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Para a Flip pegar fogo, só faltou a sincronia
NoMínimo / 16/03/2010

O crítico literário inglês Terry Eagleton é um bicho meio raro nos dias de hoje: um intelectual que, entre uma visão de mundo pautada no marxismo e a reflexão livre e iconoclasta, fica com as duas. Presença confirmada na Flip deste ano, em agosto, só resta lamentar que dois de seus maiores adversários intelectuais tenham vindo em outras edições do evento – Martin Amis em 2004 e Christopher Hitchens em 2006. Do contrário, poderíamos ver faíscas saindo daquelas pedras absurdas que em Parati passam por calçamento. E talvez ainda possamos: Salman Rushdie, que volta à festa após a participação de 2005, também entra na turma de “literatos iliberais” que Eagleton ataca em entrevista (em inglês, acesso gratuito) publicada há poucos dias pela “New Statesman”, da qual reproduzo o trechinho abaixo: Por muito tempo, eles [Hitchens e Amis] eram bastante divergentes politicamente: Hitchens ainda era uma espécie de socialista e Amis, veementemente anticomunista de uma forma desinteressante, estilo Guerra Fria. Mas desde então eles convergiram. E hoje são velhos chapas apoiando-se um ao outro, respondendo instantaneamente a qualquer ataque que o outro sofra. Me intriga o modo como todo um estrato de literatos liberais (Rushdie, Ian McEwan em certa medida, AC…

Wilson Martins: concordando em discordar
NoMínimo / 15/03/2010

Eu quase nunca concordava com o crítico Wilson Martins. Ao longo de muitos anos, talvez se contem nos dedos de uma mão as ocasiões em que terminei de ler uma resenha sua sem ter com ela alguma divergência grave, um ou mais pontos em que nossos credos estéticos pareciam água e óleo. O que demorei mais a descobrir foi que, por baixo de toda aquela discussão, havia uma concordância maior, um pacto sem a qual ela, a discussão, cairia no vazio. Martins ousava falar da literatura de dentro, seu pensamento era inteiramente feito de literatura. Ele não partia do livro para chegar a outro lugar, nem vinha de outro lugar para abordar o livro. Morava ali, e quando saía era para inspecionar a relação do livro com… outros livros. Avesso a sistemas, a “verdades” importadas de campos fora das letras, arriscava o pescoço a cada resenha. É o que torna sua “História da Inteligência Brasileira” tão caótica e tão interessante: o pulso de vida real. A literatura para Martins nunca era sintoma, era o que importava, como deve mesmo ser, se você tem a pretensão de se declarar crítico literário. Quando o relativismo cultural começou a tentar nos convencer –…

E-book: e se não for nada disso, hein?
NoMínimo / 12/03/2010

Nada como um espírito-de-porco ou advogado do diabo para nos fazer pensar com mais lucidez quando todo mundo fica histérico. Levi Asher, do Literary Kicks (via blog de livros da “New Yorker”), ousa insinuar que o rei está nu: Muitos observadores esperam que o mercado de livros eletrônicos acompanhe a velocidade do mercado de música, que se tornou subitamente digital no início dos anos 2000 e que hoje, provavelmente, guarda uma relação de 95% a 5% entre digital e analógico (uma diferença enorme para os 50% a 50% que eu prevejo para os livros dentro de vinte anos). Tornou-se lugar-comum dizer que o e-book será tão popular quanto o MP3, mas o MP3 solucionou alguns problemas reais, ao contrário do que faz o e-book. A equação sensorial/física de ouvir música é na verdade muito diferente da de ler. Um aparelho de MP3 desaparece quando você ouve música. Um livro não desaparece – nem no reino digital nem no impresso. Você olha para ele. Faz diferença que tamanho ele tem, de que cor é, se é duro ou mole, se é frágil, se marca a página em que você está. Ao ler um livro, todas essas considerações afetam seu prazer, de…

‘Fome de realidade’: oba, uma polêmica!
NoMínimo / 11/03/2010

O livro Reality hunger, a manifesto (“Fome de realidade, um manifesto”), do escritor e ex-romancista americano David Shields, saiu há apenas duas semanas nos EUA e já está provocando – tanto na internet quanto na imprensa tradicional – um dos debates estéticos mais quentes dos últimos anos. Sua intenção nunca foi outra, claro. O livro é uma coleção de seis centenas de aforismos e micro-ensaios (muitos assumidamente chupados de terceiros) que se revela, mesmo à mais diagonal das leituras, um ataque frontal à imaginação e à ficção em geral – que corresponderiam a uma sensibilidade passadista, destituída de vida. Ao mesmo tempo, faz uma defesa fervorosa do ensaio, da reportagem, da livre apropriação de idéias (que muitos chamam de plágio), do memorialismo que toma liberdades criativas com seu material, dos reality shows e do hip hop – estes sim, segundo o autor, gêneros e formatos afinados com o ar de nossos tempos. Que, como se sabe, está mais para vendaval. Por atingir seu objetivo de criar polêmica, palmas para Shields. Convenhamos que a polêmica mora no horizonte de qualquer manifesto, o gênero mais fácil e previsível para se chegar a ela, mas palmas mesmo assim. (Até um manifesto despretensioso como…

Post-mortem
NoMínimo / 10/03/2010

Imperdível: no blog de Paulo Roberto Pires, o escritor holandês Cees Nooteboom procura, no cemitério São João Batista, o túmulo do escritor brasileiro Machado de Assis. “Quem?” Tarefa imperdoavelmente difícil.

McEwan faz comédia com o aquecimento global
NoMínimo / 08/03/2010

Um livro novo do inglês Ian McEwan é sempre algo a ser aguardado com certa ansiedade. Afinal, estamos falando do sujeito que escreveu “Reparação”, que é sem dúvida um dos grandes romances deste início de século – ou o maior deles, dependendo da facilidade com que alguém se deixa levar pelos superlativos, mas dá no mesmo. O novo livro de McEwan se chama “Solar” e vai ser lançado no Reino Unido no próximo dia 18. Mantendo o movimento pendular entre o romance de época e o romance agudamente contemporâneo de sua carreira recente – “Reparação” (passado), “Sábado” (presente), “Na praia” (passado) – o livro tem como tema central a mudança climática. McEwan fez uma viagem ao Ártico como parte do trabalho de pesquisa e criou um protagonista, o físico Michael Beard, que é vencedor do Nobel e tem idéias sofisticadas sobre a salvação do planeta por meio da “fotossíntese artificial”. Mas o mais notável não é isso. Em entrevista ao jornal “Guardian” (em inglês, acesso gratuito), o autor – que pela crueldade de suas tramas ganhou de seus conterrâneos o apelido de Ian Macabro – confirma os rumores de que “Solar” é uma comédia: “Na verdade, eu acho os romances…

A chegada do ‘Sabático’ desafia a maré
NoMínimo / 05/03/2010

A reforma gráfica e editorial que o jornal “O Estado de S. Paulo” estreará no próximo dia 14 inclui uma novidade de grande relevância para o meio ambiente literário, especialmente num clima global em que os suplementos de livros da grande imprensa só fazem encolher ou morrer: um caderno dedicado à literatura – aos sábados, naturalmente – chamado Sabático. Está certo que o nome soa pernóstico, mas, antes mesmo de ver o produto, vale dizer: boa, Estadão! Será mais um sinal de que a imprensa que depende de celulose está menos moribunda do que tanta gente, principalmente gente que nunca arranjou emprego numa redação, anda apregoando alegremente nos últimos anos? É o que argumenta o escritor americano – e fundador da editora independente McSweeney’s – Dave Eggers, em defesa de seu recém-lançado jornal-de-um-número-só (mas a coisa mais linda do mundo) San Francisco Panorama. “Há um monte de coisas que a imprensa de papel pode fazer como ninguém e que a internet não pode”, diz Eggers com a autoridade de quem praticamente nasceu no ambiente digital, na equipe da revista eletrônica Salon.com. “As duas formas deveriam coexistir, em vez dessa situação de soma zero em que parecemos empacados hoje.”

‘Sobrescritos’, o filme. Filme?! É, filme
NoMínimo / 03/03/2010

Em primeiríssima mão, divido com os leitores do Todoprosa o teaser internético do meu livro “Sobrescritos ” (Arquipélago Editorial), nas livrarias semana que vem. A obra é de Leon Vilhena, jovem e talentoso profissional da animação carioca, que tem a Globosat entre seus clientes. O áudio vem a ser uma leitura minha, em versão ligeiramente editada, do conto que encerra o livro, chamado “Virtual”. Quem gostar e quiser espalhar não precisa pedir autorização. Lembrando: o lançamento carioca de “Sobrescritos” será na Travessa de Ipanema, na próxima quarta-feira. O gaúcho, na Palavraria, dia 22 de março. Deve rolar um sarau paulistano também, mas sobre este dou notícias mais à frente.

Adeus a Mindlin, apoio a Denise
NoMínimo / 01/03/2010

A melhor forma de homenagear o bibliófilo José Mindlin, que morreu ontem aos 95 anos, é com livros. Como os desta lista “de e sobre Mindlin” que o site O Livreiro publica. Certamente não é com a disputa açodada pela vaga que ele deixa na Academia Brasileira de Letras – iniciada ontem mesmo, segundo o colunista Ancelmo Gois, e tendo Fernando Henrique Cardoso e Ziraldo em posições de aparente favoritismo. * Está rolando, por iniciativa de quatro tradutores de primeira linha, um abaixo-assinado de apoio a Denise Bottmann naquela briga contra a editora Landmark, que tanto repercutiu aqui na semana passada. Eu já assinei. E para misturar os dois assuntos, bibliofilia e tradução, vale resgatar, com o gancho do aguardadíssimo filme de Tim Burton, este artigo de Gabriel Perissé sobre os brasileiros que se lançaram à difícil tarefa de traduzir os dois livros de “Alice”, de Lewis Carroll – entre eles, numa “adaptação” de 1931, Monteiro Lobato.

Aumenta que isso aí é Monteiro Lobato!
NoMínimo / 25/02/2010

Você já ouviu a voz de Monteiro Lobato? Eu nunca tinha ouvido até a Isabel Pinheiro, todoprosista de longa data, me enviar o link dessa entrevista ao “radiologista” (a piada é lobatiana) Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, em 1948. O grande escritor tinha 66 anos, idade avançada para a época, e logo sofreria um derrame fatal. Atenção: se você ainda não ouviu isso, a visita é obrigatória. A entrevista tem outras duas partes, que podem ser acessadas aqui e aqui. Mais do que da voz propriamente dita – meio anasalada e pelo menos uma oitava acima do que suas sobrancelhas me faziam supor – o prazer maior vem da “voz” de Lobato, o tom mordaz em que expressa suas opiniões desiludidas e politicamente incorretas. “Todas as nossas experiências têm fracassado, não há razão para acreditar (no Brasil)… Só os céticos absolutos acertam”. Tudo, porém, sem perder a ternura e a auto-ironia jamais. “É isso o que pensa o velho Lobato com a sua longa experiência acumulada”, sorri. Do prazer interiorano de comer formiga torrada – que tem “um cheirinho que eu não digo do que é, para não escandalizar o público” – à conjuntura internacional do pós-guerra – “o…

Editora processa blogueira: pode plagiar esta notícia
NoMínimo / 23/02/2010

A tradutora e blogueira Denise Bottmann, do site Não Gosto de Plágio, precisa de ajuda. Caçadora mais ou menos solitária de picaretas editoriais, está sendo processada pela editora Landmark, que pede ao juiz indenização mais a retirada de seu blog do ar – informa Alessandro Martins, do blog Livros e Afins. Tudo por ter denunciado que a tradução de “Persuasão”, de Jane Austen, lançada pela Landmark com a assinatura de um de seus proprietários, Fábio Cyrino, seria praticamente um xerox de uma antiga – e fraca – tradução portuguesa da lavra de Isabel Sequeira, até em seus numerosos erros. A blogueira Raquel Sallaberry, do Jane Austen em Português, também está sendo processada pela editora. Caso a denúncia seja mesmo na mosca, como os exemplos citados em seu blog indicam (tem até uma mesma gralha cômica, “átrio” virando “trio” em ambos os textos), Denise terá exposto mais uma vez o golpe de requentar traduções sem pagamento de direitos, bandeira de subdesenvolvimento cultural que infelizmente está longe de ser novidade no Brasil. Se você também não gosta de plágio, ajude a espalhar a notícia.

‘Sobrescritos’: orelha, orelhas
NoMínimo / 22/02/2010

Não, o livro de papel não morre tão cedo, e a prova disso é que está nascendo mais um. Com o bicho na gráfica e o lançamento carioca marcado para a noite de 10 de março, uma quarta-feira, na Travessa de Ipanema, tenho o prazer de adiantar aqui o texto da orelha de “Sobrescritos” (Arquipélago Editorial), assinado por Arthur Dapieve: As pessoas coçaram atrás da orelha. Depois, porém, as pessoas coçaram atrás da orelha de novo. Por fim, as pessoas ficaram com o lado de trás da orelha inteiramente escalavrado. Quando os primeiros Sobrescritos apareceram, enigmáticos, na coluna Todoprosa, de Sérgio Rodrigues, no bom e velho site NoMínimo, as pessoas suspeitaram que eram minicontos à clef, dispostos a esculhambar de vez o mundo das letras. Quem seria o “escritor de barba espessa e fama rala?”, alarmaram-se alguns. E o inesquecível Lúcio Nareba, “lenda da blogosfera literária nacional”, quem haveria de ser?, sussurraram outros. Felizmente, houve também quem percebesse de cara que todas essas figuraças, incluindo Demóstenes Bastião, o que escrevia em preto e branco, ou o latinista Cecilio Giovenazzi, “o maior memorialista do onanismo no Ocidente”, habitavam era a interseção entre a capacidade de observação e o talento para fabular…

Não confie nesses caras
NoMínimo / 19/02/2010

Algo estranho aconteceu com os narradores não confiáveis em meados do século 20: eles se tornaram um pouco mais confiavelmente não confiáveis, e muito mais vis. Em fins do século 19 eles tendiam a ser pouco dignos de crédito por estarem escondendo alguma coisa sobre si mesmos ou não conseguirem enxergar a verdade, em geral devido a algum tipo de fraqueza psicológica. No entanto, à medida que o modernismo caminhou para o pós-modernismo e todos nos tornamos muito mais cínicos, esperava-se que os narradores em sua maioria fossem complicados. A falta de confiabilidade tornou-se inseparavelmente ligada à maldade – para não falar na duplicidade, no delírio e até na loucura. Naturalmente, o alargamento dos parâmetros também tornou os narradores não confiáveis muito mais divertidos, com o humor compensando com frequência seu lado negro. O desafio era tornar esses traiçoeiros narradores em primeira pessoa ao mesmo tempo intrigantes e divertidos. O escritor Henry Sutton faz no “Guardian” uma boa reflexão (em inglês) sobre o clássico tema do narrador não confiável, além de apresentar uma também interessante lista pessoal dos dez principais livros da língua inglesa cuja prosa é conduzida por um deles: “Lolita”, “A volta do parafuso”, “O apanhador no campo…

Plágio ou sampling?
NoMínimo / 18/02/2010

Onde termina o sampling e começa o plágio, eis a questão. Que não é inteiramente nova: pouca gente deve se lembrar, mas em maio de 2006 uma estudante de Harvard chamada Kaavya Viswanathan (leia post da época aqui) foi do céu ao inferno quando descobriram que seu badaladíssimo romance de estréia era na verdade uma colagem de diversas obras. A novidade do caso recente (em inglês) da alemã Helene Hegemann, 17 anos, de roteiro inicialmente parecido, é que a parte do inferno nunca veio. Seu romance de estréia vende mais que nunca e até ganhou um prêmio de prestígio depois que as acusações de plágio começaram a pipocar. Detalhe: Hegemann foi esperta – ou cândida? – o suficiente para incorporar à própria tessitura de seu livro o atualíssimo tema do sampling, do reprocessamento de retalhos alheios, do imediato domínio público em que cai ou deveria cair qualquer criação artística na era da informação digital. “Não existe a tal da originalidade, de qualquer maneira: apenas a autenticidade”, declarou ela em nota oficial. O que eu penso de tudo isso? O terreno é movediço, mas eu diria que – como comprova o chamado “caso dos escritores Jerominho” – o recurso pós-moderno do…

Conto de carnaval: A máscara
NoMínimo / 15/02/2010

Todo cuidado é pouco com essa máscara, viu, Vi? Não, sua boba, empresto com prazer porque você sabe que é a minha neta preferida, e além disso tem outras coisas, sinto um arrepio só de imaginar que a minha máscara negra veneziana nariguda vai se soltar por essas ruas outra vez depois de meio século guardada numa caixa de chapéu com a tampa afundada, devia andar triste, a coitadinha, olha só esses olhos vazados caídos, tão merencórios. Ah, esses olhinhos viram coisa, Vi. Claro que não era como agora, era melhor, era pior. Diferente: eu nunca fui de folia e nem podia ser, sempre fui certinha. Seu avô, sim, aquele se esbodegava inteiro, saía no sábado pra voltar na quarta-feira que nem na música da camisa listrada, só que a fantasia dele, infalível, era de arlequim – conhece a música da camisa listrada? Ainda toca isso? Em vez de tomar chá com torrada ele tomou parati, não, imagine se vai tocar. Agora é diferente, pior, melhor, depende. Por exemplo, quando você casar, duvido que agüente o que eu agüentei. Não agüenta, Vi, mudou demais. Para melhor, nesse ponto eu acho que foi para muito melhor, porque se o seu marido…

O ‘Babelia’ teve um filho
NoMínimo / 12/02/2010

O suplemento cultural (com ênfase em literatura) do jornal espanhol “El País”, chamado Babelia, que sai todo sábado, é um dos melhores do mundo no gênero e um velho conhecido, por meio de incontáveis links aparecidos aqui, dos leitores do Todoprosa. A novidade é que este mês a equipe que o produz estreou um blog coletivo, Papeles Perdidos, que desde já é parada obrigatória no roteiro da boa navegação literária.