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Quando escritores ganhavam medalhas olímpicas
Pelo mundo , Vida literária / 08/08/2012

Em vez de duplos mortais carpados, tetrâmetros iâmbicos cataléticos? Exatamente. Embora quase não se fale nisso, entre 1912 e 1948 os Jogos Olímpicos distribuíram medalhas de ouro, prata e bronze para escritores (mais especificamente, poetas), além de músicos, arquitetos, pintores e escultores, por obras inéditas que tivessem o esporte como tema. Não que faça muita falta saber. O fato de o primeiro vencedor da medalha de ouro olímpica na modalidade literatura, em 1912, ter sido o próprio Barão Pierre de Coubertin (foto), o grande ideólogo dos Jogos e o maior entusiasta da inclusão das artes entre as modalidades competitivas, torna tudo bastante suspeito. Curiosamente, ao inscrever sua obra “Ode ao esporte” nos Jogos de Estocolmo, Coubertin adotou um pseudônimo alemão duplo – “Georges Hohrod e Martin Eschbach”, talvez imaginando que o texto fosse bom demais para ter sido escrito por uma pessoa só –, o que fez sua medalha ser computada inicialmente no quadro da Alemanha. Se o panteão dos escritores com medalha de ouro não inclui nenhum grande nome da literatura, o que sugere uma baixa adesão dos maiores artistas da época à ideia de disputar uma medalha olímpica, nem todos são inteiramente obscuros. O nome de maior destaque…

A era do crítico gente boa
Pelo mundo / 06/08/2012

Resenhistas não deveriam ser máquinas de recomendar, mas nós acabamos por nos conformar com esse papel, em parte porque o espírito de solicitude comunitária do Twitter estimula isso. Nossa vantagem sobre os algoritmos da Amazon e da Barnes & Noble e sobre o amadorismo (parte dele bastante bom e útil) de sites como GoodReads é que nós somos profissionais com opiniões nuançadas, informadas. Somos pagos para ser céticos, até mesmo belicosos, de modo que nosso entusiasmo vale mais quando é merecido. Os resenhistas de hoje tendem a mitificar os velhos arranca-rabos televisivos entre William F. Buckley e Gore Vidal ou Noam Chomsky (os vídeos estão no YouTube), mas não estão dispostos a se engajar eles mesmos nesse tipo de combate intelectual. Elogiam a beligerância de Norman Mailer e Pauline Kael, mas quase sempre à distância. Mailer e Kael são como aqueles amigos rebeldes da escola: objetos de adoração, mas não de imitação. Afinal, é tudo tão perigoso, alguém pode acabar se machucando. Em vez disso, gentileza enjoativa e entusiasmo cego são os sentimentos dominantes. Como se espelhasse a cultura à sua volta, a crítica dura virou sinônimo de ofensa; tudo é pessoal – a afeição de alguém por um livro…

Tezza, a universidade, o apocalipse e o conto do Laub
Vida literária / 03/08/2012

Nos anos 1970, a pauta literária nacional se refugiou na universidade. (…) Se criou ali de certa forma o ‘pior’ de dois mundos. Surgiu a figura do professor-escritor. Eu fui um. O discurso da universidade tem a pressuposição de verdade. A universidade é um lugar de organização do pensamento. A perspectiva de quem cria na literatura é substancialmente diferente. A verdade não interessa para a criação literária. A ligação com a universidade brasileira criou essa relação esquizofrênica entre o discurso da ciência e o da arte, como se fosse uma coisa só. Isso teve um efeito devastador sobre a prosa brasileira. A prosa romanesca se apagou ao longo dos anos 1970 e 1980. Achei boa e – mais uma vez – corajosa a entrevista do escritor e ex-professor universitário Cristovão Tezza à “Folha de S.Paulo” de ontem. Houve quem visse ali preconceito contra a universidade, mas fará algum sentido falar em preconceito quando quem emite tais juízos teve uma intensa vivência de mais de duas décadas no meio acadêmico? O autor de “O filho eterno” pode se enganar no diagnóstico, naturalmente, e um certo exagero argumentativo me parece inegável em suas afirmações, mas seus conceitos nada têm de predeterminados. E…

Gore Vidal (1925-2012) deixa a igreja mais vazia
Pelo mundo / 01/08/2012

Nossa adorável, vulgar e humaníssima arte [o romance] está num de seus finais, se não estiver no fim. Mas isso não é motivo para não querer praticá-la, ou mesmo lê-la. De qualquer modo, como sacerdotes que já se esqueceram do sentido das preces que entoam, continuaremos por um bom tempo falando de livros e escrevendo livros, fingindo não notar, enquanto isso, que a igreja está vazia e os paroquianos foram embora para algum lugar a fim de venerar outros deuses, quem sabe em silêncio ou com novas palavras. O escritor americano Gore Vidal escreveu o trecho acima num ensaio publicado em 1967 – bem antes, portanto, da onda digital que transformou em lugar-comum prever o fim do romance. Ao morrer ontem, aos 86 anos, em sua casa em Los Angeles, vítima das complicações de uma pneumonia, o ficcionista, roteirista e polemista que era um dos últimos grandes nomes da galeria de escritores-celebridades deixou a igreja um pouco mais vazia. Seu pessimismo era parte inseparável de uma personalidade complexa em que um profundo esnobismo aristocrático se aliava à coragem de reafirmar ideias e comportamentos que lhe eram caros – laicismo, aversão ao patriotismo e à demagogia, homossexualidade – sem concessão às…

Livros digitais são uma nova bolha?
Pelo mundo / 30/07/2012

Estou convencido de que os livros digitais são uma nova bolha tecnológica, e de que ela vai estourar nos próximos 18 meses. Eis a razão: a publicação digital é inextricavelmente ligada às estruturas do marketing nas redes sociais e ao mito de que a mídia social funciona para vender produtos. Não funciona, e só agora começamos a ter estatísticas verdadeiras sobre isso. Quando o marketing das redes sociais entrar em colapso, destruirá a plataforma na qual se baseava o sonho de uma indústria formada por escritores autopublicados. Em sua tentativa de demolir no “Guardian” de hoje (em inglês) a lógica da autopublicação digital – e não a do livro digital em si, embora o trecho acima não deixe isso tão claro – Ewan Morrison apresenta números desconcertantes e compra briga com muita gente, inclusive o brasileiro Paulo Coelho, um defensor da publicação gratuita na internet como estratégia para escritores se fazerem conhecidos do público. * Depois de viajar a Cuba, o escritor argentino [Julio Cortázar] iniciou uma lenta transformação. Pouco a pouco, ele deixou de buscar uma revolução cultural vanguardista que mudasse a vida e começou a defender as revoluções políticas que transformavam as sociedades. Cuba preencheu um vazio político…

O pequeno grande Gatsby
Pop de sexta / 27/07/2012

httpv://www.youtube.com/watch?v=e6Iu29TNfkM&feature=youtube_gdata_player Trata-se de material educativo, o que costuma ser interpretado como uma espécie de eufemismo de “chato”. Por que será, então, que assisti com interesse a esse vídeo (em inglês) que pretende resumir e analisar sumariamente “O grande Gatsby”, obra-prima de F. Scott Fitzgerald e livro preferido de Luis Fernando Verissimo? A resposta simples é: porque é feito com inteligência, o que não pode ser dito de 99% dos resuminhos literários que assolam a internet brasileira. A resposta menos simples envolveria uma reflexão sobre a rapidez com que por aqui condenamos como “barateamento” qualquer iniciativa do gênero, ao mesmo tempo que ninguém assume ser contra o “incentivo à leitura”. Divirtam-se. Duvido que, assinada por quem é, a nova adaptação cinematográfica do romance seja tão interessante.

‘O espírito da prosa’: para apaixonados por literatura
Resenha , Vida literária / 25/07/2012

“O espírito da prosa – uma autobiografia literária”, de Cristovão Tezza (Record, 224 páginas, R$ 34,90), é um livro corajoso e único no cenário brasileiro: um longo ensaio em que um ficcionista de sucesso reflete sobre sua formação, sonda motivações ocultas, esmiúça referências, defende teoricamente suas escolhas no quadro histórico da prosa de ficção e, ao mesmo tempo, expõe as próprias dúvidas e pontos fracos com franqueza desconcertante. Ex-professor universitário e estudioso do linguista russo Mikhail Bakhtin, Tezza não facilita as coisas para o leigo menos ligado no tema: nem tanto pela linguagem – “Este não é um trabalho acadêmico”, avisa na primeira frase do livro – quanto por um tom singularmente fervoroso, “O espírito da prosa” dirige-se a um leitor no mínimo apaixonado por literatura. No trecho abaixo, depois de destroçar os três primeiros livros que escreveu – e que nunca publicou –, Tezza faz uma defesa enfática de algo que grande parte da inteligência literária brasileira tem gostado de tratar como defunto, muitas vezes com a superficialidade apressada de quem já não precisa reafirmar o óbvio: a ficção realista e seu lugar único, que obviamente não é o de uma linguagem em que o autor insufle uma verdade…

Que cena! Cai a máscara do narrador em ‘Lolita’
Destaque , Que cena! / 23/07/2012

Todo o romance é espetacular, uma das obras-primas do século 20, mas a cena abaixo – situada ao fim do primeiro terço de “Lolita” (1955), escrito diretamente em inglês pelo russo Vladimir Nabokov – ocupa posição de destaque. Em primeiro lugar por uma questão de arquitetura, como ponto de virada em que, pela ação quase inverossímil do “longo e cabeludo braço do Acaso”, a paixão proibida de Humbert Humbert, o narrador, sai da sombra da dissimulação familiar para a luz solar de um desfrute que chega perto de ser escandalosamente assumido. Não é só isso: também no relevo emocional do romance estamos, aqui, num pico elevado. Dele desce serpenteando uma montanha-russa de duas pistas. Numa trafega H.H. com sua voz narrativa que, como aponta com propriedade o escritor irlandês Brian Boyd na atual edição da revista “Serrote”, lembra muito – na inconfiabilidade, no traçado sinuoso, no uso do leitor como vocativo – a do melhor Machado de Assis. Cínico, brilhante, esnobe, esse representante decadente do Velho Mundo tem seu diário secreto violado e vê desmoronar sem aviso a farsa que montou ao se casar com Charlotte Haze, americana de meia-idade que despreza, para usufruir da companhia de sua filhinha, a…

Sem meritocracia
Sobrescritos / 20/07/2012

– Imagine o futebol sem meritocracia. Imaginou? – Não sei se estou entendendo. – Um futebol sem meritocracia, ora. Sem hierarquia, sem mecanismos de aferição de valor. Imagine um ambiente em que não só o craque desapareceu como a própria ideia de que certos jogadores possam ser considerados craques é revoltante para a sensibilidade democrática de todos. Craque para quem, na opinião de quem? Com que autoridade divina alguém decreta que um jogador é craque e outro não? – Mas isso não é evidente? Qualquer torcedor na arquibancada percebe a diferença na primeira matada de bola, no primeiro passe. – Será evidente mesmo? Ou será que estamos falando de um olhar condicionado, adestrado pelos poderosos, construído por gerações de cronistas esportivos preconceituosos para cobrir de privilégios seus eleitos, seus amiguinhos? – Você está brincando, né? – De jeito nenhum. No futebol sem meritocracia, a violência e a arbitrariedade de todo treinador ficam grotescamente expostas. De onde ele pensa que tirou autoridade para decidir quem entra em campo, quem fica no banco, quem estará na próxima lista de dispensa? – Do presidente do clube? – Do presidente, claro, como personagem contingente, mas através do presidente fala uma força historicamente constituída chamada…

II Concurso de Microcontos: mais 21 motivos para que venha o terceiro
Interatividade / 18/07/2012

Para encerrar o capítulo do II Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, publico algumas histórias que mereceram menção honrosa e que ajudam a ilustrar a diversidade de estilos e efeitos abarcada pelos atuais praticantes do formato ultracurto. Carlos Seabra, por exemplo, consegue alçar um bom voo no terreno da fantasia em apenas 116 caracteres: Os semícaros eram um povo unialado, cada qual com uma única asa. Para voar, tinham que escolher alguém e se abraçar. Edson Victor Lima toma o caminho oposto, o do realismo cru que, frequentemente carregado de violência e desespero, tem a preferência da maioria dos cultores da narrativa mais-que-sucinta. Isso é compreensível – com o tempo tão escasso, nocauteemos logo o leitor – mas também traiçoeiro, por produzir um efeito que, já esperado, tende à mesmice. O microconto de Edson se destaca mesmo assim, talvez ao preço de reduzir um pouco além do desejável o espaço do não-dito: Saco o iPhone para a última tuitada: “Me sigam, hahahaha.” Quem pode imaginar que essa é uma gargalhada de desespero? Pulo. Já a micronarrativa de Bárbara M.W. deixa um mundo inteiro de subentendidos num flagrante doméstico de banalidade pungente: Clara abriu a gaveta de calcinhas. Era a decisão…

II Concurso Todoprosa de Microcontos: os vencedores
Interatividade / 16/07/2012

Foi mais difícil escolher os vencedores desta vez. O número de narrativas ultracompactas inscritas foi o mesmo, pouco acima de 600. No entanto, desde a primeira versão do Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, em 2010, é possível que o formato radicalmente sucinto tenha se alojado mais fundo na sensibilidade da nossa época, sei lá. O fato é que o trabalho de seleção foi mais difícil, o medo de cometer alguma injustiça grave pairando o tempo todo sobre a cabeça do microjúri – formado, como já anunciei, por mim mesmo. Numa primeira peneirada, cheguei a 53 microcontos que, sem favor algum, poderiam constar da lista abaixo. Desse universo, um pente mais fino separou 24 finalistas. Escolher um oitavo deles para montar o pódio foi, como seria de esperar, o salto mais arriscado. Após incontáveis releituras, o primeiro lugar vai para Mara Augusta Soares pelo prodígio de, pronunciando apenas oito palavras cuidadosamente pesadas, desenhar um não-dito de dimensões vertiginosas entre a violência realista – tom eleito pela maioria dos concorrentes – e o lirismo, o mundo lá fora e o mundo aqui dentro, borrando irremediavelmente suas fronteiras: Ao pular na garganta do penhasco, ele sonhou. O segundo lugar premia uma tendência…

Quiz literário: quem escreveu esses personagens?
Interatividade , Pop de sexta / 13/07/2012

Aqui vai um joguinho divertido para bons leitores (e cinéfilos também): numa galeria de 36 personagens famosos da literatura, com limitação de tempo, em quantos casos você consegue identificar os autores? Como a escolha dos nomes que participam da brincadeira é decididamente mainstream, a maioria dos personagens já foi parar no cinema, o que pode facilitar a tarefa ou não. Quem, não sendo um bom leitor, presta atenção no nome do escritor em cuja obra o filme se baseou? A propósito, caso alguém esteja interessado: acertei 28 antes que se acabasse o tempo. Nota 7,7 – podia ser pior. * Achei surpreendente essa lista (em inglês) de escritores que atuaram como atores em filmes, preparada pelo “The Millions”. A carreira de Norman Mailer na tela grande é notória, certo. Eu também já tinha ouvido falar vagamente da atuação de um adolescente Martin Amis em certo filme inglês dos anos 1960, embora não fizesse ideia de que ele precisou ser dublado por uma menina (!). Mas a maioria foi novidade para mim. Tem coisas que só o Pop de Sexta faz por você. * Foi excelente a conversa do americano John Freeman, editor da “Granta”, com Paulo Roberto Pires, editor da…

Já entrou no Concurso de Microcontos? Ainda dá tempo!

Faltam 48 horas para o encerramento das inscrições no II Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, às 13h desta sexta. As micronarrativas inscritas – limitadas ao número máximo de três por autor – já são 345. O resultado será divulgado aqui na próxima segunda-feira, dia 16. Se você está tomando conhecimento do concurso agora, acesse o regulamento aqui. E boa sorte. * Por falar em concurso: parabéns aos vinte escritores brasileiros – ou novelists, “romancistas”, segundo a versão inglesa, embora nem todos o sejam – que integram a seleção da revista “Granta”, anunciada em Paraty. Não conheço todos os nomes, mas é evidente que há muito talento reunido ali, e escolhas são escolhas. No dia em que Deus lançar uma antologia em tabletes de pedra, talvez Suas opções sejam menos contestadas – não por serem indiscutíveis (“aposto que o Todo-Safado eliminou os ateus sem nem ler!”), mas devido à possibilidade de que raios fulminem os dissidentes antes que eles cliquem no botão de enviar. Enquanto isso não ocorre, temos que nos resignar com antologias falíveis e exibições dolorosas de ressentimento. Fazer o quê? Desde o lançamento trágico da “Grandpa” é assim. * A Flip consegue transformar a literatura em notícia,…

Flip 2012: o caso do gaúcho gauche
Vida literária / 09/07/2012

Será que a cena do poeta gaúcho Fabricio Carpinejar recitando entre berros, sussurros e gargalhadas de vilão de filme B o poema “Confidência do itabirano”, de Carlos Drummond de Andrade, enquanto caminhava entre as cadeiras no auditório da Tenda dos Autores, ficará na história como o momento mais explosivo e transgressor da Flip 2012, um evento de resto bem comportado e até morno (leia o balanço do blog vizinho Veja Meus Livros)? Ou será lembrada, a tal cena, apenas como um momento constrangedor, equivocado, desrespeitoso com o homenageado? Não é fácil escolher uma resposta. A favor da primeira existe o argumento de que só pode fazer bem à arte, inimiga do saber institucionalizado, o tratamento dessacralizante dispensado a um poeta tão consagrado que já virou estátua – e uma réplica da que mora na orla do Rio de Janeiro podia ser encontrada durante a Flip em frente à casa alugada pela Companhia das Letras em Paraty, sem dúvida a atração mais fotografada de todo o evento. O princípio modernista da iconoclastia justificaria assim a performance histriônica do gaúcho gauche, tão mais necessária quanto mais respeitosas e até solenes tiverem sido – como foram – as demais leituras de poemas drummondianos…

Stefan Zweig, Borges e Fernando Pessoa encerram a Flip
Vida literária / 08/07/2012

Por Raissa Pascoal Como já é tradição, a mesa de encerramento da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu alguns dos autores convidados do evento para a leitura de seus livros favoritos. “Essa mesa celebra a razão de ser da festa: a literatura”, disse Miguel Conde, que apresentou a sessão Livro de Cabeceira, mediada pela criadora do evento, Liz Calder. Entre os escritores lidos, estavam o austríaco Stefan Zweig, o argentino Jorge Luís Borges, a brasileira Lygia Fagundes Telles e o português Fernando Pessoa. Ao todo, nove convidados emprestaram a voz ao encerramento. Os primeiros a ler foram os francófonos Amin Maalouf, libanês, e Dany Laferrière, haitiano. Maalouf selecionou um texto de Zweig, autor de Brasil, País do Futuro, e Laferrière optou pelo pedaço de um conto do argentino Jorge Luís Borges, Funes, O Memorioso, sobre um rapaz com uma grande memória. “Há 30 anos, quando era um operário, entrei numa livraria e escolhi o livro mais elegante e livre da prateleira”, disse o escritor, lembrando seu encontro com o conto de Borges. Depois de Laferrière, a portuguesa Dulce Maria Cardoso leu um excerto do livro Os Passos em Volta, de seu conterrâneo Herberto Hélder. Nos contos…

Shteyngart e Kureishi: diversão e arte
Vida literária / 08/07/2012

Gary Shteyngart, americano nascido na Rússia, e Hanif Kureishi, inglês de ascendência paquistanesa, protagonizaram uma das mesas mais divertidas da história da Flip – mas nem por isso destituída de seriedade. Numa divisão um talvez grosseira – mas não muito – pode-se dizer que coube ao histriônico Shteyngart fazer o auditório gargalhar, com seu humor judaico autodepreciativo à la Woody Allen (com quem tem razoáveis semelhanças físicas), enquanto o irônico Kureishi levou a conversa para campos graves como a relevância da literatura – que ele defende com ênfase – no mundo contemporâneo. Autor de romances satíricos como “Absurdistão” e “Uma história de amor real e supertriste”, Shteyngart apresentou o último como uma história passada num “futuro em que uma América completamente iletrada está prestes a desmoronar. Ou seja, terça-feira que vem”. Como o livro satiriza a cultura digital e as redes sociais, acrescentou, teve que contratar um jovem para lhe ensinar a usar essas coisas. “Foi quando passei a ter um iPhone. É uma troca. Aprendi a usar o iPhone, mas nunca mais li um livro. Não leio há cinco anos.” Afirmando que terceiriza para escritores indianos a tarefa de escrever seus livros e recebe direitos autorais em queijo parmesão,…

Drummond em alta voltagem emocional
Vida literária / 08/07/2012

O depoimento em vídeo de um poeta que conviveu com Carlos Drummond de Andrade e um poema inédito de outro poeta, mais jovem, que o chamou de “uma espécie de Buda” foram dois dos pontos de maior voltagem emocional de toda a Flip 2012. Ambos se deram em rápida sequência hoje à tarde, na mesa “Drummond – o poeta presente”. O depoimento em vídeo foi de Armando Freitas Filho, autor de “Raro mar”. O poema inédito, de Carlito Azevedo, autor de “Monodrama”. O também poeta Eucanaã Ferraz completou a tarde em tom mais sóbrio – o que o contido Drummond certamente aprovaria. “Era um homem muito carinhoso, eu às vezes achava até que ele tinha pena de mim”, contou Armando. “ Aquela cara litográfica, limpa, limpa, parecia que tinha saído do banho. Aqueles olhos azuis, duas bolas de gude azuis. Era um homem muito simples, mas escrevia aquelas coisas extraordinárias… Ele escre via como quem faz a barba a seco, sem água, sem espuma e sem sabão… Escrevia com o próprio fígado, tirava dele, mas aquilo se transformava num discurso geral. Drummond não escrevia para ninguém mas escrevia para todos, isso era o que mais me impressionava, como ele conseguia…