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‘Como funciona a ficção’: quem disse que a literatura morreu?
Resenha / 11/03/2011

Se tivermos sorte, e bota sorte nisso, o livro “Como funciona a ficção” (Cosac Naify, tradução de Denise Bottmann, 232 páginas, R$ 49,00), lançado em 2008 pelo crítico inglês James Wood, cairá entre nós como uma bomba de efeito moral. Claro que esta é só uma frase de efeito (moral?) e que um simples volume de crítica literária dificilmente provocará tal estrago. Isso não altera o fato de que, num mundo ideal, seria de esperar que depois dele uma série de personagens que atravancam nossa vida literária saíssem correndo em busca de abrigo, do pequeno resenhista movido por cordialidades buarquianas ao crítico acadêmico adestrado por décadas de teoria e estudos culturais para odiar tudo o que cheire a literatura. Simpatizemos ou não com suas idiossincrasias (eu simpatizo com algumas delas), Wood é tão apaixonado pela coisa que não se furta a cair no pasmo boquiaberto diante de certa tirada poética de Virginia Woolf no romance “As ondas”: “Sinto-me mortificado com essa frase; um pouco porque não consigo explicar de jeito nenhum por que ela me comove tanto”. Nessa cândida confissão de impotência reside, paradoxalmente, o maior poder de “Como funciona a ficção”. Egresso da crítica literária jornalística, que exerceu por…

‘A Cabeça’ e o mistério da McSweeney’s
Pelo mundo / 09/03/2011

Faz poucos dias que finalmente botei as mãos no mais recente número da revista (à falta de um nome melhor) literária McSweeney’s, de São Francisco. Editada pelo escritor Dave Eggers, de “O que é o quê”, com a ajuda de um bando de malucos, a maioria em esquema de trabalho voluntário, a McSweeney’s é hoje a coisa mais lúdica, divertida, inquieta e (por que não?) cool existente no mundo da literatura: uma publicação trimestral que desde seu surgimento, em 1998, nunca repetiu um formato. Um dos números, ano passado, foi o jornal mais belo da história, o “Panorama”, comentado na época aqui. Este que eu tenho nas mãos agora, conhecido como “A Cabeça”, é uma caixa de papelão resistente cheia de livretos, revistinhas, postais e artigos mais difíceis de nomear. Não se trata, como podem pensar os cínicos de plantão, de uma forma esfuziante para encobrir a falta de conteúdo: para desmentir essa impressão bastariam o conto de Colm Tóibín e os quatro primeiros capítulos de “Fountain City”, o famoso romance inacabado que quase acabou com a carreira de Michael Chabon, acompanhados de impiedosas notas críticas do próprio autor. Mas “A Cabeça” tem muito mais, e imagino que estarei mexendo…

Biblioteca de sentar
Pelo mundo / 07/03/2011

Uma poltrona da qual ninguém precisa se levantar para alcançar os livros na estante: a Bibliochaise Home, que acomoda “cinco metros de livros”, foi criada por um estúdio de design de Glasgow, Escócia, chamado Timorous Beasties, e custa cerca de 12 mil reais (!). Vem em duas cores básicas, preto e branco, mas outras podem ser encomendadas. Quantos não-carnavalescos não andam sonhando com algo parecido nestes dias ofegantes? Embora um aprimoramento pareça necessário: como assim, nem um lugarzinho para acomodar o copo? (Via The Book Bench.)

Pequena antologia online: contos brasileiros de carnaval
Vida literária / 04/03/2011

Folião cerebral, do tipo que sempre valorizou mais uma virada de enredo que uma virada de bateria, fiz um garimpo na grande rede instigado pela aposta de que seria possível montar uma boa antologia de contos de carnaval só com textos disponíveis online, de preferência na íntegra. Deu certo. A meia dúzia de contos abaixo – todos acessíveis a quem clicar sobre os títulos, sem necessidade de baixar arquivos – deixa claro que as relações entre a folia momesca e a literatura brasileira, com perdão do clichê, sempre deram samba. Destaque absoluto para o aterrorizante O bebê de tarlatana rosa, obra-prima de João do Rio, imbatível na captação do lado negro de uma festa solar. De resto, tons sombrios se fazem presentes – o que, pensando bem, não chega a ser surpresa – em praticamente todas as histórias. Pena que o conto Caprichosos da Tijuca, de Marques Rebelo, e a crônica A batalha do Largo do Machado, de Rubem Braga, não estejam online. Presenças obrigatórias em qualquer antologia analógica sobre o tema, espero que esta menção compense de alguma forma sua ausência. O conto de Rubem Fonseca tem apenas um trechinho disponível, mas sua qualidade me levou a incluí-lo na…

Vêm aí os Escritores Unidos, diz Margaret Atwood
Pelo mundo / 02/03/2011

“As anchovas estão inquietas”, diz a escritora canadense Margaret Atwood, explicando que as anchovas são os escritores – individualmente fracos, mas fortes quando em cardume, por darem sustentação a toda a cadeia alimentar do mercado editorial. A inquietude, diz ela, provém da sensação de que a maioria das editoras tem sido intransigente ao negociar direitos autorais para e-books, deixando de levar em conta uma nova realidade em que os baixos custos de produção permitiriam multiplicar o tamanho da fatia que tradicionalmente cabe ao autor (em torno de 10% do preço de capa). “Está no ar”, nas palavras de Atwood, a ideia de repetir no mundo literário o que fizeram alguns artistas de ponta de Hollywood em 1919, entre eles D.W. Griffith e Charles Chaplin, ao romper com os grandes estúdios e fundar sua própria companhia, a United Artists. United Writers? Mas “escritores unidos” não é uma contradição em termos? Este é apenas um dos atrativos desta recente palestra de Margaret Atwood no TOC 2011, seminário de novas tecnologias realizado em Nova York. Pontuada por piadas, algumas ótimas, e desenhos em PowerPoint feitos pela própria escritora, a fala de Atwood cobre de forma leve quase todos os aspectos do emaranhado de…

42 minutos de Scliar e outros links
Pelo mundo / 28/02/2011

“Meu nome é Moacyr Scliar, eu sou de Porto Alegre…”. Assim começa um depoimento autobiográfico de fôlego (42 minutos) disponível no site da editora gaúcha L&PM, gravado em vídeo menos de um ano atrás. * “Qualquer um que seja honesto consigo mesmo sabe que a internet deixou de ser um grande lugar para consumidores de cultura um ou dois anos atrás. Nos dias de hoje, você pensa que está lendo a rede, mas a rede é que está lendo você – reunindo informações sobre você, tentando lhe vender coisas, empurrando-o para outros links. Na internet, ler é comprar. E às vocês você não quer comprar.” Virginia Heffernan, na revista dominical do “New York Times”, desanca a internet aberta para exaltar os e-readers. Exagero, provavelmente, mas com um fundo de verdade. * A resenha tem muito de anticlímax, assim como a ausência (até agora) de comentários, mas o fato é que começou hoje a nova edição da Copa de Literatura Brasileira.

Moacyr Scliar (1937-2011)
Vida literária / 27/02/2011

Moacyr Scliar, um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, morreu à 1h desta madrugada, aos 73 anos, em Porto Alegre, cidade onde nasceu e viveu por toda a vida. Ele estava internado numa unidade de tratamento intensivo do Hospital de Clínicas da capital gaúcha desde 17 de janeiro, após sofrer um acidente vascular cerebral quando se recuperava de uma cirurgia no intestino. Médico sanitarista, gaúcho e judeu – seus pais chegaram ao Brasil fugindo de perseguições na Rússia –, Scliar construiu desde sua estreia na literatura, em 1962, com “Histórias de um médico em formação”, uma obra vasta e premiada que reflete sobre essas facetas de sua identidade. Ao longo de oito dezenas de títulos, entre a narrativa e o ensaio, firmou um estilo em que a erudição se alia ao humor, com toques de fantástico. Foi também um prolífico autor de literatura infanto-juvenil. Entre seus livros de maior projeção internacional estão “O centauro no jardim”, “Exército de um homem só”, “A estranha nação de Rafael Mendes” e “Max e os felinos” – este, sobretudo devido à polêmica com o canadense Yann Martel, que, após ser acusado de plágio, admitiu ter se “inspirado” em seu ponto de partida narrativo (um…

Muamar Kadafi, o escritor
Pelo mundo / 23/02/2011

Certamente não será o maior de seus pecados – a competição, afinal, é duríssima – mas o ditador líbio Muamar Kadafi também se julga escritor. Depois de lançar em 1975 sua obra mais conhecida, o “Livro verde”, um panfleto político-ideológico que se gaba de apresentar “a solução teórica definitiva do problema da ‘máquina de governar’”, Kadafi publicou nos anos 1990, quem diria, um volume de contos – ou coisa parecida. Escape to hell and other stories (Fuga para o inferno e outras histórias) teve uma tradução lançada na Inglaterra no finzinho do século passado e ainda está à venda na Amazon britânica – aqui. Nas palavras do editor, “nesta coletânea, além das visões de um revolucionário e profeta, descobrimos um escritor e um ensaísta”. A crítica do “Guardian” foi bem menos benevolente: “O que descobrimos é uma mente que não consegue desenvolver um pensamento coerente por muito tempo, é cheia de dicotomias grosseiras e de nonsense, e tagarela aleatoriamente, implodindo antes de explodir de novo numa erupção de palavrório surreal”. Ou seja, Kadafi puro.

O personagem abre os olhos em sua cama e… nasce!
Vida literária / 21/02/2011

Minha recente experiência como jurado de um concurso nacional de contos rendeu há cerca de um mês a formulação, aqui no blog, do Princípio da Incerteza de Rodrigues. Achei que ficaria nisso, mas estava enganado. Da exaustiva tarefa de ler mais de 900 contos em dois meses pode-se destilar também um alerta que me parece útil a aprendizes do ofício literário: cuidado com histórias que começam com o personagem abrindo os olhos em sua cama de manhã. Por quê? Acaso será impossível escrever algo bom com esse início? Claro que não, como prova “A metamorfose” de Kafka. Mas aqui não estamos tratando da exceção – que, no caso, é notável justamente pela brutalidade com que estilhaça o clichezão do despertar antes mesmo do fim da frase, por meio do “inseto monstruoso” – mas de uma regra. Uma regra ridiculamente difundida. Deve-se evitar que a narrativa comece com o personagem abrindo os olhos em sua cama porque, em primeiro lugar, narrativas desse tipo são legião – e que escritor quer se confundir desde a primeira linha com o tumulto indiferenciado do mundo? Não é só isso. Na grande maioria das vezes, fica evidente que não há uma boa razão para que…

Em busca de Gatsby, aos pulinhos
Pelo mundo / 18/02/2011

Será que “o último sucesso digital nos arrabaldes da literatura” vai virar uma tradição das sextas-feiras aqui no blog? Não prometo, mas, depois do clipe de três semanas atrás, este videogame online em estilo vintage Nintendo baseado em “O grande Gatsby”, o romance de F. Scott Fitzgerald, parece apontar nesse sentido. E por que não? Detalhe: os programadores liberaram o código-fonte para quem quiser desenvolver joguinhos semelhantes sobre seus clássicos favoritos. E quem achar que conduzir Nick Carraway entre obstáculos em forma de mordomos e dançarinas de Charleston é uma perda de tempo não deve se preocupar: usando a hora extra que o fim do horário de verão vai nos conceder amanhã, não perderá tempo nenhum. (Via The Book Bench.)

Inesquecíveis, mas esquecidos: a revolta dos sem-teto

Nesses quase cinco anos de Todoprosa, desde sua estreia na extinta revista eletrônica NoMínimo, a hoje adormecida seção “Começos Inesquecíveis” foi sem dúvida a mais marcante, a que seduziu mais leitores e se multiplicou em mais links pela blogosfera. Deve haver razões profundas para que as aberturas lapidares de livros – e, em uns poucos casos, de contos – tenham tanto apelo. Para o aspirante a escritor, acredito que isso se relacione com o mito de que basta um bom primeiro passo para que todas as outras palavras se encaixem no lugar certo e o livro saia sem esforço, o que é obviamente um delírio. Mas deixemos a metafísica dos inícios para outra ocasião. Hoje é dia de acertar contas com alguns começos inesquecíveis que nunca apareceram nos “Começos Inesquecíveis”. Não vou pedir desculpas por isso: num universo que tende ao infinito, a ideia sempre foi fazer recortes assumidamente pessoais – uma seleção dos mais inesquecíveis entre eles pode ser conferida aqui, aqui e aqui. Para tanto, descartei as buscas no Google e fiquei apenas com minha experiência de leitor e, principalmente, como forma de reavivar memórias, com minhas estantes. Experiência e estantes que, mesmo não sendo exatamente pequenas, têm…

Piglia: só pode ser arte o que já caducou
Pelo mundo / 14/02/2011

O que envelhece e perde vigor se torna solto e mais livre: quando o público do romance do século 19 se deslocou para o cinema, foram possíveis as obras de Joyce, de Musil e de Proust. Quando o cinema foi suplantado como meio de massa pela televisão, os cineastas do “Cahiers du Cinéma” resgataram os velhos artesãos de Hollywood como grandes artistas; agora que a televisão começa a ser substituída maciçamente pela web, valorizam-se as séries televisivas como forma de arte. Logo, com o avanço das novas tecnologias, os blogs e os velhíssimos emais e as mensagens de texto serão exibidos nos museus. Que lógica é esta? Só se torna artístico – e se politiza – o que caduca e está “atrasado”. Esta iluminação do escritor e crítico argentino Ricardo Piglia, garimpada num texto que o Babelia publicou no último sábado, tem brilho tão intenso que provoca uma sensação de ofuscamento. Para dissipá-lo, seria necessário que Piglia desenvolvesse a ideia de que só pode haver arte no que é “atrasado” – o que ele, preso ao formato leve de um diário, não faz. Assim, resta-nos especular. Vê-se logo que não se trata, como pode parecer à primeira vista, de um…

Picaretagem indômita, ou como forjar um best-seller
Vida literária / 11/02/2011

Advertência: esta história é um conto amoral que diz mais sobre os mecanismos do sucesso editorial do que o estudo aprofundado das obras completas de Paulo Coelho. No fim do ano passado, aparentemente julgando prescrito seu crime, o veterano produtor de Hollywood Bob Rehme recordou um episódio pitoresco que vivera em 1969 como executivo da Paramount. Rehme estava encarregado de promover o filme “Bravura indômita” (True grit) – o primeiro, que valeu o Oscar a John Wayne e que não deve ser confundido com a obra dos irmãos Coen que estreia hoje nos cinemas brasileiros. Ocorre que a Paramount havia comprado os direitos do livro homônimo, de autoria de Charles Portis (no qual se baseiam os dois filmes e que está sendo lançado aqui pela Alfaguara), antes mesmo de sua publicação. Apostava num sucesso de vendas, sobre o qual erguera toda a estratégia comercial do filme: “baseado no best-seller” era uma frase fundamental nos cartazes. Mas, embora o livro tivesse colhido boas resenhas, o aguardado sucesso se recusava a vir. E agora? Fácil: aproveitando-se do fato significativo de que uma pequena fração da verba promocional à sua disposição era suficiente para comprar milhares de exemplares de qualquer livro do mundo…

Walser, Shakespeare e a importância de revisar
Vida literária / 09/02/2011

A notícia é excelente para a cultura brasileira, mas a tradução do escritor suíço Robert Walser (1878-1956) que a Companhia das Letras promete para o mês que vem – do romance “Jakob von Gunten”, de 1909 – não será a primeira na história deste país, não. A Arx lançou em 2003, com tradução de Zé Pedro Antunes, o romance “O ajudante” (Der Gehülfe, de 1908). O livro fez pouco barulho por aqui na época, mas hoje os exemplares que caem na Estante Virtual custam uma nota. É que de lá para cá, graças sobretudo a Enrique Vila-Matas e seu “Doutor Pasavento”, Walser – um cara genial e literalmente muito louco, de estilo personalíssimo, vida infelicíssima e bizarríssima mania de escrever a lápis em letras que tendiam ao microscópico, tudo no superlativo – virou nome-chave a ser citado por qualquer um que queira ser ou parecer um escritor cool nesta terra quente. Acredito que “cultuado” seja a palavra preferida pela imprensa cultural nesses casos. * Cai por terra o velho mito espontaneísta – especialmente caro aos escribas de nossa era internética – de que William Shakespeare, gênio do bate-pronto, nunca revisou seus textos, nunca reescreveu um verso, conseguindo ser genial de…

Uhu!!! Txt eh d+!!!!!
Pelo mundo / 07/02/2011

“Se estamos vendo um declínio nos padrões de letramento infantil, isso se dá apesar das mensagens de texto e não por causa delas”, afirma a psicóloga Clare Wood, da Universidade de Coventry, na Inglaterra, que conduziu nos últimos dez anos um estudo sobre o assunto com crianças de 8 a 12 anos. A conclusão de Wood (em inglês, acesso gratuito) aponta para o oposto daquilo que, nos últimos tempos, vem deixando pais e professores à beira de um colapso nervoso: não só a famigerada “linguagem” cheia de abreviações do MSN e dos torpedos não faz mal nenhum como, ora veja, faz bem! O estudo constatou que quem tc msg no cel o dia todo, entre abrax e bjusss, tem maior capacidade de escrita e leitura do que quem não faz isso. A revelação pode ser contraintuitiva, mas sou obrigado a dizer, com humildade, que não me surpreende nem um pouco. Há cerca de uma década, costumo tranquilizar leitores alarmados dizendo que, filosoficamente, não há diferença entre a notação cifrada da cultura virtual e a velha Língua do Pê. Em ambos os casos, trata-se de brincar com a língua, o que é uma forma de tomar posse dela, e criar um…

Escrever é… (segundo Nabokov, Bolaño, Duras etc.)
Pelo mundo / 02/02/2011

O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench): Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade. Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo…

Literatura brasileira com merchandising (III)
Sobrescritos / 31/01/2011

“Só agora Amaro acredita que a primavera chegou: de sua janela vê Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos, mais floridos do que nunca, nutridos que foram desde o outono pelo adubo Duchão – pensou fertilização, pensou Duchão.” * “Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido.” * “Levantai-vos, heróis do Novo Mundo… Andrada! arranca este pendão dos ares! Colombo! que chás espetaculares!” * “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral, essa gente que ainda não descobriu os poderes vivificantes do Tônico Maçaranduba.” * Leia também: Literatura brasileira com merchandising Literatura brasileira com merchandising (II)