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David Foster Wallace (1962-2008)
NoMínimo / 14/09/2008

Essa página do “Los Angeles Times” reúne algumas entrevistas de David Foster Wallace disponíveis no YouTube – imagens que estão destinadas a serem vistas e revistas pelos fãs em busca de uma inexistente “explicação” para o fato de o escritor americano de 46 anos, um dos mais festejados de sua geração, ter se enforcado em sua casa na sexta-feira. Se David Foster Wallace já era um tipo de escritor que, mais que leitores, tinha seguidores, adeptos, conversos, o culto a seu nome deve ter vida longa garantida pelas circunstâncias de sua morte. Seu único livro lançado no Brasil é a coletânea de contos “Breves entrevistas com homens hediondos” (Companhia das Letras, 2005). O romance que o transformou numa estrela da nova literatura americana dos anos 90, Infinite Jest, permanece inédito por aqui. Talvez por ser um tijolo de mais de mil páginas, ou quem sabe pelo mesmo motivo que, antes da página cem, me levou a abandonar – ou adiar para um futuro indeterminado, o que dá no mesmo – sua travessia: dono de um talento inegável, exuberante, Wallace era tão apaixonado por sua própria voz que fazia da auto-indulgência uma arte. Há quem goste, mas, definitivamente, sou de outra…

Começos (ainda) inesquecíveis: Antonio Tabucchi

Quando morre um poeta, todos choram. Post publicado em 12/11/2006. * Antes tenho de fazer a barba, disse ele, não quero ir ao hospital com uma barba de três dias, por favor, vá chamar o barbeiro, mora na esquina, é o senhor Manacés. Mas não temos tempo, senhor Pessoa, replicou a zeladora, o táxi já está na porta, seus amigos já chegaram e estão à sua espera na entrada. Não importa, respondeu ele, sempre há tempo. Ajeitou-se na poltronazinha onde o senhor Manacés habitualmente lhe fazia a barba e pôs-se a ler as poesias de Sá-Carneiro. O singelo início da novelinha “Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, do italiano Antonio Tabucchi (Rocco, tradução de Roberta Barni, 1996), talvez não seja memorável para qualquer um. É para mim. E o que vem em seguida não é menos: no hospital, Pessoa é visitado por um séquito de heterônimos antes de morrer.

Seu bolso
NoMínimo / 11/09/2008

O conto A fruta por dentro, inédito em livro, que publiquei na “piauí” deste mês, está com acesso livre no site da revista.

O prémio do António
NoMínimo / 10/09/2008

Quem levantou a bola foi o Pedro Curiango, leitor das antigas aqui do blog: o prêmio Juan Rulfo concedido ontem ao escritor português António Lobo Antunes teve até agora na imprensa brasileira um tratamento semelhante ao da morte de Luciana Stegagno Picchio – algo que talvez se possa chamar de escola Bartleby de jornalismo, eufemismo para essa indiferença espessa, bovina, que vai transformando nossa imprensa cultural num mero puxadinho das seções de celebridades. É possível que aquele meu pesadelo recorrente – um mundo pautado, iluminado, fotografado e paginado à semelhança da revista “Caras” – tenha, mais uma vez, me levado a acordar apocalíptico. Peço desculpas se estiver cometendo alguma injustiça, mas o que encontrei nas folhas que percorri hoje foi um bruto silêncio. Um silêncio confirmado pelo Google, que traz incontáveis páginas sobre o fato. Todas da imprensa e da blogosfera de Portugal (com uma única exceção para confirmar a regra). E, na boa, ainda que um ou outro escriba brasileiro tenha repicado a notícia, o resultado até o momento é, na melhor das hipóteses, anoréxico. Sim, óbvio: o Todoprosa também silenciou ontem, mas ele tem um álibi – notícia nunca foi o negócio do blog. Quando se divulga algo…

Luciana Stegagno Picchio (1920-2008)
NoMínimo / 10/09/2008

Luciana nos deu uma “História da Literatura Brasileira”; o Brasil retribuiu com um silêncio ensurdecedor na hora de sua morte, em 28 de agosto. Soube da notícia por um leitor do blog de Luis Nassif e, na rede, há o emocionado texto da professora Vera Lúcia de Oliveira, que ensina na Itália. Em Portugal, o presidente Cavaco Silva pronunciou-se oficialmente lembrando seu papel para a cultura portuguesa. E eu, mais atrasado ainda, só soube agora, por esse post no blog-por-um-mês que o editor e escritor Paulo Roberto Pires está tocando no site da revista “Bravo!”, que morreu a professora italiana Luciana Stegagno Picchio, apaixonada organizadora da poesia completa de Murilo Mendes e uma das maiores divulgadoras da literatura de língua portuguesa na Europa. Sua “História da Literatura Brasileira”, lançada nos anos 70 na Itália e, revista, publicada aqui em 1997 numa bonita edição da Nova Aguilar, é um livro que vale a pena conhecer. Não por conter análises originais, que nunca foram seu objetivo, mas por uma ambição de dar conta de tudo, todos os séculos e escolas, em apenas 744 páginas – algo que talvez só um estrangeiro pudesse ousar. O silêncio em torno da morte de Luciana no…

Sinais dos tempos
NoMínimo / 09/09/2008

Você sabe que as coisas estão mudando depressa quando… A TV Record anuncia que vai adaptar contos de Machado de Assis e Guimarães Rosa. A relação dos seis finalistas do Booker Prize não inclui o último livro de Salman Rushdie. Uma mulher jovem (que já andou flertando com a censura de livros) é a grande esperança do velho obscurantismo americano.

‘The eternal son’
NoMínimo / 08/09/2008

Cristovão Tezza emplacou um capítulo de seu romance “O filho eterno” (Record), favorito deste blog para ganhar o Portugal Telecom, na revista eletrônica americana Words Without Borders, em caprichada tradução da australiana Alison Entrekin. A WWB é a maior referência em literatura não anglófona na web. Gostei de ver que o capítulo traduzido, o quarto, é o mesmo que eu escolhi para apresentar o livro aos leitores do Todoprosa na época do lançamento, há pouco mais de um ano. Quem ainda não conhece pode ler o original aqui.

Começos (ainda) inesquecíveis: Jorge Amado

Cada qual cuide de sua memória. Post publicado em 1/4/2007: * Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo). E já que andamos falando por aqui de novela, que a preferência do mercado editorial por romances anda transformando numa espécie de “formato que não ousa dizer seu nome”, eis o começo da pequena obra-prima “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, novelinha lançada em 1958 por Jorge Amado (Record, 41a edição,…

Google
A palavra é... / 06/09/2008

Google é uma daquelas marcas registradas que, de tão integradas à vida cotidiana, acabam fatalmente perdendo a inicial maiúscula e caindo na linguagem comum. Os substantivos gilete, chiclete e xerox são bons exemplos dessa transformação. Em inglês, o verbo to google – procurar uma informação por meio de um mecanismo de busca na rede mundial de computadores – teve ascensão vertiginosa nos primeiros anos do século 21, espelhando a da própria empresa. Em 2006, ganhou a bênção do dicionário Oxford. Imaginar que os donos de uma marca adotada pela linguagem comum encarem o fenômeno como uma espécie de consagração pode ser prova de ingenuidade. Por meio de seu departamento jurídico e em campanhas junto aos usuários, o Google tem se esforçado para que o verbo to google só seja usado se a ferramenta de busca for mesmo… o Google. Perda de tempo, claro. Desde sua fundação, em 1998, a empresa que agora lança seu próprio navegador tornou-se uma superpotência da economia digital, mas seu poder certamente não se estende à língua. O novo verbo tem sido lento em sua penetração no português, provavelmente devido ao exotismo de grafia e pronúncia. Embora não seja rara, a forma googlar – ou mesmo…

Marketolândia
NoMínimo / 05/09/2008

O blog de livros do “Guardian” informa (em inglês, acesso gratuito) que a escritora americana Lynn Brittney está oferecendo um prêmio de 5 mil dólares a quem apresentar a melhor idéia de enredo para seu segundo romance – que terá os mesmos personagens do primeiro, uma história de Natal infanto-juvenil. Além do prêmio, o feliz ganhador do concurso também terá direito a ver seu nome na capa do novo livro (o tamanho da letra não é mencionado no regulamento). Ah, sim: junto com o resumo de sua história, cada concorrente precisa apresentar uma prova de que comprou o primeiro livro de Lynn Brittney. Pegar emprestado não serve. Assim todos ganham, não é mesmo? Na boa, deviam dar um prêmio para essas coisas.

Quando o Portugal Telecom encontra o Jabuti
NoMínimo / 03/09/2008

A lista dos dez finalistas do Prêmio Portugal Telecom, o mais importante da literatura no país, divulgada ontem à noite, inspira um exercício meio besta, mas quem sabe interessante: cruzá-la com a lista dos dez romances finalistas do Jabuti, também publicada recentemente. Se a convergência dos juízos críticos ainda tem algum valor nesses tempos de pulverização, talvez não seja descabido ver na – magra – área de interseção dos dois conjuntos o território de um certo favoritismo. Apenas três romances lançados no Brasil em 2007 constam das duas relações: “O filho eterno”, de Cristovão Tezza; “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho; e “Antonio”, de Beatriz Bracher. Só o último, que não li, traz alguma dose de surpresa. Os outros dois, sobretudo o magnífico romance de Tezza, são obrigatórios em todas as listas formais ou informais que tenho visto. Como eu disse, o exercício é meio besta, inclusive por comparar coisas que não são inteiramente comparáveis. O Portugal Telecom se pretende um prêmio da lusofonia (embora apenas os gatos pingados Lobo Antunes, português, e Ondjaki, angolano, estejam lá para confirmar a tese) e joga no mesmo balaio poesia, contos e romances. O Jabuti se multiplica – ou…

Filosofia da (de)composição
NoMínimo / 02/09/2008

Esses dias, enquanto tento pôr um ponto final na narrativa mais longa que já escrevi, tem me vindo à cabeça – ou o pouco que resta dela a essa altura do processo de escrever um romance – a questão da extensão, da duração supostamente ideal dos textos literários. Aquilo que Edgar Allan Poe quantificou com segurança admirável no caso da poesia em torno de cem versos. E fez “O corvo” com 108. Tudo bem, mas – e a prosa? Cem linhas? No mesmo ensaio, o brilhante “A filosofia da composição”, ao qual nunca me canso de voltar, Poe admite que em certos casos (ele cita “Robinson Crusoé”) a prosa pode tirar proveito da longa extensão. Mas acrescenta que isso seria vedado à poesia, que a seu ver sempre perde ao abrir mão da “totalidade ou unidade do efeito” advinda da leitura que se faz de uma só tacada, sem interrupção. Eis enfim a medida de Poe: a capacidade de leitura do leitor. Para o escritor americano, essa capacidade pode ser esticada, pois textos excessivamente curtos reverberam pouco, mas jamais rompida, uma vez que textos longos demais precisam ser lidos em várias etapas e isso atenua seu efeito geral. Aí estaria…

No papel
NoMínimo / 01/09/2008

Com os “Sobrescritos” momentaneamente fechados para balanço, quem aparecer por aqui atrás de ficção pode recorrer à revista “piauí”. A edição de setembro, que chegou às bancas no fim de semana, traz um conto meu chamado A fruta por dentro.

Começos (ainda) inesquecíveis: Albert Camus

Logo depois de seu primeiro aniversário (hoje está perto de completar dois anos e meio), o blog zerou uma dívida importante. Post publicado em 23/5/2007: * Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1942 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

Candidato
A palavra é... / 30/08/2008

A palavra “candidato” vem do latim candidatus, termo derivado do adjetivo candidus, que significa, segundo o Houaiss, “branco, alvo, cândido; vestido de branco; radioso, brilhante; belo, formoso; sereno; feliz, ditoso”. Embora todo esse leque de conotações positivas fosse obviamente bem-vindo, o sentido de candidatus nasceu literal: queria dizer apenas vestido de branco. Aqui estamos na fronteira entre a política e a moda: na Roma Antiga, os aspirantes a qualquer cargo público só se apresentavam diante dos eleitores metidos em togas imaculadamente alvas. O costume, tão arraigado que passou a nomear os próprios políticos em campanha, foi analisado da seguinte forma no início do século 18 por Rafael Bluteau, em seu Vocabulário Português e Latino, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa: “Candidato – Assim chamavam antigamente em Roma àqueles que pretendiam ser eleitos às dignidades, porque estes tais vestiam de branco, como se quisessem mostrar a candideza do seu ânimo na sua pretensão, dirigida só ao bem público; ou também porque queriam dar a entender que não fundavam nos seus merecimentos, mas na bondade e virtude dos que haviam de eleger, o sucesso da pretensão.” Já começado o século 21, Márcio Bueno, autor de A origem curiosa das palavras, acrescentou…

Patos em extinção
NoMínimo / 28/08/2008

Sabemos que uma era geológica mental está chegando ao fim quando a revista do “Zio Paperone” (Tio Patinhas) deixa de ser publicada na Itália, um de seus maiores santuários – mote para a contextualização assinada por Marcus Ramone no site Universo HQ: Ainda é cedo para afirmar que Donald, Tio Patinhas, Pateta, Mickey e demais personagens clássicos cairão de vez no limbo, preteridos por criações contemporâneas da Disney – incluindo as egressas dos desenhos animados 3D. Mas o número de cancelamentos de suas revistas vem acontecendo em um ritmo muito maior do que se imagina. Em Portugal e em quase toda a América Latina, outrora contumazes mercados consumidores dessa turma, os personagens já não são mais publicados. E os exemplos continuam. Por muito tempo populares no Egito e em outros países do Oriente Médio, os gibis Disney retornaram àquela região em 2005, após dois anos fora de circulação. Mais de dez títulos foram lançados na época, dos quais apenas quatro conseguiram sobreviver aos novos cancelamentos (um deles, para o público feminino, mostra somente as aventuras de Branca de Neve, Aurora, Bela e outras – as Princesas, que vêm fazendo sucesso no mercado de licenciamento ao redor do mundo). Quando a…

L’Éducation Digitale
NoMínimo / 27/08/2008

Quanto mais experiência eu ganho em minha arte, mais ela me atormenta. O problema é que a imaginação fica estacionada enquanto o gosto amadurece. Poucos homens, eu creio, terão sofrido tanto quanto eu pela literatura. POSTED BY GUSTAVE FLAUBERT, 4 NOVEMBER, 1857 Se George Orwell conseguiu virar blogueiro 58 anos depois de morto, por que não?