Para quem, se é que existe esse alguém, ainda não viu o último sucesso viral do YouTube (mais de 814 mil acessos) nos arrabaldes da literatura, aí vai. Boa diversão e bom fim de semana a todos. httpv://www.youtube.com/watch?v=BuRuwR2JSXI
A vinda da argentina Pola Oloixarac (furo de Manya Millen e Miguel Conde no “Globo”) deixa a Flip 2011 mais bem servida de “musa” que a do ano passado, em que a cubana Wendy Guerra teve que quebrar o galho no papel. “Acho graça nesse negócio de ser bonita”, diz nesta entrevista a autora de “As teorias selvagens”. Fica mais engraçado ainda quando se sabe que o livro sairá aqui pela Benvirá, a mesma editora de Wendy. Um novo nicho de mercado? * Um conto inédito de Dashiell Hammett – para quem não sabe, o cara – vai ser publicado na edição da revista americana de mistério “Strand” que sai dia 28 de fevereiro. Chama-se So I shot him (Aí eu atirei nele). O zunzum é que é, redonda e acabada, a história de 12 páginas é boa demais, embora pertença a um lote de uma dúzia que o autor de “O falcão maltês”, morto há 50 anos, optou por não publicar nem em revistinhas pulp. * “O que se chama de experimental envelhece cada vez mais facilmente, ou se converte em algo tradicional, ou se incorpora aos usos normais. Há uma flexibilidade maior. Sempre houve uma enorme capacidade de…
Este artigo de Laura Miller no “Guardian” (em inglês, acesso gratuito) é o melhor que leio em muito tempo sobre o (já) velho tema do impacto que o mundo digital exerce sobre a literatura. Uma das fundadoras da revista eletrônica Salon.com e jornalista de prosa fina, Miller parte de E unibus pluram, o famoso ensaio de David Foster Wallace sobre TV x ficção – do qual traduzi um naco e tanto aqui no blog, em três partes, no fim do ano passado – para especular se os autores de “literatura séria” serão forçados, pelo que o meio tem de específico, a enfocar a internet em suas obras de uma forma que nunca enfocaram a televisão, isto é, como uma das vigas mestras do “Modo como vivemos hoje”. Longo e cheio de boas tiradas, o artigo aposta que sim e diz que isso já começa a ocorrer, citando entre outros os últimos trabalhos de Jonathan Lethem, Gary Shteyngart e Jennifer Egan – este, A visit from the goon squad, recém-nomeado finalista do prêmio do National Book Critics Circle. Abaixo, alguns trechos do artigo de Miller: …o romancista americano é acossado por dois imperativos cada vez mais contraditórios. O primeiro decorre da…
Sincronicidade na era digital: enquanto sai pela Penguin-Companhia uma nova e caprichada edição da tradução que fiz há muitos anos (para a extinta Lacerda Editores) de “O emblema vermelho da coragem”, o clássico de Stephen Crane sobre a Guerra Civil Americana, é publicado na Espanha – como me informa a resenha empolgada de Vicente Molina Foix no “Babelia” – um romance do ótimo escritor americano Edmund White que havia me escapado ao sair em inglês, em 2007. Trata-se de Hotel de Dream, que recria ficcionalmente a morte precoce de Crane, aos 29 anos, de tuberculose. Corro para o Kindle e, trinta segundos depois, estou lendo o livro, que até agora escapou também às editoras brasileiras. Ainda estou no capítulo 5, mas já posso declarar que se trata de delícia pura. A caricatura que White faz do afetado Henry James, amigo de Crane, já vale o ingresso. Algo me diz que vou voltar a esse assunto. * “O conto não está passando por um renascimento. Nossa recente e tão discutida saturação contística do mercado não tem a ver com nenhuma devoção real ao gênero. A situação existe porque os muitos escritores que treinamos simplesmente não sabem escrever nada além de contos.”…
Sempre recusei convites para ser jurado de concursos literários (a brincadeira da Copa de Literatura Brasileira era até agora a única exceção). No fim do ano passado, porém, por razões de amizade, disse sim a uma dessas propostas e logo me vi enfiado até o pescoço na tarefa de ler, e ler criteriosamente, quase mil contos em menos de dois meses. A experiência não é algo que eu deseje a ninguém, nem a – eventuais, ainda que ignorados – inimigos. Das coisas que esse trabalho tem me feito pensar, a mais inquietante é uma espécie de equivalente literário do Princípio da Incerteza de Heisenberg, aquele que enuncia a impossibilidade de medir ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula subatômica, uma vez que a medição altera a realidade observada. De modo análogo, poderíamos formular aqui o Princípio da Incerteza de Rodrigues, que enuncia a impossibilidade de medir talentos em concursos literários. Se você é um jurado ético e preocupado com a justiça dos seus pareceres, como não se angustiar com os efeitos danosos que exercem sobre sua fruição de leitor o ritmo acelerado e nada natural do trabalho, o embotamento advindo da pura quantidade e a irritação…
Você esperaria que a biblioteca da casa de Michael Jackson tivesse um ar de livraria especializada em literatura infantil, pode confessar – entre volumes esparsos, muitos pufes, estantes em cores vivas e um boneco maior-que-a-vida de Peter Pan ou Winnie the Pooh, por aí. Nada disso: como se vê na foto ao lado, a biblioteca do chamado Rei do Pop era um templo aristocrático dedicado ao recolhimento e à intensa atividade intectual. O mesmo se pode dizer, com algumas variações, das impressionantes bibliotecas do estilista Karl Lagerfeld (cujos volumes são curiosamente dispostos na horizontal), do cineasta Woody Allen, da estrela televisiva Oprah Winfrey, da diva Greta Garbo etc. – fotos que podem ser conferidas aqui, no link da “Flavorpill”. E daí, pode perguntar um leitor mal-humorado, aonde este post pretende chegar? A lugar nenhum – a não ser, talvez, ao velho e sensato lugar da busca de inspiração, num momento em que o blogueiro, de casa nova, luta para acomodar seus quase três mil volumes num arranjo menos parecido com o depósito de um sebo decadente. Mas não deixa de ser agradável saber que as celebridades encontram tempo, ao fim de seus dias presumivelmente atarefados de celebridade, para sentar na…
Quem disse que tudo na internet é rapidinho e superficial? São mais de quarenta minutos de papo franco (com alguma dose de timidez dos dois participantes, o que até ajuda) sobre literatura, dos aspectos técnicos aos éticos, deixando de fora os teóricos; a admiração de ambos por David Foster Wallace e James Baldwin; a ficção como exercício de imaginação do Outro; o esgotamento artístico do relativismo moral, também conhecido como a necessidade de resgatar as noções de certo e errado; literatura negra, literatura judaica, literatura só: a conversa de Zadie Smith e Nathan Englander (em vídeo, sem tradução) num evento beneficente em Nova York, mês passado, é um banquete farto proporcionado por duas estrelas da nova ficção anglófona: a autora inglesa de “Sobre a beleza” e o autor americano de “Para alívio dos impulsos insuportáveis”. Vale separar o tempo que a festa consome – e ter paciência com o baixo volume do áudio. (Via The Elegant Variation.)
Se quiséssemos lançar mão de categorias romanescamente tão rasas quanto aquelas que ajudam a estruturar sua visão de mundo, poderíamos dizer que Freedom, o novo e superaclamado livro de Jonathan Franzen, é um romance democrata no conteúdo e republicano na forma. Isso seria um pouco injusto, mas só um pouco – na medida exata em que, políticas ou não, todas as metáforas que buscam dar conta do atacado passam por cima do que as contraria no varejo. Como ocorre o tempo todo no livro, aliás. Franzen é um romancista saudoso de um tempo pré-modernista (mítico?) em que a grande ficção desempenhava na sociedade um papel central, ideologicamente estruturador. Seus livros não são apenas bons de ler, cheios de humor e peripécias, mas se pretendem espelhos críticos e mais ou menos realistas do mundo, em diálogo com a tradição narrativa do século 19. O fôlego das histórias é épico e a construção dos personagens e de seu ambiente tenta se expandir tanto para dentro quanto para fora – tanto na dimensão psicológica quanto na social, com um interesse cujo foco, na verdade, não se encontra nem num plano nem no outro, mas em sua interseção. As comparações com Leon Tolstoi que…
A Copa de Literatura Brasileira, o mais divertido, democrático e desencanado dos prêmios literários nacionais, está de volta. Abertamente inspirada na competição americana Tournament of Books, a brincadeira foi lançada em 2007 com regras de torneio esportivo: os livros se enfrentam aos pares em esquema de mata-mata, cada partida decidida por um único juiz, até a final em que todos os árbitros votam. Houve três edições consecutivas, vencidas respectivamente por Assis Brasil, Cristovão Tezza e Carola Saavedra. Ano passado, porém, silêncio – a Copa parecia ter se tornado mais uma vítima do ambiente efêmero da internet. Felizmente, foi apenas um hiato que a tabela deste ano, recém-divulgada, dá um jeito de compensar: os 16 títulos concorrentes foram eleitos entre os lançamentos de 2009 e 2010. Liderados pelo economista e preparador editorial Lucas Murtinho, os organizadores prometem que o resultado da primeira partida sairá no dia 28 de fevereiro. Nessa data, juntamente com o anúncio do vencedor, será publicada a resenha de justificativa do voto e estará aberta a temporada de comentários dos leitores, que em certos momentos dos anos anteriores atingiram níveis polêmicos de virulência. De modo geral, é quando começa para valer a diversão – ou o estresse, ou…
O critério quantitativo tem limitações severas, como provam as vendas do padre Marcelo Rossi, mas é o que costuma ser usado para medir índices de leitura. Por ele, o Brasil vai passando nos últimos tempos do péssimo ao muito ruim, obrigado, com 4,7 livros lidos por habitante/ano, segundo o último – e talvez um tanto otimista – levantamento oficial, divulgado ano passado. Fora da frieza indiferenciada dos números se estende o mundo inteiro. Nessa região confusa, pode-se ficar triste ao descobrir que “Pornopopéia”, de Reinaldo Moraes, o grande injustiçado entre os romances nacionais de 2009 na recente rodada de premiações literárias (não levou nada), vendeu apenas 3.500 exemplares – teto habitual e medíocre da ficção nacional. E também se pode ficar intrigado, como Joan Acocella na “New Yorker”, com o sucesso da trilogia “Millennium”, do sueco Stieg Larsson, que se tornou um arrasa-quarteirão mundial apesar de seus muitos defeitos: …há violações flagrantes de lógica e consistência. (…) As piadas não têm graça. O diálogo não podia ser pior. O fraseado e o vocabulário são consistentemente banais. Um espírito mais afeito ao cinismo diria que a série de Larsson vendeu justamente por isso, e não apesar disso, mas para tais camadas…
K. é um jovem (na casa dos 40) e bem-sucedido escritor de língua alemã que vive em Buenos Aires com a mulher e a filha pequena, num apartamento tão amplo, belo e cinematográfico que não dispensa sequer um elevador de porta pantográfica que parece saído de “O bebê de Rosemary”. Eu não conheço K., nunca o encontrei, de modo que não saberia começar a explicar por que um jovem e bem-sucedido escritor suíço de língua alemã elegeu a capital argentina para viver, mergulhado num idioma que ele próprio – assim me dizem – não fala direito. Sequer li K., que jamais foi traduzido no Brasil e de quem ouvi falar apenas agora, já hospedado em sua casa, tornada imensamente vazia pelas férias africanas da família – sim, folheei alguns de seus livros na biblioteca, junto à lareira extemporânea, mas aqueles tomos podiam estar escritos em grego. Apesar de toda essa distância linguístico-existencial, a hospitalidade de K., por meio de amigos comuns, contribui decisivamente para tornar memorável minha passagem de ano portenha, entre dias que parecem querer competir com a temperatura dos ojos de bife fumegantes que alimentam meu corpo e noites frescas em que o vinho tinto torna-se subitamente inadiável…
– Tu tuíta? – Tuíto, e tu? – Tuíto, too. Publicado em 12/1/2010.
…dá tempo de comentar a eleição do livro do ano na Espanha por um time de críticos reunido pelo caderno “Babelia”, do jornal espanhol “El País”: ganhou “Verão”, de J.M. Coetzee, um híbrido de romance e memória que também por aqui foi acolhido generosamente. O livro, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, não me agradou muito, como expliquei aqui num post de julho, mas teve inúmeros defensores – Michel Laub foi só um deles. Seja como for, é muito melhor ler sobre a vitória do escritor sul-africano do que ser informado de que “Psicopata americano”, de Bret Easton Ellis, vai virar musical da Broadway. Bem que o ano podia ter acabado sem essa.
Terceira e última parte do trecho de um ensaio de David Foster Wallace, tradução minha. Na verdade, a postura de tédio anestesiado e sem expressão – aquilo que um amigo meu chama de cara-de-garota-que-está-dançando-com-você-mas-obviamente-preferia-estar-dançando-com-outra-pessoa” – que se tornou a versão da minha geração para o cool tem tudo a ver com a TV. “Televisão”, afinal, significa literalmente o ato de “ver longe”; e nossas seis horas diárias não só nos ajudam a sentir proximidade e envolvimento pessoal com os Jogos Pan-Americanos ou a Operação Escudo do Deserto como, inversamente, nos adestra para lidar com aquilo que é realmente pessoal e próximo da mesma forma que lidamos com o distante e o exótico, como se estivesse separado de nós pela física, por uma chapa de vidro, válido apenas como performance, aguardando nossa resenha cool. A indiferença é na verdade, para os jovens americanos, apenas a versão anos 90 da frugalidade: cortejados muitas deliciosas horas por dia em troca de nada além de nossa atenção, consideramos tal atenção nossa principal mercadoria, nosso capital social, e relutamos em gastá-la. Da mesma forma, considere-se que, nos anos 90, a neutralidade apática e a postura cínica tornaram-se formas claras de transmitir a atitude televisiva de…
Segunda parte do trecho de um ensaio de David Foster Wallace, com tradução minha. Eu já afirmei – por enquanto de maneira um tanto vaga – que o que torna a televisão tão resistente às críticas da nova Ficção da Imagem é o fato de que ela cooptou as formas distintivas da própria literatura cínica, irreverente, irônica e absurdista do pós-Segunda Guerra que os novos Imagistas usam como pedras de toque. Ocorre que a reciclagem, pela TV, do cool pós-moderno evoluiu como uma solução inspirada para o problema de manter-João-ao-mesmo-tempo-alienado-da-e-integrado-à-multidão-de-um-milhão-de-olhos. A solução implicou uma gradual mudança de expressão, do excesso de candura para uma espécie de irreverência de menino mau, na Grande Face que a TV nos exibe. Isso por sua vez refletiu uma transformação mais ampla na percepção americana sobre como a arte deve funcionar, uma transição da arte como representação criativa de valores reais para a arte como rejeição criativa de valores fajutos. E essa transformação mais ampla, por seu lado, caminhou em paralelo ao desenvolvimento da estética pós-moderna e a certas mudanças graves e profundas no modo como os americanos optaram por encarar conceitos como autoridade, sinceridade e paixão em termos de nosso desejo de satisfação. Não…
Como presente de Natal aos leitores do Todoprosa, publico esta semana, em três partes, o trecho de um longo e brilhante ensaio de David Foster Wallace sobre as relações entre a televisão e a nova ficção americana que traduzi para a revista “Serrote” – e que teve apenas um pequeno naco aproveitado. O ensaio integral, E unibus pluram, encontra-se na coletânea A supposedly fun thing I’ll never do again, ainda não lançada no Brasil. O presente trecho foi batizado pelo próprio DFW de “A aura da ironia” e contém seu argumento central: o de que a ironia da ficção pós-moderna foi apropriada e esvaziada pela TV. Certos nomes de atrações televisivas à parte, o texto parece-me não ter envelhecido substancialmente desde os anos 90, quando o ensaio foi escrito. Espero que o aperitivo sirva de estímulo a quem quiser correr atrás do livro em inglês (disponível aqui) ou a editoras que se disponham a lançar a obra no Brasil. É fato amplamente reconhecido que a televisão, com sua bateria de estatísticos e pesquisadores de aros de tartaruga, sai-se terrivelmente bem na tarefa de discernir padrões no fluxo das ideologias populares, absorvendo-os, processando-os e em seguida reapresentando-os como estímulos para assistir…

