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Verão
A palavra é... / 11/01/2008

Estação brasileira por excelência, eixo em torno do qual giram, nesta terra bronzeada, os sonhos de lazer e as engrenagens de indústrias como as da moda, do turismo e da boa forma, o verão parece tão essencial e eterno quanto a própria natureza. Engano. As estações como as conhecemos se firmaram em nossa língua a partir do século 16, semeando confusão por todo o 17 e vitimando, no início do 18, o primeiro grande dicionarista da língua portuguesa, Rafael Bluteau, que abre assim seu verbete Verão: “Querem alguns que essa palavra signifique Primavera”. Acontece que antes disso, quando era comum encontrar o verão na grafia ueerãão, a divisão das estações não estava consolidada num sistema científico em torno de dois equinócios e dois solstícios – momentos em que o Sol está respectivamente mais próximo e mais distante da linha do Equador – mas fundada em percepções empíricas. Isso fazia com que, no castelhano, em que tais palavras se firmaram primeiro, as fases do ano fossem cinco, segundo o filólogo catalão Joan Corominas. Nessa conta torta, a metade do ano correspondente ao calor e ao “bom tempo” se dividia em três segmentos: primavera (do latim primo + vere, o primeiro bom…

As razões de Orhan Pamuk
NoMínimo / 09/01/2008

Já que a pergunta “por que você escreve, escritor?”, mote de um pequeno conto (ou coisa que o valha) na nota anterior, parece ter furado um inesperado veio de polêmica entre os leitores do Todoprosa, cai bem lembrar um trecho marcante do discurso do turco Orhan Pamuk (aqui em inglês) na cerimônia do Nobel de 2006 – mais tarde publicado em forma de livreto pela Companhia das Letras, ao lado de dois outros discursos do homem, com o título “A maleta do meu pai”. A releitura desse trecho me levou a duas constatações, a primeira óbvia, a outra nem tanto: o jornalismo glória-maria não é exclusividade do Brasil; é possível, sim, levar a sério essa “pergunta de mil respostas”, de preferência enumerando, como Pamuk, uma infinidade de razões parciais em que a força do conjunto e de certos achados parece ter o poder de anular a banalidade dos lugares-comuns que lá vão de cambulhada. Aproveitem: A pergunta que, com maior freqüência, é dirigida a nós, escritores, a pergunta favorita, é: por que vocês escrevem? Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever. Escrevo porque não posso ter um trabalho normal como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros iguais…

As razões
Sobrescritos / 07/01/2008

Ele perguntou a ela por que ela escrevia e ela respondeu que escrevia porque tinha vontade, e ele falou, muita gente tem vontade, vontade não basta, e ela disse mas então você está me perguntando como eu consigo escrever, é isso?, e ele ficou em dúvida e ela, eu achei que você tinha perguntado por que eu escrevo e não como eu faço para escrever o que eu escrevo, aí ele ficou um tempo em silêncio e depois riu e disse tá certo, touché, então ela olhou para baixo e notou que ele estava se assanhando outra vez, ah, a juventude, tocou nele e disse, como se fosse um eco na caverna, touché, e pronto, começaram tudo de novo, e só bem mais tarde, de madrugada, o apartamento já quase sem provisões, quando estavam bebendo o vinho velho que ela tinha separado para cozinhar e sorvendo por um buraco na lata o leite condensado encontrado por milagre no fundo da despensa, aquela mistura sensacional de caldo ultradoce e vinho avinagrado, mas um bom vinho avinagrado, chileno, só então ela disse, com os olhos bem encaixados nos dele, eu escrevo porque isso faz homens bonitos e gostosos que nem você gostarem…

O dostoievskiano Sr. C.
NoMínimo / 04/01/2008

O ótimo crítico James Wood discorre (em inglês) sobre Diary of a bad year, de J.M. Coetzee (Señor C é o personagem principal do livro, alter ego do autor): No último verbete do romance, “Sobre Dostoiévski”, Señor C escreve: “Li mais uma vez ontem à noite o quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, o capítulo em que Ivan devolve seu ingresso para o universo que Deus criou, e de repente me vi soluçando incontrolavelmente.” Não é o poder da argumentação de Ivan, diz ele, que o arrebata, mas as “entonações da angústia, a angústia pessoal de uma alma incapaz de suportar os horrores deste mundo”. Podemos ouvir a mesma nota de angústia pessoal na ficção de Coetzee, mesmo que essa ficção sustente que não está nos oferecendo uma confissão, mas apenas a representação de uma confissão. Seus livros fazem todos os barulhos pós-modernos corretos, mas a força deles repousa na relação atônita que mantêm com uma tradição mais antiga, dostoievskiana, em que sentimos a marca do autor confessional, por mais recôndita e velada que seja. O texto, que faz uma análise brilhante do Formidável – mas sempre um tanto Enigmático – Sr. C., é leitura recomendável para…

Palavras Sem Fronteiras
NoMínimo / 03/01/2008

A excelente revista eletrônica americana Words Without Borders se dedica à tradução para o inglês de escritores do mundo inteiro. Mereceria uma recomendação aqui de qualquer jeito, mesmo que a edição de janeiro de 2008, “Os sete pecados mortais”, não trouxesse um conto meu (brilhantemente traduzido por Fernanda Abreu), The Man Who Killed the Writer.

Pequim/Beijing
A palavra é... / 31/12/2007

Os Jogos Olímpicos de 2008 serão disputados em Pequim ou em Beijing? Esta promete ser a questão lingüística mais candente do ano que vai começar. Como no caso Birmânia/Mianmar, já abordado aqui, um lado acusa o outro de estar “errado”, mas pouca gente sabe por que pensa assim. Não cabe falar em “erro”, mas em opção. A minha é pela forma consagrada em português há séculos – Pequim. A semelhança com a polêmica birmanesa é superficial. Para que Pequim se visse transmudado em Beijing (e Cantão em Guangzhou, Hong-Kong em Xianggang etc.), não houve a criação de um novo nome. Deu-se apenas, em 1979, a adoção pela República Popular da China – mas não por Taiwan (Formosa) – de um novo sistema de romanização, ou seja, de transliteração do mandarim para o alfabeto latino: o sistema Pinyin. A intenção era boa: acabar com a sopa de letrinhas que corria o mundo. Muitos sistemas vigoraram ao longo da história. O mais influente foi o de Wade-Giles, criado no século 19 e dedicado à anglicização, à adaptação para o inglês, que deu em Peking. (O português nada deve a ele. Pequim já era Pequim desde as grandes navegações.) Ocorre que país algum…

Que tal uma lista de piores listas?
NoMínimo / 29/12/2007

“Estes são os autores americanos mais importantes de todos os tempos”, proclamou há alguns Natais a revista francesa Lire: “Raymond Chandler, Faulkner, John Fante”. Há poucas semanas, Michel Tournier (que não tinha até agora reputação de idiota) elegeu como livro do ano em The Times Literary Supplement o novo romance de Amèlie Nothomb, Ni d’Eve ni d’Adam, que já havia proposto, naturalmente sem sucesso, para o Prêmio Goncourt. Em certo jornal italiano, um célebre crítico de cujo nome não quero me lembrar coroou como melhor livro de 2007 a obra completa de Dario Fo, “o Shakespeare do século 20”, juízo que, se exato, faria de Shakespeare o Dario Fo do século 17. “Sobre gostos não há nada escrito”, escreveu alguém que nunca abriu um suplemento literário. Oscar Wilde argumentou que fazer listas do que se deve ler é uma tarefa inútil ou perniciosa, uma vez que um autêntico apreço pela literatura é sempre questão de temperamento e não pode ser ensinado. Propôs, em vez disso, listas do que não se deve ler: as obras teatrais de Voltaire, a Inglaterra de Hume, a História da filosofia de Lewes… Seguindo seu exemplo, Mark Twain opinou que a melhor forma de começar uma…

Para fechar um bom ano: leituras, desleituras etc.
NoMínimo / 27/12/2007

Flowerville é um condomínio de luxo, com arquitetura e infra-estrutura modernas, mas comandado por senhor que age como um grande patriarca, um caudilho. O empreendimento só foi possível por causa de uma escusa troca de favores feita durante o governo militar, lembrando de como o capital no Brasil esteve vezes demais ligado ao Estado. Essa mistura de moderno e antigo integra toda a narrativa e, apesar do esforço da cúpula de Flowerville em continuar “saltando à frente” e ignorar os problemas ainda abertos, é o passado que ditará os rumos do enredo. A epígrafe do livro sobre a “máscara de puro sonho” é tirada da série de quadrinhos Sandman, de Neil Gaiman. Mais do que uma citação, a referência simultânea aos quadrinhos e ao universo onírico é incorporada profundamente na linguagem e na história. O grotesco e o absurdo não aparecem como uma exceção, mas como parte do modus operandi de Flowerville. Mais uma vez, tal como a mistura do moderno e arcaico, essa é uma abordagem que serve muito bem para o Brasil em geral, um lugar em que, hora ou outra, recebem-se notícias como uma adolescente encarcerada com homens. Enfim, o absurdo é produto da nossa “maquinaria nacional”,…

Mais um conto de Natal
NoMínimo / 24/12/2007

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Ano passado, o conto natalino do blog foi o insuperável “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles – quem perdeu pode clicar aqui. Este ano é a vez de O peru de Natal, de Mario de Andrade, que já seria ótimo se não tivesse nada além da frase acima.

Senado
A palavra é... / 22/12/2007

Da novela que estorricou o ex-presidente da casa, Renan Calheiros, à que terminou com a derrota do governo na votação da CPMF, a sombra do Senado estende-se, comprida, sobre o ano de 2007. A palavra é derivada do latim senatus, “conselho de anciãos”, o que torna o Senado parente de vocábulos respeitáveis como senhor e sênior, mas também de termos menos lisonjeiros, como senectude e senilidade. O Senado brasileiro comemorou 180 anos em 2006. A origem da idéia de que os idosos, mais sábios, são indicados para guiar a coletividade perde-se no passado. Rafael Bluteau, patrono dos dicionaristas da língua portuguesa, registrou no início do século 18 que “os egípcios e os persas, à imitação dos hebreus, compuseram o seu Senado de homens velhos, e os lacedemônios e cartaginenses observaram esta circunstância tão rigorosamente que, entre eles, para chegar a ser senador, era preciso ter chegado aos sessenta anos de idade”. (Talvez fosse uma boa idéia, não? Renan, que em setembro fez 52 anos, nem teria pisado naquele carpete azul. Brincadeiras à parte, o “conselho de anciãos” ficou no passado: no Brasil, a idade mínima para que alguém se candidate ao Senado é de 35 anos, enquanto para a Câmara…

Livros? Me vê meia dúzia
NoMínimo / 20/12/2007

Prólogo: peço desculpas se esta nota vem meio em cima do laço, mas, caso seja tarde para municiar as compras de Natal, acredito que pelo menos as listas de livros para as férias ainda estejam, no geral, abertas à negociação. Não sei se os seis romances abaixo são “os melhores do ano” – existirão mesmo tais coisas? Só posso garantir que são, em minha imodesta opinião, os melhores que li e comentei no blog. Nessa retrospectiva 2007 garimpada nos arquivos do Todoprosa, basta clicar no título para ler uma pequena resenha, publicada aqui na época do lançamento, além de, na maioria dos casos, um trecho da obra. O filho eterno, de Cristovão Tezza. Na praia, de Ian McEwan. As Benevolentes, de Jonathan Littell. A cada um o seu, de Leonardo Sciascia. O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho. Arthur & George, de Julian Barnes.

Esse passatempo esotérico
NoMínimo / 18/12/2007

Não há razão alguma para pensarmos que a leitura e a escrita estão à beira da extinção, mas alguns sociólogos especulam que ler livros por prazer será um dia o território de uma “classe leitora” especial, em grande medida como ocorria antes do advento do letramento em massa, na segunda metade do século XIX. Mas, eles advertem, a leitura provavelmente não mais recuperará o prestígio que vinha com a exclusividade; poderá acabar se tornando “um passatempo cada vez mais esotérico”. … Numa visão mais ampla, não é o abandono da leitura que precisa ser explicado, e sim o fato de que sejamos sequer capazes de ler. “O ato de ler não é natural”, Maryanne Wolf escreve em “Proust and the Squid” [“Proust e a Lula”, atenção para o artigo feminino], um relato sobre a história e a biologia da leitura. Amantes da leitura que tenham problemas cardíacos ou qualquer tipo de hipersensibilidade nervosa devem evitar este artigo (em inglês, acesso gratuito) de Caleb Crain na revista “New Yorker”, a propósito de um livro sobre a história da leitura. Não pela platitude de que “o ato de ler não é natural” (o mesmo pode ser dito de escovar os dentes, usar…

Greve de fome
A palavra é... / 14/12/2007

A palavra “greve”, aquilo que o bispo Luiz Flávio Cappio voltou a fazer, vem – como tantas inconveniências, diria um ultraconservador – do francês. Sua história começa no século 12 com o vocábulo grève, “praia, terreno de areia ou cascalho à beira-mar ou beira-rio”. Antes de adquirir seu sentido político, a palavra passou a batizar uma praça de Paris, à beira do Sena, que por ter piso arenoso e sem calçamento era chamada de Place de Grève (hoje Place de l’Hôtel-de-Ville). Segundo o Houaiss, o local era “ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego ou descontentes com as suas condições de trabalho; daí a expressão faire grève (1805)” – isto é, “fazer greve”, já então com o sentido de interromper coletivamente o trabalho como forma de protesto ou reivindicação, que mais tarde seria ampliado para outras modalidades de recusa, entre elas a greve de fome. E por que os trabalhadores se reuniam naquela praça? Explica Márcio Bueno, autor do bom livrinho “A origem curiosa das palavras” (José Olympio): “Nesse local funcionou durante muito tempo a Bolsa do Trabalho, órgão encarregado de cadastrar desempregados”. O primeiro registro de “greve” em português é de 1873, mas até as primeiras décadas…

Eles são os caras
NoMínimo / 12/12/2007

Ao trazer o mineiro Luiz Vilela no entrevistão do Paiol Literário e o gaúcho Sergio Faraco na seção Dom Casmurro, com a íntegra do conto “O céu não é tão longe”, a edição de dezembro do “Rascunho” junta dois dos maiores contistas brasileiros vivos. Ambos são leitura mais recomendável que nunca neste momento de vale-tudo estético e inflação contística galopante, em que qualquer texto cotó vem tirando onda de “conto”. Nenhuma palavra dos editores indica que, ao juntar os dois mestres, o jornal curitibano quis fazer uma homenagem a essa brilhante geração de contadores de histórias – Faraco nascido em 1940, Vilela em 1942. Mas fez, e isso basta.

Começos inesquecíveis: Javier Cercas

Foi no verão de 1994, já faz agora mais de seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor. Minto. Dessas três ocorrências, as duas primeiras eram exatas, exatíssimas; a terceira não era tanto assim. Na verdade, minha carreira de escritor nunca decolou; portanto, dificilmente poderia tê-la abandonado. Grande parte do apelo do romance “Soldados de Salamina”, sucesso internacional do espanhol Javier Cercas (Francis, 2002, tradução de Wagner Carelli), está no seu jeito – despretensioso só na aparência – de alternar constantemente o foco entre a História (mundial) e uma história (pessoal). O efeito ganha profundidade ao longo de 240 páginas, com outro par de opostos – realidade e ficção – para complicar. As primeiras linhas do livro expõem todo o projeto como miniatura.

Dólar
A palavra é... / 07/12/2007

Apesar dos gráficos que lhe dão um ar intimidador, o futurismo é uma ciência tão inexata em matéria econômica quanto no futebol. Sim, o dólar pode estar se aproximando do fim de seu ciclo como âncora cambial da economia mundial, mas também pode estar atravessando uma turbulência passageira. Quem sabe? O mergulho na origem da palavra revela pelo menos uma verdade: também do ponto de vista lingüístico, nada é eterno, tudo tem começo e – naturalmente – fim. Sinônimo universal de dinheiro para várias gerações, moeda mitológica que, sobretudo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, está na base das relações de amor e ódio travadas entre o império americano e o restante do mundo, o dólar dos EUA inspirou o batismo da moeda de uma penca de países, da Austrália ao Zimbábue. Diante de tal exuberância, é fácil esquecer que há mais de dois séculos ele nasceu humilde, da costela de outra unidade monetária. O ancestral mais antigo de dollar é o alemão taler, moeda cunhada com prata das minas da cidade denominada Vale de São Joaquim, na região da Boêmia, a partir do início do século 16. Hoje a cidade fica na República Tcheca e se chama Jáchymov,…

Debate literário
Sobrescritos / 05/12/2007

Quem não gosta de João Stepanides é um jumento. Quem leva Manoel Tibúrcio a sério é uma anta. Quem nunca leu Carmen Clara é uma ameba lobotomizada. Quem não gosta de Manoel Tibúrcio sabe menos que a idiota da Carmen Clara. Quem leva João Stepanides a sério não vale o que come. Tibúrcio leva Stepanides a sério, logo merece morte lenta e excruciante. Stepanides não tem o menor respeito por Tibúrcio, mas comeu Carmen Clara. (E quem não?) Nenhum dos animais acima mencionados chega aos pés de Bill Chakapov.