Com o fim da “Revista da Semana”, da editora Abril, a coluna que eu escrevia lá e republicava aos sábados no Todoprosa está momentaneamente suspensa. Mas a etimologia não vai sair do ar aqui. Começo hoje uma série retrospectiva sobre “lendas etimológicas”, aquelas historinhas engraçadas ou curiosas – embora provavelmente falsas – que muita gente ajuda a espalhar, inclusive autores de livrinhos populares sobre a origem das palavras. Garimpado no arquivo que “A palavra é…” acumulou em sua primeira encarnação, entre 2004 e 2007, quando era uma coluna diária no site NoMínimo, o texto abaixo foi publicado em 29/8/2005: A origem da palavra “larápio” é um dos maiores motivos de quebra-pau entre os estudiosos da etimologia. Vale a pena perder algum tempo com o assunto: ainda que a palavra – que, como se sabe, quer dizer ladrão, gatuno – não tivesse triste atualidade, a controvérsia que provocou e ainda provoca seria o bastante para lhe garantir um interesse didático. Especialmente num momento em que certa “etimologia de almanaque”, que privilegia sempre as teses engraçadinhas sem consideração por sua consistência histórica, faz tanto sucesso editorial. O respeitado etimologista brasileiro Antenor Nascentes foi buscar num livro popular chamado “Frases e curiosidades latinas”,…
Êxito, todos sabem, é sinônimo de sucesso, triunfo. Não foi sempre assim. É ilustrativo – não só da vivacidade mutante das palavras, mas também do quanto há de relativo nos sucessos e fracassos – pensar que o seu sentido hoje dominante nasceu como forma reduzida de “bom êxito”. A princípio, êxito queria dizer apenas resultado, conseqüência, termo, sem qualificação. Designava o lugar ou estado a que se chega ao fim de determinado processo. O êxito podia – e ainda pode, pois não se trata de modo algum de uma acepção arcaica – ser bom ou mau, péssimo ou excelente, dependendo da situação. A própria palavra sucesso, que de início designava apenas um fato, uma ocorrência, passou por processo semelhante. Que está longe de ser incomum: a qualidade está aí para provar. Em sua primeira acepção o termo é neutro, mas diz-se informalmente, o tempo todo, que algo é “de qualidade” – e ninguém tem a menor dúvida sobre o caráter elogioso da expressão. No latim exitus, o sentido original é ainda mais estrito: a palavra significa saída ou ação de sair. A medicina antiga usava o termo preferencialmente para funções fisiológicas, para tratar das “fluxões que fazem êxito para fora…
Segundo o site da BBC Brasil, a empresa americana Global Language Monitor (GLM), que mede a ocorrência de vocábulos na rede mundial de computadores, anunciou que a língua inglesa acaba de ganhar sua milionésima palavra: Web 2.0. A “descoberta” foi criticada por dicionaristas, mas nem chega a se qualificar como polêmica: sua falta de rigor fica evidente no fato de que Web 2.0 não é sequer uma palavra, mas uma locução composta de uma palavra e dois algarismos. Isso lança descrédito sobre outra informação da GLM, a de que o inglês ganha um novo vocábulo a cada 98 minutos. É inegável, porém, que a língua de James Joyce – para citar um escritor que gostava de inventar palavras – leva vantagem quantitativa quando se trata de vocabulário. Enquanto o inglês aspira a um número de sete dígitos, o maior dicionário da língua portuguesa, o Houaiss, tem cerca de 228.500 verbetes. Uma prova de subdesenvolvimento do português? Vamos com calma. Latim contemporâneo, o inglês é o idioma em que a maioria das inovações técnicas e científicas dos últimos cem anos foi batizada primeiro. Se o critério numérico impressiona os desavisados, está longe de medir saúde linguística. Grande parte dessa “riqueza” é…
“Eu tenho muitos filhos, e toda vez que o pai sai de casa, a meninada faz algazarra.” Foi o que Lula disse na Guatemala sobre os conflitos em seu ministério, centrados na insatisfação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, com alguns de seus colegas. Depois da declaração infeliz em que comparava a procura de uma caixa-preta no fundo do mar à prospecção de petróleo em águas profundas, a tirada da algazarra representou a volta do presidente à boa forma oratória, uma das chaves de sua popularidade – a capacidade de dar um tom íntimo e familiar às mais cabeludas questões de Estado. Algazarra é uma antiga palavra portuguesa (sua certidão de nascimento traz a data do século 15) vinda do árabe, como tantas outras que compartilham com ela a sonoridade e a idade avançada: almofada, açúcar, armazém, alface, alcachofra, algoz, algodão. Vinda de al-gazara, “gritaria, ruído com ira”, era usada de início com um sentido bélico hoje em desuso: designava os gritos de guerra que os exércitos mouros lançavam no início das batalhas. Não é a esse tipo de algazarra que Lula se refere – embora a imagem de aguerrimento possa agradar a Minc – e sim ao significado…
A bomba norte-coreana que explodiu no noticiário da semana traz em seu nome ecos da Grécia antiga. É do grego bómbos – uma palavra de origem onomatopaica, isto é, de imitação de um som natural – que provêm, no fim das contas, todas as bombas e bombs e bombes que tornam minado o vocabulário da maioria das línguas do mundo. Bómbos queria dizer na origem “estrondo seco, trovão”, sentido que passaria ao latim bombus (usado ainda para designar zumbido, além de explosão). A acepção da palavra como máquina de bombear líquidos saiu da mesma fonte, por fazer também ela um barulho infernal. Detonada a primeira bomba, seguiu-se uma reação em cadeia. O inglês foi buscar bomb no francês bombe, que por sua vez viera do italiano bomba. O termo estreou oficialmente em nossa língua em 1572, num verso de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões: “As bombas vêm de fogo, e juntamente/ As panelas sulfúreas tão danosas”. Acredita-se que tenhamos importado o vocábulo do espanhol. Naquele tempo as bombas eram estalinhos comparadas às que o século 20 inventaria. Mesmo assim, no início dos 1700, o pioneiro “Vocabulário Português e Latino” não escondia o assombro com o poder destrutivo da bomba:…
O aumento da oferta de emprego no Brasil, embora muito modesto, é uma boa notícia – nada mais óbvio do que afirmar isso. Mas nem sempre a idéia de trabalho esteve associada a algo que se procura com afinco e que faz uma falta tremenda quando não se encontra. A origem desse termo surgido na infância de nossa língua, no século 13, com a grafia traball, é uma boa ilustração de como as palavras, seus sentidos e conotações são construídos historicamente. Para uma sensibilidade moderna, é chocante descobrir que aquele que “enobrece e dignifica o homem”, como diz o chavão, nasceu do nome em latim medieval para um instrumento de tortura, o tripalium, apresentado pelo filólogo Silveira Bueno como um artefato composto de “três paus aguçados, algumas vezes ainda munidos com pontas de ferro”. As estacas eram cravadas no solo, convergindo para um vértice no alto, e a esse esqueleto se atavam os infelizes para serem castigados ou mortos. A relação com a tortura começa a fazer sentido quando se leva em conta que, no momento histórico em que a palavra surgiu, o trabalho era uma atividade indigna reservada a subalternos, de preferência servos ou escravos. Mas a ligação pode…
O deputado que está – ou estava, até quarta-feira – se lixando para a opinião pública se lixou mesmo. Para compreender a frase anterior é preciso levar em conta dois sentidos bem diferentes, ambos coloquiais, do verbo lixar. A acepção empregada pelo gaúcho Sérgio Moraes é a de não dar importância, não ligar, ser completamente indiferente. Mas lixar-se também pode significar se dar mal ou, como registra o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, “sofrer conseqüências muito desagradáveis”. Nos dois casos, o verbo é pronominal. Diferente, portanto, do lixar propriamente dito, que quer dizer desbastar, alisar, polir. Este existe em nosso idioma desde o século 15 e é derivado de lixa, que tem origem controversa. Há estudiosos que ligam lixa ao italiano liscio, “liso”, base do verbo lisciare, “tornar liso”. Outros apostam numa relação com lixo (lixar viria de remover os excessos, o que não presta), palavra registrada já no século 13 e portanto mais antiga que liscio. E por que não uma conexão com o adjetivo liso, do latim vulgar lisium, sem passar pelo italiano? Enfim, etimologia nunca foi ciência exata. Ainda bem que, desde que uma palavra seja expressiva e funcional, os falantes estão se lixando para…
O início de um Campeonato Brasileiro marcado pela volta de jogadores de alto nível que andavam fora do país, Ronaldo Fenômeno à frente, é uma boa oportunidade para falar da história da palavra craque. Tudo indica que o termo, um dos muitos anglicismos que povoam o vocabulário do futebol, tenha nos chegado no equipamento esportivo de um daqueles ingleses que, no início do século passado, ainda nos ensinavam a jogar bola – poucas décadas antes de se inverter dramaticamente a posição de quem tinha coisas a aprender nesse departamento. O desembarque oficial de craque em nosso idioma leva a data de 1913, quando apareceu no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo. Era um tempo de aclimatação apressada de termos ligados ao futebol – casos semelhantes foram quíper (do inglês goalkeeper, goleiro), que praticamente caiu em desuso, e beque (de back, jogador de defesa), que ainda se usa hoje, embora zagueiro seja a forma preferencial. Sem mencionar o próprio termo futebol, versão aportuguesada de football, que se sobrepôs a todas as tentativas de criar um neologismo culto para nomear o esporte, como ludopédio e balípodo. A matriz inglesa de craque é crack – não o substantivo, que quer…
Suína, mexicana, norte-americana – ainda não se chegou a um acordo sobre o nome definitivo que ganhará o surto de gripe que preocupa o mundo, provocado pelo vírus A/H1N1. O que se sabe com certeza é que a história da palavra atesta o quanto é antigo o contágio entre línguas. A epidemia de gripe que se espalhou pela Europa a partir da Itália, em 1743, provocou em seu rastro a disseminação de dois nomes para a doença: o francês grippe e o italiano influenza. O primeiro é a forma nominal do verbo gripper, “agarrar”, talvez numa referência ao modo súbito como o vírus se apodera do organismo. O segundo – substantivo derivado do latim medieval influentia, “influência dos astros sobre os homens” – provavelmente ganhou seu sentido médico devido ao hábito de se atribuir a essa causa qualquer problema de saúde. Curiosamente, embora exista em inglês a palavra grip com o mesmo sentido original do termo francês, foi o italiano influenza que acabou vingando no idioma de Barack Obama, no qual ganhou em meados do século 19 o apelido (carinhoso?) de flu. O holandês e o húngaro, entre outras línguas, também foram por esse caminho. Já o português e o…
Ao fazer seu mea culpa no caso do uso abusivo pelos parlamentares de passagens aéreas pagas pelo contribuinte, o deputado Fernando Gabeira deu certa profundidade ao debate: “Agi como se a cota fosse minha propriedade soberana”, disse a Josias de Souza, da Folha de S.Paulo. “Confesso que caí na ilusão patrimonialista brasileira.” O uso do conceito de patrimonialismo, termo do vocabulário sociológico, é preciso. Estranho é vê-lo associado à palavra ilusão. Patrimonialismo vem de patrimônio, do latim patrimonium – em seu sentido original, conjunto dos bens paternos, herança familiar. Mas o significado que vem ao caso nasce como um conceito cunhado pelo jurista alemão Max Weber (1864-1920), um dos pais da sociologia. Em linhas gerais, trata-se de uma forma de dominação política comum em regimes absolutistas, em que o governante não diferencia bens particulares de públicos, tratando a administração como assunto pessoal. O patrimonialismo weberiano encontrou solo fértil no pensamento brasileiro do século 20. O primeiro a usá-lo foi Sérgio Buarque de Hollanda no clássico Raízes do Brasil. “Para o funcionário ‘patrimonial’, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular”, escreve ele, parecendo falar do que ocorre hoje no Congresso. “As funções, os empregos e os benefícios…
Houve um tempo em que o adjetivo republicano se opunha ao adjetivo monarquista. Mas quem é monarquista hoje em dia? Por falta de um adversário de peso, republicano se viu no papel de palavra sonora e respeitável (república existe em nosso idioma desde o século 15 e veio do latim res publica, isto é, coisa pública, o bem comum pelo qual zela o Estado) em busca de uma aplicação mais moderninha. Talvez tal disponibilidade ajude a entender por que, nos últimos anos, o termo se transformou num dos preferidos do vocabulário político brasileiro. Fetichista, recoberto de conotações puras e arejadas, republicano vem sendo empregado como um sinônimo mais nobre de qualificativos – talvez gastos pelo abuso – como democrático, transparente, respeitador da cidadania e das liberdades civis, não-clientelista e até… honesto. O batismo do recente Pacto Republicano foi feliz. Recorre à impressionante cauda de conotações positivas da palavra com evidentes intenções alicerçadas no campo do marketing político, mas, ao mesmo tempo, mantém um pé firme na velha semântica: trata-se, afinal, de um acordo firmado entre os três poderes da República. A aura mítica de republicano encontra menos sustentação ao se falar em “debate republicano” quando se quer dizer apenas debate…
O terremoto veio da Itália. E não apenas no sentido imediato de ter abalado o noticiário da semana, mas no etimológico também. A palavra italiana terremoto, cunhada no século 13, é considerada pela maioria dos estudiosos a matriz do vocábulo português, que fez sua aparição por aqui já no século seguinte, e também do espanhol, todos com grafia idêntica. O inglês earthquake e o alemão Erdbeben são traduções literais de terremoto. O francês prefere uma solução menos sucinta, a locução tremblement de terre. Se o sentido da palavra fica evidente ao se examinar cada um de seus termos – terra + tremor, movimento –, o fato de ter raiz latina não é menos claro. Segundo o Houaiss, o termo terraemotus já aparece registrado antes de Cristo em Cícero, o grande orador e mestre da prosa latina, que após a morte de Júlio César foi apanhado num terremoto político (agora em sentido figurado, claro) e condenado à morte por Marco Antônio em 43 a.C. Sismo, um sinônimo perfeito de terremoto, tem raiz também antiga no vocábulo grego seismós, mas sua introdução em nossa língua foi, por assim dizer, fabricada numa época bem mais recente: chegou por aqui na grande onda dos…
Que goleada, não? O vexame magnífico que a Bolívia impôs à Argentina no 6 x 1 de quarta-feira merece, claro, a eloqüência desse brasileirismo que ganhou seu primeiro registro em 1958 no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Antônio Soares Amora. Mas nem sempre a justeza da palavra é tão evidente. No mesmo dia o Brasil derrotou o Peru por 3 x 0. Goleada? A julgar pelo que disse a certa altura da transmissão da partida o repórter Mauro Naves, da TV Globo, sim. De acordo com a sabedoria não escrita dos torcedores, não. Derivada de gol – que importamos do inglês goal, “meta” –, a goleada nunca teve definição numericamente precisa nos dicionários. É apresentada como “vitória por ampla diferença de gols” (Houaiss), “grande quantidade de gols marcados por uma equipe numa só partida, contra nenhum ou poucos gols da equipe adversária” (Michaelis) ou “vitória por larga margem de gois (sic) ou tentos; enfiada” (Aurélio). Historicamente, como sabe qualquer freqüentador de arquibancada, o piso da goleada sempre foi o 4 x 1 – três gols de diferença, mas quatro marcados. Ou seja: 3 x 0 e 4 x 2 não servem. No entanto, a freqüência com que o placar…
Vestibular, aquilo que o Ministério da Educação estuda agora extinguir, é um brasileirismo para algo que em Portugal costuma ser chamado de exame de acesso à universidade. Trata-se de um adjetivo que se substantivou, num processo semelhante ao que ocorreu com celular, qualificativo de telefone que tenta – e na maioria das vezes consegue – expulsar a palavra principal de cena sob uma pertinente alegação de redundância, tomando para si o lugar de substantivo. Pois o exame vestibular, de tão consagrado no vocabulário de gerações e gerações de estudantes brasileiros que perderam o sono por causa dele, acabou conhecido como vestibular só. E qualquer associação remota com a palavra que está em sua origem – vestíbulo – se perdeu nesse processo. Quando ainda era claramente um adjetivo, ficava mais fácil perceber a metáfora que, com certa dose de pernosticismo, levou a palavra vestibular a ser escolhida para qualificar o processo de seleção de candidatos ao ensino superior. Vestíbulo (do latim vestibulum) é, na origem, um termo de arquitetura que significa pórtico, alpendre ou pátio externo, mas que pode ser usado também, em sentido mais amplo, para designar um átrio, uma ante-sala, qualquer cômodo ou ambiente de passagem entre a porta…
O bônus da discórdia que a seguradora AIG quer pagar a seus principais executivos é uma palavra que o vocabulário financeiro americano importou no último quarto do século 18 do latim bonus, um adjetivo que significa bom, para nomear uma remuneração suplementar, um ganho extra pago aos investidores. Quando bônus desembarcou no português com esse mesmo sentido, cerca de um século mais tarde, já existiam por aqui tanto o verbo bonificar quanto o substantivo bonificação, do francês bonifier e bonification. O significado é idêntico e a origem, no mínimo, semelhante. (Bonificar também queria dizer inicialmente beneficiar, tornar mais produtivo, mas tal acepção caiu em desuso.) De todo modo, foi na cultura americana que o bônus – como palavra e como prática – se consolidou primeiro com o sentido restrito que agora provoca polêmica. Uma reportagem da revista eletrônica “Slate” situa a origem do bônus como suplemento salarial na moda, surgida em diversas empresas em fins do século 19, de dar presentes de Natal a seus principais funcionários. Poucos anos depois, alguns empresários tinham trocado os presentes por uma remuneração em dinheiro – suplemento que em 1952, por lei, passou a ser considerado parte integrante do salário sempre que fosse pago…
E a marolinha de Lula era mesmo um tsunami, afinal. É fácil fazer piada com um erro de avaliação tão caudaloso, mas a própria eloqüência das imagens favorecidas pelo presidente da República torna isso inevitável. Opor o duplo diminutivo de uma pequena marola, isto é, ondinha ou ondulação natural do mar, a tsunami, nome japonês da vaga gigantesca provocada por tremores de terra ou erupções vulcânicas, é um exercício retórico tão expressivo quanto arriscado. E Lula perdeu. A origem de marola, regionalismo brasileiro que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa nem registra, não parece sólida. A maioria dos nossos dicionários aposta numa formação nativa do termo, que seria a junção de mar com o sufixo diminutivo “ola” – o mesmo usado em camisola e bandeirola. Mas não parece razoável descartar a possibilidade de o vocábulo ter vindo do espanhol marola, com uma alteração semântica no meio do caminho. Na língua de Cervantes, seu sentido é o oposto: onda grande. Tsunami é outra história. Sabe-se que a palavra veio do japonês tsu (porto) + nami (onda) e que começou a ser usada por aqui já em fins do século 19. Sua popularidade, porém, só explodiu com o cataclismo que…
Quando se diz que um banco foi ou está ameaçado de ir à bancarrota – e como se diz isso nos últimos meses, não? –, esbarramos numa sabedoria etimológica que, apesar de óbvia, o hábito mantém trancada no cofre da língua. É que o substantivo bancarrota, existente no português desde o século 16, foi importado do italiano banca rotta, que significa literalmente “banco quebrado”. Quase um século antes da bancarrota, e vindo do mesmo italiano, tinha desembarcado no português o substantivo banco com o sentido de instituição financeira especializada em depósitos e créditos. Na origem dessa acepção havia uma metonímia, figura de linguagem pela qual se nomeia a parte para designar o todo: banca era a mesa, a bancada em que se realizavam as transações em dinheiro, especialmente empréstimos. Como se vê, é dessa forma que o sentido financeiro de banco se liga àquela outra acepção do termo, a de superfície (em geral de madeira) usada como assento ou mesa, que é mais antiga e tem prováveis raízes germânicas. Peça de mobília à parte, é um atestado da importância das cidades-Estado italianas como centros financeiros da época o fato de que banca gerou uma inflação de palavras em outras línguas,…