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Antropofagia e ressaca
Vida literária / 10/07/2011

Coube aos acadêmicos de literatura João Cezar de Castro Rocha e Eduardo Sterzi a ingrata missão de entreter o público da Flip no primeiro horário deste domingo, a partir das 10h, quando a maioria ainda dorme em suas pousadas ou se recupera da ressaca de sábado à noite. Para tornar a missão mais difícil, o tema de sua mesa, chamada “Pensamento canibal”, era uma questão teórica – o que o homenageado deste ano, Oswald de Andrade, queria dizer ao falar de antropofagia e o que ela deixou de herança para a cultura brasileira. Resultado: uma Tenda dos Autores com menos de metade dos assentos ocupados. A verdade é que o viés oswaldiano, ainda que a homenagem seja merecida, não chegou a penetrar nas rodinhas de conversa flípicas e dar um arremedo de argamassa a uma festa marcada num extremo pela simpatia baiana de João Ubaldo Ribeiro e no outro pela antipatia francesa de Claude Lanzmann, com o fenômeno de popularidade instantânea do português Valter Hugo Mãe ocupando a maior parte do meio-de-campo. Castro Rocha está lançando no Brasil a edição brasileira ampliada de “Antropofagia hoje? – Oswald de Andrade em cena”, coletânea de ensaios publicada em 2000 nos EUA. “A…

Ubaldo: ‘Meu santo não cruza com o de Rosa’
Vida literária / 09/07/2011

Na mesa mais divertida da Flip, como estava previsto, João Ubaldo Ribeiro, 70 anos, contou histórias, cunhou frases de efeito, fez piadas consigo mesmo e com o entrevistador – seu amigo e também escritor Rodrigo Lacerda – e, de forma surpreendente, ousou falar mal do intocável Guimarães Rosa, que já foi apontado como influenciador de “Sargento Getúlio”, um de seus livros mais conhecidos. Em compensação, furou também o balão mitológico em torno de sua própria obra-prima, o romance “Viva o povo brasileiro”, ao dizer que a motivação para escrevê-lo foi apenas a de “fazer um livro grosso”. A última pergunta da noite, encaminhada por alguém do público, foi um anticlimax que, paradoxalmente, funcionou: “Qual é a importância da literatura na vida das pessoas?” Resposta: “Longos anos de afeto nos unem, Rodrigo Lacerda, pra que eu possa lhe dar uma resposta apropriada”. Seguiram-se aplausos de pé numa Tenda dos Autores lotada, com uma chuva de assobios e gritinhos pontuando a evidência de que, tendo passado anos brigado com a Flip, um dos maiores escritores brasileiros vivos estava fazendo falta em Paraty. Abaixo, uma lista de seus melhores momentos: “Em primeiro lugar, acredite se quiser, eu jamais tinha chegado nem perto de…

Joe Sacco e a autonomia artística dos quadrinhos
Vida literária / 09/07/2011

“O cinema não é uma arte superior aos quadrinhos”, disse Joe Sacco, astro solo da mesa iniciada ao meio-dia, que terminou por ser tão informativa quanto agradável. Onde se lê cinema, pode-se ler também literatura, jornalismo e fotografia, linguagens com as quais ele dialoga em sua importante, ambiciosa e original obra de HQ. Nascido em Malta em 1960 e criado nos Estados Unidos, Sacco é hoje o maior nome do jornalismo em quadrinhos, autor de livros como os que escreveu sobre a questão palestina, entre eles “Notas sobre Gaza” e “Palestina: uma nação ocupada”. Entrevistado pelo jornalista Alexandre Agabiti Fernandez, que conduziu bem a conversa, apesar de certa tendência à prolixidade, Sacco não fugiu de nenhuma das perguntas e falou sobre seu método de trabalho, suas influências e até da ocasião em que, intimidado pelo peso do jornalismo americano tradicional, se autocensurou ao fazer um trabalho para a revista “Time”. “Pensei demais em como a ‘Time’ diria certas coisas e acabei insatisfeito com o resultado”. Abaixo, um apanhado de suas declarações: Vantagens e desvantagens dos quadrinhos como veículo de jornalismo: “O que eu faço é jornalismo, e como tal precisa ter precisão. Mas com quadrinhos você pode viajar no tempo…

Lanzmann ataca Spielberg e dá show de descortesia
Vida literária / 08/07/2011

Mal-humorado e repetidamente descortês com seu entrevistador, o cineasta francês Claude Lanzmann, 85 anos, autor do referencial documentário “Shoah”, disse na última mesa de hoje que Steven Spielberg brinca em “A lista de Schindler” com algo que não admite brincadeiras. “O que significa representar a morte de milhões de pessoas? É uma questão muito complicada. Não existe representação possível, alguma coisa proíbe, e não sou eu quem o faz: é Adolf Hitler. Tentar essa representação é cometer a mais grave das trangressões. Spielberg usou subterfúgios desonestos.” “Shoah”, filme de nove horas e meia de duração lançado em 2005, custou a Lanzmann, judeu francês, doze anos de trabalho e, segundo ele, escapa dessa armadilha da representação por não ser “sobre a sobrevivência, mas sobre a morte, sobre a radicalidade da morte naquelas câmaras de gás dos campos de extermínio nazistas”. Afirmou ele: “Os homens que me deram seus depoimentos testemunharam a morte de seu povo. Nenhum deles deveria ter sobrevivido para contar: um número muito reduzido sobreviveu por uma conjugação de coragem, inventividade, sorte e milagre. Não contam como sobreviveram, não abrem o jogo, não revelam suas histórias pessoais. São porta-vozes dos mortos e assim queriam ser considerados”. Além de falar…

Tabucchi ausente, presente
Vida literária / 08/07/2011

Ignacio de Loyola Brandão e Contardo Calligaris declararam solidariedade ao escritor italiano Antonio Tabucchi, que deveria ter sido a principal atração da mesa de hoje às 17h15, mas cancelou sua participação em protesto contra a posição do Supremo Tribunal Federal – e do governo brasileiro – no caso Cesare Battisti. O psicanalista e cronista Calligaris, italiano como Tabucchi, fez questão de dizer que sua situação é diferente, por viver no Brasil: “Dizer não ao convite da Flip seria apenas dizer não à Flip. Se eu morasse na Itália, provavelmente tomaria a mesma posição que Tabucchi, fico completamente solidário e acho bom ter tido essa oportunidade (de dizer isso)”, discursou. Ignacio de Loyola Brandão apoiou o parceiro de mesa, lembrando que Tabucchi foi o tradutor de “Zero”, romance que, por ter sido proibido pela censura nos anos 1970, tornou-se seu título mais famoso. “Quero dizer que sou amigo de Antonio Tabucchi desde 1973, quando foi entregue a ele a tradução de ‘Zero’ e começou uma amizade que se solidificou ao longo dos tempos. Eu faria a mesma coisa que ele fez, não poderia ter outra atitude. E a tradução de ‘Zero’ para o italiano foi a mais perfeita de todas”. Pouco…

A musa e o xodó: Pola Oloixarac e Valter Hugo Mãe
Vida literária / 08/07/2011

A Flip teve finalmente seu momento de emoção explítica na mesa de hoje ao meio-dia, chamada “Pontos de fuga”, que reuniu o português Valter Hugo Mãe e a argentina Pola Oloixarac. Surpreendentemente, os papeis tradicionais se inverteram: Pola, que antes mesmo de pisar em Paraty já carregava o título (merecidíssimo) de musa da Flip, foi o lado racional da conversa, e coube a Mãe, que chegou às lágrimas ao ler um simpático texto sobre a importância do Brasil em sua geografia emocional, arrebatar o público que lotou a Tenda dos Autores e ser aplaudido de pé. “Foi a mesa dos baixos instintos”, comentou uma velha raposa da Flip, referindo-se tanto àqueles instigados em parte da audiência pelas longas pernas envoltas em meias pretas da escritora argentina quanto aos que, de natureza diferente , o autor de “a máquina de fazer espanhóis” despertou ao falar de sua infância marcada por telenovelas e vizinhos vindos do Brasil, todos envoltos em certa aura de magia, e agradecer no fim, com voz embargada, o convite para visitar o país como escritor. “Sinto que fazem de mim um homem de ouro”, disse, referindo-se a um episódio de sua infância em que o fato de ser…

Triunfalismo científico x pessimismo filosófico
Vida literária / 07/07/2011

O neurocientista Miguel Nicolelis (foto) e o professor de filosofia da religião Luiz Felipe Pondé protagonizaram hoje à noite, numa Tenda dos Autores lotada, uma das mesas mais cabeçudas da história da Flip, chamada “O humano além do humano”, com mediação da jornalista Laura Greenhalgh. Como água e azeite, não se misturaram, apesar dos esforços da mediadora, nem poderiam: o triunfalismo científico (não sem razão) de Nicolelis e o pessimismo filosófico (idem) de Pondé acabaram criando um curioso espetáculo de claro-escuro. “Se a palavra milagre não tivesse sido adotada por outro ramo de negócios, deveria ser usada pela neurociência, porque estamos fazendo algumas coisas até melhores do que os velhos milagres hoje”, disse o primeiro. “O ser humano mata porque gosta”, afirmou o segundo. Foi divertido. Autor do recém-lançado “Muito além do nosso eu” e apontado pela revista Scientific American um dos vinte pesquisadores mais importantes da atualidade, o paulista Nicolelis falou primeiro, caminhando de um lado ao outro do palco e ilustrando seu discurso com imagens no telão. Era claramente um discurso ensaiado, com floreios poéticos (“as linhas de poesia elétrica desses bilhões de compositores que formam a única orquestra conhecida”, disse, falando do cérebro). A mensagem, porém, era…

‘Antropofagia era uma vanguarda política’
Vida literária / 07/07/2011

Na mesa “Marco zero modernista”, diante de um auditório com cerca de 80% de ocupação, hoje à tarde, os pesquisadores acadêmicos Marcia Camargos e Gonzalo Aguilar deram continuidade às homenagens a Oswald de Andrade, iniciadas ontem à noite na mesa de abertura. Não era fácil a tarefa de trazer novos ingredientes ao banquete antropofágico proposto pela Flip, após o prato principal representado pelo venerável Antonio Candido, e dela saiu-se melhor o argentino Aguilar, que morou no Brasil e é autor de um livro ainda sem tradução em português chamado Por una ciencia del vestigio errático – ensaios sobre a antropofagia de Oswald de Andrade. Falando em português com forte sotaque portenho e algumas recaídas no espanhol, que não prejudicaram a compreensão do público, Aguilar partiu do quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, para falar da principal “inversão” que inspirou Oswald a criar o movimento antropofágico: a subversão da hierarquia tradicional representada por uma figura de pé enorme e cabeça minúscula. “Isso tem a ver com a literatura de Oswald, que é uma literatura do corpo, muito erótica. O pé fala da mobilidade, que, como disse ontem Antonio Candido, define sua obra. Ir caminhando e inventando no caminho, essa ideia está…

Minc anuncia programa de apoio à tradução
Vida literária / 06/07/2011

Foi bem recebido em Paraty o anúncio do novo programa de apoio à tradução de autores brasileiros no exterior, feito no fim da tarde de hoje, na Casa da Cultura pela ministra da Cultura, Ana de Hollanda. Ele prevê a concessão de bolsas de tradução no valor de 7,6 milhões de dólares até 2020 – do total, 635 mil dólares ja este ano, o triplo do que vinha sendo investido. Falta fazer muita coisa, mas Frankfurt 2013 começa a ganhar forma. Se “o Brasil acorda”, como disse Oswald de Andrade (post abaixo), para um certo protagonismo econômico e político mundial, eis um indício de que pode estar finalmente percebendo o óbvio: que a cultura precisa ir junto.

Na mesa de abertura, um Oswald brigão e profético
Vida literária / 06/07/2011

Na morna mesa de abertura da Flip 2011, hoje à noite, o crítico literário e ensaísta Antonio Candido, 93 anos, não foi nem crítico nem ensaísta ao falar de Oswald de Andrade, o escritor homenageado da festa este ano. Foi memorialista, contando casos para ilustrar a personalidade marcante do poeta e provocador cultural modernista. “Hoje eu sou um sobrevivente”, disse. “Só eu posso falar como era Oswald de Andrade.” Coube a José Miguel Wisnik, que dividiu a mesa com Candido, abordar o legado de Oswald, sintetizado no “Manifesto antropófago”, e tentar dar sustentação à tese de que, além de ter influenciado movimentos artísticos como o concretismo e a tropicália, ele permanece atual no século 21. Candido pintou o retrato de um Oswald brigão mas generoso, sarcástico mas de candura infantil, agressivo mas carente de carinho, que gostava de “brigar e desbrigar, xingar e elogiar”, e que jamais guardava rancor. Uma personalidade tão forte e tão propícia à criação de lendas – como a de que tinha um filho chamado Lança-Perfume, à qual muita gente dava crédito – que, acredita Candido, acabou por prejudicar a recepção de sua obra. “Era muito difícil encontrar um livro dele para comprar”, disse o crítico….

Flip, ano 9: como ir da importação à exportação de literatura?
Vida literária / 06/07/2011

Em sua nona edição, que começa hoje à noite com uma palestra do crítico Antonio Candido e sob o signo da “antropofagia” de Oswald de Andrade, o homenageado do ano, a Festa Literária Internacional de Paraty dá sinais de amadurecimento como grande evento do mercado literário brasileiro, inspirador de uma série de festas espalhadas pelo país – como mostrou a boa reportagem de Beatriz Souza aqui em VEJA.COM. Essa posição central a Flip ocupa há anos, é verdade, mas vejo indícios de amadurecimento em pelo menos uma das atrações que ocorrerão no entorno da Tenda dos Autores: as duas conferências do projeto Brazilian Publishers, na noite de quinta-feira, em que editores e agentes literários nativos e estrangeiros discutirão diante da plateia da Casa da Cultura modos de divulgar a quase secreta literatura brasileira no exterior – questão crítica num momento em que o Brasil ensaia para ser o país homenageado em 2013 na Feira de Frankfurt, principal vitrine do mercado editorial no mundo. A esperança de que o encontro possa ir além do bate-papo para influir na definição de uma política cultural baseia-se na presença, entre os debatedores, de Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional e encarregado de preparativos, que,…

Arthur Dapieve: o ‘eletricista’ da Flip

Além de ser o crítico musical mais importante de sua geração e autor de livros de ficção, entre eles “Black music” (Objetiva), o jornalista carioca Arthur Dapieve tem um papel curioso na Flip: é um veterano mediador de debates que acabou por se especializar em entrevistados considerados difíceis. Em 2007, o mais-que-irônico escritor inglês Will Self propôs no palco que os dois abandonassem suas mulheres e fossem juntos desmatar a Amazônia. Ano passado, a desistência do popstar Lou Reed, famoso por maltratar entrevistadores, poupou-o na última hora de uma missão espinhosa. Na edição 2011, que começa nesta quarta-feira, Dapieve vai encarar na última mesa de sábado o escritor americano James Ellroy, que se notabilizou tanto pela qualidade de sua literatura quanto por uma certa egolatria. Will Self, Lou Reed e, agora, James Ellroy. Por que todos os fios desencapados da Flip acabam na sua mão? – Acho que é porque eu já trabalhei com o Marcelo Madureira [no extinto programa de TV “Sem Controle”, do GNT]. A partir daí, qualquer fio desencapado me parece normal… O que espera da conversa com Ellroy? Se ele repetir em Paraty sua famosa declaração de que é o maior escritor policial de todos os…

Woolf, Sábato, Mitchell e eu: uma sexta cheia de links
Vida literária / 01/07/2011

Em 1927, num debate transmitido pelo rádio, perguntaram a Virginia Woolf se não estavam sendo escritos e publicados livros demais – sim, já naquele tempo. A resposta da autora de “Orlando” foi espirituosa: “Por que não publicar a primeira edição em algum material perecível que se desfaça num montinho de pó perfeitamente asseado no prazo de seis meses? Se uma segunda edição fosse necessária, esta sim poderia ser impressa em papel bom, com boa encadernação… Não se desperdiçaria espaço e não se acumularia lixo”. A mordaz profecia finalmente pode se cumprir, e com evidentes vantagens sobre o “montinho de pó”, na era digital. Mais sobre Woolf, a crítica literária, em inglês, aqui. * “Um homem pode fugir e não ser um covarde, pode abandonar um movimento e não ser um traidor, pode matar e não ser um criminoso.” O “Babelia” publicou um fragmento inédito de La fuente muda, romance que Ernesto Sábato abandonou. O escritor argentino, que morreu no último 30 de abril, teria completado cem anos há uma semana. * “Esse livro de ensaios é na verdade divertido – e isso é algo que eu fico muito surpreso de escrever sobre teoria literária.” No blog do “Guardian”, Sam Jordison…

Concentração dividirá o mundo entre senhores e escravos
Pelo mundo / 29/06/2011

Antes do tsunami digital, o poder pertencia aos detentores da informação. Agora, com a informação mais desvalorizada que cruzados e cruzeiros nos anos Sarney e Collor, a moeda em alta será cada vez mais a capacidade de concentração – aquela exigida por exemplo de quem mergulha na primeira página de um livro para emergir na última, sem parar dez mil vezes no meio do caminho para conferir o e-mail ou se divertir com vídeos virais no YouTube. Parece um paradoxo, mas não é. O turbilhão das informações online é superficial para quem o consome, não para quem o produz. Toda horizontalidade tem uma dimensão vertical que a sustenta: o vídeo viral que se engole em um minuto e meio exigiu tempo e concentração de seu autor ou autores. A capacidade de imersão atenta e refletida que o mundo digital parece disposto a aniquilar é, no fundo, um dos pilares de sua linha de produção. Uma pesquisa feita no mês passado nos EUA pela Nielsen apurou números interessantes: a maior parte dos proprietários de tablets (70%) e smartphones (68%) passam parte significativa de seu tempo de uso do aparelho (30% e 20%, respectivamente) diante da TV. Isso é dispersão em estado…

‘Se um de nós dois morrer’: existe vida após a arte
Resenha / 27/06/2011

Primo Levi publicou “É isto um homem?” em 1947. Vendeu 150 exemplares. Depois da recusa de 27 editores, “Molloy”, de Samuel Beckett, foi publicado pelas Éditions de Minuit e vendeu 694 exemplares. “Malone morre” e “O inominável”, lançados logo em seguida, venderam 241 e 476 exemplares, respectivamente. “Cidade de vidro”, parte da Trilogia de Nova York, de Paul Auster, foi recusado por 17 editores. “A amante de Wittgenstein”, de David Markson, sofreu 54 recusas. Laurence Sterne pagou a primeira edição de “Tristram Shandy”. José Rubem Fonseca concluiu seu primeiro livro aos 18 anos. Um editor de fundo de quintal recusou os contos e perdeu os originais, que não tinham cópia. Aos 38, lançou seu segundo livro. Em seis anos, a primeira edição de “A interpretação dos sonhos” vendeu 351 exemplares. Sob o título Estatísticas e fatos, as pepitas acima, ao lado de outras de teor semelhante, constam da pasta de textos avulsos que o escritor Théo, defunto, encarrega sua ex-namorada de fazer chegar às mãos do colega catalão Enrique Vila-Matas no romance “Se um de nós dois morrer”, de Paulo Roberto Pires (Alfaguara, 124 páginas, R$ 36,90). O livro é uma sofisticada brincadeira literária que consegue a proeza de ser…

‘Como vendi 1 milhão de e-books em cinco meses!’
Pelo mundo / 24/06/2011

A história do escritor independente – isto é, sem editora – John Locke, publicada esta semana pelo “Los Angeles Times” (em inglês, acesso gratuito), é um interessante caso de sucesso no mundo dos e-books. Um mundo que, se no Brasil ainda cabe numa xícara, nos EUA já desenha uma paisagem de contornos vastos e cada vez menos nebulosos. Vale a pena conhecer o caso porque, mais cedo ou mais tarde, suas lições poderão ser aplicadas aqui. As duas questões fundamentais levantadas pela história são: Quanto pode ou deve custar um e-book? E que percentual desse valor deve caber ao autor, que no mercado editorial convencional leva em torno de 10%? Com uma série de thrillers de mistério, Locke acaba de entrar para o clube dos escritores independentes com mais de um milhão de downloads na livraria virtual Amazon. Isso significa que mais de um milhão de proprietários do leitor eletrônico Kindle, que pertence à Amazon, compraram seus livros. Pagaram por cada um deles o preço quase simbólico de 0,99 cents – cerca de R$ 1,60. Ah, mas assim é fácil vender tanto? Não, não é. A maior parte dos escritores autopublicados não vende nem mil livros. Além de seus prováveis…

A ‘literatura expandida’ do novo Harry Potter e outros links
Pelo mundo / 20/06/2011

O “novo projeto” de J.K. Rowling não é mais um livro protagonizado por Harry Potter, diz a versão oficial, mas isso não impede a autora de continuar fazendo mágica. Venha o que vier, uma coisa parece certa: será mais uma aula sobre como usar os recursos do mundo digital para manter vivo e vendável um mundo ficcional. Num momento em que tanto se fala de “literatura expandida”, convém prestar atenção. O site pottermore.com, que entrou no ar na semana passada, consiste por enquanto apenas de uma página ilustrada por duas corujas, em que se vê a assinatura da autora sob um aviso: “Em breve”. Isso foi o suficiente para deflagrar um surto de histeria (notícia aqui de VEJA.com) entre os milhões de fãs de Harry Potter. Seria um jogo online? Uma enciclopédia sobre o “mundo potteriano”? Apenas uma ferramenta de promoção do último filme da série, “Harry Potter e as relíquias da morte – Parte 2”, que estreia mês que vem? Os boatos de que se trataria de um novo livro foram desmentidos por um porta-voz da autora, mas persistem – o que é compreensível, se for levado em conta que Rowling já admitiu dar prosseguimento à série e que…