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Literatura: como proteger seu filho dessa droga
Sobrescritos / 17/08/2011

Prezada senhora, Obrigado por sua consulta. Nossa experiência de reabilitação de centenas de pacientes, quase todos afligidos por sintomas idênticos aos que a senhora descreve em seu e-mail, nos permite assegurar que seu filho estará inteiramente curado em apenas uma semana, caso a senhora opte por contratar nossos inovadores serviços. Na jornada rumo à meta de todos os pais dignos desse nome, uma vida saudável e produtiva para seus filhos, a senhora já deu o passo mais importante: identificar o problema no nascedouro e evitar a ilusão confortável de que tudo não passará de uma paixão adolescente fugaz. A espiral do vício, minha senhora, é implacável: dos suspiros pelos cantos, sempre cercada de livros, a vítima passa em 72,7% dos casos à fase que chamamos de “projeção ativa”, arriscando então seus próprios escritos, seduzida pela miragem de pertencer a esse mundo imaginário de beleza e sensibilidade que os ingênuos conhecem por literatura. Diversos métodos de reabilitação já foram propostos por nossos concorrentes. Nenhum deles tem a eficácia comprovada do nosso. A dureza radical do tratamento que desenvolvemos – e que leva alguns pais a recuarem, sentindo pena de seus pimpolhos, o que é um erro terrível – nada mais é…

Um prêmio de peso para poesia e conto e outros links
Pelo mundo / 15/08/2011

Depois de uma série de prêmios literários cheios de cifrões, mas todos monopolizados por romances, chegou a vez da poesia e do conto. O prêmio Moacyr Scliar, que o governo do Rio Grande do Sul anuncia amanhã, vai contemplar o melhor livro brasileiro de cada um desses gêneros, em anos alternados, com R$ 150 mil para o autor e R$ 30 mil para a editora. * No site da “New Yorker”, Giles Harvey junta numa só crônica (em inglês) suas tentativas frustradas de ser um jogador de futebol decente, os bons conselhos literários de Virginia Woolf, um papo velho demais de Noam Chomsky e o mais famoso gol que Pelé não marcou, aquele contra o Uruguai em1970. No campo eu não sei, mas com as palavras o cara é bom de bola. * Polêmica: “Enquanto o debate literário clama por mais e melhores antologias, Pires pede ‘referências centrais e critérios claros’ na organização de uma antologia geracional”. Nelson de Oliveira responde a Paulo Roberto Pires na “Ilustríssima” (só para assinantes). To be continued. * Para mim, o debate literário clama mesmo é por mais e melhores apreciações críticas. Já começou a se preparar para o I Concurso Todoprosa de Resenhas?…

I Concurso Todoprosa de Resenhas: Brasil, século 21
Vida literária / 12/08/2011

Pelo menos num ponto concordam os que acham a literatura brasileira contemporânea saudável e os que a consideram um lixo: espelhando o próprio mundo da informação na era da internet, vivemos uma síndrome que é ao mesmo tempo de excesso e de carência. Um dos traços marcantes da literatura brasileira no século 21 é a sensação de que há mais gente escrevendo do que lendo. Se é evidente que existe exagero nessa impressão (mas não muito), parece indiscutível que há mais gente escrevendo do que lendo criticamente e resenhando de forma inteligente, inteligível e íntegra a produção de nossos escritores. Resultado: a vida literária parece um organismo em que a quantidade de alimentos ingeridos supera em muito a capacidade digestiva. Com perdão do desdobramento escatológico – mas lógico – da metáfora, o bolo fecal gerado no processo é gigantesco, mas, caramba, como se desperdiçam nutrientes! O I Concurso Todoprosa de Resenhas está sendo lançado para suprir parte dessa falta. REGULAMENTO: 1. Serão premiadas as três melhores avaliações críticas de livros nacionais de ficção – romances ou coletâneas de contos – lançados desde 2001 (inclusive). 2. Cada autor pode inscrever uma única resenha, que deve ser enviada por arquivo Word para…

Como sobreviver ao fim do mundo
Pelo mundo / 10/08/2011

Quis o acaso que eu estivesse lendo dois ensaios de peso sobre a famosa “crise do romance” quando os jornais de terça-feira trombetearam o fim do mundo, com as bolsas de valores derretendo em todos os cantos do planeta e as multidões de saqueadores de Londres ateando fogo à cidade que até então parecia a prova mais risonha de que o multiculturalismo globalizado podia dar em boa coisa, afinal. Essa atmosfera de fim dos tempos – ou no mínimo de fim de uma era, uma vez que o apocalipse maia em 2012 é duro de levar a sério – foi o ruído de fundo perfeito para a leitura de É possível pensar o mundo moderno sem o romance?, de Mario Vargas Llosa, e O romance é concebível sem o mundo moderno?, de Claudio Magris, ensaios que são, respectivamente, a abertura e o fecho do monumental volume de crítica literária organizado pelo italiano Franco Moretti, “A cultura do romance” (Cosac Naify, 2009, tradução de Denise Bottmann). Respondendo a provocações em que a ordem dos fatores altera, sim, o produto, o consagrado romancista peruano e seu colega italiano, que também é crítico, não poderiam deixar de adotar posturas diferentes diante de uma…

Camus teria sido morto pela KGB e outros links
Pelo mundo / 08/08/2011

O acidente de carro que matou Albert Camus em 1960 pode ter sido arquitetado pela KGB, diz o jornal italiano “Corriere della Sera” (em inglês, via “Guardian”, aqui). * Nos cinqüenta anos da morte do grande Dashiell Hammett, o Babelia lembra (em espanhol) a dignidade do silêncio à la Bartleby que o levou à cadeia no auge do mccarthismo. * Resposta (em inglês) da Kurt Vonnegut Memorial Library ao banimento do livro “Matadouro 5” do currículo de uma escola americana: distribuição de 150 exemplares gratuitos do livro aos alunos. * Paulo Roberto Pires reflete sobre antologias e antologias na Ilustríssima de ontem (só para assinantes). * “A ironia é elitista”, minha crônica de ontem no Sobre Palavras, poderia ter saído aqui. * Escritores estão se tornando “versões baratas de celebridades”, diz David Foster Wallace nesta entrevista, falando da demanda crescente por viagens de divulgação e leituras em livrarias – ou, na versão brasileira, Flap, Flep, Flip, Flop, Flup. httpv://www.youtube.com/watch?v=S9VAgdEzUss&feature=related

Nareba quer ir a Frankfurt
Sobrescritos / 05/08/2011

A lenda da blogosfera literária nacional Lúcio Nareba está em liberdade desde o último indulto de Cosme e Damião, tendo cumprido, conforme a lei, um vigésimo da pena a que foi condenado pelo assassinato da editora Bia Escarpin (ao lado, no flagrante de Gilmar Fraga). A imprensa tradicional não deu destaque à libertação, mas os fãs têm sido fiéis ao velho mito e se cotizam para pagar os dois engradados diários de cerveja em que o fundador do radical narebismo se embebe, além dos cigarros que fuma sem parar pelos ouvidos e do Blackberry lilás em que cutuca nanocontos de três palavras o dia inteiro, produzindo um a cada quinze ou dezoito horas. E de repente isso já não basta. O homem Lúcio sente que alguma coisa nele, profunda e visceral, foi transformada pela cadeia. Começa a lhe parecer pouco desfrutar da glória de sempre, ainda que imensa, em seu próprio círculo literário. Nareba quer crescer como artista, ganhar o mundo. No começo fica meio confuso, mas, num esforço final notável, seus neurônios desenham a ideia mágica: Frankfurt 2013! É urgente que o traduzam para o alemão! Ora, ter uma ideia dessas deveria bastar por si só. Lúcio Nareba em…

Manual para tweets, Itamaraty literário e outros links
Pelo mundo / 03/08/2011

Estava demorando: sai em inglês um seriíssimo manual de estilo para quem quer se aprimorar na comunicação com um mundo em que qualquer mensagem além de 140 caracteres parece tão longa quanto um livro de Jonathan Franzen. “Microestilo: a arte de escrever pequeno” é de autoria de um publicitário, o que faz todo o sentido. Especialista em branding, Christopher Johnson acredita que as técnicas de condensação usadas por profissionais de comunicação na criação de marcas, slogans, títulos e frases de efeito podem ser úteis ao cidadão comum. Mas o que este sujeito estaria interessado em vender online? A si mesmo, claro. * Depois do bom programa de apoio à tradução da Biblioteca Nacional, mais um indício de que o Brasil está finalmente acordando em seu berço esplêndido para a importância de exportar literatura: os vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura – Rubens Figueiredo por “O passageiro do fim do dia” e, na categoria estreante, Marcelo Ferroni por “Manuel prático da guerrilha” – podem correr o mundo em viagens de divulgação bancadas pelo Itamaraty. No “Estadão” de hoje. * Corajoso para publicar o que muitos sussurram pelos cantos, o jornalista e escritor paulista Ronaldo Bressane descasca o novo livro de…

Massacre da Noruega: literatura e trauma nacional
Pelo mundo / 01/08/2011

“Como reagirão os escritores policiais da Noruega ao massacre de Utoya?”, perguntava ontem um tweet do jornal inglês “Observer”, dando um endereço que conduzia a um artigo de Brian Oliver, intitulado “Quando escritores são confrontados por um trauma nacional” (em inglês, acesso gratuito). Resposta possível: “Não reagirão. Escritores policiais não têm que reagir a tal coisa. Basta que reajam os policiais”. Mas o artigo não é tolo, embora também não seja profundo. Faz um rápido apanhado do bom momento vivido pela literatura policial nos países escandinavos e sustenta a tese de que, na cultura nórdica, a ficção retém um lugar privilegiado de arena de debates públicos que está praticamente esquecido no resto do Ocidente. Ao contrário do que sugere o tom ligeiramente ridículo do tweet que gerou, o texto de Oliver não força a barra de uma ligação direta entre o que explode nas manchetes e o que vai parar nas páginas dos romances. Ainda bem. A não ser em casos de subliteratura, essa ligação não costuma ter nada de direta, simples ou urgente. Uma excelente reflexão sobre o tema, a partir de um “trauma nacional” incomparavelmente mais devastador que o da Noruega, encontra-se no livro “Guerra aérea e literatura”,…

Comprando livro pela capa
Pelo mundo / 29/07/2011

A capa do novo livro do jovem escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, “A página assombrada por fantasmas”, uma coletânea de contos sobre livros e escritores que acaba de sair pela Rocco, parece ter sido inspirada pelo mesmo vento que soprou a capa do novo romance do escritor inglês Julian Barnes, The sense of an ending, que a Jonathan Cape põe na rua semana que vem – e que mesmo inédito já está na lista do prêmio Man Booker. As evidentes diferenças – a arte do livro inglês é mais limpa e mais preparada para disputar aos gritos a atenção do leitor na livraria, enquanto a do brasileiro leva a um limite ousado a ideia de palimpsesto, de rasura – não escondem o fato de que se trata de capas irmãs. Em ambas, as letras parecem prestes a desaparecer, a se desfazer em borrões. Os lançamentos praticamente simultâneos eliminam qualquer possibilidade de influência de uma sobre a outra. O que o belo trabalho da designer gaúcha Ieve Holthausen tem em comum com o de seu colega britânico parece ser apenas aquilo que, à falta de um nome melhor, o pessoal chama de Zeitgeist. As letras que aspiram a sumir teriam algo a…

Naipaul preto x Naipaul branco. Mas cadê o cinza?
Pelo mundo / 25/07/2011

Duas entrevistas com o escritor britânico V.S. Naipaul publicadas por tradicionais jornalões no mesmo dia, o último sábado, são tão radicalmente opostas que o primeiro efeito do contraste não pode deixar de ser uma perplexidade cômica: qual dos dois retratos é fiel ao prêmio Nobel de Literatura de 2001? Ou seriam ambos falsos? Quando se vai além dessa primeira impressão é que começam a surgir questões interessantes sobre o jornalismo cultural. No Sabático, suplemento literário do “Estado de S.Paulo”, o enviado especial Andrei Netto encontra-se em Londres com um Naipaul “formal, mas simpático e muito gentil”. No Babelia, suplemento literário do espanhol “El País”, o correspondente Walter Oppenheimer teve sorte diferente na casa de campo do escritor, em Wiltshire: “A entrevista vai mal. Desde o primeiro instante. Não há química. O olhar de Sir Vidia destila cada vez mais impaciência, mais desprezo”. As entrevistas que eles arrancaram do autor de “A máscara da África” – relato de viagens lançado ao mesmo tempo aqui e na Espanha – são condizentes com esses inícios em chaves opostas. Com Netto, interlocutor abertamente simpático que evita até a sombra de questões espinhosas, Naipaul é paciente, loquaz, quase vulnerável (não disponível online). Com Oppenheimer, que…

Bataille: ‘Literatura é coisa de criança’
Pelo mundo / 22/07/2011

Eu acho que há algo essencialmente infantil na literatura. Isso pode parecer inconciliável com a admiração que se tem pela literatura, e que eu acredito compartilhar, mas creio ser uma verdade profunda e fundamental que não se pode compreender realmente a literatura se não for do ponto de vista de uma criança, o que não significa dizer uma perspectiva inferior. (…) Eu acho que a literatura é um perigo muito grande e muito grave, e que só se é realmente um homem ao confrontar esse perigo. Deixo o leitor com a voz mansa – e as ideias ferozes – do escritor francês Georges Bataille nessa entrevista de 1958 para a TV, sobre seu livro “A literatura e o mal” (em francês, com legendas em inglês). Bom fim de semana a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=-WiwNekNJGA

Fitzgerald bebum e outros drinques
Vida literária / 20/07/2011

O homem que ganhava 4 mil dólares por artigo do Saturday Evening Post em 1930 agora recebia da Esquire apenas 150 por história. Os direitos autorais de seus livros totalizaram em 1936 cerca de 80 dólares. Logo ele estaria em Hollywood como roteirista fracassado, completando sua queda. A terrível decadência movida a álcool de F. Scott Fitzgerald é comentada (em inglês) por Jimmy So no “Daily Beast”, a propósito de uma recém-lançada coletânea de escritos do “cronista da Era do Jazz” chamada On booze, algo como “Sobre a birita”. Está para o borbulhante “Meia-noite em Paris”, de Woody Allen, como a ressaca para a euforia etílica. * Trata-se, como se vê, de uma antologia problemática e bastante desigual, para dizer o mínimo. Mas o problema principal que se manifesta em ‘Geração Zero Zero’ nem é esse. É que mesmo a leitura dos melhores contos dos melhores autores deixa na boca um gosto de anos 70, de repetição de procedimentos característicos daquela época, mal transplantados para um contexto social, cultural e político totalmente diferente – contexto este que pede novas respostas (e novas perguntas) dos escritores. Luciano Trigo escreve sobre “Geração Zero Zero”, a nova antologia de Nelson de Oliveira. *…

Decálogo do antologista
Sobrescritos / 18/07/2011

I. O que for antologizado pelo antologista será imediatamente antológico, seja analógico ou digital. II. Os antolhos do antolhogista serão critérios sagazes. III. Os autoelogios do autoelogista ficam abaixo da superfície da autoelogia, e não se fala mais nisso. IV. Se o antologista for uma anta, sua antalogia não será julgada por parâmetros zoológicos. V. Por proferir antes o julgamento da história, o anteslogista terá fama de xamã. VI. As antipatias do antipalogista serão todas, por definição, democráticas. VII. Se for um desempregado crônico, o à-toalogista poderá filar cigarros e requerer o Bolsa Família sem prejuízo de sua isenção crítica. VIII. Toda antologia será vista como axiomática, ainda que assintomática. IX. Só uma anti-antologia pode antagonizar uma antologia; todas as outras cartas serão incineradas. X. Ontologia? Não, não, no próximo corredor à direita.

Frankfurt 2013: foi dada a largada
Mercado / 15/07/2011

O excesso de notícias gerado pela Flip fez com que tivesse menos destaque do que merece o anúncio, feito pela ministra da Cultura, Ana de Hollanda, do novo programa de apoio à tradução de autores brasileiros da Biblioteca Nacional. O mercado – editores, escritores e agentes – recebeu a novidade com empolgação. Ambicioso a ponto de prever investimentos até 2020, e lançado a tempo de ter impacto na Feira de Frankfurt em 2013, quando o Brasil será pela segunda vez o país homenageado, o consenso é que o presidente da Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, conseguiu costurar um programa próximo do que o mercado sempre reivindicou – e que a esta altura muitos já nem esperavam, desanimados com a crise política que cercou o ministério da Cultura nos últimos meses. O fato que é nunca houve uma ferramenta tão robusta de divulgação de nossa quase secreta literatura no exterior. Em outubro do ano passado, comentando a participação da Argentina como país homenageado no megaevento alemão, eu disse aqui neste espaço que, com todos os percalços e críticas feitas à festança armada pelos vizinhos, tínhamos muito a aprender com eles. Essa impressão se baseava sobretudo no quanto eles tinham investido na concessão…

Vai-se a Flip, fica o toque: falar sobre escrever não é escrever
Vida literária / 13/07/2011

Estou ciente de que há escritores que evitam com sucesso jamais ter que escrever uma linha. Qualquer energia criativa que eles possam ter foi completamente absorvida por atividades substitutas. Tais atividades costumam incluir vestir-se, soar e posar (quando não beber – na verdade, normalmente beber) como um autor, de modo que esses indivíduos conseguem ser muito mais convincentes como artistas da frase bem torneada do que muita gente que de fato já publicou. Quando eu estava começando a escrever, esses tipos me deixavam bastante confusa. Em casa, eu (…) não sabia o que queria dizer, ou se realmente gostaria de dizê-lo, ou se alguém queria que o dissesse. No mundo lá fora, havia todas essas fantásticas desculpas para nunca mais me preocupar com tais coisas. Eram tentações. Mas consegui compreender que eram também um horrível beco sem saída. Terminada a Flip, vistoso buquê de “becos sem saída”, é hora de sentar e escrever. Mas talvez valha a pena ler primeiro esse artigo (em inglês, acesso gratuito) da escritora escocesa AL Kennedy no blog do “Guardian” sobre a eterna tentação do adiamento, disfarce da covardia, que me lembrou aquele toque lapidar do americano E.L. Doctorow: Planejar escrever não é escrever. Traçar…

Balanço: a palavra errada (nazista) e o homem certo (Mãe)
Vida literária / 11/07/2011

Se o curador da Flip 2011, o crítico literário Manuel da Costa Pinto, tivesse optado por outra palavra negativa para qualificar a participação constrangedora do cineasta francês Claude Lanzmann (foto), responsável pelo pior momento da festa, teria prestado um bom serviço à história do evento. Pode-se argumentar que esse não era seu papel como curador, mas o fato é que Lanzmann merecia uns cascudos. E o vocabulário da crítica é suficientemente vasto para que alguma palavra justa fosse encontrada. Ao optar por chamar de “nazista” um judeu que foi combatente da Resistência Francesa e realizou o referencial documentário “Shoah”, sobre o Holocausto, Costa Pinto viu-se obrigado a pedir desculpas e levou para uma penosa prorrogação o constrangimento inaugurado pela truculência com que Lanzmann humilhou repetidamente seu entrevistador, Márcio Seligmann-Silva, e desrespeitou o público na mesa de sexta-feira chamada “A ética da representação”. Não faltariam adjetivos mais adequados para seu desempenho: deselegante, arrogante, prepotente, desagradável, descortês, indelicado, grosseiro, ofensivo, rude, desrespeitoso, mal-educado, intratável, truculento, tirânico. Com um pouco de ironia, quem sabe até funcionasse uma fórmula politicamente incorreta como “profundamente francês”. Não é de hoje que se vem banalizando entre nós o uso das palavras nazista e fascista, equiparadas, em discursos…

Restrepo e Abad: violência e generosidade
Vida literária / 10/07/2011

Os escritores colombianos Héctor Abad e Laura Restrepo, que participaram da mesa “Em nome do pai”, iniciada às 14h30, disseram não ser amigos. Talvez não fossem até então, mas dificilmente poderão dizer o mesmo após a mesa de hoje. Com mediação do jornalista Ángel Gurría-Quintana, os dois travaram uma conversa cheia de elogios mútuos sobre como a literatura se relaciona com suas histórias de vida marcadas pela violência de seu país e pela militância política. Abad está estreando no mercado brasileiro com o premiado livro de memórias “A ausência que seremos”, em que fala do pai, um médico famoso, também chamado Héctor, defensor dos direitos humanos e assassinado por paramilitares colombianos em 1987. Laura lança o romance “Heróis demais”, a história de uma mãe que vai com o filho adolescente para a Argentina em busca do pai, militante político que os abandonou quando ela estava grávida. Há muito de autobiográfico no romance. “Eu e meu filho, Pedro, que veio comigo a Paraty, tivemos através dos personagens do romance o diálogo que nunca pudemos ter sobre o pai dele, que o abandonou quando tinha dois anos”, disse. Abad levou vinte anos para escrever sobre seu pai, e justificou a demora dizendo…