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Engajamento versus panfletagem
Vida literária / 08/07/2012

Por Maria Carolina Maia A literatura social do carioca Rubens Figueiredo (do premiado Passageiro do Fim do Dia) e do sergipano Francisco J. C. Dantas (de Os Desvalidos) pautou a mesa A Imaginação Engajada, neste domingo, na Flip. Mas não só ela. Os escritores falaram da sua forma de retratar a realidade e fizeram o público rir contando causos e piadas. O falso tímido Dantas, 71, que debutou na literatura aos 50 com Coivara da Memória (Estação Liberdade), subiu ao palco com um calhamaço de anotações. Sua primeira fala foi tão prolixa e distante do tema proposto – ele agradeceu o convite da Flip e a boa hospedagem que vem recebendo em Paraty, para então relembrar episódios de viagens que fez – que o mediador pediu autorização para passar a palavra a Figueiredo. “Vamos ouvir agora Figueiredo, se o senhor deixar, é claro”, disse , o professor de literatura João Cezar de Castro Rocha, dando uma indireta a Dantas. “Uma vez, participei da Jornada Literária de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e achei lindo como todo dia, debaixo do travesseiro, a camareira da pousada onde me hospedei deixava um chocolatinho”, contava Dantas antes de ser interrompido por Castro…

Jackie Kay e Carpinejar: poesia, piadas e… orgasmo
Vida literária / 08/07/2012

Por Raissa Pascoal A poesia abriu o domingo frio e chuvoso em Paraty, onde termina hoje a 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mediada pelo jornalista João Paulo Cuenca, um dos 20 jovens autores do país selecionados entre os melhores da revista Granta, a mesa Vidas em Versos reuniu a escocesa Jackie Kay e o brasileiro Fabrício Carpinejar. Apesar de divertir o – agora já reduzido – público da tenda dos autores, a conversa não teve frescor literário. Entre leituras de textos seus, os autores falaram dos ecos entre sua vida e obra, contando histórias e piadas. Para explicar sua relação com o uso da voz, por exemplo, Carpinejar fingiu orgasmo para defender o recurso, que seria utilizado pelas mulheres para sinalizar prazer. “É uma pedagogia da sensibilidade.” O poeta gaúcho caiu no tema orgástico depois de Jackie Kay contar como presta atenção à voz e ao jeito de falar das pessoas. “Gosto de saber como as pessoas falam, sua sintaxe, a ordem das palavras. Uma vez que eu ouço a voz de um personagem, consigo criá-lo”, afirmou a escocesa. Carpinejar então disse que é filho do ouvido, porque cresceu com muito ruído em uma casa só de…

Angeli e Laerte, os novos, os velhos e os mesmos personagens
Vida literária / 07/07/2012

Por Maria Carolina Maia Coube aos brasileiros Angeli e Laerte a inserção de quadrinhos na programação da Flip, que nos anos anteriores recebeu os icônicos Robert Crumb e Gilbert Shelton (2010), de América e Freak Brothers, e Joe Sacco, do jornalístico Palestina (2011). Mas, ou por serem figuras bem conhecidas do público ou porque a mediação do jornalista Claudiney Ferreira deixou a desejar, o encontro de Laerte e Angeli não foi nenhuma surpresa para a plateia que encheu a tenda dos autores, junto ao centro histórico de Paraty. Exceto pela crítica de Angeli à comédia de tipo stand-up, que ele taxou de apelativa, para quem está habituado a ver entrevistas com os dois cartunistas a mesa-bônus na programação da festa, realizada a partir das 21h30 deste sábado, teve sabor de reprise. Os cartunistas falaram de seus velhos personagens, da necessidade que sentem de renovação do trabalho e de si mesmos – os mesmos personagens de sempre. Com um belo vestido colorido, Laerte contou mais uma vez como se percebeu transgênero. Foi a partir da publicação de uma tirinha com o personagem Hugo, que aparece travestido e dizendo, “Às vezes, um cara tem de se montar, ué”. “Eu me descobri transgênero. Eu tenho…

Lido, Enrique Vila-Matas é mais leve do que lendo
Vida literária / 07/07/2012

Uma emocionante homenagem ao recém-falecido escritor italiano Antonio Tabucchi em que é impossível demarcar com precisão a fronteira entre recordações verdadeiras e recordações inventadas; um breve ensaio poético de reverência aos radicais “escritores malogrados” que souberam diagnosticar e reagir a uma supostamente evidente ”morte da literatura”; e, por fim, um exame um tanto autocondescendente da própria obra em que seu último livro, “Ar de Dylan”, aparece como ápice. Na soma dos três passos, dos três textos lidos a partir de uma mesa no centro do palco, foi uma estranha atração – como não poderia deixar de ser, sendo Enrique Vila-Matas quem é – a que substituiu o desistente francês Le Clézio no horário nobre da Flip 2012, hoje à noite. Será verdade que o pequeno Vila-Matas, com apenas cinco anos de idade, foi vizinho de veraneio de um Tabucchi cinco anos mais velho, a quem dizia insistentemente que “os adultos são estúpidos”? Qualquer que seja a resposta, ela não tirará o brilho de uma frase como esta: “Um dia descobri que Tabucchi era a sombra de Fernando Pessoa e decidi me tornar a sombra de Tabucchi, para ser a sombra de uma sombra de uma sombra”. Da mesma forma, há…

Zoé Valdés, Laferriére e o sexo na literatura
Vida literária / 07/07/2012

Por Raissa Pascoal Exilados de suas terras natais por ditadores, o haitiano Dany Laferrière e a cubana Zoé Valdés foram buscar na literatura o veículo para dizer que a liberdade – negada em seus países e adquirida no exterior – é impagável. Liberdade não só na escrita – agora sem censura –, mas também nos temas utilizados, que chegam a politizar até o sexo, tratado como provocação histórica, no caso de Laferrière, e de força identitária, para Zoé. “Escrevi para dizer aos ditadores: ‘Pode ficar no seu palácio em Porto Príncipe, mas você nunca vai ter a liberdade de um jovem numa cidade aberta”, disse. O encontro dos dois aconteceu na mesa O Avesso da Pátria, mediada pela jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho. Há 30 anos, Laferrière escreveu o livro Como Fazer Amor com um Negro sem se Cansar, publicado agora no Brasil pela Editora 34. No romance, o escritor utiliza cenas de atos sexuais para denunciar o racismo – ele mostra que uma branca se permite entregar-se a um negro dentro de quatro paredes, mas em público jamais tomaria um café com ele. “Não existe cena de sexo no romance sem que haja um duelo de identidades cara a…

‘Em família’: sob o signo de Tolstoi
Vida literária / 07/07/2012

Todas as boas mesas se parecem; as ruins são ruins cada uma à sua maneira. A paródia da frase de abertura de “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi – citação mais batida da Flip 2012 – deixa pendente a tarefa de entender por que não funcionou a mesa “Em família”, que reuniu hoje à tarde Zuenir Ventura, João Anzanello Carrascoza e Dulce Maria Cardoso, com mediação do crítico João Cézar de Castro Rocha. Este não conseguiu se desincumbir da tarefa, certamente ingrata, de dar liga a um trio heterogêneo demais. Até Zuenir, jornalista consagrado que está estreando no romance com “Sagrada família”, ressentiu-se do pouco tempo propiciado pelo recurso – de falência atestada há anos – de dividir o palco entre três autores. Com a simpatia e o carisma de sempre, encaixou algumas boas tiradas – “família unida, sim; reunida, jamais!” – mas deixou a impressão de que faltou tempo para dar seu recado. Menos conhecidos do público, Carrascoza e Dulce tiveram problemas maiores. Prestigiado pela crítica, o contista que está lançando “Aquela água toda” tentou uma autodefinição: “Tematizo a vida miúda, o cotidiano, o contrário deste momento aqui. A vida não é feita de Flips”. A festejada autora portuguesa acaba…

McEwan e Egan: viva a manipulação do leitor!
Vida literária / 07/07/2012

O fato de ambos serem escritores profundamente “literários” que recentemente incursionaram pelo gênero do romance de espionagem foi apenas um dos muitos pontos de contato entre o inglês Ian McEwan e a americana Jennifer Egan na mesa que se encerrou agora há pouco. O escritor e jornalista Arthur Dapieve, mediador de uma conversa fluida e variada à qual não faltaram elogios mútuos, talvez tenha arriscado um pouco ao chamar os convidados de “dois dos maiores escritores de língua inglesa da atualidade”. Se este é um título que McEwan carrega com enorme tranquilidade, Egan, mesmo com o talento que desfilou com clareza quase obscena no excelente “A visita cruel do tempo”, premiado com o Pulitzer, ainda parece precisar de mais estrada para confirmar o superlativo. O romance que Ian McEwan está lançando em primeira mão na Flip, “Serena”, é uma história de espionagem que, como todas do gênero, tem reviravoltas surpreendentes – inclusive uma, a mais decisiva, relativa à identidade do narrador, que o leitor descobre na última linha. Depois de, surpreendentemente, entregar essa surpresa de bandeja no palco da Flip logo no início da conversa, o escritor disse esperar ver surgir no Brasil, “agora que o país está virando uma…

Mediação prejudica debate de Suketu Mehta e DaMatta
Vida literária / 07/07/2012

Por Raissa Pascoal A mesa Cidade e Democracia abriu o quarto dia da Flip com uma discussão longa, com pontos interessantes, mas que perdeu em dinâmica e conteúdo pela falta de habilidade do mediador Guilherme Wisnik na condução da discussão entre o escritor indiano Suketu Mehta e o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta. A partir do livro Bombaim: Cidade Máxima, de Mehta, lançado no país pela Companhia das Letras em 2011, a conversa abordou pontos como o nascimento das grandes metrópoles, suas transformações e as semelhanças entre as favelas do Rio de Janeiro e de Bombaim, hoje chamada de Mumbai. Apesar de promissores, alguns tópicos deixaram de ser desenvolvidos a contento, e o mediador, que poderia incitar os autores a falar, não o fez. Durante uma hora e 20 minutos, tempo que durou a mesa, Wisnik só lançou três perguntas aos convidados. Em lugar de promover um debate, ele deu espaço para que Mehta e DaMatta falassem longamente e sem destino – a conversa não tinha um norte. Parte do tempo também foi destinado à apresentação de músicas sobre grandes metrópoles, como a canção This is Bombay, My Love, da Bollywood da década de 1950, e New York, New York, clássico na voz de Frank Sinatra….

Franzen, o esquisitão sincero
Vida literária / 06/07/2012

O escritor americano Jonathan Franzen, uma das principais estrelas da Flip 2012, divertiu e intrigou o público em igual medida na mesa encerrada agora há pouco. Com uma mistura peculiar de respostas espirituosas, piadinhas sem graça, longos silêncios aparentemente dedicados à reflexão antes de emitir um simples sim ou não, tudo isso somado a um profundo desajeitamento corporal de nerd de anedota, Franzen conversou com o mediador Angel Gurría-Quintana e respondeu também às perguntas do público. Soou sincero, apesar de parecer caprichar na pose de esquisitão, ao admitir, por exemplo, que vivia com seu amigo David Foster Wallace uma relação extremamente competitiva. Mas deixou claro que nada o empolgou tanto em sua visita ao Brasil quanto o fato de ter observado pássaros. O elogio que fez à região de Paraty por sua riqueza ornitológica foi o momento mais empolgado da noite. Abaixo, uma seleção de suas falas propriamente literárias (as perguntas vão resumidas). Todas as famílias felizes se parecem, como disse Tolstoi? “Tolstoi estava dizendo algo bastante óbvio, que se está tudo certo com uma pessoa, por que você leria sobre elas? Nós exageramos tudo. Para uma pessoa que escreve romances, a vida comum não é interessante o suficiente. Você…

Adonis: Obama é uma máscara negra num rosto branco
Vida literária / 06/07/2012

Por Maria Carolina Maia A política voltou ao palco principal da Flip na noite desta sexta-feira, na mesa Literatura e liberdade, que reuniu os poetas árabes Amin Maalouf (do livro O Mundo em Desajuste, publicado pela Difel) e Adonis (que acaba de ter um primeiro livro, a seleta Poemas, lançado no Brasil pela Companhia das Letras). De gerações diferentes, Adonis, 82, e Maalouf, 63, falaram da situação dos países que passam pela chamada Primavera Árabe e da relação entre árabes e americanos. Para os dois poetas, embora em menor grau para o otimista Maalouf, o governo de Barack Obama foi uma decepção. “Obama é uma máscara negra sobre um rosto branco”, disse Adonis, pseudônimo de Ali Ahmad Said Esber. Sobre a chamada Primavera Árabe, o poeta sírio hoje radicado em Paris foi taxativo. “É apenas a troca de um fascismo militar por um fascismo religioso”, disse, sem esperanças de renovação. Segundo Adonis, para haver uma revolução de fato nos países árabes é preciso laicizar a sociedade e  libertar as mulheres do jugo do Islã. “Não podemos defender nenhum regime árabe”, afirmou Adonis. “Precisamos nos perguntar o que vamos fazer depois que esse movimento acabar. Se a mulher não tiver liberdade,…

Do ódio a Bush ao amor a Nova York
Vida literária / 06/07/2012

“Os anos Bush foram puro horror.” As declarações políticas do nigeriano-americano Teju Cole, autor do romance “Cidade aberta”, elevaram um pouco a temperatura da mesa “Exílio e flânerie”, que ele dividiu hoje à tarde com a argentina-brasileira Paloma Vidal, autora de “Algum lugar”. Numa conversa de resto morna, baseada no fato de ambos serem desterrados e condenados a uma certa estrangeirice crônica onde quer que estejam, o talentoso Cole – que nasceu nos EUA de pais nigerianos, mudou-se para a Nigéria ainda bebê e só retornou a seu país natal aos 17 anos – foi enfático: “Se você se opunha a Bush, se era contra os planos de guerra, podia ser perseguido nos EUA. Acabava tendo que carregar esse peso secretamente. Eu tive úlcera por causa da invasão do Iraque. A década depois do 11 de setembro foi um grande fracasso para os EUA. Mostrou que, diante de um desafio realmente sério, nós nos comportamos como tolos e descontamos nos outros, em gente que nada tem a ver com isso. Foi uma fase horrível e ainda não terminou por completo”, afirmou. Sobre o desterro, disse Cole: “Há algo que parece natural, decidido talvez no céu, no fato de carne de…

Nas lacunas, a genialidade de Shakespeare
Vida literária / 06/07/2012

Por Maria Carolina Maia Numa mesa rara na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um finado autor brasileiro deu lugar a um finado estrangeiro. Shakespeare, que como bem lembrou o mediador Cassiano Elek Machado é um dos maiores, se não o maior escritor de todos os tempos, foi teve sua genialidade reconstruída pelos especialistas Stephen Greenblatt (de Como Shakespeare se tornou Shakespeare e do novo A Virada, ambos publicados no país pela Companhia das Letras) e James Shapiro (1599: Um Ano na Vida de William Shakespeare, lançado pela Planeta, e Quem Escreveu Shakespeare?, da Nossa Cultura). Para ambos, a força de Shakespeare se deve às lacunas que ele criou em suas obras. Homem da virada do século XVI para o XVII, Shakespeare (1564-1616) atuou num período em que o teatro era quase tão artesanal quanto o oficio de seu pai, um homem que fazia luvas no interior da Inglaterra. Trabalhou sobre o palco, como ator, e por trás dele, escrevendo peças quase sempre baseadas em enredos já existentes. O seu segredo, o que o tornava tão especial e popular, era, como chamou Greenblatt, o tipo de “reciclagem”que fazia dos textos dos outros. Ou, mais exatamente, o que ele sacava desses…

Espírito de Drummond baixa na Tenda dos Autores
Vida literária / 06/07/2012

Ambos poetas, críticos e professores de literatura com décadas de reflexão sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin protagonizaram há pouco um dos melhores momentos da Flip 2012, na mesa “Drummond, o poeta moderno”. Cada um partiu da leitura detida e apaixonada de um poema – “O elefante”, no caso de Villaça, e “Áporo”, no de Secchin – para iluminar aspectos da obra do autor homenageado. Curiosamente, os dois poemas pertencem ao livro “A rosa do povo” (1945), da fase politicamente engajada do poeta, o mesmo em que Antonio Cícero foi buscar “A flor e a náusea”, que leu e comentou na conferência de abertura, quarta à noite. Encarregado da mediação da conversa de hoje, o ex-curador da festa Flavio Moura apontou essa coincidência aos dois debatedores, que no entanto não confirmaram a tese de uma suposta centralidade do título na obra drummondiana. Secchin, porém, observou que a costumeira leitura de “A rosa do povo”como um livro simplesmente “político” deixa de levar em conta que Drummond, mesmo tendo se aproximado do Partido Comunista, permaneceu um poeta complexo que cultivava, “ao lado da rosa pública, outras flores íntimas em seu jardim secreto”. Em suas…

Gabeira: Dilma tem relação autoritária com o Congresso
Vida literária / 05/07/2012

Por Raissa Pascoal Era de se esperar que uma mesa intitulada Autoritarismo, Presente e Passado, com mediação do jornalista Zuenir Ventura e a participação do ex-deputado federal Fernando Gabeira e do ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro Luiz Eduardo Soares, fosse mais política que literária. E assim foi. Sem decepcionar expectativas, a mesa de Soares e Gabeira passeou pela história política do Brasil, tratando da tradição autoritária brasileira, que, para o político do PV, chega até o governo atual de Dilma Rousseff. VEJA Meus Livros: Jonathan Franzen é uma gracinha “A relação da presidente Dilma com o Congresso Nacional é um pouco de distância. Não porque o despreze, mas porque os marqueteiros disseram que era importante afastar a sua imagem da imagem dos congressistas. Hoje, você não vê projetos do governo ou a presidente chamando congressistas para convencê-los de uma ideia. O Congresso passou a ser carimbador e, nesse sentido, a relação é autoritária. Ela não fala com o Congresso nem com os partidos, mas direto com a população a partir de uma técnica marqueteira”, disse Gabeira. Ainda falando de autoritarismo, Soares e Gabeira apresentaram seus comentários sobre a Comissão da Verdade, instalada pela presidente no início do…

Cercas e Vásquez: história, histórias
Vida literária / 05/07/2012

Na mesa “Ficção e história”, no fim da tarde de hoje, na Tenda dos Autores, o espanhol Javier Cercas e o colombiano Juan Gabriel Vásquez, dois escritores com muito em comum, travaram uma conversa cordial em que sobressaiu uma determinação de concórdia, evidentemente fundada numa camaradagem já estabelecida (“na Austrália, aquela vez, dissemos que…”, mandou Cercas a certa altura). Ainda assim, foi curioso observar como, sob a superfície, algumas tensões estéticas acabaram por transparecer entre dois cultores do romance histórico. Vásquez, um sucesso de crítica desde sua estreia, com o romance “Os informantes”, é autor ainda de “História secreta de Costaguana” (ambos lançados no Brasil pela L&PM), e ganhou ano passado o prêmio Alfaguara com o ainda inédito por aqui El ruido de las cosas ao caer. Uma das vozes emergentes mais destacadas da literatura contemporânea em espanhol, afirmou, concordando com Milan Kundera, que “a única razão para escrever um romance é dizer algo que só um romance pode dizer. O romance como gênero não reproduz o mundo, deve recriar o mundo. O romancista pode distorcer os fatos conhecidos para chegar a uma outra verdade, uma verdade metafórica”, disse, lembrando que em “História secreta de Costaguana”, que recria a história…

Vila-Matas e Zambra: sobre livros sobre livros
Vida literária / 05/07/2012

Livros que falam de livros foram o tema da conversa entre o espanhol Enrique Vila-Matas e o chileno Alejandro Zambra, no meio da tarde de hoje, na mesa “Apenas literatura”. Isso tornou simpática, ainda que pouco surpreendente, a conversa entre dois autores que de resto têm diferenças significativas – inclusive de maturidade e prestígio, com Vila-Matas, nascido em 1948, representando o papel de autor solidamente estabelecido e Zambra, que é de 1975, o de jovem revelação. Vila-Matas, que está lançando pela Cosac Naify, sua editora habitual, o romance “Ar de Dylan”, provocou risos discretos ao dizer que a cena inicial do livro, embora poucos acreditem, foi inspirada numa história real ocorrida com ele. “Eu estava quieto na minha casa e recebi um convite para uma conferência na Suíça. Era uma conferência sobre o fracasso. Isso me surpreendeu bastante. Contei para alguns amigos, e todos ficaram com pena de mim. A verdade é que nunca fui ao congresso, porque tinha outro compromisso”, afirmou. Mas o episódio serviu de pontapé inicial para mais um romance metalinguístico, lúdico e irônico do autor de “O mal de Montano”. Zambra começou por fazer um esforço tocante para ler em português – “língua que desconheço amplamente”,…

A morte como musa inspiradora
Vida literária / 05/07/2012

Por Maria Carolina Maia A nova literatura brasileira, que aliás ganha uma edição especial da revista literária Granta nesta quinta-feira, marcou a primeira mesa da 10ª Flip. A nova literatura brasileira e a morte. O goiano André de Leones, o gaúcho Altair Martins e o mineiro Carlos de Brito e Mello se runiram no palco principal da festa em Paraty para falar da presença da finitude em seus livros. “Em A Passagem Tensa dos Corpos, eu parti da ideia de que, quando uma morte acontece, se inicia uma narrativa”, disse Brito e Mello, o último a falar e, apesar do carisma geral, um dos mais interessantes da mesa, que foi mediada pelo professor de literatura João Cezar de Castro Rocha. “Quando escrevia, eu lembrei da minha experiência de criança na casa dos meus avós em Visconde do Rio Branco, interior de Minas Gerais, onde a família se reunia aos fins de semana, especialmente na cozinha. Nessa cidade, os óbitos eram comunicados por um carro de som, na rua. Quando o carro anunciava um nome, todos na cozinha começavam a contar coisas da vida da pessoa, que então virava um personagem.” Brito e Mello, que teve o romance A Passagem Tensa…