busto do Machado de Assis. Foram mais de cem figuras da literatura nacional. O (Jacques) Chirac era o presidente, na época. E ele entrou, para inaugurar o Salão do Livro, de braço dado com o Paulo Coelho. Disse que queria prestar…

Por que ‘Laranja mecânica’ ainda dá suco e outros links
Pelo mundo / 31/08/2012

Em artigo no “New York Times” (em inglês), adaptado do prefácio que escreveu para a edição comemorativa do livro no Reino Unido, Martin Amis tenta entender por que o romance “Laranja mecânica”, de Anthony Burgess, ainda está vivo (certamente mais do que o filme homônimo de Stanley Kubrick) meio século após seu lançamento. Sua aposta é que a chama que não se apaga reside na improvável paixão extremada de Alex, o sociopata caricatural que cultiva a “ultraviolência”, pela música clássica: Num só golpe, e sem sentimentalismo, Alex é realinhado. Ele agora foi equipado com uma alma, até mesmo com uma suspeita de inocência. Burgess ventila a sugestão sinistra, mas não implausível, de que Beethoven e Birkenau não apenas coexistiram, mas se combinaram e conspiraram, inspirando sonhos loucos de supremacia e onipotência. * A propósito, isto é para quem não resiste a uma lista, por mais questionável que ela seja: o site Popcrunch escolhe os 16 (estranha opção numérica) maiores romances distópicos de todos os tempos, por ordem decrescente de grandeza. Todos escritos em inglês, claro, em lógica semelhante àquela que transforma em World Series o campeonato americano de beisebol (embora seja preciso reconhecer que o gênero se confunde com a…

Em defesa da boa (e moribunda?) crítica jornalística
Mercado , Pelo mundo / 29/08/2012

Porque toda crítica é baseada nesta equação: CONHECIMENTO + GOSTO = JUÍZO SIGNIFICATIVO. A palavra-chave aqui é “significativo”. Pessoas que reagem fortemente a uma obra – a maioria de nós o faz – mas não têm uma erudição mais ampla que lastreie essa opinião não são críticos. (É por isso que grande parte das resenhas feitas online por leitores não constituem propriamente crítica.) Tampouco são críticos aqueles que têm uma tremenda erudição, mas não o tipo de gosto ou temperamento que poderia conferir a seu juízo autoridade aos olhos dos outros, daqueles que não são especialistas. (É por isso que tantos estudiosos acadêmicos se saem mal escrevendo resenhas para grandes audiências.) Como qualquer outro tipo de escrita, a crítica é um gênero que requer do praticante um talento específico, e as pessoas que têm esse talento são aquelas em quem o conhecimento se cruza de modo interessante e persuasivo com o gosto. No fim das contas, o crítico é alguém que, quando seu conhecimento, mobilizado por seu gosto, se vê na presença de um novo exemplar do gênero pelo qual se interessa – uma nova série de TV, filme, ópera, balé ou livro – saliva para atribuir sentido a essa…

Como escrever uma boa resenha má
Pelo mundo , Vida literária / 27/08/2012

Esse artigo (em inglês) de J. Robert Lennon na revista eletrônica Salon.com traz boas – e divertidas – reflexões sobre a ética da resenha literária negativa. Qual é o limite entre descer o malho com desassombro em livros que o resenhista julga merecedores de malho e aquele espetáculo sádico de espinafração em que o foco é transferido dos problemas da obra para a verve exibicionista do próprio resenhista? O autor parte do contraste entre sua própria crítica negativa do novo livro de Paul Auster, que ele acredita estar no primeiro caso, e uma resenha cruel assinada por um colega, que classifica no segundo, para elaborar sete regras que vale a pena conhecer. Elas estão aí embaixo, em versão condensada, traduzidas por mim. Não são poucos os pontos de contato entre as observações de Lennon e as seis regras de ouro de John Updike, que publiquei aqui em 2009. Em primeiro lugar, forneça um contexto. Isso significa ler o máximo possível da obra do autor, tomando notas sobre todos os livros e não só o que você está resenhando. Foi por isso que me senti justificado em malhar o livro de (Paul) Auster – nem sempre gosto dele, mas às vezes…

Caixa de música literária
Pop de sexta / 24/08/2012

Hoje o Pop Literário de Sexta abre alas para o Literary Jukebox, simpático projeto lançado este mês pela jornalista cultural Maria Popova, do blog Brain Pickings. Trata-se de uma página que traz uma citação literária por dia – muitas vezes de ficcionistas, mas nem sempre – e a cada uma atribui uma trilha sonora pop moderninha que, para Popova, dialoga com o tema. O charme da coisa é que os casamentos de texto e música nunca são óbvios. Um trechinho de “Os irmãos Karamazov”, de Dostoievski, se deixa ler ao som da bela “Truth”, de Alexander Ebert, ex-Edward Sharpe and the Magnetic Zeros. Balzac é embalado num tema instrumental da banda soul El Michels Affair. Uma citação de John Cage sobre o poder do silêncio vem acompanhada de “Sound of silence”, de Paul Simon – o que poderia ser óbvio, certo, não fosse a escolha da versão da islandesa Emilíana Torrini para a canção. Aqui está o arquivo completo do Literary Jukebox, ainda pequeno e fácil de navegar. Boas leituras, boas audições – e bom fim de semana.

Nelson: cem anos de um mestre do diálogo brasileiro
Vida literária / 22/08/2012

Aproveito o centenário de Nelson Rodrigues, que se comemora amanhã, para reconhecer publicamente uma dívida pessoal e dar uma dica: talvez não haja lição mais importante que os escritores brasileiros do século 21 possam tirar da obra de um dos maiores escritores brasileiros do século 20 do que o difícil aprendizado do diálogo. Falo de uma questão de forma. Isso não significa minimizar o famoso conteúdo rodriguiano, esse impressionante universo de tipos caricaturais da baixa classe média carioca às voltas com tramas folhetinescas de amor e morte, infidelidade e incesto, numa atmosfera farsesca em que pulsões primitivas estão sempre prontas a furar o verniz da civilização e vir à tona com uma ferocidade equilibrada entre o trágico e o cômico. Evidentemente, é o alcance cultural desse universo que torna Nelson um monstro, um daqueles raros autores sem os quais o país não seria o que é. Mas disso não falta quem esteja falando. Quando me refiro ao diálogo, falo de uma técnica que permite a dois ou mais personagens trocarem blocos de discurso direto no meio de uma narrativa sem que soem como bonecos de ventríloquo do autor ou como oradores na tribuna da Câmara dos Deputados. Alguns escritores se…

Qual o melhor conselho literário que você já recebeu?
Pelo mundo , Vida literária / 20/08/2012

O Writer’s Digest lançou a pergunta acima (em inglês) a seus leitores em fevereiro. Algumas das respostas são boas, mas, pensando em qual seria a minha, descobri que a única honesta é: depende do momento. Nesta fase em que estou em luta corporal com um novo romance – apanhando mais do que batendo – o conselho que resolvi imprimir em corpo 72 para colar na parede em frente à mesa de trabalho, de autoria de Neil Gaiman (foto), me parece o mais útil de todos os tempos: “Termine o que está escrevendo. O que quer que tenha que fazer para terminar, termine.” * Fernando Pessoa que se cuide: Benjamin Black, heterônimo adotado por John Banville quando escreve romances policiais, vai incorporar o espírito de Raymond Chandler em livro que sai ano que vem. Missão duríssima. Como evitar o pastiche que faz a graça de textos como este da McSweeney’s? * E por falar em espíritos e cavalos, uma frescura chique: Jeffrey Eugenides (no papel de Henry James), Jonathan Safran Foer e Junot Díaz posam para Anne Leibovitz num superproduzido ensaio fotográfico sobre Edith Wharton para a “Vogue”. * Para quem estiver muito interessado em refletir sobre o futuro do livro,…

O Twitter, quem diria, pariu uma obra-prima: ‘Caixa preta’
Pelo mundo , Vida literária / 17/08/2012

É possível fazer literatura de qualidade no Twitter? Essa pergunta, que tem andado no ar há alguns anos, não teve até agora (terá um dia?) melhor resposta do que a que a escritora americana Jennifer Egan – autora do notável “A visita cruel do tempo”, resenhado aqui – deu em maio deste ano ao publicar no perfil da revista “The New Yorker” uma história de espionagem em forma de flood de tweets chamada Black box. Quem ainda não leu pode acessar o conjunto inteiro (em inglês) no site da revista. Ou acompanhar a tradução, “Caixa preta”, que a editora Intrínseca publicará a partir desta segunda-feira, dia 20, até o dia 30, sempre das 22h às 23h, em sua conta no Twitter (@intrinseca). Ao fim desse prazo, a narrativa completa será lançada como e-book. A iniciativa é oportuna: uma “Caixa preta” basta para redimir quaisquer “Cinquenta (ou até mais) tons de cinza”. Na Flip deste ano, em que dividiu uma mesa com Egan, o escritor inglês Ian McEwan não mediu elogios a Black box: “É uma das melhores coisas que leio em anos”. Os espectadores que não conheciam o texto podem ter pensado que o autor de “Serena” estava apenas exercitando…

Para ‘país de leitores’ e ‘potência olímpica’, falta trabalho
Posts / 15/08/2012

Quem vê televisão aberta já deve ter esbarrado com o filmete em que Elisa Lucinda, poeta e declamadora, fala da importância dos livros em sua infância e adolescência. Em torno do bordão “Leia mais, seja mais”, está no ar (mais) uma campanha de incentivo à leitura promovida pelo Ministério da Cultura, com investimentos, este ano, de R$ 373 milhões – leia mais aqui. Sempre fico meio triste diante de iniciativas do gênero. Não que elas não sejam importantes e necessárias: até hoje me lembro da campanha “Ler é sonhar, ler é viver”, dos anos 1970, que tinha um jingle maneiro. Não sei se ela formou algum leitor, mas levava sobre a atual a vantagem de não apelar para um contraproducente imperativo – “Leia! Seja!” “Eu não!” – e me ajudou a me sentir menos extraterrestre, eu que era um solitário leitor compulsivo rodeado de não-leitores sarcásticos. Se as iniciativas são simpáticas, concentrar em campanhas culturais o esforço da “formação de leitores” é semear em solo árido. Sem um profundo – lento, custoso e politicamente pouco rentável – avanço educacional, os resultados serão sempre magros. E esse avanço não está no horizonte. Aqui e ali, isoladamente, uma semente mais bem dotada…

O prefácio do psicanalista
Sobrescritos / 13/08/2012

O narrador do romance sou eu. Meu nome será omitido, mas não minha profissão, esta sim importante: sou psicanalista praticante, de consultório na praça há mais de vinte anos. Bem de vida, sim, mas não propriamente rico como alguns colegas. Fui mais escrupuloso, quem sabe; menos esperto sem dúvida. Construí uma carreira sólida e plana, mantive-me ao largo da politicagem da profissão, do assédio da imprensa, das tentações da glória acadêmica. Era um analista na linha de frente, só isso. Infantaria, tudo o que eu desejava. Como outros são ortopedistas, cirurgiões, otorrinos, eu praticava a psicanálise. Meus pacientes me pagavam por isso. E o que seria isso, exatamente? Ouvir, claro. Os pacientes contavam suas histórias. Eu ouvia. Compreendo que para o leitor isso seja, ao primeiro contato, meio desconcertante. Parece claro que o analista não pode ser outro senão, justamente, o leitor – confere? O escritor é o paciente, o analisando. Conta sua história, tece sua teia. O analista é o leitor, vítima e algoz, enredado e crítico ao mesmo tempo. Caberá a ele encaminhar a resenha, comprar ou não o livro, dá-lo de presente aos melhores amigos, esquecê-lo num canto inacessível da estante ou, pior, vendê-lo a peso a…

Jorge Amado: aos cem anos, a solidão?
Vida literária / 10/08/2012

No centenário de Jorge Amado, comemorado hoje, a digestão do legado do escritor baiano ainda está longe de se completar. De um lado, sua obra de inédita popularidade sofreu uma espécie de canonização, com muito de kitsch como qualquer canonização. Basta ver o Bataclan ridiculamente luxuoso da nova adaptação de “Gabriela” na TV Globo: faz o Moulin Rouge parecer um bordel de província, como se as prostitutas de Ilhéus na época de ouro do cacau não fossem desdentadas, não tivessem pés cascudos, filhas destituídas da Idade Média brasileira que eram, e sim top models fazendo um bico para descolar uns trocados a mais. O outro lado da moeda é o da negação pura de Jorge Amado, que ainda é a postura dominante nos círculos literários – e não apenas acadêmicos, embora estes tenham exercido forte influência nesse sentido. Atropelado pela novidade dos estudos culturais em que desembocou o pensamento de esquerda no último quarto do século 20, Amado – que na primeira metade de sua carreira foi nosso escritor mais assumidamente político, “se não bispo ao menos monsenhor” do stalinismo, em suas próprias palavras – viu-se escalado no papel de porta-voz do patriarcalismo e do sexismo, como se fosse uma…