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Escrever um romance é…
Sobrescritos / 26/09/2011

Escrever um romance é como fazer uma cadeira. Você projeta, serra, prega, depois senta para experimentar e, se não desabar, é um romance. Aí lixa, pinta, enverniza o quanto quiser, ou não, deixa tudo tosco, não importa porque, se a cadeira não desabou, já é um romance. Não, escrever um romance não tem nada a ver com marcenaria, está mais para alquimia. Você mistura os líquidos e fica esperando a explosão, que, aliás, raramente vem. Depois bota numa garrafa e cola um rótulo com duas orelhas e diz: “Escrevi um romance”. Não é nada disso, caramba. Escrever um romance é só um gesto de suprema vaidade, um desafio lançado ao tempo por um mortal patético que não se conforma em desaparecer tão misteriosamente quanto apareceu e faz questão de deixar na parede da caverna uma mensagem para os arqueólogos de um futuro que nunca chegará. Engraçado, para mim é diferente. Escrever um romance é uma das três coisas que todo mundo precisa fazer na vida, junto com plantar uma árvore e ter um filho, simples assim. E agora parece que todo mundo está levando isso a sério mesmo, nem tanto a parte do filho, mas certamente a da árvore e…

O vencedor do I Concurso de Resenhas: sobre ‘Zilanda’
Resenha / 23/09/2011

Um texto sobre o romance “Esperando Zilanda” ([e] editorial, 2010), bom livro de estreia da escritora carioca Tamara Sender, garantiu a Felipe Charbel o primeiro lugar no I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. Experiente no ramo, Charbel produziu uma apreciação crítica lapidar em que descrição, interpretação, referências a outras obras e texto apurado se fundem com enganosa facilidade. Para seguir à risca a receita da boa resenha segundo John Updike, só faltou citar um trecho mais encorpado da obra, a fim de que o leitor pudesse julgar por si mesmo o estilo do autor – regrinha que, naturalmente, não é obrigatória e que raros concorrentes seguiram. Em suas próprias palavras, Charbel “é professor adjunto de Teoria da História na UFRJ e autor do livro ‘Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini’ (Editora da Unicamp, 2010). Foi jurado da Copa de Literatura Brasileira em 2008 e 2009”. O primeiro colocado ganha um pacote com os seguintes livros: “Mecanismos internos”, de J.M. Coetzee; “O mal de Montano”, de Enrique Vila-Matas; e “Sobrescritos”, de Sérgio Rodrigues. O segundo lugar leva “Borges oral & sete noites”, de Jorge Luis Borges, e “Se um de nós dois morrer”, de Paulo…

I Concurso de Resenhas: sobre ‘Mãos de Cavalo’
Resenha / 21/09/2011

Com um texto sobre o romance “Mãos de Cavalo”, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2006), Leonardo Petersen Lamha ficou com a segunda posição no I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. A sacada do personagem “em dúvida sobre seu próprio arco dramático” me parece uma contribuição relevante à leitura desse livro já tão comentado. Em suas próprias palavras, Lamha “tem 23 anos, cursa o último período de Comunicação Social com habilitação em Cinema na PUC-Rio. Está se especializando em Roteiro Cinematográfico e estuda literatura paralelamente à faculdade, mas é antes de tudo um leitor”. A resenha vencedora será publicada na sexta-feira. A GLÓRIA DE UM COVARDE, de Leonardo Petersen Lamha “Mãos de Cavalo”, de Daniel Galera, abre com um capítulo que pode ser lido como um mito fundador das futuras obsessões do personagem, quando adolescente e adulto, e estabelece alguns temas que serão recorrentes, tais como como o corpo levado ao limite, a violência física, o exercício físico como fuga, frustração, vergonha e autoconsciência: um garoto (Hermano) de dez anos, espetacularmente pedalando pelas ruas, leva um tombo e vê pela primeira vez o seu sangue escorrendo. O livro intercala duas tramas que contam duas fases distintas da…

I Concurso de Resenhas: sobre ‘Traduzindo Hannah’
Resenha / 19/09/2011

Publico hoje o primeiro dos textos vencedores do I Concurso Todoprosa de Resenhas – Brasil, século 21. Terceira colocada na disputa, a resenha assinada por Gilda Oswaldo Cruz chegou de Lisboa e discorre de modo competente – ainda que em tom mais descritivo que analítico – sobre o romance “Traduzindo Hannah”, de Ronaldo Wrobel, lançado ano passado pela editora Record. O segundo colocado será publicado na quarta-feira e o primeiro, na sexta. Em suas próprias palavras, Gilda “é pianista e escritora. Reside na Europa desde 1984 e dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros em Barcelona. Tem CDs dedicados à música de Claudio Santoro (Biscoito Fino) e publicou em 2010 o romance ‘Na sombra do herói’ (Topbooks)”. TRADUZINDO A CONDIÇÃO JUDAICA, de Gilda Oswaldo Cruz Ambientado no período da violenta repressão da ditadura de Vargas aos comunistas no Rio de Janeiro, de meados da década de 30 até o fim da guerra em 1945, este é um romance de formação que reconstitui, com humor agridoce e uma rara verve narrativa, a vida, os costumes e as vicissitudes de integrantes da pequena colônia judaica carioca instalada nos arredores da extinta Praça Onze, no centro da cidade. Quem leu “Olga”, de Fernando Morais,…

Uma manhã na vida do poeta
Sobrescritos / 16/09/2011

O poeta faz a barba, contente. O espelho lhe devolve isso: o poeta faz a barba. E acordou contente. Se o poeta se enxergasse, se tivesse um espelho de mínima fidelidade diante de si, talvez não estivesse tão contente. O poeta é barrigudo, preguiçoso, solteirão, duro, meio dependente da mãe, bebe demais, fuma maconha demais, precisa tratar dos dentes. Além disso é dado a surtos de mau humor que, ao longo dos anos, já lhe custaram muitas e queridas amizades. Só que o poeta não enxerga nada disso. O que o seu espelho lhe devolve é um poeta. De barba feita. Desce para a rua e, na primeira esquina, o mendigo de todo dia lhe pede esmola. O poeta, como todo dia, finge que não ouve. Vê o primeiro carrinho de bebê a simbolizar a criação, tão harmônico com as manhãs. No sinal vermelho de pedestre aguarda civilizado, mas pensa: e se uma bomba de nêutrons explodisse agora, simbolizando a morte, o fim? Tenta compor versos por livre associação. Bomba de nêutrons meio da manhã. Seios de Neuza rebentar de frutas. Nem bênção memória de lesmas restantes. Distraído, quem será essa Neuza?, o poeta demora a perceber que o sinal…

Uma tarde na vida do crítico
Sobrescritos / 14/09/2011

Dagoberto Castro de Menezes fechou seu Ovídio magro ricamente encadernado e o pousou na banqueta Joaquim Tenreiro ao lado da Bergère, de onde tomou da xícara fumegante de Darjeeling e de um Agamben que lia com apetite cada vez mais magalizesco, para citar Maurício. Leu concentradamente por quarenta e oito minutos. De repente pôs o livro de lado e pulou da poltrona pensando no homo sacer. A tarde envelhecia. Puxou uma cordinha. Um minuto depois, quando o mordomo apareceu, comandou a carruagem para as seis em ponto. O recital seria às oito e meia, queria jantar antes. A hora e tal que lhe restava ao ócio Dagoberto, ou Castro de Menezes, como ele preferia, a empregou em seu passatempo predileto, pequena extravagância que um dia, em momento de exasperação, tivera a fortuna de criativamente improvisar: dar de comer à lareira sólidos toros de literatura brasileira contemporânea. Deitados lânguidos ao fogo, os livros iam mudando de estado no mundo da matéria num belo espetáculo de chamas coloridas, e Dagoberto Castro de Menezes (usemos o nome todo, para evitar confusão) se deu conta de que aquilo era puro homo sacer, sim, claro! Ficou feliz com a ideia, era isso mesmo: a literatura…

Uma indelicada troca de letras e outros links
Pelo mundo / 12/09/2011

Peço desculpas a todo mundo que comprou meu ebook “Baby, I’m yours” e leu na página 293: “Ele se retesou por um instante, mas então ela sentiu seus músculos ficando mais relaxados, e ele cagou no chão”. Susan Andersen, autora americana de romances românticos conhecida por adicionar pitadas de pimenta na massa açucarada, foi obrigada a esclarecer que não, seu herói não precisa de fralda geriátrica e de modo algum lhe passaria pela cabeça ser tão deselegante com a mocinha. Andersen avisa que não escreveu “cagou” (shitted) e sim “mudou de posição” (shifted). Mudou de posição (shifted), ele MUDOU DE POSIÇÃO (SHIFTED)! Com sorte, isso talvez esteja só na versão em iBook que eu comprei, mas se estiver na sua também, por favor, me avise. Já entrei em contato com a editora para implorar que o problema seja corrigido imediatamente. Tarde demais para nós… pelo amor de Deus. Alison Flood, do “Guardian”, chamou essa troca de um f por um t de “melhor erro de edição de todos os tempos”. Perde na tradução, uma pena, mas é no mínimo candidato ao título. A preparação da frase escrita por Andersen (retesou-se, relaxou) é perfeita. O site Smart Bitches Trashy Books preferiu…

O 11 de setembro na literatura: dez anos, dez livros
Pelo mundo / 09/09/2011

Na literatura – sobretudo a americana, mas não apenas nela – o principal efeito da queda das Torres Gêmeas, que completa dez anos neste domingo, foi o surgimento de um novo subgênero, chamado em inglês de 9/11 novel, “romance do 11 de setembro”. Agrupar no escaninho de um subgênero as muitas obras de ficção que tentaram dar conta do impacto psicossocial “extremamente alto” do atentado (para citar o título de Jonathan Safran Foer que ajudou a engordar essa leva) tem um risco: o de mascarar sua razoável variedade de forma e conteúdo. Como fenômeno mercadológico, porém, o termo se aplica. Autores consagrados como John Updike, Don DeLillo, Ian McEwan, Art Spiegelman, Paul Auster e Martin Amis se atracaram com o tema, como se deixar o fato sem uma resposta imediata representasse uma nova derrota, desta vez artística. Curiosamente, os primeiros momentos após a tragédia passavam longe de anunciar tanto apetite. O inglês Amis chegou a dizer que “depois de algumas horas diante de suas escrivaninhas, no dia 12 de setembro de 2001, todos os escritores do mundo estavam considerando relutantemente mudar de profissão”. Havia uma sensação pós-traumática de que as palavras tinham perdido o sentido. Com seu conto “Os últimos…

Musas literárias, o tamanho de DFW e outros links
Pelo mundo / 07/09/2011

Diversão de feriado: uma curiosa lista de dez musas da literatura em todos os tempos, feita pelo blog coletivo “Mais 1 Livro”. Espera aí, Mayra Dias Gomes está dentro e a jovem Lygia Fagundes Telles (foto), fora?! Será que estamos nos entendendo sobre o significado da palavra “musa” – ou, por falar nisso, da palavra “literatura”? Pois é. Como ocorre com todas as listas do gênero, a melhor parte da diversão é discordar. * Três anos após se suicidar, no dia 12 de setembro de 2008, o escritor americano David Foster Wallace ainda dá trabalho à posteridade, que não consegue se decidir sobre o seu tamanho real. A última voz de peso a dizer que ele não é tão grande assim – ecoada por Maude Newton no “New York Times” – foi a do inglês Geoff Dyer, que, como DFW, transita entre a ficção e o ensaio jornalístico. Dyer mirou justamente nos ensaios de Wallace, afirmando que “tem surtos de alergia mental” quando é obrigado a lê-los: “Não é que eu não goste da extravagância, do excesso, do barroco de colegial, da incrível verborragia. Eles simplesmente me deixam todo empolado”. Da minha parte, acho que Dyer devia tomar um Fenergan….

Mais Gonçalo: ‘Não aceito a separação entre literatura e vida’

No sábado, publiquei aqui no blog vizinho VEJA Meus Livros o resultado de uma ótima conversa, entre expressos e capuccinos, com o escritor português (nascido em Angola) Gonçalo M. Tavares, que veio ao Rio para participar da Bienal do Livro. O festejado escritor de 41 anos, para quem José Saramago vaticinou o Prêmio Nobel, discorre sobre seu peculiar método de trabalho e sua produtividade quase insultuosa, além de falar com simpatia sobre a literatura brasileira contemporânea e o uso que aqui fazemos do português – língua que acredita fadada a brilhar internacionalmente no futuro próximo. A quem ainda não leu a entrevista, recomendo dar um pulo lá. De bônus, seguem três respostas que ficaram fora da edição final: Você começou a escrever copiosamente – “obsessivamente”, como diz – muito cedo. Drummond tem uma frase boa sobre o que a escrita tem de renúncia: “Escrever impede a conjugação de tantos outros verbos”. Essa renúncia o incomoda? – A frase é boa, mas a escrita não é uma coisa fora da vida. Nós não saímos da vida para escrever e depois voltamos. Alguns dos momentos mais extraordinários que eu tive têm a ver com a escrita. Não aceito a separação entre o…

Thalita Rebouças: ‘Corram atrás dos leitores’

O mantra de que poucos leitores brasileiros estão interessados na ficção escrita hoje no país, entoado por escritores e críticos, só se sustenta por meio do artifício de excluir do campo da ficção nacional o maior fenômeno de popularidade do século 21. Sim, faz tempo que nossas listas de best-sellers viraram terra estrangeira, mas dificilmente alguma estrela internacional arrastará tanta gente à Bienal do Livro do Rio, que ocupa até dia 11 o Riocentro, quanto a escritora carioca Thalita Rebouças. Aos 36 anos, Thalita atingiu este ano a marca de 1 milhão de exemplares vendidos ao longo de dez anos de carreira, uma montanha de livros erguida com onze títulos voltados para um público-alvo muito preciso: adolescentes e pré-adolescentes do sexo feminino. “Para mim leitor é leitor, pode ter 8, 13, 20, 30 ou 60 anos”, diz ela. Numa divertida entrevista deste ano a Jô Soares, Thalita lembrou a Bienal de 2001, quando subiu numa cadeira para apregoar aos passantes perplexos as qualidades de seu primeiro livro, “Traição entre amigas”. Em artigo publicado ontem no blog da Companhia das Letras, o editor Luiz Schwarcz poderia estar falando dela quando diz: “Se hoje sabemos que não é correto julgar as pessoas…

Bienal: três bons motivos para ir ao hipermercado do livro
Mercado / 31/08/2011

Evento da indústria editorial, a 15ª Bienal do Rio, que ocupa de amanhã ao dia 11 de setembro uma área de 55 mil metros quadrados no Riocentro, não é exatamente uma feira literária – não no sentido estrito desta palavra. É uma feira do livro, o que faz tanta diferença que explica o aparente paradoxo do sucesso de massa do evento num país com três quartos da população em situação de analfabetismo funcional e que carrega o modesto índice de leitura de 4,7 livros anuais per capita, aí incluídas obras didáticas e técnicas. Se a Flip é uma delicatessen, a Bienal é um hipermercado. Em Paraty, embalados em certa aura de alta cultura, poucos milhares de leitores vão ver e ouvir autores que só muito raramente dão as caras nas listas de best-sellers. No Riocentro, grandes vendedores de livros e até personalidades de outras praias atraem uma multidão prevista em 640 mil pessoas a uma festa que cresceu quinze vezes em público e 40 vezes em área em menos de trinta anos – não por acaso, o mesmo período em que explodiu no Brasil e no mundo a chamada cultura da celebridade. Na Flip, o ator Marcello Antony seria um…

Literatura e universidade, a história de um divórcio
Pelo mundo / 29/08/2011

A propósito do lançamento do tijolão The Cambridge history of the American novel, produto de um coletivo de acadêmicos, o crítico Joseph Epstein publicou sábado no “Wall Street Journal” o mais devastador artigo (em inglês, acesso gratuito) que já li sobre o progressivo afastamento entre os estudos literários feitos no âmbito da universidade e tudo aquilo que na vida real faz da literatura, literatura. “Só o que ficou fora do livro”, diz Epstein com ironia, “foram questões como a de por que é importante e mesmo prazeroso ler romances e como acontece de certos romances serem imensamente superiores aos outros.” Basta abstrair as referências à realidade americana para ter um retrato mais ou menos fiel do que se passa no Brasil e, presumo, em muitos outros países. Para leituras complementares, recomendo dois textos que publiquei aqui no Todoprosa: A crítica de mal com a literatura e Quer odiar literatura? Estude Letras. Tenho certeza que um dia nós – ou nossos descendentes – vamos rir disso tudo. Mas será preciso esperar tanto? Abaixo, alguns trechos do artigo de Epstein: É improvável que a maioria dos leitores já tenha ouvido falar dos autores que colaboram em “The Cambridge history of the American…

‘O fim do livro’ já cansou. Que tal ‘o fim do escritor’?
Mercado / 26/08/2011

O escritor escocês Ewan Morrison provocou um barulho considerável no Festival de Livros de Edimburgo, há poucos dias, com uma palestra (transcrição resumida do “Guardian”, em inglês) tão fundamentada quanto apocalíptica em que, além de dar razão a quem prevê para o futuro próximo o fim do livro de papel (para o qual estima uma sobrevida de apenas uma geração), pinta um cenário em que o próprio ofício de escritor como o conhecemos deixará de existir: Os e-books, no futuro, serão escritos por principiantes, por equipes, por entusiastas de suas respectivas especialidades e por autores já estabelecidos na era do livro de papel. A revolução digital não emancipará os escritoires nem abrirá uma nova era de criatividade: vai levá-los a ofertar seu trabalho em troca de muito pouco ou de nada. A literatura, como profissão, terá deixado de existir. A futurologia é uma disciplina traiçoeira, mas Morrison não é propriamente um maluco que sobe no caixote para pregar o fim do mundo. Apresenta-se munido de todas aquelas tendências estatísticas já bastante conhecidas que apontam para a progressiva perda de valor do conteúdo na era digital (rumo à gratuidade absoluta?) e para o crescimento aparentemente irresistível da pirataria. Registra a decadência…

Canudos não fica na Amazônia e outros links
Pelo mundo / 24/08/2011

Aí não, Babelia! A última edição do bom caderno literário do jornal espanhol “El País” trouxe na capa, com a assinatura de William Ospina, um abrangente apanhado da literatura produzida na região amazônica, “O grande rio dos mitos”, a pretexto dos quinhentos anos de Francisco de Orellana, “descobridor” do rio. O problema é que o texto é abrangente demais: inclui entre os expoentes da literatura amazônica “Os sertões”, de Euclides da Cunha, o clássico brasileiro sobre a guerra de Canudos – que, como se sabe, fica na Bahia. * Desde o surto de suicídios deflagrado pelo sucesso de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, não se via uma epidemia romântica de fundo literário como essa: casais de namorados escrevem seus nomes em cadeados, prendem-nos nas pontes de Veneza e atiram as chaves na água. Inspirada num livro do escritor italiano Federico Moccia, a gracinha virou febre e vem sendo reprimida pelas autoridades, que temem danos ao patrimônio histórico. O jornal “La Repubblica” cobrou em editorial multa de 3 mil euros e um ano de prisão para a turma do “cadeado do amor”. Reportagem completa do “Guardian”, em inglês, aqui. * A revista “Banipal”, em inglês, lançou este ano uma…

‘O senhor do lado esquerdo’: por uma mitologia carioca
Resenha / 22/08/2011

O típico romance brasileiro contemporâneo não quer saber do passado, seja em forma de história ou de mito. Para ele o passado perdeu substância e virou uma obsolescência de mau gosto, museu da irrepresentabilidade da experiência humana. À parte uma óbvia diversidade – apregoada em excesso, a meu ver – qual é o narrador típico da ficção brasileira dos últimos vinte anos? Eu diria que é o sujeito solitário e cético que se vê lançado num mundo de referências – morais, sexuais, políticas, religiosas, familiares, profissionais – que considera fajutas, esvaziadas, fantasmagóricas, quando não violentas e absurdas. Menos agente da realidade do que seu paciente crítico, bartlebyano, esse narrador às vezes é abúlico, às vezes agitado, mas sempre tão atordoado quanto o leitor. Habita uma espécie dolorida de presente: aquele em que a quebra das molduras fornecidas pelo passado e a inação que isso induz tornam o futuro aleatório, portanto imprevisível, mas de toda forma gratuito e vão. Esse “narrador típico” – uma abstração generalista, claro – é descendente direto de Albert Camus e Samuel Beckett, via Rubem Fonseca e João Gilberto Noll. Foi antecipado por Cyro dos Anjos, mas não sabe disso. Também tem suas dívidas com o noir,…

Uma baleia chamada Melville e outras bizarrices
Vida literária / 19/08/2011

Uma baleia – aliás extinta – batizada Livyatan melvillei (o bicho maior aí ao lado) em homenagem a Herman Melville, autor de “Moby Dick”, parece algo bastante lógico, não? Mas o que tem Leon Tolstoi a ver com a cratera de Mercúrio que leva o seu nome? O mesmo que figuras tão díspares quanto Homero, Cervantes, Shakespeare, Balzac, Rimbaud, Proust, Neruda e Calvino (o Italo, ele mesmo), entre muitos outros escritores, todos homenageados em algum buraco daquele pequeno planeta que dizem ser mais quente que Manaus. Véspera de fim de semana, não poderia haver leitura literária mais amena do que este post (em inglês) do “PWxyz”, blog do Publishers Weekly, sobre escritores que dão nome a coisas bizarras. Coisas bizarras como a síndrome de Stendhal, fenômeno psiquiátrico caracterizado por uma série de sintomas físicos e emocionais (palpitações, agitação, desorientação espacial e temporal, sudorese) provocados pela exposição à beleza de grandes obras de arte. A síndrome, que me parece longe de ser das piores que existem, ganhou esse nome porque coube ao autor de “O vermelho e o negro” a mais famosa descrição de um desses episódios, em visita a Florença em 1817. Quebrei a cabeça por algum tempo tentando encontrar…