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O jogo do sério
Posts / 09/02/2007

Eis um belo paradoxo. Em todas as áreas da vida britânica, a acusação de falta de humor é um insulto cruel; não ser engraçado é praticamente um pecado nacional. Mas para ser considerado um dos “romancistas de verdade” deste país, hoje, você tem que ser mortalmente sério. Estou começando a temer que haja algum insidioso Zeitgeist rolando, uma estranha sopa em que se unem os Tempos Difíceis em que vivemos, um malformado desejo de categorizar e regras subterrâneas que ninguém articula mas todos sabem que estão lá. (…) Com raras exceções, o clima literário agora é de solenidade implacável. Uma noção nebulosa serpenteia em torno do subconsciente do romancista como uma trepadeira: você precisa ser sério, senão nunca vai ser resenhado nos jornais importantes ou terá a menor chance de conquistar uma vaguinha na posteridade. Tive vontade de aplaudir de pé esse pequeno artigo (em inglês, acesso livre) publicado no blog de livros do “Guardian” por Tania Kindersley. Ela cita Jane Austen e Graham Greene como escritores sérios dotados de fino senso de humor, para não mencionar o mais obviamente cômico Evelyn Waugh. Acrescenta que Martin Amis, cansado de jamais ganhar prêmios com suas comédias sombrias, “agora escreve sobre os…

J.K. Rowling: mais de oito vezes Dickens?
Posts / 08/02/2007

Do diário de J.K. Rowling em seu site, entrada de 6 de fevereiro, com modéstia apenas aparente: Charles Dickens expressou melhor do que eu conseguiria: “Talvez seja de escasso interesse para o leitor saber com que tristeza a pena é deposta após dois anos de labor da imaginação; ou como um Autor tem a sensação de estar abandonando uma porção de si mesmo ao mundo sombrio, quando um grupo de criaturas nascidas em seu cérebro se despede dele para sempre.” Ao que eu posso apenas suspirar, experimente 17 anos, Charles… O sétimo e último livro da série de Rowling, Harry Potter and the Deathly Hallows, será publicado no dia 21 de julho nos mercados britânico e americano. Via The New York Times.

Machado de Assis negro
Posts / 06/02/2007

No que toca à questão étnica abordada nos romances, pode-se constatar que, além de não ter se esquivado dos problemas que afetavam os afro-brasileiros, Machado fala de seus irmãos de cor como sujeitos marcados por traços indeléveis de humanidade e por um perfil que quase sempre os dignifica, apesar da posição secundária que ocupam nos enredos. Impõe-se destacar que essa ausência de protagonismo está em homologia com o papel social por eles desempenhado, caracterizado pela subalternidade da condição e pela redução a mera força de trabalho, como já demonstrou Gizêlda Melo do Nascimento (2002). Ainda assim, o escritor, se não os eleva a heróis épicos da raça ou a líderes quilombolas, o que de resto comprometeria a verossimilhança do universo citadino e burguês representado nos textos, também não os limita ao formato estreito advindo dos estereótipos dominantes no imaginário social do Segundo Reinado. O livro “Machado de Assis afro-descendente”, de Eduardo de Assis Duarte (Pallas/Crisálida, 288 páginas, preço a definir), professor de literatura da Universidade Federal de Minas Gerais, supre uma lacuna nos estudos machadianos ao levantar na obra do gênio brasileiro os textos e trechos de textos que lidam de alguma forma com o problema da escravidão. A velha…

Autodefesa literária
Posts / 05/02/2007

Sabe aquela prosa cortante? Aquele estilo contundente? O conto que é um soco na boca do estômago? O poema que é um tapa na cara do leitor? (Para não mencionar, por educação, o escritor que é um pé no saco?) Seus problemas acabaram. O blog Ao Mirante, Nelson! descobriu a solução – veja o vídeo aqui.

Começos inesquecíveis: Paul Auster
Posts / 04/02/2007

Seis dias atrás, um homem morreu em uma explosão à beira de uma estrada no norte de Wisconsin. Não houve testemunhas, mas parece que ele estava sentado na grama junto a seu carro estacionado quando a bomba que montava detonou por acidente. Segundo o relatório da perícia divulgado há pouco, o homem teve morte instantânea. Seu corpo explodiu em inúmeros pedacinhos, e fragmentos do seu cadáver foram encontrados a até quinze metros do local da explosão. Até hoje (4 de julho de 1990), ninguém parece ter a menor idéia de quem era o morto. Ninguém menos o narrador, é claro. E logo, se não abandonar o romance, o leitor poderá se juntar a ele. Tudo isso – para não mencionar a promessa, que será cumprida, de estudo ficcional sobre um tema que desde então só faz ficar mais atual e doloroso, o terrorismo – está contido nas linhas iniciais do excelente “Leviatã” (Companhia das Letras, 2001, tradução de Rubens Figueiredo), meu livro preferido de Paul Auster, lançado em 1992. Muito antes, portanto, de virar modismo entre intelectuais brasileiros espancar o escritor mais famoso do Brooklyn, como se ele fosse um escrevinhador chinfrim. Modismo gratuito, como quase todos, mas que parece…

Um romance a dez mil mãos
Posts / 03/02/2007

Imagine um romance escrito nos moldes da Wikipedia, com cada autor contribuinte tendo o poder de pôr e tirar, escrever e cortar tanto o seu trabalho quanto o dos outros. O “projeto” – como o chamam com certa pompa seus criadores, gente da editora Penguin em parceria com uma universidade inglesa – leva o nome de A million penguins (“Um milhão de pingüins”) e está no ar desde quinta-feira, aqui. (Se a página não abrir logo, dê um tempo e tente de novo. Volta e meia, o serviço tem andado “temporariamente indisponível”, num sinal de sucesso maior que o esperado: em dois dias, o romance já chegou ao capítulo 7.) Não, claro que uma coisa dessas não tem a menor chance de dar certo num sentido, vamos dizer, estético. Mesmo tendo regras mais ou menos estritas e contando, como conta, com um time de “moderadores profissionais” escalado para zelar 24 horas por dia pela qualidade do material, editando a edição dos colaboradores, o resultado da empreitada tem tudo para ser pífio. O primeiro parágrafo provisório do romance – isto é, no momento em que escrevo – sugere que “pífio” talvez venha a se provar um adjetivo pálido. Vai uma tradução…

Parece um parecer
Sobrescritos / 01/02/2007

O livro, sem chegar a ser inteiramente ruim, não deve ser publicado. Padece de uma indefinição estético-político-existencial que, no fim das contas, boicota aquelas boas páginas de prosa poética às quais a narrativa chega, aqui e ali, como se topasse com inesperados mirantes adoráveis numa caminhada por montanhas de mata fechada, entre nuvens de borrachudos. A autora é notória e ativamente homosssexual, como sabem os leitores de colunas sociais. Isso poderia ser meio caminho andado. Infelizmente, seu romance sobre um grupo de vendedoras da Avon nos anos 70 não tem pegada – nem pegação – suficiente para ser literatura gay. Tampouco tem sensibilidade suficiente para ser literatura feminina. Terá, então, ódio suficiente para ser literatura feminista? Também não. Difícil saber o que pretendia a autora. (Fazer literatura com L maiúsculo? Essa é muito boa.) Sua indefinição de gênero – em diversos sentidos – se estende também à forma literária. Melodrama? Farsa? Sátira social? Alegoria? Tragédia? Prosa experimental? Nenhuma das alternativas acima? Todas? Definitivamente, o que “Tantas lindas campainhas esgoeladas” tem de melhor é o título. Pode valer a pena encomendar à autora um novo livro para acompanhá-lo. O texto acima teria sido encontrado na lata de lixo de uma grande…

De Machado de Assis a Paulo Lins
Posts / 30/01/2007

Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector e Paulo Lins. Eis o eixo em torno do qual gira a história da literatura brasileira, segundo o artigo Destination: Brazil (acesso livre), publicado hoje por Anderson Tepper na seção “Guia Literário do Mundo” da boa revista eletrônica americana Salon. Eu sei que parece, mas não, com essa seqüência de nomes o autor não quis insinuar que a decadência das letras brasileiras é vertiginosa e irremediável. Será que, além de ser levado pelo cinema a superestimar a arte do autor de “Cidade de Deus”, ele fala muita bobagem? Uma ou outra, mas bem menos do que a média em artigos desse tipo. Diante da virtual invisibilidade internacional da nossa literatura, pode-se dizer que o texto é positivo à beça.

Coetzee, Mailer, Arendt
Posts / 29/01/2007

Ao invocar o sobrenatural, ele (Norman Mailer) pode parecer afirmar que as forças que moviam Hitler eram mais do que meramente criminosas; no entanto, o jovem Adolf ao qual ele dá vida nessas páginas não é satânico, nem mesmo demoníaco, mas apenas uma figura nefasta. Manter vivo o paradoxo infernal/banal, em toda a sua inescrutabilidade angustiante, talvez seja a maior das conquistas desta mui considerável contribuição à ficção histórica. O sul-africano J.M. Coetzee elogia (em inglês, acesso livre) no “New York Review of Books” o novo romance de Norman Mailer, The castle in the forest, sobre um jovem Adolf Hitler e seu, digamos, demônio da guarda. Vê no livro uma espécie de desafio ficcional à tese da “banalidade do mal” de Hannah Arendt. Interessante. Coetzee é, pelo menos aqui em casa, um escritor muito maior do que Mailer. Sua opinião tem peso.

Ô João Antônio!
Posts / 28/01/2007

João Antônio sentia a metamorfose do malandro em bandido ambicioso; a boemia é massacrada pela onipresença do mundo interesseiro dos negócios e das relações profissionais invasivas. A pobreza dos “desdentados” bate à porta dos condomínios particulares, com “a desconfiança e o medo massacrando”. Morro e asfalto não se encontram mais para fazer samba no Zicartola, encontram-se para a carnificina. Criminoso é otário que negocia com a polícia. A elite mostra-se mais egoísta e indiferente e a classe média, apenas uma correia de transmissão dos ideais elitistas, enganando a si mesma sobre a realidade brasileira. Apesar das reedições e da publicação de Dama do Encantado (96), o ostracismo. No controle de cartas enviadas, em 11 de outubro de 1996 marca o último destinatário – o compositor Ascendino Nogueira. Sofria de problema circulatório, como o pai. O corpo seria encontrado somente em 31 de outubro. O cheiro era insuportável. Ninguém tinha a chave do apartamento em Copacabana. Mesmo sem nenhuma tese original, é sucinto, abrangente e lúcido o texto sobre João Antônio (1937-1996) assinado por Francisco Quinteiro Pires no “Estadão” de hoje. O autor de “Malagueta, Perus e Bacanaço” teria completado 70 anos ontem. Nunca foi – vou confessar logo, desafiando a…

Começos inesquecíveis: Bernardo Carvalho
Posts / 27/01/2007

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo…

Assombroso!
Posts / 26/01/2007

Alguém pode protestar dizendo que é ridículo decidir qual livro comprar com base num mero adjetivo. Eu concordo inteiramente. Mas deixe-me enfatizar que, se eu compro apenas livros que foram chamados de “assombrosos”, não compro todos os “livros assombrosos”. (?) Se há momentos em que eu temo que minha obsessão com a palavra “assombroso” me impeça de comprar um grande livro? Claro que sim. Mas a verdade é que, se ninguém descreve um livro como assombroso, ele provavelmente não é assombroso, e, se não é assombroso, quem precisa dele? Em artigo no “New York Times” (em inglês, mediante cadastro gratuito), o escritor Joe Queenan afirma ter encontrado um modo de lidar com o excesso de títulos postos no mercado e com o terreno pantanoso – sim, também lá – da crítica e da imprensa literária: há anos só compra livros que pelo menos um resenhista tenha brindado com o adjetivo “assombroso” (astonishing). Talvez não custe acrescentar que o texto é um exercício de ironia.

Cadê o iPod dos livros?
Posts / 24/01/2007

Antes de mais nada – sim, eu acho que os livros de papel são eternos. Enquanto houver ser humano, haverá quem os leia. Talvez até depois. Isso não elimina o fato de que uma engenhoca tipo iPod dedicada a livros está demorando a aparecer. Eu, pelo menos, não tenho a menor dúvida de que aparecerá. A questão é: será que o recém-lançado Sony Reader é essa máquina? Consta que o aparelho tem grandes vantagens sobre os desajeitados leitores eletrônicos do passado recente. Sobretudo pela tela não iluminada, fosca, proporcionada pela tecnologia da tinta eletrônica – ou papel eletrônico – desenvolvida pela empresa E-Ink. A coisa tem problemas também, parece, sobretudo de navegação. Mas mede o mesmo que um livro fino e permite aquela decisão revolucionária que os fãs do iPod conhecem bem: na dúvida sobre qual título levar para ler nas férias, que tal a biblioteca inteira? Está sendo vendido no site da Sony por US$ 350. O que sei é que, se não for o Reader a ocupar essa vaga, será outro. Há empresas trabalhando com a tinta eletrônica em suportes flexíveis, mais próximos do papel. Aguardemos.

Boca-livro
Posts / 22/01/2007

Todo mundo pode pedir doações para as editoras, afinal, o pedido “é para divulgar a literatura, a cultura”, e por aí vai. E dá-lhe pedidos de jornalistas, escritores, igrejas, ONGs, bibliotecas, penitenciárias, associação de amigos de bairro, cursinhos e por aí afora. Uma festa! Por que será que essas mesmas entidades não pedem um carro zerinho pra Volks quando ela lança um novo modelo? Por que não um apartamento pra Coelho da Fonseca em um novo empreendimento? Ou um “quarto completo” pras Casas Bahia? Será que se eu fechar a Papagaio e abrir um bar muita gente vai pedir um trago de graça? Ou vai aparecer alguma entidade pedindo uma porção de queijo com um pouquinho de azeite e uma pitada de orégano? Dá o que pensar o divertido desabafo do editor Sérgio Pinto de Almeida, da Papagaio, publicado hoje no site Leia Livro, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, sob o título “Livro custa caro (também para as editoras)”. A motivação foi o pedido de doação vindo de uma próspera faculdade particular. Tudo bem que o pessoal adore uma boca-livro – o trocadilho é meu. O problema é a sensação de que de livro, mesmo, não…

Começos inesquecíveis: Marguerite Duras
Posts / 21/01/2007

Certo dia, já na minha velhice, um homem se aproximou de mim no saguão de um lugar público. Apresentou-se e disse: “Eu a conheço há muito, muito tempo. Todos dizem que era bela quando jovem, vim dizer-lhe que para mim é mais bela hoje do que em sua juventude, que eu gostava menos de seu rosto de moça do que desse de hoje, devastado.” Penso freqüentemente nessa imagem que só eu ainda vejo e sobre a qual jamais falei a alguém. Está sempre lá no mesmo silêncio, maravilhosa. É entre todas a que me faz gostar de mim, na qual me reconheço, a que me encanta. Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Assim, de forma bela e estranha, começa o belo e estranho “O amante” (Nova Fronteira, 1985, tradução de Aulydes Soares Rodrigues), pequeno – na extensão – romance memorialístico com o qual Marguerite Duras (1914-1996) conquistou o prêmio Goncourt de 1984 e o sucesso comercial em escala planetária.

Um escritor sincero demais
Posts / 20/01/2007

Existem coisas que a gente só faz quando está sozinho. Caminhei até a estante reservada às primeiras edições dos meus romances e de suas traduções e acariciei as lombadas tão conhecidas. Depois, como se sob o efeito de uma compulsão irresistível, retirei, em primeiro lugar, o novo livro e, mais tarde, todos os outros, para dar uma espiada em certas passagens. No fim, passei a noite inteira em minha poltrona, além de todo o dia seguinte, até boa parte da noite, sem quase nenhuma interrupção, embora suspeitasse estar com febre. Reli toda a minha produção. A certa altura, sentenças inteiras que eu tinha escrito pareciam se desintegrar como as figuras num caleidoscópio, quando a gente gira o tubo, só que minhas palavras não se reagrupavam nem se fundiam em novas maravilhas de cor e desenho. Jaziam na página como cacos vulgares e odiosos de vidro. A conclusão a que cheguei resumiu-se ao seguinte: nenhum dos meus livros, nem o novo romance nem qualquer um dos outros que escrevi antes, era muito bom. Com certeza, nenhum deles tinha o mérito literário que a crítica lhe atribuíra. Nem mesmo meu segundo romance, o que ganhou todos os prêmios e sobre o qual…

Vida inteligente após a morte
Posts / 18/01/2007

Dois obituários brilhantes. O da agente literária alemã Ray-Güde Mertin, publicado ontem aqui mesmo em NoMínimo. Assinado por Paulo Roberto Pires, é informativo e emocionado na medida certa da enorme lacuna que ela deixa. E, em vídeo, o do cronista de humor americano Art Buchwald, no site do “New York Times”, seção A última palavra, que traz o próprio morto dizendo como quer ser lembrado. Começa assim: “Olá, sou Art Buchwald e acabo de morrer”.